segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Happening (counterculture)


Oh such are these delusions of grandeur-
the dancing boys, the fire eaters!
the little gnome at the podium
nuns as mad as the Hatter chasing
little white rabbits across the pasture,
the one with the torn skirt riding her tractor over the hill
and Prima Donna who glides along in her sylph-like solo
and jessie,who has almost
forgotten all, concentrates still
with fingertips and sunburnt lips
on the reeds and buttons of her fairy flute
and there's even me in this one weedy corner
sitting, banging on my toy tambourine
on and on and on till someone pricks an ear-
and the sisters and brothers gathered at the far end
of this wheat field, jamming on
into the full round belly of the moon.

- Miriam Adelman

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ANIMAIS: um poema de Frank O'Hara

Será que você esqueceu como éramos naqueles tempos
quando ainda éramos de primeira
e o dia nascia rechonchudo carregando uma maçã na boca

Inútil é se preocupar com o Tempo
mas nós tínhamos umas cartas na manga
e um jeito de virar direto nas esquinas

O pasto inteiro parecia refeição
o velocímetro era desnecessário
inventávamos coquetéis só com água e gelo

eu não desejaria ser mais veloz
ou mais verde que hoje se você estivesse comigo Oh você
era o melhor de todos os meus dias


versão: Miriam Adelman

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fragmento traduzido: Diane pensando sobre seu tempo.

De Diane di Prima, RECOLLECTIONS OF MY LIFE AS A WOMAN “Certos tempos, certas épocas, vivem na nossa imaginação como maiores do que ‘realmente’ tenham sido, e sempre há um preço a pagar por isso. São, se você olhar de perto, tempos em que a fronteira que separa a mitologia e a vida cotidiana se borra. É como se os arquétipos emergissem do seu aprisionamento, e por algum tipo de consenso coletivo nós, ou muitos entre nós, simplesmente escolhemos um mito e o vivemos, ignorando as restrições do chamado ‘mundo real’. Ou talvez fomos de certa forma escolhidos pelo mito que fomos destinados a viver. Por vezes com uma velocidade fatal. Este encontro de mundo e mito é para onde todos pensávamos estarmos encaminhados. Onde queríamos estar, era tão belo. Colorido, luminoso e mortal, como flores tropicais. Mas não tinha escala humana. Não estava feito às nossas medidas. Mas nós não conseguíamos enxergar isso. Pensávamos que éramos deuses. Refere-se muito aos ‘Anos 60’ como um tempo deste tipo, embora geralmente isto se remeta apenas ao ‘Verão do Amor’ e aquilo que o seguiu, 1967 e 1968. A ponta do iceberg, na minha opinião. Para mim, a maior parte da década de 1960 e o que veio na seqüência, até mais ou menos 1976, banhava-se nos ares do mítico. Era um tempo em que os arquétipos perambulavam as ruas de Manhattan, misteriosos e por vezes mortais, em que os anjos, maus espíritos e outros sonhos daquilo que poderia ser repousavam no nosso cabelo e se recusavam a ser afastados. Um tempo em que as criaturas que viviam nos mundos nevoentos de San Francisco nos pareciam tão cotidianas quanto o verdureiro da esquina. Tínhamos lutado tanto tempo e tão furiosamente para encontrar, para poder fuçar o mundo dos nossos sentimentos, nosso conhecimento secreto, nossas intuições, que era como se Algo nos tivesse pego, pegasse uma mão nossa enquanto nos deslizávamos por alguma brecha, e agora esse Algo nos puxasse. Para baixo. Por que tão seguramente como a gente sabia que atrás das fachadas que nossos pais habitavam, havia um mundo de sentimento humano, atrás desse mundo havia outro que procurava tomar posse de nós. O que eu chamo o Mundo dos Arquétipos. Feixes inexoráveis de sentidos da alma, que por vezes se vestiam de formas humanas ou humanóides, por vezes andavam entre nós. Sem consciência e sem remorso. E tão belo! Agora eu os posso dizer, atrás dos Arquétipos descansam padrões ou texturas impessoais de energias que podemos chamar Orisha. Ou Yidam. E atrás disso, talvez dance o Vazio, nem preto, frio e oco com o imaginávamos, mas dançando na luz, relâmpagos difusos que se estendem como uma serie de superfícies por cima do nada. Movimentando-se com mais velocidade do que o olho possa registrar. Mesmo o olho da mente. Nossa queda foi – foi tão bela! E nós, que substituíamos religião, família, sociedade e ética com a Beleza, que nos enxergávamos ao serviço da Beleza, não compreendíamos nenhuma advertência, não antecipávamos nenhuma armadilha. Cair, ao serviço de Aquilo – isso era a graça última. Mas os arquétipos têm sua própria drama: um vasto ciclo não mapeado de Comedia dell’ Arte, e fazem seu jogo através de nós, sem nosso consentimento informal. E sem, finalmente, nenhuma preocupação pelos desejos humanos. E não é sem motivo que a ciência de nosso tempo nos entrega a imagem, o fato ou a metáfora das placas tectônicas. Continentes da terra boiando sobre um miolo de magma fundida. Como nós também boiamos, derretendo-nos um pouco, mudando de forma. Chocando uns contra outros, levantados por, dependendo de, em total troca química com aquele material fundido que aqui chamo de Arquétipos. Que parece irromper na superfície onde quer que as placas são finas. As placas eram muito finas em 1964." versão: Miriam Adelman

domingo, 20 de novembro de 2011

From Diane di Prima, RECOLLECTIONS OF MY LIFE AS A WOMAN

Certain times, certain epochs, live on in the imagination as more than what they ‘actually’ were, and there is always a price to pay for them. They are, if you look close, times when the boundary between mythology and everyday life is blurred. The archetypes break out of prison, as it were, and by some collective consent we or many of us, simply choose a myth and live it, heedless of the restrictions of the so-called ‘real world’. Or we were somehow chosen by the myth we were born to live. Sometimes with deadly rapidity. This meeting of world and myth is where we all thought we were going. Where we thought we wanted to be; it was so beautiful. Vivid, bright and deadly, like some tropical flowers. Not human. Not cut to our measure. But we – we couldn’t see that. Thought we were gods. ‘The 60s’ are often referred to as such a time, though what is usually meant by the term is merely ‘The Summer of Love’ and its aftermath, 1967 and 1968. Tip of the iceberg, if you ask me. For me most of the 1960s, and on to about 1976, was a time bathed in the mythic. It was a time when the archetypes stalked the streets of Manhattan, numinous and often deadly. When angels, incubi and other dreams of what could be settled in your hair and refused to be brushed aside. When we saw the creatures that lived in the fog worlds of San Francisco as casually as you see your corner grocer. We had struggled so long and so furiously to find, reach into, the world of our feelings, our secret knowledges, and intuitions, and it was as if Something had caught us up, caught the hand as we slipped through some gap, and that Something was now pulling us in. Pulling us under. For as certainly as we knew that behind the facades our parents had lived there was the world of human feeling, behind that world was yet another that sought to claim us. What I have called the World of Archetypes. Inexorable bundles of soul purpose, often wearing human or humanoid form, sometimes walking among us. Without conscience and without regret. And so beautiful! As I can tell you now, behind the Archetypes are vast impersonal patterns or textures of energies we might call Orisha. Or Yidam. And behind that, perhaps the Void dances, not black, cold, or empty as we have believed, but dancing with light, sheet lightnings spread as a series of surfaces over nothing. And moving faster than the eye can register. Even the eye of the mind. Our downfall was – it was so beautiful. For us, who had replaced religion, family, society, ethics with Beauty, who saw ourselves as in the service of Beauty, no warnings were understood, no traps anticipated. To go down, in the service of That – that was the ultimate grace. But archetypes have their own drama: a vast uncharted cycle of Comedia dell’Arte, which they play out through us, without our informal consent. And with, ultimately, no concern for human purpose. And it is not without reason that we have been handed by the science of our time the image, the fact or metaphor, of tectonic plates. Earth continents floating on a core of molten magma. As we ourselves float, melting a little, changing shape. Bumping against each other, lifted by, dependent on, in total chemical exchange with, the molten stuff I have here called Archetypes. That seeks to break through the surface wherever the plates are thin. The plates were very thin in 1964.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Where are all the men?

Where are all the men?

He’s still driving his flatbed rig
across the highways of America
while Rosa wheels her cleaning ladies’ cart
room to room at the Best Western
in Minneapolis.
She still goes to church on Friday evenings
and on Saturday ice cold on the way to Safeway
with the food stamps stuffed in her back pocket,
  the girls at home huddled under the covers.

Clara, though , married her girl friend.
They went to Canada.
And Mary’s got a new job
in the old narrative order, she's
  keeping the foot soldiers quiet.
Manny, now, is glad to have gotten a girl`s job
he is so sweet to the clients and so beautiful in his beige leggings
And then there’s Felicia
speeding her black horse madly around the barrels
and dreaming of how she would ride the broncs
if only the West were still wild

sábado, 15 de outubro de 2011

Versão!

ANNA MARIE (fragmento do poema, My Name is Woman)

de ruth weiss, poeta beat...

descalça no inverno. na cidade. no inverno do meio oeste americano. tenho sete anos.os dedos do meu pé sentem frio. é tanto o frio que não conseguem me contar as histórias que me sustentam até o verão. o sangue nos meus dedos me conta todas as velhas histórias. as histórias que me dizem que sou cigana.

minha mãe me diz que não é verdade. de onde você sacou essa idéia que você é cigana. os ciganos roubam e inventam mentiras sobre o futuro. de onde você sacou essa idéia, que você é cigana.

é inverno. o frio nos dedos do pé sobe até as pontas dos dedos das mãos, e eu digo aos dedos do pé. não se preocupem. eu sou cigana. eu encontrarei sapatos para os aquecer. para que continuem me contando suas histórias.

num prédio onde mora muita gente eu olho para as galochas ao lado das portas. um par preto trás outro não são meus eu continuo andando pelos corredores, um par vermelho grita, prove-me. e fica bem, quase. mas eu prefiro minhas sandálias. aquelas que comprei numa loja, muitos anos mais tarde.

estou olhando pra meus dedos do pé, nas minhas sandálias onde eu sento do lado de uma árvore sequóia anciã para que não a derrubem com uma serra elétrica. e meus dedos me contam a história da sequóia. e do sobreviver.


versão: miriam adelman

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Fragmento do poema MY NAME IS WOMAN

Da “beat poet” ruth weiss (n.1928 Berlin)
Estou preparando versão!

ANNA MARIE.

barefoot in winter. in the city. in the mid-west winter of the USA. i am seven years old. my toes are cold. too cold to tell the stories that keep me going in the summer. the blood in my toes tells me all the old stories. The stories that tell me i am a gypsy.

momma sez this is not true. how did you ever get such an idea. gypsies steal & make up lies about the future. how did you ever get such an idea, that you are a gypsy.

it is winter, my toes are cold all the way to my fingertips, and i tell my toes. don’t worry. i am a gypsy. i will find you shoes to make you warm, so you can keep telling me the stories.

in a building where many people live i look at galoshes outside the doors. one black pair after another they don’t belong to me i keep on walking down the halls, a red pair shouts, try me. they fit. almost. but i like my sandals better. the ones that i buy in a store. many many years later.

i am looking at my toes. in my sandals. where i sit by an ancient redwood tree. to keep the chainsaw from cutting it down. and my toes tell me the story of the redwood. and about surviving.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Lizbeth Padilla, poeta mexicana.

Posto aqui um poema da minha amiga de muitos anos, Lizbeth Padilla, poeta de renome no seu país. Este aqui saiu no seu livro, "El dolor de los iluminados" (México, Instituto Mexiquense de Cultura, 2008):

LAS COSAS QUE MIRO

Las cosas que miro son cadenas que acaricio indolente
No sabria existir sin las piedras recogidas en los viajes
palos de lluvia que suenan durante el sueño
como tampoco sé mirar el mundo
sin que el silencio tense los cables
por donde aún se puede transitar

Todo grita la condición efímera del mundo
me aferro a velas apagadas
y sumerjo la voz en caracoles
como el instante se enrosca en su pequeñez

sábado, 27 de agosto de 2011

FRAGMENTO TRADUZIDO

Então, vamos lá...

Primeiro trecho (trecho que abre o capítulo 7 pp. 101-102) traduzido do livro de memórias da escritora mais reconhecida da geração Beat, Diane di Prima. Entre mais eu leio dela, e de suas amigas e colegas (as "personagens menores" como foram ironicamente denominadas por uma delas, Joyce Johnson) mais lamento não ter conhecido sua obra antes ... e mais agradecida fico por ter tido o incentivo de começar a conhecê-las agora:


“Quando eu falo, como por vezes faço, com outras pessoas sobre minha vida,quando perguntam, ou tentam descobrir o que significou para mim, naqueles tempos, decidir ser poeta, e daí, na seqüência, pôr isso em prática, agir nesse sentido, muitas vezes me dizem, ‘Ah é, sem dinheiro, mas ganhou fama; a fama precoce deve ter sido uma recompensa’. E eu os olho com estranheza, me perguntando como eles imaginam esses primeiros apartamentos, esses quartos vazios, essas caixas servindo de mesa e cadeira, e finalmente, um neném deitado em algum canto. Fama, eu pergunto tentativamente, tive fama?

O que eu sei é que escolher ser artista: escritor, bailarino, pintor, músico, ator, fotógrafo, escultor, você o diga, escolher ser qualquer um deles nesse mundo em que eu cresci, o mundo dos anos 40 e começo dos anos 50, era fazer a escolha mais completa que havia nesses tempos, viver uma vida de renunciante. Uma vida de sadhu, de santo itinerante, fora do marco das leis dessa cultura particular e peculiar.

Era um mundo em que a religião em si era suspeita, e por bons motivos. 'Religião' como a gente a conhecia, se limitava à modalidade judaico-cristã – ‘Protestante, católico ou judeu?’ nos perguntavam, ao entrar no hospital ou numa escola. E era um mundo que era impossível de aceitar com a consciência tranqüila. Não era aquilo que os liberais dos anos 40 ou 50 gostariam que a gente acreditasse, aquilo que eles tinham sonhado – um mundo onde o progresso era um dado e a sociedade humana em si um valor. Nós artistas renunciantes fora-da-lei – os que seriam renunciantes – não encontravam nela nenhum valor. Nesse impulso de ascender e progredir na América de 1950, onde não existia nada alem do mundo de cada dia, a maneira mais clara de afastar-se do materialismo era direcionar-se às artes.

Ser uma paria, um outsider, era essa a vocação. Nem fama, nem publicação. Manter as mãos limpas, não pertencer. Ao manter-se do lado de fora, a gente sentia que as guerras, as massacres, os erros não eram nossos.

(Me lembro de um jovem imigrante, anarquista, Francisco, um espanhol que como muitas outras pessoas nesses anos após a Segunda Guerra Mundial foi encarcerado, por estar na América sem papéis. Depois o deportaram para a Espanha de Franco, onde em pouco tempo foi assassinado. Mas quando estava na prisão em ou perto de Nova Iorque, as autoridades descobriram que ele era padeiro. Tentaram pôr ele para trabalhar na cozinha. Francisco se recusou, fazendo greve de um homem só. ‘Não farei nada’ ele disse, no seu inglês com forte sotaque, ‘que apóie esta casa’. Era o que todos sentíamos – tornou-se nosso grito de mobilização. E o continuou sendo, muito tempo após a desaparecimento de Francisco.)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

FRAGMENTS FROM DIANE DE PRIMA'S MEMOIR, “RECOLLECTIONS OF MY LIFE AS A WOMAN”

Logo traduzirei o trecho:

“When I talk, as I sometimes do, to others about my life, when they ask, or seek to discover what it meant to me to decide back then to be a poet and then as it were follow through, act on it, become ‘A Writer’, they often say, ‘Ah well, no money of course, but the fame, the early fame must have been a recompense’. And I look at them strangely, wondering what they see, how they imagine those early flats, bare rooms, crates for tables and chairs, and eventually a baby in some corner. Fame, I say tentatively, was there fame?

What I do know is that choosing to be an artist: writer, dancer, painter, musician, actor, photographer, sculptor, you name it, choosing to be any of those things in the world I grew up in, the world of the 40s and early 50s, was choosing as completely as possible for those times the life of the renunciant. Life of the wandering sadhu, itinerant saint, outside the confines of the laws of that particular and peculiar culture.

It was a world in which religion itself was suspect, and with good reason. ‘Religion’ as we knew it was limited to the Judeo-Christian mode- ‘Protestant, Catholic or Jew?’ we would be asked on entering a hospital or a school. And it was a world one could not embrace with good conscience. Not what the agnostic liberals of the 40s and 50s would have liked us to believe, what they had dreamed – a world where Progress was a given and human society somehow a good in itself. We outlaw artist renunciants – would-be-renunciants – saw no ‘good’ in it at all. In the striving, get ahead thrust of America 1950, where nothing existed beyond the worlds of the senses, the clearest way to turn from materialism was to turn to the arts.

To be an outcast, outsider was the calling. Not fame, or publication. Keeping one´s hands clean, not engaging. By staying on the outside we felt they weren’t our wars, our murders, our mistakes.

(I remember a young anarchist immigrant, Francisco from Spain, imprisoned as so many were in those years after World War II, for being in America with no papers. Later he was deported to Franco’s Spain, where he was quickly killed. While in prison in or near New York, the authorities, having found out that Francisco was a baker by trade, tried to set him to work in the kitchen. Francisco staged a one-man sit-down strike. ‘I will do nothing’ he said in his thickly-accented English, ‘to support this house’. It was what we all felt – it became a rallying cry. And remained so, long after Francisco was no more.)”

domingo, 26 de junho de 2011

Joyce Johnson, " Minor Characters" - mais um fragmento

(Mais um) FRAGMENTO do livro, “Personagens Menores” (Minor Characters ) de Joyce Johnson.

“No final dos anos 1950, mulheres jovens – poucas, no início – mais uma vez saiam de casa com uma certa violência. Elas também vinham de boas famílias, e seus pais nunca conseguiram entender como as filhas que eles tinham criado com tanta dedicação poderiam escolher uma vida precária. Se esperava de uma filha que ela ficasse sob o teto dos pais até casar, mesmo se trabalhasse um ano, mais ou menos, adquirindo assim um pouco de gosto pelo mundo - mas não muito! Experiência, aventura – estas coisas não eram para mulheres jovens. Todo mundo sabia que as aproximariam do sexo. Sexo era para os homens. Para as mulheres, sexo era tão perigoso quanto a roleta russa; uma gravidez indesejada ameaçava a vida em mais de um sentido. Quanto à arte – as jovens estilosas tinham um lugar como musas e admiradoras.

As que entre nós empreendiamos o vôo para fora não achávamos modelos utilizáveis para aquilo que faziamos. Não queríamos ser nossas mães ou professoras solteironas ou mulheres profissionais duronas como elas eram retratadas na tela. E ninguém tinha nos ensinado como ser escritoras ou artistas. Sabíamos um pouco sobre Virginia Woolf mas não a achávamos relevante. Os privilégios que ela tinha nos desencorajavam, nascida como era num meio literário, e de conexões e riqueza. O “teto todo seu” do qual ela escrevia pressuponha que seu habitante tivesse uma pequena renda familiar. Com nossos cursos superiores, a gente poderia datilografar até fazer uns $50 dólares por semana - apenas o suficiente para comer e pagar o aluguel para um pequeno apartamento em Greenwich Village ou North Beach, sobrando pouco para sapatos ou pagar a conta de luz. Nada sabíamos sobre a romancista Jean Rhys, quem numa época anterior tambem tinha fugido da respeitabilidade, boiando perigosamente na Boemia Parisiense da década de 1920. Talvez tivéssemos nos identificado com sua falta de confiança naquilo que escrevia ou tomássemos como uma alerta a passividade corrosiva das suas relações com os homens. Mesmo assim, nenhuma alerta teria nos parado, com toda essa fome que tínhamos de abraçar a vida e tudo que fazia parte da realidade. A própria dureza da vida era algo para saborear.

Naturalmente, nos apaixonávamos por homens que eram rebeldes. Caíamos muito rapidamente, acreditando que nos levariam junto nas suas viagens e aventuras. Não esperávamos ser rebeldes por conta própria; não contávamos com a solidão. Uma vez que encontrávamos nossos parceiros masculinos, uma fé cega nos impedia de desafiar as antigas regras do masculino e feminino. Éramos muito jovens e tínhamos dado um passo maior do que a perna. Mas sabíamos que tínhamos feito algo que exigia coragem, algo quase inédito. Éramos as que ousaram sair de casa."

Versão: Miriam Adelman

sábado, 25 de junho de 2011

Outro poema de Diane di Prima

Novos empreendimentos, novas traduções. Vai uma primeira versão
de mais um poema de Diane di Prima (disculpem, mas por algum motivo
não consigo manter o formato do poema ao passá-lo aqui para o blog):

THE LOBA ADDRESSES THE GODDESS/OR THE POET AS PRIESTESS ADDRESSES THE LOBA-GODDESS

A LOBA SE DIRIGE À DEUSA/OU A POETA COMO SACERDOTISA SE
DIRIGE À LOBA-DEUSA.

Não é a teu serviço que eu me desgasto
correndo em farrapos entre as colinas, levando as crianças
de carro para assistir filmes esquecidos? A teu serviço
vassoura e caneta. Os banquetes monstruosos
que servimos para os outros na varanda
(em casa temos só arroz e sal)
E vestimos nossa exaustão como um roupão pintado
Eu & minhas irmãs
resgatando a mercadoria de pais
avaros e moribundos

curando umas às outras c/água e ervas amargas
de jeito que quando ficamos nuas, de pé no círculo da luz
(do lado do poço pequeno, na pequena mata próxima)
não revelamos nenhum defeito, também nenhuma
beleza supérflua.
Foi-se, nas medidas da noite.
Ô Semente, Ô manto de estrelas, tentamos te capturar
esguio, de luto
esfarrapado, triunfante

desgrenhado como um gramado

nossa pele dói do parto/escuridão da lua.

versão: Miriam Adelman

domingo, 12 de junho de 2011

It Takes Two to Tango

Here´s a work in progress which is giving me a bit
of a hard time, since initially it was supposed to be
funny, and now seems to have ended up more on the melancholy or
reflexive side. ( I wish, though, that it had come out more
humorous, because I swear that would better
reflect my state of spirit on these matters, these days...)

It Takes Two to Tango

Avenida 18 de julio
y suave la entrada del invierno
en Montevideo

we take in the evening
you, chain smoking in the crisp air
me, unbuttoning the grey wool jacket,
the unexpected warmth of the season
and around us, the plaza, the couples

sliding so ever-so gently
to the long, sweet chords
such perfect synchrony
if only through the tender beats of
the evening, as long as the dance goes on.

Stubborn girl, crazy boy.
It could be that everyone finds their rhythm,
or their moment – to samba or salsa,
to dance the waltz or rock n’ roll
and i think if i could master the movements
i´d choose forró -
which like the tango must be danced
in pairs, but is quicker and makes you laugh
at the parting, or losing the beat

yet tonight in Montevideo
there is music floating around us
with a penchant for tragedy
and they tell us, this is a city
of the old, and a grandfather
pulls his granddaughter gently by the hand
and like me she cannot
master the beat and the steps
as time spills messily around us,
as if that were the formula - a life
unfolding always in pairs, a language
of complicity or duplicity,
in which i am only falsely fluent.

what grabs you more?
is it tragic or comic,
together, apart?
the dancing ends early here,
but there is still Malena, singing
into the night of this city of old.

my choice, perhaps, should be
the pampas,
solitary ride under moonlit dome
or moving with the throngs,
just one more in a galloping herd
where if i lose the rhythm,
fall out of synch, don´t
deliver the goods
no one will notice:
no cruel duels,
no emptied side of the
bed or the closet,
and we can just go on with our lives
under the stars
of this planet
of billions

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um poema de Diane di Prima

Amiga dos "grandes nomes" da geração Beat e escritora de poesia e prosa,
a Diane di Prima merece ser mais conhecida por aqui também. Vai, pois,
a minha primeira e pequena contribuição nesse sentido:

Carta Revolucionária #1
(Revolutionary Letter #1)

Acabo de perceber que o que está em jogo sou eu
Não tenho outra moeda de resgate, nada para
quebrar ou trocar, a não ser minha vida
meu espírito parcelado, em fragmentos, esparramado sobre
a mesa de roulette, eu recupero o que posso
só isso para enfiar embaixo do nariz do maitre de jeu
só isso para jogar pela janela, nenhuma bandeira branca
só tenho minha pele para oferecer, para fazer minha jogada
com esta cabeça imediata, com aquilo que inventa, é a minha vez
enquanto deslizamos sobre o tabuleiro, e sempre pisando
(assim esperamos) nas entrelinhas

Diane di Prima
versão: Miriam Adelman

As mulheres escritoras da Geração Beat

Passagem que traduzi, do livro de memórias de uma escritora do círculo dos Beat:

"Eu vejo a garota Joyce Glassmann, vinte e dois anos, com o cabelo comprido passando dos ombros, vestida tudo de preto como Masha no livro A Gaivota – meia calça preta, camisa preta, blusa preta- mas à diferença da Masha, ela não está de luto por sua vida. Nem poderia, nessa cadeira na mesa no exato centro do universo, este lugar de meia noite onde tanta coisa converge, o único lugar na América que está vivo. Como fêmea, não pertence completamente a esta convergência. Um fato que ela ignora, sentada na sua excitação enquanto as vozes dos homens, sempre dos homens, sobem e descem de tom apaixonadamente, e seus copos de cerveja acumulam,e a fumaça dos seus cigarros sobe rumo ao teto e seguramente a cultura morta está despertando. Simplesmente estar nesse lugar, isso em si - ela o diz a se mesma- é suficiente".


de: Minor Characters, de Joyce Johnson

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mother's Day, 2011.

A new one of mine,after watching Claire Denis' film,
White Material. And thinking about all of us mothers,
and especially, mothers of sons...

(But let there be no room for doubt: my sons know where
they stand on this one. And can´t let mother's day
talk go by without thanking them for whom they have become!)




Mother’s Day, 2011.

My mare and I climb
the last street of slum,
past the smoggy clot
where some boys burn garbage:
a red t-shirt, plastic coke bottles,
milk cartons,
around the hill to the top, to the
boulder overlooking
this little corner of the world.
Suddenly, no more people.
No more yappy yellow mutts at our heels
Just Madja and I
her small ears flicking forward,
backward to capture my voice,
forward again for the perfect canter
the sandy trail coiling around a wall of stone
and pine trees split open near the root

Return through the village
my mare takes careful
baby steps over hardened sandstone.
One small hoof at a time,
she is protecting me
and the foal to be born
when the seasons shift again
toward the longer days,
and again we go
past the spot where the boys
have left their wrinkled pile of rubble
and the yellow mutts return
yapping underfoot
and the senhoras, arms folded under the
yellow winter sun, arrange their yellow
trash bags all so neatly
for collection day.
A girl with baby in arms,
hers ?
In last night’s film,
a mother whose son
went up in flame,
history taking its course
like those days we can do nothing
to stop it.
Stony roads, sandy paths
to the top or the botton of the world
Wasteland burning on both sides
and no use trying to stop the boys
once they’ve gone astray

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Traduzindo...

Nestes dias, li uma fala de um escritor argentino (preciso lembrar
seu nome!) que disse que traduzir alguém é se apaixonar por suas palavras (ou
melhor dito , escolhemos traduzir alguém por estarem apaixonad@s
por suas palavras). Needless to say, amei essa frase.

Bom, hoje vai um poema de um poeta novo para mim, Tony Hoagland
(nascido nos EUA em 1953), dica repassada por minhas irmãs.
Este poema dele -versão ainda não revista por nenhuma das minhas
revisoras amigas-, deve ser seu diálogo com o maravilhoso America de Ginsberg (e também, com o "Supermarket em
California", um dos meus poemas preferidos, de todos os
poetas em todos os tempos):

América
Tony Hoagland

E daí um dos meus alunos com o cabelo azul e um piercing na língua
Me disse que a América é para ele uma prisão de segurança máxima

Seus muros feitos de RadioShacks e Burger Kings e episódios da MTV
Onde programas e comerciais se confundem

E enquanto eu pondero como lhe dizer que ele só fala merda
Ele relata que mesmo quando vai rumo ao shopping
no seu Isuzu

Trooper com seu bando de amigos, a música rap
derramando sobre eles
Como uma hidromassagem fervente cheia de martelos de metalúrgico,
mesmo nesse então

Ele se sente enterrado vivo, preso e asfixiado nas dobras
Do volumoso edredom de seda da América

E eu me pergunto se é esta uma legítima categoria de dor
Ou só enrolação para granjear uma boa nota

E daí eu lembro que quando eu apunhalei meu pai ontem no meu sonho
Não era sangue senão dinheiro

Que jorrava dele, resplandecentes notas verdes de cem dólares
Que saiam das suas feridas – e é esta a parte estranha -,

Que ele arfava “ Graças a Deus – esses Ben Franklins estavam
Entupindo meu coração –

Assim eu morro tranqüilamente
Liberado daquilo que me impedia minha liberdade”

E foi nesse momento que eu percebi que era sonho, porque meu pai
Nunca ia me falar em estrofes rimados,

E eu olho para esse aluno com seu acne e seu telefone celular
e sua roupa de vileiro falso
E eu penso “Eu também estou na América dormindo

E também não sei como fazer para acordar”
E daí eu lembro o que o Marx falou perto do final da sua vida:

“Eu estava ouvindo os gritos do passado
Quando devia estar escutando os gritos do futuro”

Mas como ele ia imaginar os cem canais de tv a cabo 24 horas
Ou que tipo de pesadelo seria

Quando todos os dias você assiste passar os rios coloridos de mercadorias
E você boiando no teu barco de prazer neste rio

Mesmo enquanto os outros se afogam embaixo de você
E você vê seus rostos retorcidos na superfície das águas

E a mão que fica aumentando o volume
parece ser a tua?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Gracias a la vida"...

Com algumas modificações, vai uma crônica que escrevi mais de uma década atrás. Acho que hoje dá para postá-la aqui, agora que eu posso dizer que faz parte das vivências da época da 'minha juventude’ .

Gracias a la vida...

Ele sempre me olhava com esses olhos grandes, escuros meio esverdeados, e me fazia perguntas engraçadas: “Professora, como serão as relações entre os homens e as mulheres no futuro?”, ou “Professora, quero estudar ‘a noite’. Não é alí que as pessoas se procuram, para se acasalarem?” Ou afirmava, outra vez com aquele sorriso, aquele rostro iluminado, “Professora, eu quero estudar essas coisas ... do feminismo!” E olhava para mim de uma forma intensa, acesa, urgente.

Eu comecei o levando na esportiva, quase resistindo, achando que afinal de contas, deveria considerar sua atitude como elogio, como identificação. Era tão bonito ele, mas tão menino, com o andar ainda de pós-adolescente, o tom sempre ingênuo de suas perguntas. Mas continuava a me procurar. E vinha com suas histórias: a ex-namorada, de família rica, que pôs fim à relação com o jovem com poucas chances de se tornar um bom provedor, um bom senhor esposo para uma advogada; o irmão mais velho, que quando tinha quatro anos e ele dois, o empurrou da janela do segundo andar e até hoje o acusa de ser um incompetente que “só estuda para comunista”; a mãe separada que é artista plástica e gosta de inventar teorias “do nada”, o pai que se maravilhava com o menininho que sempre gostava de conversar com todo mundo e que até propiciou sua ida para o Peru, mas com quem já não gosta mais de morar...

Acho que qualquer uma na minha posição poderia começar a se envolver. O será só eu, a eterna carente? Um dia ele me pergunta, “Não entendo quem é que começa o relacionamento, o homem ou a mulher.” E eu aproveito, “Quer dizer, quem que começa, você ou eu?” “É, isso.”

Convido ele para almoçar no dia seguinte, e ele aceita. Chega ao meu escritório até meia hora antes do horário marcado, lindo, o rostro iluminado. Passamos umas horas legais: a conversação, as risadas, animados, felizes. Mas a gente não se toca. Nenhum sinal de aproximação vem de ele, e eu fico morrendo de medo, pois o que é que uma quarentona como eu pode esperar de um rapaz daqueles, qual a liberdade que posso tomar? Qué confusão, penso eu. Eh, menina,, veja só como você gosta de arranjar para você umas belas confusões! E quando quase sem linguagem para isso acho a forma de perguntar, ele me responde como surpreso, que não é nada disso, como se não houvesse nada no caminho para me indicar, como se todas as palavras e olhares dele valessem muito menos que seu peso, seu som, sua textura...Mas eu as ouvi! Eu estava te vendo! Lógico que isso não falo, falo só que tudo bem, não se preocupe, imagine... E me conta a história da menina do curso de geografia, a colega com a qual ele gostava de conversar, como foram no cinema, e depois para a casa dela, e depois para a cama dela, e depois ele, arrependido, está com a menina “o perseguindo” por todo quanto é canto da faculdade...

Como é que eu posso entender essa vida!! No carro, conversamos mais, deixo ele em frente da reitoria, a gente se abraça, sinto o corpo, o calor dele. Estou com uma vontade danada de chorar, mas só digo, “Não se preocupe. Conte comigo” Continuo reto, vou assinar o recibo da tradução, vou buscar o filho, pôr o jantar na mesa, os meninos na cama, o tempo todo com um vazio expandindo-se por dentro.


Depois, esses largos dias na Patagonia, tardes de vento, as montanhas- finalmente vejo a Cordilheira dos Andes! - e eu com sua figura me rondando, eu que não consigo esquecer. Gracias a la vida que me ha dado tanto, cantamos com meus amigos pelos caminhos pedregosos da Carretera Austral. O sul do Chile é tão belo e me faz lembrar outros momentos desta longa vida de menina atrevida. Tá bom, já vivi muito, já sei que “paixão é doença”, ou que, em todo caso, minha própria paixão pela vida continuará sempre sendo maior do que a paixão que pudesse chegar a sentir por qualquer homem. Que todos os homens que conheci intimamente, com uma só exceção, sempre acabavam se mostrando pequenos frente à generosidade de espírito da qual nós mulheres somos capazes. E assim por diante...

O vento varre a Patagonia, bate na noite nas asas da barraca, canta com fúria nas tardes, na casa da Carla e do Enrique, antes da chuva. Em Buenos Aires, ando feliz. Compro mais cds e fitas de música latinoamericana e uma saia vermelha para sair à noite, e quando saimos uns jovens na rua me vêem feliz, e dizem, Mira como esa mujer está hermosa! E eu sei que é minha coragem que é grande e talvez hermosa, que a paixão se apaga e a vida continua, que eu andarei por essas ruas e muitas outras, que amarei muito aos meus amigos e aos meus filhos, e esse enigmático muchacho, talvez muito mais “muchacho” do que enigma, irá já ocupar seu lugar fugaz na minha história. E, é verdade. Gracias a la vida...

domingo, 10 de abril de 2011

new one of mine...

the monkeys


the chattering monkeys have left me speechless -

perched here on a barren limb of silence
i watch them, their nimble dance,
how in their mirth they swing from branch to branch
a tail just as useful as a hand, a foot,
how anger swells and then again joy,
how easy to reconcile, child, mate, the
members of their restless band,
how easy to share, the reddened fruits passing
quickly from paw to paw

i wait and watch from a distant treetop
a makeshift platform that sags underfoot
in the cold of early morning.
the orange African sun is slow in rising
and here in our human order
each gesture so hard to learn,
each glide such peril

domingo, 3 de abril de 2011

Um poema de Lawrence Ferlinghetti

Ainda no aguardo da revisão, disponho aqui uma tradução minha do poema
"Underwear", do poeta norteamericano Lawrence Ferlinghetti (nascido em Nova Iorque, 1919) conhecido integrante da "Geração Beat". Na verdade, lembrei dele- exatamente
deste poema, que uma vez vi traduzido ao espanhol- quando conversava com uma aluna sobre o Ginsberg. Achei um pouco dificil de criar uma versão, mas se funciona (ou se funcionar bem, após a revisão) talvez trabalhe mais um pouco com a obra dele, ainda não tao conhecida por estas bandas...


Roupa íntima


Ontem perdi meu sono
pensando sobre roupa íntima
Alguma vez parou para pensar sobre ela
no abstrato?
Se você cavar mais fundo
pode ficar chocado
A roupa íntima é um problema
para todos
Todos usam
roupa íntima
de um tipo u outro
O Papa usa (eu suponho)
O Governador da Louisiana usa
Eu vi ele na TV
Ele devia estar usando roupa íntima
apertada
do jeito que se retorcia
A roupa íntima pode te deixar no aperto
Você já viu os anúncios
roupa íntima para homens e mulheres
tão parecida embora tão diferente
A das mulheres, para não deixar cair
A das homens, para não deixar subir
A roupa íntima é uma coisa
que homens e mulheres têm em comum
A roupa íntima é tudo o que nos separa
Você já viu os desenhos em três cores
e círculos na virilha
para indicar a costura super forte
e o triplo stretch
que promete plena liberdade de ação?
Não se decepcione
Tudo se baseia no sistema bi- partidário
que não deixa muita liberdade de expressão
do jeito que as coisas são
América na sua roupa íntima
luta ao longo da noite
A roupa íntima controla tudo no final
As vestimentas de base, por exemplo
São na verdade formas fascistas
do governo clandestino
para fazer acreditar em qualquer coisa
que não seja a verdade
te dizendo o que pode o que não pode
Já tentou se livrar do espartilho?
Talvez a ação não violenta seja
a única solução
Por acaso Gandhi usava espartilho ?
E Lady MacBeth usaria um?
Terá sido por isso que o MacBeth
pôs fim ao sono?

E esse lugar que ela constantemente esfregava
Era realmente sua roupa íntima?
As damas anglo saxônicas modernas
deveriam ter enormes complexos de culpa
sempre esfregando e esfregando e esfregando
essa mancha danada
A roupa íntima manchada levanta suspeitas
A roupa íntima encobrindo vultos escandaliza
A roupa íntima no varal, uma grande bandeira de liberdade
Alguém deve ter fugido de sua roupa íntima
Talvez esteja nu em algum lugar
Socorro!
Mas nem se preocupe
Todos continuam muito obcecados
Não haverá revolução
A poesia será ainda a roupa íntima
d’alma
A roupa íntima encobrindo
uma multidão de falhas

no sentido geológico –
estranhas pedras sedimentadas, rachaduras inescrutáveis!
Se eu fosse você eu guardaria
uma ceroula de inverno num tamanho maior
Não entraria despido para a noite boa -
Por enquanto
Ficaria calma, quentinha, confortável
Para que excitar-se precocemente
‘para Nada’?
Avance com dignidade
com domínio
não se emocione
a morte estará afastada
temos muito tempo pela frente ainda
minha querida
não somos ainda jovens e fáceis?
não grite

sexta-feira, 25 de março de 2011

DES LIENS ET DES RAPPORTS.

Le thème des relations amoureuses, est le sujet de conversation préferé de bien des gens aujourd’hui. Certain jour, mon ami G., un français qui a habité en Afrique pendant un certain temps et qui croit être une véritable autorité sur son peuple, m’a parlé de son désir d’embrasser la polygamie. Pour lui, et il insiste, c’était impossible satisfaire ses besoins – sexuels, emotionels, intelectuels – avec une seule femme. Ça ne m’a pas surpris parce ce que je connaissais bien cet ami et ses idées saugrenues . De plus , j’avais déja lu un livre sur l´histoire de la construction de l’imaginaire masculin occidental sur les « harem » - « Scheherazade Goes West » par la sociologue et écrivaine marroquine, Fatema Mernissi. Celle-ci décrit la longue tradition discursive des hommes qui cultivent ces fantasmes : ils s’imaginent toujours entourés par des belles femmes, sensuelles, sexuelles, jeunes et bien disposées à leur procurer du plaisir. Je n’ai donc pas hesité à protester avec mon ami, "Ce que peut être paraître interessant pour toi, ne serait jamais le choix des femmes".


C’est ainsi qu’est née ma grande curiosité pour la realité des femmes et familles africaines qui demeurent dans cette structure. Je connaissais seulement les textes de Mernissi, ses mémoires qui racontent principalement des situations où les femmes utilisent des méthodes ingénieuse voire violentes pour résister ou se moquer des règles et coutumes patriarcales . Elle a dit, par exemple :

"In my native Fez medina, women staged huge uproars when their husbands married a second wife, holding funeral-like protests, during which their friends and relatives wailed along with them in the harem courtyards. The fact that polygamy is institutionalized by male law does not make it emotionally acceptable to women. Many queens, as historians have written, suffocated or choked their husbands’ plans to acquire a second wife, or when the rival actually arrived in the home. Still other historical records show that it was often the women who were the victims of [another woman’s] jealousy.” (p. 156)

Après un temps, j’ai connu un professeur africain, directeur d’un lycée dans un des pays les plus pauvres de d’Afrique de l’Ouest . Un jour, je lui ai posé des questions sur la polygamie, sur les visions et le vécu des Africains de son pays. Le professeur, une personne très reflexive, m’a répondu initialement à partir de sa propre expérience :

"..de part mon éducation, il me serait très difficile de parler de çela ,sans parti pris, car dans la famille dont je suis issu, tout marchait bien. Je me sens plus heureux avec mes deux mères. La preuve en est qu’alors que ma propre mère ne vit plus, j'ai toujours l'impression d’avoir une autre mère."

Ensuite, il m’a proposé son aide pour obtenir une perspective « plus réaliste », en faisant un sondage auprès de ses élèves afin de mieux comprendre l’évolution des points de vue de la jeunesse. Tenant compte des bouleversments liés aux transformations et à l globalisation du monde, les premiers resultats de l’enquête ne me paraissent pas remarquables : des 159 élèves garçons et filles, de 11 à 14 ans ou plus, 14,46% sont « pour la polygamie » (16,98% des garçons et 9.43% des femmes) et le 85,54% des élèves (83,02% des garçons et 90,57% des filles) sont « contre ».

Tout d’abord selon les statistiques connues, les societés qui pratiquent la polygamie , sont presque exclusivement de type « polygynie ». L’homme se marie avec plus d’ une femme ; la situation inverse est peu commune. Si pour mon ami Monsieur G., bien amusé avec son imaginaire « orientaliste » ( pour reprendre le concept d’ Edward Said, enrichi des significations de Mernissi !) et libéral, la polygamie peut permettre « les mêmes possibilités » de liberté et de plaisir aux hommes comme aux femmes. Mais je sens que son argument n’est pas très consistant…Sa proposition est une possibilité presqu’exclusivement théorique, face à la realité historique et culturelle du pouvoir patriarcal et ses infléchissements entre autres religieux et économiques.

On peut argumenter à partir d’autres critères, par exemple en s’appuyant sur les affirmations d’une fille qui a participé à l’enquête de mon ami directeur de lycée. Cette fille fait partie du petit groupe qui s’est prononcé « pour la polygamie »,

"Je suis pour la polygamie parce que si j’étais à la place de mon père j’aurais dû me marier à deux femmes car si tu te maries avec une seule femme au cas oú elle est stérile oú au cas ou elle meurt que ferras-tu ? Une famille polygame permet d’avoir beaucoup d’enfants et permet d’être entouré quand tu serras vieux."

Ce témoignage offre il est vrai une perspective sur le mariage très différente de celle qui est à la base de l’amour passion/amour romantique – un autre mythe de notre culture occidentale moderne, liée à la naissance de l’ individualisme, de la famille dans sa version bourgeoise et protestante et, peut être, des nouvelles formes de domestiquation des femmes. Dans l’énoncé ci-dessus nous pouvons observer l’importance des questions materielles, des besoins de survie des personnes, de leurs préoccupations pour la réproduction des générations – et parfois, peut-être, des formes de solidarité inconnues parmi nous, « les occidentaux ». Mais ces relations provoquent aussi on beaucoup de malaises, de rivalités et de conflits. Dans leurs récits de femmes du monde arabe et africain que je découvre à travers les oeuvres de Mernissi et des sénégalaises Mariama Bâ et Fatou Diome, la polygamie n’est pas apreciée par les femmes. Elle est au contraire, clairement representée comme un système qui produit de la souffrance et limite la liberté, les choix et les actions des femmes. Parfois, elle est à l’origine des pires humiliations ou brutalités. Ramatoulaye, personnage du roman de Mariama Bâ, Une si longue lettre, en réflichissant à son expérience et celle des autres femmes au sein des structures polygames, en rêvant d’ une autre vie possible, a dit :

"...being the first pioneers of the promotion of African women, there were very few of us. Men would call us scatter-brained. Others labeled us devils. But many wanted to possess us. How many dreams did we nourish hopelessly that could have been fulfilled as lasting happiness and that we abandoned to embrace others, those that have burst miserably like soap bubbles, leaving us empty-handed ?"

Moi, je dirais que nous, hommes et femmes « occidentaux », emmènons notre propre baggage, produit d’une histoire qui converge et diverge avec celles des autres peuples. Je suis plutôt incliné à être d’accord avec le point de vue de Martha Fineman, chercheuse américaine, lorsqu’elle dit que nous n’avons pas de besoin de faire appel à l’ État pour sanctionner nos relations intimes, mais bien (exclusivement) pour garantir les soins et les droits des personnes vulnérables – les enfants, les anciens, etc. Si la societé (État, économie, culture etc. ) promouvait vraiment les droits de tous, la nécessité du mariage comme forme de subsistance, pour n’importe qui, disparaitrait… Et nous aurions davantage de liberté pour rechercher les formes diverses d’intimité, de sexualité et de solidarité qui nous plaisent...

Ah, mais ceci est une autre histoire, aussi longue, que je laisserai pour un autre jour...

[Remerciements à Pierre et Germano, pour la révision!)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Pequena tradução ainda sem revisão...

Enquanto prepare nova crônica, vai este pequeno trabalho:

Eu acordo no meio da noite e me pergunto se já te levaram.

de Sandra Cisneros


A qualquer momento, os soldados podem chegar.
A qualquer segundo, Sarajevo pode render-se.
Como também podemos abrir mão do incômodo de sobreviver.

A qualquer momento, esse exato segundo pode acabar contigo.
A qualquer momento decisivo, Deus pode não dar a mínima.
Você está lá, naquela cidade. Você não importa. Você não é história.

Eu na minha cama com edredom e lençóis antigos,
E ao lado, um altar de Buddhas e Madres Dolorosas
renda fina e espelhos de Storyville,
Estou aqui. Acordei de um pesadelo.

Eu como você sou mulher.
Tampouco importo –
Nada que eu diga
Nada que eu faça.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Good news!

Em maio, lançamento do livro

MULHERES, HOMENS, OLHARES E CENAS


organizadoras:

Miriam Adelman, Amélia Correa, Lennita Ruggi e Ana Carolina Rubini Trovão
Editora UFPR (Curitiba)

Estudos sobre representações de gênero no cinema contemporâneo.

Logo teremos a imagem de capa e mais detalhes para divulgação.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Versão preliminar

Com Lorenzo no Centro do Universo, el Zócalo, Cidade de México

de Sandra Cisneros (do livro "Loose Woman", Vintage Contemporaries, 1995)

Atravessamos duas vezes a rua
por causa dos ratos. Diante de nós,,
o zócalo de noite e a Calle de la Moneda
como num sonho de Canaletto. Esqueça
Canaletto. Esto era real.

E você estava lá, Lorenzo.
A catedral com fumaça nos olhos
ainda subia como um pirâmide após
tantos séculos. Você nomeou os quatro
centros sagrados – Amecameca, Tepeyac and mais
dois que não lembro. Me lembro de você
querida flecha, e como todas as palavras
que eu sabia me abandonaram. Em inglês
e as poucas em espanhol também.

Este é o centro do universo,
eu disse e eu quis dizer. Esta é eternidade.
Neste momento. Agora. E o amor,
esse fio de copal que tanto te apavorou
quando o mencionei,
o amor é eterno, mas o quê a eternidade
tem a ver com amanhã, não sei, compreende?

Não sei se você me acompanhava.
Nem agora, nem naquele momento.
Mas sei o que senti quando botei minha mão
no teu coração, e surgiu aquele beijo,
só isso, desde o centro do universo.
Ou pelo menos, de meu universo.

Lorenzo, é o centro do universo
tão solitário de noite e tão
sobrelotado de dia? Ao meio dia,
a terra me pariu, o metrô se lançando
do túnel. Eu tropeçava nas
canetas Bic bordadas com o logo
do Batman, cabos de extensão
vermelhas, carteiras de vinyl, rosas de
veludo, vendedores de sementes, pedreiros
brilhantes que procuravam trabalho.
Lembro do menino de pés queimados
no colo da mãe,e o cheiro da carne que
fritavam, um prato de isopor grudento,
gorduroso.


De noite fugíamos
da barulheira da praça Garibaldi, os mariachis
que perseguiam os carros ao longo da Avenida Lázaro Cárdenas
correndo atrás da próxima refeição. No La Hermosa Hortênsialuzes brilhando como numa sorveteria,
rostos suados e marcados por suas penas
bebi meu primeiro pulque morno e espumoso como o sêmen.

Na última noite nos despedímos
entre duas ruas com nome de rio.
Eu me atrapalhava com a história
do Borges e sua Delia. Lorenzo,
quando nos encontrarmos de novo,
A qual beira rio? Mas este não era poema.
Somente os mosquitos que picavam
para caralho e um beijo de adeus como
mosquito picando que me deixou com raiva
durante horas. Afinal, não foram séculos
que passaram para a gente se encontrar
ao centro do universo
onde consumamos nosso beijo?

Lorenzo, eu esqueço o que é real,
confundo os detalhes sobre o ocorrido
com aquilo que testemunhei
no meu universo. É assim pra você
também? Mas por um momento
pensei, realmente pensei que
um beijo poderia ser um universo.
Ou sexo. Ou o amor, aquele sapato velho.
Veja. Continuo sem esperança.
Continuo escrevendo poemas para
rapazes bonitos. Uma metade de mim,
novamente viva.. E a outra, desde os bastidores
gritando, Sente-se, palhaça!

Ah, Lorenzo, sou uma tola.
É eternidade ou nada. Comigo é
desse jeito. Mesmo se a eternidade fosse
só um beijo, uma noite, um momento.
E se o amor não for eterno, qual sentido faz?


Se eu tivesse as palavras eu explicaria que
como um homem ama uma mulher antes do amor
e como ele a ama depois, nunca
é igual. Como se separam as duas metades
e não podem voltar a juntar-se.
Não é uma pena?


Você nomeou os centros sagrados mas esqueceu
um – o coração. Você disse que cada vez
que passasse por este zócalo
se lembraria de mim e esse beijo
desde o centro do universo.

Eu me lembro de você, Lorenzo. Está vendo
este zócalo? Se lembre.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

a response...

Just trying out a response to a poem I am translating. But since the translation is not yet ready (waiting for someone to go over it for me!) here goes what I´ve written...for whatever it is worth!


A kind of faithfulness
worse than a whining puppy,
docile as a woolly lamb or a llama
begging for cookies. A kind of
faithfulness that accepts every sort
of betrayal, wears blinkers, puts on
a fresh blindfold to begin the day
and comes back, week after week,
to drink, at the same fountain,
tainted with poison. Years
that don’t teach, don’t cure.
A poison that doesn’t kill,
Just a slow sadness that makes you
Believe you are empty.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

“Just like any other tourist....”

A primeira semana no Peru acaba. Acabo me acostumando um pouco com aquilo que num primeiro momento impressiona, esse impacto “do exótico” que tem por trás o cotidiano do@s outr@s – neste caso, muito imbuído do performance que se faz para o turismo, ou como dizem no Brasil, aquilo que se faz “pro inglês ver”... Até por que acontece algo que me traz, rapidamente, de volta para o realismo: viajando entre Puno e
Arequipa de ônibus, num momento de descuido, levam nosso laptop junto com alguns documentos meus! (Depois, horas passadas nas dependências de delegacias e embaixada, vivenciando a burocracia com suas exigências não poucas vezes ridículas e aquele sentimento de culpa que deve ser muito comum quando estas coisas acontecem, tipo que burra que eu fui, porque não tomei mais cuidado, como se não soubesse cuidar das coisas, da vida, como se não soubesse ser viajante, quer dizer, ser... turista!)


Óbvio que o turismo é, entre outros, um dos fenômenos que move o mundo hoje. Indústria como qualquer outra, onde “o lazer de uns é o trabalho de outros”. Lugar onde as identidades são (re) construídas e “consumidas”. Espaço social onde uns procuram “o autêntico”, o diferente, o Outro. (E alguns, apenas se divertir...) Onde achamos o que queremos e por vezes, o que não queremos. Um fenômeno relacionado à procura do que somos através desse Outro, ou seja, aquilo que supostamente não somos. Captado em escritos e diários de viagem fascinantes, ao longo da história , moderna e pré-moderna, e hoje em dia, no cinema, que também promove um imaginário onde as viagens – mesmo quando a estrada não se faz mais a cavalo ou num calhambeque caindo aos pedaços, mesmo quando é tão fácil subir ao avião e pagar a passagem em 10X – são verdadeiros momentos de catarse. (Por isso acho genial a sacada de uma amiga minha, que percebeu o filme de Woody Allen,
Vicki, Cristina, Barcelona, como uma sátira: você viaja, você se relaciona com esse “Outro”, até você sofre, se mete em encrenca, passa cada uma e volta... igual, à vida de sempre, ao “nada mudou” ou ao business as usual...). Assim, como é eu posso narrar o Peru? Mas preciso narrá-lo. Para mostrar para @s outr@s que fui? Para pensar sobre “verdades sociológicas” e compartilhá-las com pessoas que quero e pessoas que não conheço?

Em todo caso, ontem meu filho e eu concordamos que a viagem valeu muito a pena.
Ter, agora em diante, as imagens daquilo que a gente viu, um país de natureza exuberante e cultura milenar, a repetida mistura de riqueza humana e as pobrezas do mundo humano, tão belo e tão mesquinho e cruel. Jurar que vamos voltar, e na próximas, saberemos navegar melhor os desafios e procurar os cantos menos conhecidos. Continuar falando com as pessoas e convidar algumas, as mais especiais, a que nos visitem, na nossa casa, nossa cidade – ou no meu caso, no pais que adotei, ou que me adotou...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Outros rumos...

[primeira parte]

Finalmente, realizo um sonho da minha juventud: uma viagem ao terra dos Incas, ao Peru. A proposta da viagem surge em última hora; na verdade, pensávamos viajar para outro lugar, mais distante, desistimos da ideia – encarar de novo despesas em euro, trocar nosso tão desejado verão, mais uma vez, para o frio do continente europeu, etc. É assim que embarcamos, no final de janeiro, no final das férias que quase se acabam sem romper muito o ritmo costumeiro do trabalho, com passagens obtidas por “milhas TAM” e sem ter tido muito tempo prévio para informarnos ou nos preparar para o que vendrá...

No primeiro dia, vamos navegando as ruas barulhentas de Lima, um trânsito totalmente maluco de carros que parecem empilharse uns sobre outros, motoristas que não param de buzinar, cobradores de ônibus cujo trabalho parece consistir em pular do vêículo a cada quadra, anunciando a rota e chamando o pessoal para subir. Vou conversando com uma dos meus acompanhantes, a Julinha, de nove anos, quem já passou 15 dias nos Estados Unidos, conhece uma boa parte do Brasil – desde o sul e a cidade de São Paulo até as praias e capitais do nordeste brasileiro - e claro, tem assistido filmes e noticieros mostrando incontáveis imagens de todos os cantos do planeta. Por não dizer que antes de embarcar, eu não tinha perdido a oportunidade de falar com ela sobre o Peru, olhando o mapa e fazendo alguma fala, ainda bem “basicão” (afinal, que tanto sabia eu sobre o tema?) da sua história e cultura, tão embebida de raízes indígenas, histórias de resistência, conquista, sobrevivência, miséria... “Julia”, eu pergunto, “isto te lembra àlgum lugar que você já conhece?” Ela fica pensativa uns segundos e logo me responde, “Eu acho que … se parece com a Índia!”

Em Cuzco, ficamos num “Bed and Breakfast” econômico, longe do tão belo centro histórico, num bairro proletário … até a rua onde se localiza chama-se “Avenida Industrial”. Na verdade, os quartos ficam no quarto andar acima da casa dos donos, uma família que trabalha com o turismo. Subimos por uma escada caracol que dá ao andar onde ficam os hóspedes, e desde a qual se sente um leve cheiro de esgoto, pois é, problemas de encanamento. Nossos vizinhos, simpáticos, nos acordam antes da 7 da manhã, conversando e fazendo seu café ou assistindo t.v na área comum que fica de ladinho. Mas logo no mesmo dia, Macchu Picchu o compensa todo – embora inundado por um constante fluxo de turistas (há alguma outra possibilidade?), se conseguiu isolar um pouco o sítio (nada de banheiros e lixeiras lá dentro, só as ruinas e as paisagens inigualáveis, entre os picos das montanhas)- viajamos no tempo, respirando o ar mais puro que jamais sentimos, total admiração por um mundo tão astutamente elaborado a partir de um profundo conhecimento da terra e das estrelas... (como diz outra pequena menina brasileira que descia as escadas de pedra, conversando alegremente com a mãe – “Esses incas, eles eram muito espertos!!)


Nos próximos dias, percorremos vários sítios arqueológicos, tentamos conhecer um pouco da cidade de Cuzco e seus alrededores, vamos numa excursão pelo Valle Sagrado até o pueblito indígena de Chinchero, com uns dois mil habitantes. Lá assistimos a exposição proferida por Naydé, uma moça que trabalha explicando aos turistas, num espanhol ou inglês fortemente marcado pela intonação da sua língua materna, o quechua, como se fazem as mantas, chales e tapetes de forma tradicional, desde a lavagem da lã de alpaca com um sabão que se faz expremendo um tubérculo até o uso de ervas, flores e o milho azul, para obter as tintas. Um saber que se passa de uma geração de mulheres a outras. Andamos um pouco pelas ruas, conhecemos a catedral. Meu filho fica, como sempre, indignado. “E esses malditos espanhóis com seu catolicismo, como conseguiram! Aqui todo mundo, indígenas e não, acreditam em tudo isso!” Eu me encanto com o lugar, com suas ruas de pedra, suas casitas de adobe, as crinças que brincam, as menininhas que se aproximan de nós para vender bonecas feitas “por nuestras mamás”, o atardecer que cai enquanto por aí caminhamos. Mais tarde, nosso guia nos disse– “Pero no se crean, estas personas tienen mucho dinero!” “Como assim?”, pergunta, incrédula. uma senhora italiana que faz parte do nosso grupo. “Pues si, acaban de aprobar la construcción del aeropuerto internacional de Cuzco, aqui en Chinchero. Saldrán los vuelos directos de Europa para acá, muy cómodo para los turistas que vienen por un sólo dia, sólo para conocer Macchu Picchu. A algunos de aqui les conviene, a outros no...”. Na saída do pueblito, vejo as letras carrafais pintadas num muro- "Si hay atropelo a nuestros derechos, no hay aeropuerto! Chinchero es tierra indígena!"
E por aí rola a história...
Eu como simples turista, me impressiono com tantas coisas – as senhoras indígenas que nos assediam constantemente para que compremos suas artesanatos (se pudiera, lhes comprava uma coisa a cada uma!), as casinhas de barro dos pueblitos e as crianças andando pelos campos com seus cachorros e alpacas como fieis companheiros, a pobreza tão visivel de quase todos, os cartazes pré-eleitorais (mas eu não estou informada, não sei quase nada sobre a política atual peruana, só vi um artigo num jornal no qual um candidato que apoia o direito ao aborto e as parcerias civis – ah, pós-modernidade! - é duramente castigado por atentar contra a “lei natural” da sociedade – é, velhos discursos que já conhecemos...)...

(a continuar)