sábado, 28 de março de 2026

Um poema do poeta palestino Mosab Abu Toha

 Refeições diárias durante as guerras.


Em guerras anteriores, nossos vizinhos compartilhavam as refeições conosco no porão. Meu irmão acendia o fogo no antigo braseiro e preparava o chá e colocava a chaleira sobre as brasas.

Havia tréguas de tempos em tempos. Meu pai podia sair a verificar as galinhas e os patos nos galinheiros. Minha mãe subia a escada até o telhado para deixar água em tigelas para os pardais e os pombos.

Os homens eram levados para prisões ou  para campos de concentração. Eles conseguiam ver quem os combatia e quem matava eles e suas famílias

Hoje não vemos os que nos tiram tudo o que é belo.  Nem conseguimos ver nossas sombras durante o dia.  Os F-16 engolem a luz do sol, projetam as sombras das suas barrigas gordas sobre nós, vivos ou mortos.

As bombas esmurram as casas, derrubam-nas, estilhaçam as geladeiras e a louça.  A casa se transforma num  ensopado de concreto e sangue.

Já não compartilhamos refeições com os vizinhos.


(Tradução minha do  poema   Everyday Meals During Wars, do livro  Things You May Find Hidden in my Ear)

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Mais um poema de Rachida Madani (Tangier, 1951)

 

Você não veio ao mundo

para ver os seus ossos embranquecerem

nas águas brancas

de um rio Bou-reg-reg

nem para contemplar a sua sombra minguante

nas estradas da angústia.

Pegue fogo na minha voz, irmão

Tenho o feliz privilégio

de plantar a tempestade.

Levante-se e grite a sua noite

                        se tiver coragem

Levante-a acima da sua cabeça trémula

e atire-a para o chão

                      se tiver coragem

a noite estilhaça-se como vidro!

então deixe a sua canábis falar

quando cantares catástrofes...

Levante-se, irmão

Cada pôr de sol

é um homem morto





quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Um poema de Rachida Madani (Tangier, 1951)

 

Vem esconder-te aqui

bem atrás do meu coração

de lá verás

a vida com os seus dentes longos.

 

Porque é que o sol é tão pequeno

dizes com as tuas palavras de criança

por que não há o suficiente

para todo o mundo?

porque é que o céu está tão baixo

que os meus brinquedos pendem dele?

 

Por que razão esta chuva de lama, fetos

e amantes desvairados na cidade!

Estas mulheres que já não se cobrem

No cobrem nada além do seu número

deitadas uma ao lado da outra

por um copo, um sonho,

um cigarro?

 

Porque uma mulher tão jovem

num caminho tão nu

em direção a esta casa sem janelas?

Por que razão estes corredores, estas cortinas

estas grades

esta solidão

esta sala de estar?

 

Mas paciência dizes, Paciência

Já é tão tarde dizes,

que a água se desfaz

que os homens na esquina

pisam e sopram os dedos

vigiando dizes

pela primeira estrela

para desfazer a aurora.





terça-feira, 26 de agosto de 2025

Poesia contemporânea marroquina .


 

Começo agora este trabalho, versões minhas (sugestões sempre bem-vindas!) a partir das traduções

de Deborah Kapchan, publicadas em Poetic Justice: an anthology of contemporary Moroccan

poetry. (Traduzir diretamente do original em língua árabe ou darija, terei que deixar para quem

consegue!)  Espero que gostem do que aqui ofereço .




domingo, 18 de maio de 2025

De cavalos e cavaleiras. Um olhar inspirado na Cavalgada do Batom Vermelho Serra do Cipo, Minas Gerais. 05/04/2025

 

Visit the link below to check out my contribution to the #maisarte Arts Fair and Exhibit, Serra do Cipó, 

Minas Gerais , May 17th -21st, 2025


Visite o link abaixo para conhecer minha contribuição à Exposição #Maisarte Serra do Cipó, Minas Gerais, 17-21 de maio de 2025.


https://drive.google.com/file/d/14eIo540Fn-y0y9WsMnLdYn0POuwTg3XI/view?usp=sharing







sábado, 22 de fevereiro de 2025

MEU PAI FALA DO PAI DELE - de Bro Yau


Se você não resistisse
A luz de maio quiçá cantasse de outra maneira.
Nos campos de batalha a primavera perdura
E há sangue por toda parte.
Por baixo de tudo, a pele
Do mundo respira, mesmo que
Ela não rasgue. Falar de amor
Não é amor. É esse o segredo que
O meu próprio pai me ensinou.
Ele partiu como uma estação do ano, mas
Uma estação simples, quando pescava
No riacho lamacento e fazia amor
Com a minha mãe, isso era amor.
Alguns amores você não consegue lembrar.
Alguns não tem nome. Eu nasci
De um amor que não perdurou, alguns
Amores são perpétuos, alguns
São como o sol que nasce. Não nascemos
Para lutar, porém, lutamos, e enredamos o amor
Nessa luta, resistimos à mudança
Das estações com história e memória,
Fazemos uma Bíblia do que foi dito.
Não conheço o rosto dele. Nem como dançava
E fazia minha mãe sorrir. Mas sei
Que as vezes ele cantava, e ela ficava contente.


Tradução: Miriam Adelman

Um poema do poeta palestino Mosab Abu Toha

  Refeições diárias durante as guerras . Em guerras anteriores, nossos vizinhos compartilhavam as refeições conosco no porão. Meu irmão acen...