terça-feira, 31 de março de 2026

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.

                   de Mosab Abu Toha

                     versões:  Miriam Adelman


Aldeia Palestina.


Na colina da aldeia, você pode consertar

as rodas do seu carrinho de verduras

com uma pedra que seu avô usava

para esmagar tomilho. Ou esmagar alho com

uma pedra que sua avó usava como trava-porta.

Pode repousar numa cadeira de vime

perto de uma romãzeira,

onde um canário nunca para de cantar.

Pode cavar um buraco com suas mãos

e achar uma minhoca que respira

o frescor da terra reanimada pela chuva de ontem.

Pode fazer chá com sálvia ou com  hortelã.

Se um vizinho ou transeunte sentir o aroma,

o convite a compartilhá-lo é feito.

Aí você coloca mais xícaras sobre a mesa,

 anda até o jardim e colhe

mais sálvia fresca ou mais hortelã.

 

Sem arte

              The art of losing isn’t hard to master.

                      Elizabeth Bishop


Você sabe que tudo terá um fim:

o açúcar, o chá, a sálvia seca,

a água.

 

Até mesmo sua sombra o abandonará

quando não houver luz.

Portanto, conserve apenas as coisas que exigem somente você:

o livro de poemas que só você consegue decifrar,

o mapa em branco de um país,

cidades e vilarejos que só você consegue reconhecer.

 

Perdi três amigos por causa da guerra,

uma cidade por causa da escuridão e um idioma por causa do medo.

Sobreviver a isso não foi fácil,

Mas foi necessário dominar a sobrevivência.

Acima de tudo, perder

a única foto do meu avô

sob os escombros da minha casa

foi um verdadeiro desastre.

sábado, 28 de março de 2026

Um poema do poeta palestino Mosab Abu Toha

 Refeições diárias durante as guerras.


Em guerras anteriores, nossos vizinhos compartilhavam as refeições conosco no porão. Meu irmão acendia o fogo no antigo braseiro e preparava o chá e colocava a chaleira sobre as brasas.

Havia tréguas de tempos em tempos. Meu pai podia sair a verificar as galinhas e os patos nos galinheiros. Minha mãe subia a escada até o telhado para deixar água em tigelas para os pardais e os pombos.

Os homens eram levados para prisões ou  para campos de concentração. Eles conseguiam ver quem os combatia e quem matava eles e suas famílias

Hoje não vemos os que nos tiram tudo o que é belo.  Nem conseguimos ver nossas sombras durante o dia.  Os F-16 engolem a luz do sol, projetam as sombras das suas barrigas gordas sobre nós, vivos ou mortos.

As bombas esmurram as casas, derrubam-nas, estilhaçam as geladeiras e a louça.  A casa se transforma num  ensopado de concreto e sangue.

Já não compartilhamos refeições com os vizinhos.


(Tradução minha do  poema   Everyday Meals During Wars, do livro  Things You May Find Hidden in my Ear)

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...