quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

fair play



you give me this, i give you
that. it should be simple and
without much sentiment. such
are the tacit rules of human
exchange for times like this
one: an evening roll in the hay, au
bord de la marne, where it is late into
autumn and steam rises gently off the
bodies of the munching bovines, the mud-
crusted ponies. i take off my old
lady mask - as diane once said-
and slip easily out of my street
worn jeans. i sleep all night in
your branches. it is warm there,
despite the snowflakes falling
around us. which of us paid
for dinner at the country
inn?  was it momentary shelter,
altar of encounter?   did nothing
flicker in the heart, beyond
basic calculation, the thought
that one place is as good
or perhaps better
than another?

sábado, 17 de dezembro de 2016

flaneuse

sometimes there is something you need to do
just once.  walking along a channel in the winter sun
and watching the reflections go from blue to brown to
a momentary green, no one catching your eye but a wind
sweeping by briskly to remind you, it is just this once. you
think of Rilke and how he admonished us to never believe
the lie of holding on or having forever.  you pride yourself
on how close you get. the freest of spirits in the crowd,
how you can hold a hand so close to your heart, or your
parts, in the deep blue of one single night, and then raise your
glass to the freedom of roads and journeys. but then once again
in the specter of morning and the rough waves of finitude,  you
are  wondering again,  just how to hang on.

on the road

they come to you in all their beauty,  empty handed as any refugee or
or the haggard  beggar almost braving the winter.  they wear bells and bracelets  and sing like
no one else, wailing and laughing their tales with their faux gypsy eyes, you a gulley
of warmth who smells of  cinnamon,  of  lilies of the valley in springtime or some other respite.
although you too have slept in wind-weathered tents, on beaten earth floors, have
crossed borders with the wrong papers or coins,  ridden your silky haltered pony
through a chain of islands where none have ever seen such a girl, so milky-legged
and fearless, it doesn´t quite tally the same. how to look at these sweet boys, right in the belly of the eye, take them, believing for a moment what they have seen or said.  & then move on. 

tracks

the train leaving longueville runs backwards
over red plastic,  past ripped out tracks and there
is some emergency  that keeps  slowing us
down.  the empty metal bellies of furnace,
of industrial choke are gone for now but
we know it is thanks to them we could get
this far.  a band of deer i was too slow to capture
are gone now too,  their fresh tracks  pressed
through a light snow receding,  like all paths crossed
 too quickly,  leaving  no more than  memory and its
 sweet, severed limbs.


   s.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

The Last Tarpan (tales of human cruelty)


(jotted this down while reading Susana Forrest's new book, The Age of the Horse: an Equine Journey through Human History; it is roughly based on a story she tells and was meant to come as a poem, which didn´t quite work..)

Against the snow of the steppes, and the earth beginning again to bleed, a small dun creature makes her way through cracked ravines where the long-legged mounts of men rough and drunken on ale and power find no passage.  In an earlier season, she has been duped:  her herd wiped out, she is coaxed through her loneliness, by the call of a stallion, by whinnying mares, into their distant human hell. Taken, she delivers her furies against the board of the stall that retains her, against her captors who marvel and curse, that she-devil, that witch-animal.  Yet they covet her hybrid offspring, the foals she bears on long stalks of straw, the fine blood of the stallion thinning the legs and the muzzle of a rough-bellied hostage who never gives up.  They have needed her: a splendid field for the art of pursuit, for the sport of sequester, for cunning experiment.

When they bring her back from her final escape, damaged, they feel of course some flare of regret:  not for the broken bones, nor the disappearance of some indomitable tribe;  rather, for that intractable element that will be gone forever, something that has shown them all they are not, all they will never be.  They try to mend her, but in her final breath, she denies them that pleasure.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Louise Bogan (1887-1970)

Women

Women have no wilderness in them
They are provident instead,
Content in the tight cells of their heart
To eat dusty bread.

They do not see cattle cropping red winter grass,
They do not hear
Snow water going down under culverts
Shallow and clear.

They wait, when they should turn to journeys
They stiffen, when they should bend.
They use against themselves that benevolence
To which no man is friend.

They cannot think of so many crops to a field
Or of clean wood cleft by an axe.
Their love is an eager meaninglessness
Too tense, or too lax.

They hear in every whisper that speaks to them
A shout and a cry.
As like os not, when they take life over their door-sills
They should let it go by.

Mulheres

Mulheres não têm nelas a terra selvagem.
São precavidas em lugar disso.
Satisfeitas no compartimento quente dos seus corações
A comer pão endurecido

Elas não enxergam o gado que mastiga a erva vermelha do inverno
Elas não escutam a água
Da neve que derrete, descendo pelos bueiros
Rasa e clara

Elas esperam, quando deveriam pegar a estrada
Elas enrijecem, quando deveriam se dobrar
Elas usam contra elas mesmas essa benevolência
Que homem nenhum irá apreciar

Elas não se perguntam sobre os plantios que cabem num campo
Nem sobre a madeira limpa clivada pelo machado
Seu amor é um vazio ansioso
Muito tenso, ou muito lasso

Em cada susurro que lhes falam, ouvem
um pranto ou um bramir
Como quando, queiram ou não
Recolhem a vida pela soleira

Em vez de deixá-la ir.

Versão:  Miriam Adelman & Takeshi Ishihara


domingo, 16 de outubro de 2016

w.i.p.

friend.  this
is the word that
is my candle, my
winter sun, my
sky.  not 'lover',
'father', 'mother',
closer perhaps
to 'sister'.  i can
say 'vente, hermana'
but leave the shutters
open for  my
friend.  parade of
desert horses along
 a cliff. crest
of light. how
 you appear
coming in from
a thundershower,
or the eye of the
storm.  tattoo
on the nape of
the neck. s/he.
wind blowing us
together.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Bisbilhotice

 (Versão traduzida da minha crônica "Eavesdropping" )


Ok, tudo bem, pode ser que a bisbilhotice seja um pecado capital, mas quem pediu pro cara me obrigar a ouvir sua conversa privada enquanto eu simplesmente cuidava da minha vida, apreciando uma exposição de fotografias no saguão do Forum des Images em Les Halles?  Claro que eu poderia ter bons motivos para ficar escutando, por exemplo, para melhorar minha compreensão auditiva do francês, ou não perder uma oportunidade fortuita de me munir de um valioso conhecimento cultural, sabe,  de ouvir um cara na meia idade com todo o tipo de intelectual francês falando com uma ex-namorada.  Afinal,  essas coisas sempre tem algo de, bom, vamos dizer, antológico.  Talvez, ontológico.  Mas preciso admitir que o que realmente chamou minha atenção foi que o belo espécime me lembrava bastante de alguém que eu tive a oportunidade infeliz de conhecer num momento da vida que errado, sempre seria. Ou talvez fosse um compósito de dois mais ou menos parecidos.  Ora, para o propósito deste relato, vou batizá-lo com o nome "Gérard'.  Ou pensando bem,  vou chamá-lo de Piotr.   Porque não tenho 100% de certeza dele ser francês.  Por outro lado, o que posso dizer com absoluta certeza é que a Núria, com quem ele falava, de modo algum era francesa.  Porque o Piotr ficava perguntando para ela, em francês,  se ela estava entendendo, e pior ainda, naquele duplo sentido, tipo, 'Está me entendendo a língua que falo?  E está se tocando?', intercalando frases em inglês com um sotaque que agora sim eu podia dizer tinha mais do Leste Europeu do que da Franca, só para garantir que a Núria não perdesse algum nuance crítico ... A estas alturas, eu estava totalmente cativada, me esforçando para caramba,  para entender todinho em francês e ainda imaginar o que a sujeita que estava do outro lado da linha lhe respondia. Ah, por sinal, sabia que o nome dela era Núria, porque ele a chamou assim repetidamente, mas só após ter chamado ela pelo nome, "Natalya",  sem querer, que eu já estava sabendo que era o nome da namorada atual, com quem ele morava, pois ele tinha explicado tudo isso muito lenta e pedagogicamente à coitada da Núria, que com certeza já sacava que suas esperanças de voltar com o Piotr tinham sumido como a fumaça de todos os cigarros de todos os pátios dos bares de Paris.  A tensão que permeava o saguão elevava-se, o Piotr andando nervosamente de um lado para outro, bufando e se segurando para não perder as estribeiras, tanto que eu tive que parar de olhar para as fotografias que o Christian Póveda fez dos membros do gangue  Los Mara de El Salvador (e que finalmente lhe custaram sua vida) e só ficar aí quieta absorvendo o cena.  Pior ainda, após ter passado uma semana fazendo reflexões obrigatórias sobre o patriarcado global e a triste realidade dessa frase brasileira, Só mudam de endereço,  eu com certeza estava com um presunçoso sorriso no rosto, de quem acha que já sabe, que já viu tudo.  Ou peraí.  Pode realmente ser que eu tenha descoberto uma diferença, sobre esse assunto de quem 'só moram em casas diferentes', sabe?  Veja, não consigo realmente imaginar a pessoa ou pessoas que esse cara fez lembrar andando desse jeito,  trotando e bufando ao redor da sala; mais provavelmente, eles estariam sentados,  com um meio sorriso de malandrinho, quem sabe até  orgulhosos de si mesmos, enquanto apreciavam mentalmente os despojos espalhados por sobre a paisagem de Conquistas passadas. Talvez até soltando algum comentário ambíguo, sedutor aqui e ali para  fazer a coitada da Núria pensar que ele poderia, quem sabe, eventualmente, se cansar de Natalya (então por que não manter uma pequena centelha de esperança viva, né,  Nuria?)  Mas Piotr, aparentemente,  estava apenas irritado e estressado.  Enquanto segurava entre grossos dedos o cigarro que logo sairia para fumar,   informava a essa chata da Núria ( quem eu já deduzia ser uma dessas meio viciadas no sofrimento amoroso)  que ela era bem-vinda a ficar em sua casa,  se ela na sua viagem iminente passasse por Paris; mas é claro, ele estava vivendo com Natalya e ela teria - pois a vida é assim! -   teria que estar disposta a  dormir no sofá.

Grata a Takeshi Ishihara  pela revisão e sugestões.

domingo, 25 de setembro de 2016

anecdote

the kindness of strangers

in the London underground, two women limp, side by side on the escalator, halted by its
mechanical hand.  are you hurt? one asks, a flicker of grin, a shared plight.  no just tired
oh and my thigh. a golden accent,  the stunning perfection of the consonants of a southern continent.  life is tiring.  yes she says but we do not want to die.  yes we want to see our children grown.  yes, and our grandchildren. slow steps, breathing almost in sync, the climb,   and through the airy space, the mechanical fingers on the wheel again,  down  into the grind, whisking away this random moment that  has placed us here, a few shared seconds of life,  but only until the machine starts rolling. good luck to you, and -   to you too!- here is to the child you have so been wanting,  to those twenty years, to what keeps us here.





sábado, 24 de setembro de 2016

('thanks for the poem' poem)



Get up, quick shower, hit the road.
Whatever, whoever is out there, how
Can you ever really know. You
Break bread with a stranger,  he or
She has the eyes of someone you
Once loved.  A shadow in her wistful
Smile.  But no guile.  Perhap some
Fear.  It is hard to trust, so hard. So
Next to impossible.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

first draft

all humans


you, my dear playmate, are no better
than others.  if the deer come to feed
from your hand, it is but a moment. cruelty
is on the order of the day, humankind has
been at it forever.  there have been ovens
and other infernos, but it is the slow and
almost imperceptible destruction that is
preferred.  you can almost pretend
it is nothing, a slip up, a deferred
pleasure, a temporary scare, even a stream
 of toxins that runs clear by the time it hits
 your side of the river.    we don´t speak
the same language.  everything you say
comes upside down or in quotations, except
one phrase:  all monsters are human.  
the patient animals wait on, they hover
for feed and respite

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Horses, humans and literature.

Here is a fragment from the great 20th century Brazilian writer, Clarice Lispector.  For those of you who are interested in the theme, check out an earlier post here, a poem by the Mexican poet Germaine Calderón, 'Ya no soy un caballo', in original and translation (mine; posted February 19th, 2016)

Eu diria: se pudesse ter escolhido, queria ter nascido cavalo. Mas -quem sabe- talvez o cavalo ele-mesmo não sinta o grande símbolo da vida livre que nós sentimos nele.  Devo então concluir que o cavalo seria sobretudo para ser sentido por mim?  O cavalo representa a animalidade bela e solta do ser humano?  O melhor do cavalo o ente humano já tem?  Então abdico de ser um cavalo e com glória passo para minha humanidade. O cavalo me indica o que sou.  (Clarice Lispector, Seco Estudo de Cavalos)

I might say:  if I could have chosen, I would have been born a horse.  But - who knows - perhaps the horse itself is unaware of what a great symbol of a life of freedom we see in it.  So then, shall I conclude that the horse exists above all so that I can feel what it is?  Does the horse represent the loose, beautiful animality of the human being?  Is the best of the horse already in us?  Then let me give up being a horse and gloriously move on to my humanity. The horse shows me what I am.  (translation:  Miriam Adelman)






segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Na França tem trem pinga-pinga...



Cold, wet, early September.  I get on the 9:46 train Boulogne-sur-mer to Paris, after a perfect weekend rendezvous with my sister, who has crossed the English channel to meet me before returning home to Chicago.  Why here rather than London?  The high cost of living. getting lost in a big city, or fanning the fantasies of a simpler life, one we have  never  had...

I pull the several layers I am wearing more tightly around me.  The long ride ahead promises several stops, and I am hoping that as we move southward, the thermometer climbs, even if only a degree or two.  I have taken a seat in what I gather is the first class car -carpeted, with plush seats like the one I sink into. Though it isn´t what I have paid for, the train in empty on the Monday after the vacation season has ended, and besides, on my way here, the railroad clerk paced up and down between cars but never asked to see our tickets.  My wager is on more of the same.

From the tracks, some of the towns we stop in, or whizz eagerly past with not even a gesture in their direction, have a depressed, decaying air to them.  There was one that must be a kind of ghost town à la française;  others perhaps fare better, further from the railway station, which is what I wonder about when I see dilapidated buildings, one of them all boarded up and bearing a half-dismantled side reading 'Centre Social',  as we pull  quickly into and out of a place called Abbeville. 


Yet the French countryside is lush in its summer's end exuberance,  and I think of the autumn that is beginning to seep into the breezes and chills the drizzle of days,  how it brushes me with its lessons of changing seasons, my life long ago in the temperate zones, the splurge, surge of colors. Yet here I am now at the halfway point on this most recent adventure, and - before the  cold heart of northern winter in this hemisphere has too much of a chance to mistreat me-  will return  to an adopted country, engulfed in more turmoil than I had ever expected.  And I won´t be able to turn around, to ask for a second chance, to go over mistaken steps or garner the extra time needed to perfect the way a tongue rolls, lips pucker, sounds join and join and separate again... A last chance, perhaps, to reinvent routes, landscapes, encounters?  How thin the line that separates chance and beauty, the austerity of work, routines honed in need or belief.  Tout (ne) peut (pas) changer!




sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Belleville


In Belleville, today
will be another scorcher.
The  Chinese hookers are out
early, even before the steam rises,
the girls throwing water on each other
laughing as if it were a beach scene
as if life were as simple as 
vacances d'août   waves lapping the feet
of happy couples at sunset

around the corner, restôs still closed
but after the last long hot weekend
kids will be back to classes, women
walking their children to and fro
the safety of routine in peacetime,
 food on the table, minimums.
maximums.

on my block: commerce and the trade
that never closed,  a whir of sewing machines.
the women and their lone male companion
who spent the hot months making the red
dresses I spy from the window go on
as if oblivious to change and chain,
 happy perhaps for something
they have been spared

- miriam

terça-feira, 26 de julho de 2016

As chinesas

Elas povoam o bairro, estas mulheres de idades diversas, estilos de vestir que variam desde vestes que remetem à discreta 'boa moça' a quase desleixadas; na 'média', estão as  de calça de couro sintético apertado com detalhezinho aberto nas costuras,  ou vestido de corte simples, super salto, ou um shortzinho com meia calça preta por baixo que se faz acompanhar por sapatilha, ou por um tênis bem limpinho e vermelho.  Decote pouco, mas a maquiagem, isso sim, nunca falta... as camadas que embranquecem ou escondem os sinais do tempo, ressaltam os olhos amendoados, as bocas da cor de sorrisos infinitos, bem pintadas, o detalhe perfeito, como as sobrancelhas.

Estão sempre na rua, 24/7, mas há dias e horas que a confluência é maior. Se por exemplo saio cedo de manhã, sempre há algumas que estão ocupando o dia bem antes do que eu; se volto sozinha após ter pego o último metrô numa sexta ou sábado, posso escolher a rua menos transitada para chegar em casa, sua presença fornecendo um sossego para quem definitivamente não tem costume de sentir-se bem andando por las calles solitárias de uma cidade grande, de qualquer cidade.  Mas no domingo, dia que costumo sair apenas no final da manhã, já estão elas, enfeitando o caminho que me conduz até o bulevar e além, quase se parecendo com  moças e senhoras curitibanas rumo à alguma igreja evangélica dessas mais 'moderninhas' e elegantes, como as de Juvevê ou Centro Cívico. Essa pouco barulhenta força de trabalho ( ou de mercado) aumenta sensivelmente aos domingos à tarde, um verdadeiro ferver de moças e mulheres, e claro,  de homens que não estão en famille,   que não foram ao cinema ou ao parque e nem sequer ao bar com seus compas.  Mas a 'clientela' ainda parece comparativamente escassa.  Tampouco consigo identificar padrão algum em eles: os vejo de idades diversas, mais brancos, não asiáticos - vi uma vez uma moça recusar ficar com um jovem negro- alguns jovens, outros bem carecas, barrigudos, beirando sua 'melhor idade' que talvez os deixe solitários e inoperantes. Bem como no livro Memórias ... de Garcia Marquez.  

Por vezes sinto que as mulheres me olham com reconhecimento, pois  já são dois meses que moro neste bairro, e devem ter percebido que observo, embora tenha em grande parte abandonado meu desejo de fotografá-las. Mas o olhar inseguro, suspeito, que sentia vir delas sempre que eu descia para a rua com a máquina na mão,  pouco a pouco parece dissipar.  Me conhecem: um esboço de sorriso,  um  bonjour ocasional, já que não estamos nessa de 'eu finjo que não te vejo', até o sobressalto um dia que saí rapidamente para a rua de havaianas e com as unhas do pé bem feiinhas como a brasileira que não sou. Já faz um tempo que começo a reconhecer algumas, como uma magrinha que quase sempre usa uma calça cor ferrugem, tênis, o cabelo amarrado, óculos de marca, e parece ter alguma função de agenciadora: falando alto em chinês com as outras - geralmente com sorriso e alguma vez com cara de braba - e com celular na mão, conversando simultaneamente com alguém que está do outro lado da linha e com las chicas que estão ao lado dela, na rua.  Mas algumas vezes vi ela com saínha curta, salto alto, encostada num muro, esperando igual as outras.

Suponho que algumas conversam com seus clientes pelo celular.  Eu as ouço sempre falando em chinês, ou em alguma outra língua igualmente indecifrável para mim,  mas principalmente, apoiadas em algum muro,  aguardando o que parecem ser as raras vezes que alguém aproxima para negociar programa. O vejo acontecer de vez em quando:  o cara chega, identifica a moça ou a mulher, conversam, chegam a um acordo,  e daí ela se manda, cabeça erguida, bem na frente, eles sempre atrás, a uns 100 metros de distância, embora com um andar bem direcionado que enganar muito não deve.  Para algum lugar que não identifico: umas vezes, vi eles descer a escada do metrô, e outras, virar na esquina e sumir por aí.

Se pudesse, eu puxaria o papo com essas mulheres.  Como isso não é possível, tento me concentrar, captar qualquer coisa que seus gestos, tons de voz, sua discreta linguagem corporal possa me dizer.  Parece que entre elas, rola amizade, rola companheirismo.  Não sei, mas as vejo todos os dias, rindo juntas,  fofocando talvez, e as expressões de ternura, como uma que abraçava a outra, encostava a cabeça no peito dela, enquanto esperavam, esperavam. O que sentem? As vezes, penso que vejo o medo, o tédio, a dor, como uma, mais velha, que vi várias vezes sentada de lado de fora de um dos restaurantinhos populares do bairro - há uma grande clientela 'ocidental' que o frequenta, as mesas sempre lotadas para o almoço e jantar, a pesar do ambiente escuro e pobre do interior-  a cabeça apoiada nas mão, para abaixo, os longos cabelos tingidos jogados para frente.

Já li sobre as máfias que agem em torno delas, embora uma outra fonte argumente que uma boa parte delas trabalha 'como autônomas', e que por isso ainda conseguem enviar dinheiro para suas famílias na China - que podem ou não saber de onde vem os proventos.  Também ouvi dizer que trazem, em seus olhares desconfiados ou tristes, histórias de uma vida outra, de ter alguma vez tido outro tipo de emprego, de ter estudado.  Não consigo imaginar como era sua vida antes -  em Dongbei (Manchuria) talvez, no nordeste da China, uma região que da qual se diz que teve a sorte ou o azar de 'industrializar-se antes de outras regiões do país- , e se foram filhos ou netos que deixaram atrás,  ou apenas algum tipo de anonimato diferente  deste, onde há uma oferta aparentemente muito, muito maior do que a demanda. ( Que também pode estar oculta,  por punida...)

Seus conterrâneos de sexo masculino têm outro destino, sentados nos bancos do boulevard, ou aglomerados perto da escada do metrô, conversando, por vezes rindo, envelhecendo, sem nada para vender.  Tento imaginar eles na rua - não só eles, os chineses, senão qualquer eles, de idades e cores e corpos diferentes, mas não passa de uma imagem cômica, deprimente, que não convence ninguém, pois a arte que as chinesas apreenderam é um destino que se conjuga apenas no feminino, e no triste ofício de esperar,   24/07 nas ruas sujas e degradadas de Belleville, com todo o paradoxo contido num nome que vem de muito antes quando ninguém imaginava elas, um dia, por aqui. 

Referências:
http://ouigour.over-blog.com/pages/Les_prostituees_chinoises_a_Paris-307287.html


Carta de Seybah Dagoma (deputada federal pela 5a circunscrição de Paris, Comissão de Assuntos Estrangeiros, data de 13 de julho de 2016.  Distribuída no bairro.

Imagens e texto:  Miriam Adelman

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Eavesdropping



Ok, so maybe eavesdropping is a capital sin, but  who told this guy to force me to hear his private conversation while I was minding my own business in the lobby of the Forum des Images at Les Halles?  Of course, I had some good reasons for listening, like improving my French or not wasting this fortuitous opportunity for cultural knowledge, you know, hearing  some middle-aged rather intellectual French type talking to an ex-girl friend.   And after all, these things can always turn out to be, well, antológicas. Oops.  Ontological.  But I have to admit that what really drew my attention was the fact that this lovely specimen reminded quite a bit of someone I had had the unfortunate opportunity to meet at the wrong moment in an earlier life... or maybe a hybrid of two of more or less the same sort.  Anyway, for my literary purposes here, I baptize him and he  becomes  Gérard.  Or maybe Piotr, just because I can´t be 100% sure that this guy was really a Frenchman.  What I do know, on the other hand, is that Nuria, who was on the other end of the line, was definitely not French.  Because Piotr kept asking her, in French, if she was getting it, and then throwing in heavily -accented English phrases  (the accent did sound a bit Eastern European to me, but by this time, just trying to keep up with the conversation on both ends required all my attention and imagination...) just to make sure she got him straight.  Oh, by the way, I know her name was Nuria because he called her that once, , but only after accidentally calling her Natalya, whom I had already learned was his current live -in girlfriend from South Africa.  He was really rubbing that one in on poor Nuria!  Oh, the  tension in the lobby was on the rise, with Piotr pacing back and forth and snorting impatiently so that I had to completely give up on looking at  Cristian Poveda's photos of Mara gang members from El Salvador (and that eventually cost Cristian his life) and just sit there and soak the whole scenario up.  After a whole week of compulsory reflections on global patriarchy and the sad truth in the good ole Brazilian expression,  Só mudam de endereço,  I most certainly had some smug  knew-it-all-along grin on my face.  Wait, on second thought, I may just  have discovered a difference - that is, on that ' they just live in different houses ' bit -  and maybe you can decide how crucial:  you see, I  can´t quite conjure the person or persons that this guy reminded of huffing and puffing and snorting around the room; more likely, they would be sitting back, smirking and proud of themselves,  surveying  the spoils strewn over the landscape  of past conquistas. Maybe even throwing in a sly, seductive remark here and there to make poor Nuria think that they might eventually tire of Natalya so why not just keep up a little spark of hope alive, Nuria? But Piotr, on the other hand, was just irritated and stressed, as he informed Nuria that she was welcome to stay at his place if she passed through Paris on her impending trip, but of course, he was living with Natalya and she would just have to, well, sleep on the couch. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

What matters now



 A tree left standing in the 
jowls of the city. The long lost 
Judith floating from Venezuela
into my dream, whispering
 something that had slipped 
or faded like our sketchpad days, two 
teenage girls at the Brooklyn zoo, our 
braids pulled out from under red scarves,
 charcoal in hand, a stretch of horizon
and a tender courage to never
stop pushing

It came to that, to putting on paper:
the displaced lions, the caged bears,
and  forth from there to the city of men,
unrolling maps, charting some course,
incorrigible as humankind itself, relentless
as someone's dirty secret that in the
end is but a simple & reckless desire held
too far from the light of the heart

Will you believe me if i tell you
that one hour is better than none,
three days better than zero? Will
you believe in me?  You can ride
rail or elevator to the top
of the city, choose which open
hand to hold or close.  Survival
you see is a balancing act, & 
what matters now, to perfect
the art: the unshapely bodies
shining in some last moonlight,
bending under the sacrificed
treetops, a knowledge of all
that has come and gone, to 
curl within it, unfurl within it,
sin perder la ternura
jamás


-Miriam


domingo, 15 de maio de 2016

Um poema de Jennifer Tseng.

To the sea/Ao mar.

His life a lash on the horizon.
His eyes, two raindrops fallen at last to the sea,
have joined the others, the lost visions, lost waves.
Of all the dead, there is something in the sea,
if one could sip each drop discretely one would taste
prodigies riding on Ferris wheels, prisoners painting
estuaries in green, generals kneeling at the salt-stained
feet of peasants, women making ardent love to women.
Part of every drowned desire, its indestructible source,
appears in the form of a stranger willing to change us.
He had been striving for years, he died desiring
vexed to the end by strangers within, without.

Sua vida um cílio no horizonte.
Seus olhos, duas gotas de chuva que unidas finalmente ao mar,
se juntaram às outras, às visões perdidas, ondas perdidas.
De todos os mortos, há algo no mar,
se um pudesse sorver cada gota discretamente, sentiria o gosto
de prodígios montando a Roda Gigante, prisioneiros pintando
estuários de verde, generais de joelho aos pés manchados de sal
de camponeses, mulheres fazendo amor fogosamente
com outras mulheres.
Uma parte de cada desejo afogado, sua fonte indestrutível,
aparece na forma de um forasteiro que quer nos mudar.
Ele passou muitos anos buscando, morreu desejando,
conturbado até o final por forasteiros de dentro, de fora.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Crônica.

Laboratório.
                           

Nada como uma boa companhia.  Desta vez é o livro Blowout  da Denise no meu colo na sala de espera, o programa matinal da Ana Maria falando quase sozinho de tão alto que está a TV na parede, um zumbido para minha enxaqueca pós-impeachment.  Olho para as cadeiras de estofado azul, as pessoas com suas fichas e carteirinhas em mãos, claro, com seus smartphones tb e ninguém lê nem sequer a revista Veja (ainda bem) e de repente penso identificar outro iniciado ou melhor dito outro remanescente desta arte perdida de virar páginas e anotar nas margens, está parado com um livro azul em baixo do braço.  Mas quando tento lançar para ele meu mais aperfeiçoado olhar de cúmplice, ele gruda mais a vista na TV, na história que estão contando sobre Paulinho que perdeu a perna por causa de um câncer.  Contudo - é a voz da Ana que nos afirma - o Paulinho não se deixou derrotar, pois ele tem cérebro de vencedor.  Sempre teve.  A mãe, a professora, o velho coach de natação dele, todos nos confirmam, com detalhadas evidências.  E ele venceu. Todos podemos ter  cérebro de vencedor. É a especialista que repete, cheia de dicas:  o quê comer, a importância de correr ou andar de bici pelo menos três vezes por semana - e daí vem o mais importante -  the clincher! - que era algo assim como nunca deixar de acreditar em você mesmo e também um tanto nos outros, como o próprio Paulinho com a namorada que sempre o aceitou, no antes e no depois.  A Carolina.  Uma bela ragazza, para um belo rapaz com uma falta perdoável.  Volto para a Denise, mestra em mostrar como todas as perdas geram duas perspectivas possíveis: a do lamento puro, e a 'sempre pode ser pior', principalmente se a gente se comparar com os mais fodidos.  É a Denise que, neste tempos de pão e circo, e circo e circo e circo , vai e volta entre o marido perdido e as fábricas da Barbie nas Filipinas, as trabalhadoras magras e sobrininhas loiras, sempre elevando o nível do que me faz rir.  Do alto da parede, continuam mostrando o Paulinho, e tudo o que apreendeu a fazer com sua falta.  Até que de pronto, vem minha vez: estender o braço, fechar o punho, deixar a agulha fina desenterrar a veia que se esconde.  Os tantos tubos que vão se enchendo do produto do meu corpo-fábrica.  Vermelho.  Lindo.  Na saída, pego meu café cortesia da casa, a chave do carro, o livro.  Minha veia pulsa, uma leve dor de excesso contra uma artéria fina.  Prometo-me que vou me cuidar e que vai ser cada vez melhor: menos glúten, menos lactose, menos horas de insônia ou de roer as unhas pelo que não posso saber ou não posso ganhar.  Brinco, ando a passos confiantes, pela cor que vi, as páginas que li, como se com isso eu pudesse tudo:  contra as faltas, as perdas,  contra tudo aquilo que me reduz a mera  condição de quem a pesar de todas as dicas conselhos horas de biblioteca pode de repente se ver em apertos, perder o rumo ou simplesmente não mais saber discernir, o que é  para lembrar, o que não é para esquecer.

domingo, 1 de maio de 2016

Assia, Oran.

                                                                Imagem:  Miriam Adelman

Assia, Oran.

There are many ways to return to a homeland.
Smuggled bones.  A book you wrote about exile.
In the veil of night, to take up arms, or to
straddle a fence, or pick your way through
the boulders, on your belly toward an unwatched  
 border. A body awash on the seashore.  A covered face.
 A counterfeit heart.  Temporary silence.

To step off a  plane into 
  the arms of your love: that
  sounds more like the movies.
 And they may come for you
                 in the morning.

  

- Miriam

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Traduzindo Li-young Lee

With ruins/ Com ruínas.

    Li-young Lee

Choose a quiet
place, a ruins, a house no more
a house,
under whose stone archway I stood
one day to duck the rain.

The roofless floor, vertical
studs, eight wood columns
supporting nothing,
two staircases careening to nowhere, all
make it seem

a sketch, notes to a house, a three-
dimensional grid negotiating
absences,
an idea
receding into indefinite rain,

or else that idea
emerging, skeletal
against the hammered sky, a
human thing, scoured, seen clean
through from here to an iron heaven.

A place where things
were said and done,
there you can remember
what you need to
remember.  Melancholy is useful.  Bring yours.

There are no neighbors to wonder
who you are,
what you might be doing
walking there,
stopping now and then

to touch a crumbling brick
or stand in a doorway
framed by the day.
No one has to know
you think of another doorway

that framed the rain or news of war
depending on which way you faced.
You think of sea-roads and earth-roads
you traveled once, and always
in the same direction: away.

You think
of a woman, a favorite
dress, your old father's breasts
the last time you saw him, his breath
brief, the leaf

you've torn from  a vine and which you hold now
to your cheek like a train ticket
or a piece of cloth, a little hand or a blade -
it all depends
on the course of your memory.

It's a place
for those who own no place
to correspond to ruins in the soul.
It´s mine.
It's all yours


Escolha um lugar
calmo, uma ruína, uma casa que
não é mais casa,
sob cujo arco de pedra parei
um dia para me esquivar da chuva

O chão sem teto, rebites
verticais, oito colunas de madeira
que nada apoiam,
duas escadas que enveredam para lugar
nenhum, que fazem tudo parecer

 um rascunho, apontamentos para uma casa, uma
planilha em três dimensões negociando
ausências,
uma ideia
 recuando para a chuva sem fim

 ou se não,  a ideia
que emerge,  esqueleto
contra um céu martelado, uma
coisa humana, depurada, que se vê
transparente daqui a um  paraíso de ferro.

Um lugar onde coisas
foram ditas e feitas,
onde vc pode lembrar
daquilo que precisa
lembrar. A melancolia é útil. Traga a sua.

Não ha vizinhos para ponderar
quem você é.
o que vc pode estar fazendo
andando por aí,
parando de vez em quando

para tocar um tijolo que se esfarela
ou parar em um umbral
emoldurado pelo dia.
Ninguém precisa saber que
vc pensa em outro umbral

que emoldurava a chuva ou notícias de guerra
dependendo de que lado  encarava
Vc pensa em caminhos de mar e caminhos de terra
que uma vez viajou, e sempre
na mesma direção:  à frente.

Você pensa
em uma mulher, um vestido
preferido,  o peito do teu velho pai
quando o viu pela última vez, seu breve
fôlego,  a folha

que arrancou de uma trepadeira e que agora
aperta contra sua bochecha como um bilhete de
trem, um farrapo, uma mão pequena, uma lâmina -
tudo depende
do percurso da sua memória.

É lugar
para os despossuídos de lugar
para corresponder às ruínas na alma.
É meu.
É tudo seu.

 Tradução:  Miriam Adelman
  Revisão:  Takeshi Ishihara.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Scenes from the neighborhood/Cenas do bairro



"What would he do without his horses?" asks Dona Benedita, the common law partner of 'Zé dos cavalos [Zé of the horses].  She explains that she also rode - how she loved country life! - when she was a girl.  Benedita and Zé live in a northern neighborhood in the city of Curitiba, where they have now spent more than thirty years, working, raising a family and observing the intense change brought about as more the metropolitan area has been urbanized (and neighborhoods like their own, situated at the jaggedy edges of gentrification processes, a mix of middle class residences and ramshackle constructions which bring the word favela to mind).  The couple, along with their children and grandchildren, have managed to get by, resisting the onslaught of ruthless patterns of urban development spearheaded by the interests of a lucrative construction industry:  an affluent neighbor has complained about manure and animals, but the kids in the hood who happily hop onto one of Seu Ze´s  horses and head off over the hills where the power lines impose building restrictions are the happy beneficiaries of a paradox.

'O que faria ele sem seus cavalos?' ,  pergunta dona Benedita, a companheira do 'Zé dos cavalos'. Ela explica que também montava - como amava a vida do campo !- quando era menina.  Moradores de um bairro do norte de Curitiba há mais de 30 anos,  eles continuam cultivando uma vida que para outros pode parecer um resquício de tempos passados, que não produz nostalgia ou respeito em todo mundo - Dona B. conta, por exemplo, que há vizinho que reclama dos cavalos, hoje 7, que eles mantém.  O casal, junto com filhos e netos,  moram em um dos muitos bairros da cidade que ao longo das últimas décadas vão sendo profundamente modificadas - casinhas de madeira cedendo pouco a pouco a condomínios e sobrados de classe média alta ou baixa, ruas que antes eram de terra sendo cobertas primeiro com anti pó e depois, camadas de asfalto - que também, com a passagem do tempo e das águas, vão  se tornando irregulares e esburacadas, mas sem deixar de permitir o aumento do trânsito dos automóveis.  Mas Seu Zé e seus cavalos resistem - as torres de luz e o morrinho que as abriga formou uma barreira não intencional ao apagamento de suas condições de sobrevivência -   e para a garotada que mora aí perto, poder subir num dos animais em um sábado ou domingo ensolarado, como o dia de hoje, é um grande luxo, um prazer e um paradoxo da vida nos interstícios.


Dona B,  março 2016.  Imagem:  Miriam Adelman








terça-feira, 12 de abril de 2016

The truth

the truth

admit your flaws
and i will open the book
of my weaknesses. tell me
your story, as you best remember:
an unlit path you walked along
once, midnight through the park
and someone was crying for help.
did you turn a deaf ear, throw
the last stone, or perhaps hold out
 a paddle to the child turning 
 circles in the current of the
 river? a trail drives me back
further than memory.  i pick
my version, all that is left
of the facts.

-  miriam

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Frank O ' Hara (again and again)

Como sempre, aceito sugestões dxs amigxs tradutores:


CORNKIND/ASSIM COMO O MILHO


So the rain falls
it drops all over the place
and where it finds a little rock pool
it fills it with dirt
and the corn grows
a green Bette Davis sits under it
reading a volume of William Morris
oh fertility! beloved of the Western world
you aren't so popular in China
though they fuck too


and do I really want a son
to carry on my idiocy past the Horned Gates
poor kid                            a staggering load

yet it can happen casually
and he lifts a little of the load each day
as I become more and more idiotic
and grows to be a strong strong man
and one day carries as I die
my final idiocy and the very gates
into a future of his choice

but what of William Morris
what of you Million Worries 
what of Bette Davis in
AN EVENING WITH WILLIAM MORRIS
or THE WORLD OF SAMUEL GREENBERG

what of Hart Crane
what of phonograph records and gin
what of 'what of'

you are of me, that's what
and that's the meaning of fertility
hard and moist and moaning


Então cai a chuva
gotas por todo  lugar
até achar uma pequena poça de pedras
que enche de terra
e ali cresce o milho
uma Bette Davis verde senta ali em baixo
lendo um volume de William Morris
ah fertilidade!  amada do mundo ocidental
 nem é tão popular na China
porém  lá também trepam

e será que quero realmente um filho
para carregar minha idiotice para além dos portões de chifre,
coitadinho                            com o  miserável fardo


mas pode acontecer casualmente
ele se desvencilhando da carga um pouco a cada dia
enquanto eu vou ficando cada vez mais idiota
e ele se tornando um homem forte forte
que um dia carrega enquanto vou morrendo
minha idiotice final e mesmo os portões
para o futuro da sua escolha


e o que há com William Morris
e o que há com você Milhão de Mortes
e o que há com Bette Davis em
UMA NOITE COM WILLIAM MORRIS
ou O MUNDO DE SAMUEL GREENBERG


o que há com Hart Crane
o que há com discos de vinyl e gin
o que há com 'o que há'

você veio de mim, é  só isso
e é esse o sentido da fertilidade
dura  úmida  gemendo


tradução:  Miriam Adelman

sábado, 2 de abril de 2016

Translating Frank...

Trabalhando neste agora:


TO GOTTFRIED BENN Frank O'Hara  1958


 Poetry is not instruments
that work at times
then walk out on you
laugh at you old
get drunk on you young
poetry's part of your self

like the passion of a nation
at war it moves quickly
provoked to defense or aggression
unreasoning power
an instinct for self-declaration

like nations its faults are absorbed
in the heat of sides and angles
combating the void of rounds
a solid of imperfect placement
nations get worse and worse

but not wrongly revealed
in the universal light of tragedy


A poesia não é   instrumentos
que por vezes funcionam
e outras jogam tudo para o alto
riem de você velho
se embriagam de você novo
a poesia faz parte do seu eu

como a paixão de uma nação
ela se move com rapidez
provocada a se defender ou a agredir
poder insano
um instinto para a auto-declaração

como as nações suas falhas se absorvem
no calor das perspectivas e dos ângulos
combate o vazio da mão sem cartas
um sólido  de colocação imperfeita
as nações vão de mal a pior

mas não é equivocadamente que se revelam
à universal luz da tragédia

Tradução:  Miriam Adelman 

terça-feira, 22 de março de 2016

contingências

(escrevi ano passado, traduzi recentemente)

Contingências

Por vezes, a simples falta de
postura devasta tudo. Ou a abertura
pequena  por onde a luz entra sem querer
numa cena de escuridão perfeita.
Porém outras vezes não
se trata de detalhes, nem
 faltam lente, lupa ou
binóculos.  Deu incêndio.  Estava
na cara,  todo mundo já percebia:
o carteiro, a professora, o gari que
varria a rua.  Só você,
menina boba, que não percebia,
Quem nunca quis estudar
o roteiro,  quem sempre foi
impaciência pura.

domingo, 13 de março de 2016

the stones (Teotihuacán)

So, cleaning out drawers and file cabinets may be a
 very tedious endeavor, butsometimes you find poems from
 10, 20, 30 years back... some are good, some are
hopeless, and some worth reworking, like - I think - this one:

the stones  (teotihuacán)

i.

it had rained that day
among the pyramids.
slow climb up the rocks
under the sun as ancient
as midday, as the corn planters.
raspy tongues of stone
serpents against my bare
arms, jaguar eyes catching the
rays, coming to life

coatlicue the mexica
came back across the centuries
laughing at the whiteness of my legs
and warning me, beware of the
barbudos.  i in my foolish haste
 opened that night to my first
 love,  readied for whatever
comes next

ii.

a jagged crater
like the mouth of the
world, a place to feel small in,
fragile perhaps but not too
fragile for the load:  pebble,
boulder, the labor
of dragging  the stones.

iii.

but there were other words
too.  and a wordless language.
at dusk, the sharing of
strangeness.  a pocket of
warmth.  someone who listened.
we groped for each other across the
distance of darkness, each from
one side, against the beaded
screen of nightfall.

iv.

there is a window in this house
of stone.  old  shutters that keep
banging open and shut, and then,
open again. a shifting sky.  i go out
into the quarry, but  the stones are
just too heavy.  there is a bent shape
on the horizon, back turned toward me,
heading down the road toward
the pueblo.   a woman in feather
and rags, a silvery braid the thickness
of centuries. she pivots on her
bare feet,  shields her eyes, a gaze,
wry laughter, then pivots again. could this 
be it? come back, Coatlicue
teach me something i haven´t
yet learned. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

two poems of mine, from long ago (salvaging?)

Island

today on the island
we walked deep into our own wild hearts.
a ship from texas was bare red steel,
parks cluttered with summer,
a bronze-skinned lady who
smiled, sold you some pages
   from someone's past
would have loved you

back at the docks
we watched
families rush home
    to their evening.
you rested your head on my silence.
there were pigeons
    flapping above,
driving us back
    into Manhattan.

 (late 80s early nineties, NYC)


the wreck

(this was a longer poem, from which I have 'rescued' only the first stanza; the rest just didn't seem to be salvageable)


Though the children huddle at the roadside
clinging to fragments of windshield, a broken
hupcap, a bone from the steering wheel,
it is only inside our own cavernous skulls
that the memory is kept:  the place the road
took an unexpected turn, a curve too sharp
for our tires.  I would keep talking all
night while you wanted silence, a detour
from the blinding lights of each passing
town.  And I was always wanting
to dance.




domingo, 28 de fevereiro de 2016

Frank O' Hara/ nova tradução em andamento

 NOW THAT I AM IN MADRID AND CAN THINK.

I think of you
and the continents brilliant and arid
and the slender heart you are sharing my share of with the American air
as the lungs I have felt sonorously subside slowly greet each morning
and your brown lashes flutter revealing two perfect dawns colored by New York

see a vast bridge stretching to the humbled outskirts with only you
          standing on the edge of the purple like an only tree

and in Toledo the olive groves' soft blue look at the hills with silver
      like glasses like an old lady's hair
it's well known that God and I don't get along together
it's just a view of the brass works to me, I don't care about the Moors
seen through you the great works of death, you are greater

you are smiling, you are emptying the world so we can be alone



AGORA QUE ESTOU EM MADRI E CONSIGO PENSAR.

Penso em você
 e nos continentes cintilantes e áridos
e no esbelto coração que você divide dividindo minha parte  com o ar da América
como os pulmões que senti num diminuir sonoro, saúdam devagar a manhã
e os teus cílios marrons esvoaçam revelando duas alvoradas perfeitas cores de Nova Iorque

vejo uma ponte enorme que se estende até os humilhados subúrbios onde só você
    em pé à beira do púrpura como uma única árvore

e em Toledo o suave azul dos oliveirais,  olho para as colinas prateadas
    como óculos como o cabelo de uma anciã
é fato conhecido que Deus e eu não nos damos muito bem
para mim é uma simples oficina de latão, não me importo com os mouros
vistas através de você as grandes obras da morte, você é muito maior 


você está sorrindo, você está esvaziando o mundo para que possamos ficar a sós

tradução:  Miriam Adelman

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Assia Djebar and I.


Going away would return me to myself. Far away, a foreigner at last - the fruits and the pulp of being foreign, a foreigner even to my memories and my future.  Vacant, nascent. To leave!

Assia Djebar, The Tongue's Blood does not Run Dry: Algerian Stories

(For Assia)



there is rain washing this
  chance of desert,  aroma
of oasis and pine.  there
is a winter white which in the
fugitive sunlight could be warning,
  could be
       warming, could
                     almost be the white
of yr blanched algiers
walls, and blue doorways
   adorned with a chain of bells
   and a fine yellow script
and white veils blowing along the
street, imperceptible patter of feet
over the ancient cobblestone -

       as if there were no one 
       inside, nothing but air
       and muted desire, as if 

there were never
a boat at the dock,
a light at the end

of the tunnel.


                   Image: Miriam Adelman (Street art, Montevideo)