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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um conto de Claudia Bório

Uma nova contribuição da escritora curitibana Claudia Bório:


Manorama


Manorama foi um nome inventado ou um nome que eu ouvi nas notícias. Manorama foi um nome inventado ou um nome que saltou para meus ouvidos, um nome que alguém falou, um nome que gritou chorando do meio da noite para o mundo. Manorama, morando à beira dos campos de arroz. Manorama, seus pés pisavam a lama dos arrozais, os caminhos em meio aos campos inundados. Manorama, à noite somente os mosquitos acariciavam seu rosto. Seu rosto, aos poucos, como pétalas de jasmim, deixava escorrer uma lágrima que secava sem ninguém perceber. Manorama, menina, panorama, o arroz na panela todos os dias. O arroz era sua incumbência diária. Manorama, um dia o arroz não ficou pronto a tempo como deveria. Manorama, um dia eu ouvi seu nome e sei que não foi imaginação. Se foi um sonho, todos devem me perdoar, pois sei que, em algum lugar, Manorama existiu. Manorama, fazedora de chapéu trançado, caminhando com os pés na lama dos campos de arroz, sentindo o perfume das frutas e olhando uma nuvem pesada de chuva sobre as montanhas distantes. Manorama sabendo que nunca, nunca deixaria os campos de arroz. Manorama, um dia, deixou de fazer o arroz na hora certa. Ela nunca sabia quando era a hora certa. Manorama não tinha relógio e às vezes se distraía olhando as borboletas sobre o campo de arroz. Manorama, suas mãos morenas, seus dedos sem enfeites, a panela, o arroz, o fogo no fogão de lenha. O cheiro de esterco dos campos de arroz, a umidade que subia do chão, o calor, o suor aos poucos descendo pela nuca. Um dia, um dia, Manorama deixou de fazer o arroz na hora certa. Um dia, um dia, gritou um pássaro em uma árvore, Manorama, não havia arroz pronto quando os homens voltaram do trabalho no campo. Voltaram, voltaram com fome, voltaram querendo sentir o cheiro do arroz cozinhando na panela e o fogão estava frio, o fogo quase apagado e não havia panela alguma. Um dia Manorama se distraiu e não cozinhou o arroz na hora certa. Um dia, um homem chegou do trabalho com fome. Manorama era tão ninguém, tão nada, apenas um mosquito acariciava seu rosto à noite, apenas a lama se preocupava com as solas de seus pés. As mãos de Manorama sabiam que lavar o arroz com água era a melhor carícia que elas jamais experimentariam. Mas um dia Manorama não fez o arroz na hora certa e ele a matou, por isso ele a matou, ele a matou com um golpe de seu facão. A cabeça de Manorama caiu rolando pela varanda e foi parar na beira de um campo de arroz, olhando para aquela muda pequena mas já carregando um cacho de arroz pesado, muito pesado, pesado demais para ela. Por isso tudo ele a matou, porque o arroz não estava cozido na panela, e Manorama nunca mais caminhou, Manorama nunca mais cantou na beira dos campos de arroz.


Homenagem a Manorama, menina assassinada na Índia porque não preparou o arroz do almoço (de acordo com uma notícia de jornal)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Hoje*

Early in the morning, I catch a train from Barcelona to the town of Mataró, a ride that lasts a little less than an hour (though later a taxi driver who takes me to the outskirts confirms that coming up from the city by car would slash trip time in half ). The women sitting in front of me, one of them nestled asleep in the cushions of her seat, both have very Latin American faces: the sleeping one is dark red-brown with a thin, worn Indian face, the other, a round and middle-aged mulatta. A common sojourn, taking them perhaps from one periphery to another, to their quotidian chores of cleaning or caring or simply keeping afloat.

Heading north along the coast, a still-empty Mediterranean beach stretches out alongside me, and I imagine by the time the breakfast hour has gone by it will be sprinkled with bathers and beach goers. The towns we pass seem almost to repeat the density of the big city we have left behind us, but are not all the same: in one, a reddish brown medieval church spire rises into the morning air; in another, the houses across the road from the railroad tracks have quaint Spanish balconies and weathered wooden shutters and, finally, closer to my destination, become the neat but rather desolate rows of cinderblock constructions that as my new friend reminds me, house immigrants from the Maghreb and sub-Saharan countries lying below. And then, the rise of short green bushes and slender trees as we head by cab through this sparse countryside, toward the equestrian center where I have an interview to carry out. A brief conversation, a half- hour or so spent watching a woman of about my age – a non-practicing veterinarian of about my age who has told me she is the mother of six children – take a riding class, and another, younger, blonde, who exercises a monumental dappled gray . Today, though, nobody tells me anything I don´t already know. Moment of impasse in my work? In my life? To cross an ocean looking for love and change and knowledge, e dar de cara com (a falta de) o desejo do Outro. Or perhaps just more of the same old story: one person´s work is another´s leisure; one person´s pleasure, another’s pain…Again, it seems I cannot avoid handing myself over to the crueler moments of life. O vazio onde esperava a resposta. The stilted choreography of breaking loose. Maybe I didn´t think it would happen again. Maybe not quite this way. I wait, though today rather impatiently, for my ride back to the station.


* Or: "Today I kind of feel like going home..."

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Naumaquia, um conto de Benedito Costa Neto

[Um conto que foi premiado no último concurso Newton Sampaio. É, nas palavras do autor, "uma narrativa sobre o amor paterno". Será publicado na próxima edição do concurso, com outros oito contos de escritores brasileiros.]

Ele viajou, estudou em Londres, passou por diversos países, depois voltou com um piercing atravessando a orelha, palavras estranhas para apontar as coisas mais comuns e um namorado. Quando chegou, não entendi muito bem a figura sempre presente do amigo. Um rapaz de ombros largos, ex-praticante de remo,arquiteto formado por uma federal. Eu não disse nada, e fingia não entender as indiretas de minha mulher e também as diretas dela: você não vê o óbvio, você não enxerga um palmo frente a seu nariz, você só vê o que quer ver, etc. Mas ela me dizia isso a respeito de carros, do meu orgulho pela seleção de vôlei, da política. Era algo que se perdia num lodaçal de coisas ditas, que ao longo do casamento se transformam num mantra e, como num mantra muito repetido, perdiam (e perdem) o sentido. Esperava que um dia meu filho aparecesse em casa com uma menina, tão linda que eu diria a ele: vou trocar sua mãe por sua namorada, muito mais jovem, você que arrume outra, essas coisas de que todos ririam, e eu levaria um beliscão... afinal não criei meu filho de outra forma que não fosse a única possível que era criar um garoto para que um dia esse garoto gostasse de uma garota que viria à minha casa e me chamaria de sogrinho querido, algo assim, mas aqui paro para ouvir a voz do Rodrigo, o amigo de tantos anos: o mundo mudou e todos estão enlouquecidos. O rapaz apertou minha mão com tanta força e por tanto tempo – mostrando um interesse tão vívido pelo pai do amigo, dizendo que ouvira muito falar de mim – que tive de pedir minha mão de volta. Disse que era um orgulho estar na casa de um ex-nadador que fora a Los Angeles e que a casa era realmente mais bonita do que a descrição que tivera. Meu filho fora injusto com o pai. Não as via, mas sabia que as mulheres estavam rindo atrás de mim. Minha filha deu um abraço no rapaz e depois um tapinha nas costas do irmão, dizendo aí, rapaz! ponto pra você! De fato o mundo mudara e as pessoas estavam enlouquecidas, trocando as falas. Os dias foram passando e a presença do rapaz foi ficando mais e mais intensa. Aniversários, almoços, jantares, troca de receitas com as mulheres, conversas amenas sobre política e economia comigo, longas apresentações de fotos de viagens. A cada dia convivíamos mais e mais com o poder esmagador de seu sorriso. Chegou também o dia em que as famílias se conheceriam. O rapaz forte, sem pai, trouxe a mãe e uma irmã tímida, cheia de dedos. Eram pessoas muito distintas e fiquei encantado com o modo como a mãe dele contou como criara os filhos sozinha, principalmente a alegria dela ao ver o filho na equipe de remo e a tristeza pela equipe não ter conseguido ir a Atenas. Falava do filho como tratasse de um herói morto havia muito, mas com que dedicação! Era uma mulher mais bonita que a minha, tivera uma vida mais dura que a nossa, jamais se casara de novo e, com tudo isso, mantinha uma classe antiga, que não se compra em antiquários. Jantar finalizado, cafezinho, o licor que recusaram, conversa na sala que dava para o jardim. Horas depois de a mãe dele haver chegado,após quase duas horas de conversa, estava chorando, do nada, sem parar e com ritmo, por todas as coisas, como diria Guimarães Rosa, pelas coisas vividas e pelas que viriam. Não sei, mas acho que entendia seu choro assim como entendi o abraço carinhoso que ela recebeu de minha esposa: naquele momento elas estavam em consonância e talvez se emocionassem por coisas parecidas. O filho foi ao toalete, trouxe papel dobrado, estendeu-o à mãe, fez um gesto querendo dizer é assim mesmo, ela fica emocionada com qualquer coisa, é uma manteiga derretida, e foram. Meu filho os acompanhou e, como nunca tinha sentido antes,nem em sua despedida para a Inglaterra, anos antes, nem quando foi ao hospitalaos quatorze, quase morto por uma queda do cavalo, jamais em minha vida sentira tão forte uma perda. Esperei as mulheres todas saírem, acompanharem as visitas até o carro delas, e caí no sofá, esperando o sinal da imensa platéia que assistira minha derrota: elas apontariam com o polegar o próprio pescoço para que o outro gladiador me desse o golpe de misericórdia. No clube, comentei com os amigos mais próximos que em meu escritor predileto, Guimarães Rosa, isso tudo seria impossível, ao que fui abertamente recriminado, de novo: eu só via o que queria. Mas Diadorim era uma mulher, eu disse, uma donzela guerreira! Terminei a conversa dizendo que isso jamais haveria em Machado, ao que fui recriminado de novo: vai que Bentinho fosse apaixonado por Escobar! E o que dizer de Proust? Na verdade, queriam me chatear, mas a zombaria dos amigos é um bom vinho: só não mata a sede. O pior sempre foram as piadinhas sobre quem ficava por cima. Evidentemente sempre defendi meu filho, mas quando, no clube, vêem os ombros intermináveis de remador do outro, sobram ironias ou um certo olhar de espanto. Fui a Londres, dia desses, para uma reunião anual com gerentes do mundo todo. Foram dias aborrecidos e solitários.Saí à pé, muitas vezes, olhando os prédios, as ruas, o que mudara em tantos anos – conheci a cidade nos anos 80 – e procurei pelo que teria mudado a vida de meu filho. Vi indianos, gente branca e sem graça, vi os museus, as ruas, os novos ônibus, mas nada que me explicasse algo. Tomei listas, peguei em bares flyers de festas jovens, passei por lugares da moda, mas nada achei. Foi boa a viagem, perguntou minha mulher, ao que respondi: não muito. Londres está tão diferente! Encontrei com os dois no supermercado, meu carrinho cheio, o deles cheio, dois casais a tentar encher uma despensa, um buraco negro, para todo o sempre, dois casais que tentam uma vida em comum. Enquanto a mãe conversava com o filho sobre a nova programação da Sony, passei a observar o que havia no carrinho do meu filho que não havia no meu. Massas, alguns congelados, óleo,verduras, tudo muito parecido, tudo igual na verdade, coisas de comer, entre o que faz bem e o que engorda, coisas que qualquer nutricionista condena ecoisas que vibraria ao ver. Gosta disso? Perguntou o outro. É um tempero meio oriental, mas um pouco forte, ele disse. Se quiser experimentar, fazemos um prato pra você, bem especial, que aprendemos em Amsterdã. Amsterdã, então,devia guardar os segredos que eu não encontrara em Londres. Não, não quero não, eu não gosto muito dessas coisas... modernas. Pai, não tem nada de moderno numa coisa que usam na Indonésia há séculos!, disse meu filho. Mas por insistência da mãe foi marcado um jantar, o primeiro jantar na casa do meu filho agora casado, sem mulher ou uma gravidez para me alegrar. De novo no clube – e a família dele era sócia desde a fundação, ou seja, bem mais importante que a nossa, ele mostrou orgulhoso a placa de sócios fundadores como nome do bisavô – fiquei com vergonha pela primeira vez na frente de meu filho. Ensinara uma criança a nadar, ficara ao lado dela, olhava-a o tempo todo com medo de afogamento, creio que dei muitas vidas a meu filho, como se a medida que fosse envelhecendo passasse para ele a vida que se esvaía de mim.Nunca então tivera receio de ficar nu diante dele, talvez como uma forma de ele conhecer o universo masculino, os tesouros e segredos da vida íntima do homem, tão menos cantada na poesia mas tão fantástica, tão de homem, esse poder que se mostra indiferentemente a nós quando menos queremos, esse poder de jagunços e gladiadores, de reis militares e de astronautas, de atletas ede... Aí fiquei envergonhado. Senti-me velho e pequeno, principalmente diante dos corpos jovens e brancos, depilados como uma escultura. Pela primeira vez em décadas, usei o banheiro fechado, aquele mesmo que era alvo das gozações mais esdrúxulas. Por que alguém teria vergonha de sua nudez? Mas o rapaz era meio assim, um guerreiro e passei a lastimar o fracasso de Atenas. Voltamos sem medalhas de Los Angeles, mas fomos. O rapaz trabalhava loucamente, amava oque fazia, cuidava da mãe chorona, retribuía com um sorriso a carranca da vida. Na casa deles, pedi para fumar um cigarro lá fora. Quer companhia, me perguntaram. Tinham sido bem criados esses meninos, gentis e cavalheiros, com as damas e com os senhores. Disse que não e que ficassem à vontade para tirara mesa, porque, eu disse, isso não era serviço para homem, ao que fui repreendido suavemente pela minha mulher: eu sou a única mulher aqui, então vou ter que fazer isso sozinha! Foram lá os três cuidar da arrumação. Andei pelo jardim, um misto de jardim brasileiro, cheio de curvas, ao gosto de Burle Marx, com detalhes orientais. Uma raia comprida ao longo do muro, para praticarem natação, uma bica nada singela, horizontal, com água perene, ao fundo, luzes estratégicas. Havia uma quaresmeira no fim do terreno, alta e linda, bem mais antiga que a casa, preservada com todo o cuidado. Estava florida e chegara ao máximo que uma árvore dessas pode atingir. De repente o cigarro me pareceu inadequado, pois parecia que eu estava profanando um templo. Gosta? – ouvi. Era meu filho. Fiz questão de preservar, disse ele. Ela me lembra muito a infância e morro de saudade da casa da vovó, dos cavalos, das suas desajeitadas aulas de equitação. Esta árvore é sua presença na minha casa, pai, de um modo ou de outro. E cadê sua mãe, perguntei eu. Não conte pra ela, ele disse, acho que a presença dela está na desarrumação da cozinha, nada muito glamouroso. Um jardim tão cuidado e uma cozinha bagunçada, não é estranho? Há tantas coisas estranhas. O jardim foi todo projetado, mas em função da quaresmeira. Ela, por assim dizer, deu vida a ele. Olhei para a árvore, depois para meu filho, mas eu estava sozinho. Voltei para a sala,sentei no sofá assinado e passei a entender a razão de terem me presenteado com o livro cujo título era O sentido da beleza.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Reciclagem - um conto de Nina Adel

[Nina Adel, minha irmã, mora em Nashville, TN. A tradução do inglês é de Claudia Borio]


Olhando para o outro lado do beco onde fica o apartamento de Baromeo D., com nossos apartamentos de frente um para o outro e as latas de lixo embaixo, eu coloco vários espelhos grandes nas paredes ao lado das janelas. Dessa maneira eu posso ver tudo o que ele faz lá quando as suas cortinas estão abertas, o que acontece na maior parte do tempo. Nesses espelhos aprendi algumas técnicas excelentes para cortar vegetais e fazer um bom molho vermelho, marinar tofu, para limpar pincéis e para fazer exercícios vocais antes de cantar. Ele também tem espelhos, mas meu apartamento, para o qual eles estão apontados, tem uma disposição diferente do dele, e tudo o que ele pode aprender com os seus espelhos é como entupir a esmo um minúsculo closet com centenas, talvez milhares de papéis, caixas e livros.
Espiar é uma maneira fabulosa de melhorar a sua a auto-estima. Você pode ver seu vizinho ou amante ocasional se preparando cuidadosamente para o encontro que ele terá mais tarde com você naquela tarde, um sorriso no seu rosto enquanto ele põe a mesa, arruma a cama de um certo jeito, afofa os travesseiros e os coloca com cuidado, levanta uma sobrancelha ousada enquanto separa a música exata para o tipo de noite que ele planejou. Mas então, no dia seguinte, enquanto você ainda brilha com as recordações da noite que passou com ele, você o vê realizar os mesmos atos, com expressões muito parecidas, aprontando-se para a visita de uma loira alta e magra que usa shorts e uma camiseta, e que passa por sua porta precisamente às 18:57h. E de repente espiar já não parece tão fabuloso quanto antes. (Isto também é verdade quanto a ler o diário de seu namorado ou as cartas antigas de seu parceiro, por favor – eu sei do que estou falando aqui – pare de lê-las imediatamente, vá para outro cômodo, coma uma cenoura com molho de maionese ao invés disso).
Há exatamente três de nós nos próximos meses: a loira de camiseta, a dançarina de cabelos negros e pele cor de canela, e eu, é claro, com meus cabelos escuros e crespos com visual judaico, dando a meu vizinho a diversidade que aparentemente ele aprecia tanto. Mas quem sou eu para reclamar? Se eu pudesse ter tudo o que eu queria, eu veria muito mais o tocador de conga caolho e um pouco barrigudo do outro lado da cidade, que definitivamente não pode se deixar revelar pelos espelhos de Baromeo, ou sua esposa o jogaria porta afora e toda a comunidade estaria pegando em armas.
Eu não acho que as outras duas mulheres saibam que eu existo, mas eu obviamente sei sobre elas, portanto Baromeo não se preocupa muito com encontros públicos. Ele até mesmo me levou a uma apresentação de dança da moça de pele cor de canela, e ao local de trabalho – um restaurante vegetariano – da loira. Se eu não me sentisse completamente embriagada e sem cabeça para nada na companhia de Baromeo, eu teria recusado esses convites, fingindo ter outros planos e nunca admitindo ciúmes ou sentimentos de concorrência. Ao invés disso, eu fingi desejar muito mais o conguero casado. Com freqüência eu desejo mais o conguero casado.
Baromeo é um irlandês alto, de cabelos claros e traços fortes e bem desenhados. Ele é também um ótimo cozinheiro, um excelente fotógrafo, um ator de sucesso no teatro local, um terno professor de criancinhas, um pianista, um cantor com ótima voz, um conversador brilhante, um ativista político e um partidário de causas ambientais. Eu não consigo imaginar como alguém poderia não deseja-lo, como qualquer uma de nós três poderia desistir dele voluntariamente. Eu mal consigo assistir um filme até o final na casa dele sem praticamente derreter na sua cama. Helen, a loira do restaurante, porém, não parece tão interessada. E a dançarina nunca fica a noite inteira.
Várias noites por semana nós jantamos juntos na sua varanda. Nós combinamos o que quer que ele tenha cozinhado com o que eu fiz, o que me força a me tornar uma cozinheira melhor. Da minha sacada, eu canto uma triste balada para ele, e através do beco ele fica de pé na varanda cantando para mim a versão de Al Jarreau para “Spain” – forte e rápido – o que me força a aprender a cantar Al Jarreau ainda mais rápido. Na creche onde ambos trabalhamos em tempo parcial, ele faz brincadeiras maravilhosas com as crianças de três anos, o que me força a fazer brincadeiras ainda melhores com as de quatro. Quando não está jantando comigo (ou dormindo com a loira ou a dançarina), ele tem grandes festas e reuniões, o que me força (quando não jantando com ele ou procurando meu conguero casado) a receber ainda maiores, mais diferentes festas com música que chega ainda mais longe do que as festas dele.
Todavia, quando chegamos à Organização do Lar, eu finalmente reconheço que não posso com ele. Baromeo é tão organizado e caprichoso que ele conseguiu obter um quarto para música, um estúdio para editar filmes e revelar fotos, uma grande biblioteca, uma coleção de utensílios e temperos para cozinha, um guarda-roupa completo e todas as suas lembranças de infância em dois cômodos e meio, um apartamento de um andar sobre uma garagem. Eu estou me afogando em um tumulto de livros, papéis, fotos, cadernos, coisas velhas que eu nunca uso, e coisas novas que eu não consigo encontrar sob as velhas, um violão que eu não toco muito bem coberto com folhas de músicas e dúzias de canções inacabadas, e por último, os ingredientes de uma multitude de caldos e sopas e caçarolas internacionais que eu planejo cozinhar assim que eu conseguir limpar o fogão e os balcões.
Uma tarde, quando consigo limpar minha casa para receber companhia, graças aos poucos metros cúbicos que sobraram de espaço em meu closet, uma amiga de meu pai vem à cidade para um retiro e vem passar a noite. Eu estou aproveitando a conversa com ela, tomando vinho e servindo pequenos aperitivos depois de sair para ouvir música, quando o telefone toca e é o meu homem tocador de conga casado. Sua esposa está fora da cidade, e ele tem música muito sedutora tocando ao fundo.
“Eu senti falta de você”, ele diz, “você não pode vir hoje à noite? Eu tenho que ver você. Meus vizinhos também viajaram, por isso você poderia ficar toda a noite, e provavelmente não terá que sair se esgueirando pelos fundos”.
Apesar de eu ficar tentada por essa última parte – não ter que sair me esgueirando pelos fundos – é fácil dizer não e deixar o telefone, pois minha visita está sentada a cerca de meio metro de mim. Quando eu desligo, porém, começo a chorar e conto tudo a ela, o amante casado, o vizinho romanticamente ocupado, coisas não tão apropriadas para revelar a uma amiga de meu pai. Ela me garante que daqui a alguns anos eu dificilmente vou me recordar desses homens e suas manias. E apesar de eu usar quase todos os lenços de papel enxugando minhas lágrimas, na verdade faltam apenas alguns meses para eu me mudar para a Costa Leste e estudar na American Academy of Dramatic Arts, portanto a sua teoria é bastante plausível.
A mudança revela-se uma ótima maneira de escapar de minha relação competitiva com Baromeo, mas nós continuamos em contato por um certo tempo. Um dia, quando estou temporariamente vivendo em um minúsculo cômodo – na verdade uma varanda fechada – de minha prima no Brooklyn, ele liga.
Enquanto eu converso com ele, sentada em minha varanda, ele está sentado na sua, lá no Novo México, vendo meu velho apartamento sendo limpo para o próximo morador. Ele está rindo dos seis mil sacos de lixo que o pessoal da limpeza tirou de meu closet.
“Você não levou nada, Anna?” – ele pergunta.
Na verdade levei, digo a ele, mas apenas o necessário. Você poderia dizer que eu fugi correndo da cidade. Eu deixei até mesmo o meu carro para trás, um Chevy Biscayne 62, prateado e vermelho, que ficou lá na rua. Alguns meses depois, alguns caras o rebocaram e fizeram dele um carro transformado, para cafajestes passearem.
Baromeo e eu dizemos adeus, mas eu não me levanto para devolver o telefone no gancho. Eu escuto minha prima na casa atrás de mim e continuo olhando para a chuva suja do Brooklyn, esperando para ver o que será de mim.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Casamento e os Marimbondos - um conto de Claudia Borio

[ De outra escritora curitibana, e também grande amiga, Claudia:]


Sentada em minha varanda, coloco os pés sobre a balaustrada de ripas de madeira pintadas de verde. Ao longe, vejo passar meu marido, dirigindo um trator, chapéu de palha na cabeça. Como é que pode um homem ser tão bonito. Pena que beleza não se pode comer. Penso em comer, uma onda de náusea me percorre. Respiro fundo, e passa. Por enquanto é só isso a minha gravidez. Não sinto mais nada de especial, e nem minha barriga começou a crescer ainda. Tenho os pés cansados, como sempre, e as mãos ressecadas. Dá vontade de me levantar para passar um creme, mas a preguiça é muito grande. Agora que o sol está baixando, as moscas diminuíram e os pernilongos ainda não estão atacando, preciso ficar sentada um pouco sem fazer nada. Acho que tenho esse direito. Ainda bem que Marilda, a negra (negra!) Marilda veio me ajudar. Sempre penso nela como "la Negresse". Parece mogno polido, sua pele escura e brilhante. Creio que é um anjo que foi enviado para me proteger. Ela faz feijão marrom como a sua pele para comermos no almoço, encera o chão, guarda as roupas e passa pela casa cantando, cantando.
Em cima da minha cabeça escuto o barulhinho da casa de marimbondos. Está ficando enorme. A cada semana eles acrescentam mais uma camada por fora da casa e ela já está com um meio metro de diâmetro. Quando chega esta hora, no final da tarde, os marimbondos todos correm a se recolher, ficam inquietos junto da entrada da casa. Escuto-os voando, nervosos, emitem pequenos estalidos e zumbem. Eles trazem água para dentro da caixa, e lentamente caem alguns pingos no chão.
Meu marido volta e meia fala que vai queimar a caixa dos marimbondos. Eu sempre invento um pretexto e não deixo. Da última vez, fui para a cozinha e comecei a fazer bolinhos de maçã. Quando ele sentiu o cheiro, largou dos marimbondos e veio lanchar. Simpatizo com eles. Tenho a sensação de que me conhecem. E nunca me atacaram.
Marilda fala:
- Eles não picam a senhora porque a senhora é branca e só usa roupas de cor clara. Eles não gostam de gente escura não, nem de cheiro forte. Cruz credo, não gosto desses bichos não.
Eu gosto. Eles me fazem companhia, trabalhando incessantemente em sua casa, estalando ao por do sol.
Parece ridículo imaginar que marimbondos possam servir de companhia para alguém. Tenho vontade de chorar. Levantem-se pés cansados, toca para a cozinha, fazer alguma coisa para parar de pensar.
Devagar, neste local solitário, estranho, diferente de tudo o que já conheci, começa a se delinear um novo caráter de meu marido.
Um desespero amargo parece ir tomando conta dele à medida que as coisas que ele tenta fazer não dão certo.
Vou notando diariamente que ele vai se tornando uma pessoa cruel, que vai perdendo os traços amigos e sociáveis, que vai se endurecendo e seu rosto vai tomando contornos duros e desagradáveis.
Sua boca, que era bela como a de um anjo, vai se abaixando nos cantos, vai se endurecendo e surge uma ruga feia nos cantos.
Na hora das refeições, ele evita olhar para mim.
Procuro não pensar muito nisso.
Céus, minha barriga está cada vez maior, não pensei que fosse ficar tão grande. Já sinto o bebê se mexendo dentro de mim, com espanto e diversão.
Estava me lembrando dos meus tempos de escola.
Sempre fui muito mimada, criada com tudo do bom e do melhor, freqüentando as melhores escolas, fazendo balé. De grande coisa isso não me serviu. Agora estou aqui, perdida nesta desolação, e descubro que não sei como remendar as calças de meu marido.
Estou puta da cara. Peço perdão a mim mesma por usar esta expressão. Mas até parece que falar palavrões me traz um certo alívio. Puta da vida. Puta da cara. Eu aqui, barriguda como se tivesse engolido uma bola de basquete bem cheia, e descubro que uma semana antes de casar meu marido estava alegremente transando com outra mulher.
Como se isso não bastasse, uma colega minha de escola. E uma que sempre foi o patinho feio.
Vou colocando as calças sobre a máquina de costura e recorto as pernas de outra calca que está irremediavelmente rasgada. Com um pouco de jeito vou colocando outro grande remendo na roupa, fazendo um quadriculado com a máquina de costura. Até que não ficou tão ruim.
As lágrimas inúteis vão caindo sobre o remendo. Tenho vontade de enfiar um vodu dentro do remendo, uma magia negra como já ouvi falar que se põe dentro dos travesseiros, um monte de espinhos amarrados com linha preta. Quem sabe um alfinete enferrujado para ele se espetar e morrer de tétano, desgraçado.
Num acesso de ódio, jogo a tesoura contra a parede.
Ela cai, com um barulho surdo.
Minha serva fiel, Marilda, bota a cara avermelhada e suada na janela e me chama, sorridente:
- Patroa não quer doce de leite? Tá pronto!...
Sem mais o que fazer, enxugo as lágrimas com o outro retalho que não cheguei a usar e me vou, comer doce de leite.
E eu que fiz tanta força para me casar virgem. Que idiota.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

TRÊS de Larissa Pelucio

Um conto escrito por Larissa:

Três

Ele se via diante de três possibilidades. Estava feliz. Três é um bom número. Os números ímpares têm arestas, deixam brechas que abrem possibilidade. São mais flexíveis, uma vez que oferecem mais plasticidade além da rigidez do par. Eram três. Deu um gole triunfante na cerveja e se sentiu ainda melhor. Quente e poderoso. Nunca tinha se visto assim. Sempre havia se sentido feio, inadequado. Desinteressante, nunca. Apenas não tinha a menor chance de mostrar tudo o que tinha por dentro. Aquele turbilhão de sentimentos, de filosofia, de descobertas incríveis feitas entre os livros e a solidão do desprezo.

Três. Estava vingado. Vingava-se da vida. E não era propriamente uma vingança, uma vez que não tinha raiva. Só prazer. Triunfo. César, Napoleão. Era isso. Estava cheio de poder. Um poder inebriante que não nascia da opressão, só da força. Da certeza que Era. Era muito bom Ser. Domino, logo existo.

Quantas descobertas. Quantos delírios. E um mundo inteiro lá fora. Zeus no Olimpo. Sátiro na terra. Baco à mesa. Deu um outro gole feliz e pensou nas três. Uma suficientemente conhecida para despertar ainda interesse. Na sua avaliação, depois de conhecê-la, ela era complicada. A outra, ingênua demais. Problemas futuros, com certeza. Meninas que batem pestanas enquanto falam dão problema, sentenciou com ares de sábio. Mas havia a de número três. Forte. Sarada. Durinha. Carne quente e, certamente, macia. Morena. As morenas são sempre as morenas. Eram três morenas. Era muita sorte. Com certeza, três era o seu número de sorte.

Virou-se para dentro de si mesmo, enquanto as palavras vinham fáceis. Fluíam certeiras, sem qualquer dificuldade. Ele sentia o efeito de suas palavras e saboreava-as. Um homem quando sai na noite se sente um guerreiro, pensou sem filosofia. Mas disse aquilo com uma maestria, com uma simplicidade confunciana. Estava dito. ...Sai pronto para o combate, para o enfrentamento. Nunca sabe exatamente o que vai acontecer. Nem se importa. Alguma coisa vai acontecer. Mulheres, não. Mulheres planejam. Arquitetam cuidadosamente. Armam teias ardilosas. São ótimas estrategistas, mas não entendem nada de logística. Por isso perdem. Saem premeditadas. Tudo foi estudado, excerto a possibilidade de se renderem de forma incondicional. Pronto, estão derrotadas. As mulheres sabem o que querem, por isso planejam. Homens temem todos os desejos que não sejam sexuais. Homens têm fome. Mulheres têm sonhos.

Era o efeito da cerveja. A cabeça fervia verdades axiomáticas, e tudo que um dia fora nebuloso e inacessível lhe era revelado. Mais um gole. Um brinde à superação dos recalques. Dio, como o tempo pode ser bom com a gente! E aquelas três ali. Elas o querem. A três querem. Cada uma de um jeito. Uma quer exercer seu poder; outra se sentir seduzida; a última, ser salva da torre por um príncipe de espada em riste. Ela é ingênua. Um perigo. Sabe, dessas que você tem certeza que grudam, que choram e, que pior de tudo, não dão? Não assim, na primeira noite. Nem na primeira semana. Mas não vamos descartá-la. É bom tê-la assim, aqui.

Satélites. Mulheres satélites fazem com que nos sintamos astros.
Cerveja demais?! Não. Astro, sim. Ele brilha no escuro daquele bar. Sua mente brilha e ele pode sentir que enfeitiça. A noite pode ser interminável. A cerveja pode ser interminável. Os satélites podem continuar ali para sempre. Ele controla a situação sem qualquer presunção de ser deus. Apenas astro.

Mas as mulheres não são satélites. Ela percebem. São percepitivas demais. Já sabem. Só uma será eleita e, como são amigas, preferem não entrar em atrito direto. Duas delas, oh não, vão-se embora. Não. Não. Não. Mas elas se levantaram. E se vão: uma triste, outra sonhadora.

The Game is over. Mais uma ficha, mais um gole. Ele estava com sorte. A número três ficou. Ela não era nem ingênua nem suficientemente conhecida. Ele não era assim normalmente, mas pensou que tinha ficado com o melhor pedaço. Desculpou-se para si mesmo. Amava as mulheres, ainda que as temesse, e não queria ser desrespeitoso pensando nelas como reses. Mas já não era ele que pensava. Homem com tesão não pensam. Júlio César, Sansão, Pares. Todos derrotados pelo tesão. Cleopatrás, Dalilas, Helenas são todas devoradoras. Mas a vida não é um épico nem uma lenda grega. A histórias das vidas de pessoas como nós são todas com “H” minúsculo. Não havia o que temer. Seria só mais uma noite agradável ao lado de uma mulher interessante, vivendo prazeres da carne. Só.

Mas as mulheres são imprevisíveis. Como entendê-las? Lá estava ela ali, a número três. Cada gesto dela dizia “vem”. Cada sorriso pedia mais. Vaidosa e envaidecida ela estava em jubilo. As outras duas haviam desistido, admitido que aquela noite era dela. Ele percebeu isso. Como homem arguto que era, viu tudo o que não se mostrou, mas se disse de forma muda. Ajeitou-se na cadeira. Só mais um gole. Sentiu-se confortável naquele corpo. Disse “vamos”, ela disse sim. Foram.

Aqueles terríveis segundos que separam o fim da dança do acasalamento até a hora de consumar o rito são intermináveis. Arrastados e opressores. Mudos e excitados eles andam em direção ao carro. Ela pensa em tantas coisas, mas nada é suficientemente pesado para tirar-lhe a leveza daquela certeza: ele a quer. Ela pensa nos próximos passos. O olhar, a aproximação, o beijo. Olha-o rapidamente para lembrar como era mesmo aquela boca. Pensou de novo no beijo, e já não estava mais tão certa de que o beijaria. Assim, de pé, ele não aprecia tão interessante. Foi inevitável: comparo-o com seu mais recente homem. Não. Ele não era nem mais gostoso, nem tão interessante. Ela nem sequer o amava. Não poderia. Já estava dentro do carro. Já estavam parados diante da porta de sua casa. Ela não poderia.

Ele não podia simplesmente beijá-la. Era uma impossibilidade do corpo. Travado parou para olhá-la quase pedindo. Ela o olhava quase se desculpando. No olho dela podia ver que ela queria, mas não sei porque porra, caralho, merda, ela não podia. Porra, caralho, merda. As outras duas! Porra, caralho, merda, ela foi embora com aquele olhar dissimulado. Sumiu rápido no vão da noite. Ele só. Ele só e com tesão pensou como era morna aquela mulher complicada e já conhecida. Imaginou como seria bom ter entre os dedos os pêlos aloirados das pernas ingênuas da menina que batia as pestanas ao falar.

Ele se via diante de três possibilidades. Estava cansado. Três horas da manhã. Descartou prontamente, duas das três possibilidades. The game is over. As fichas haviam acabado, a cerveja fermentava dentro de sua alma trôpega. Ele era um homem em estado de natureza. Tinha fome e tesão, sem nenhuma filosofia.

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...