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terça-feira, 27 de setembro de 2022

CARTA ABERTA AO CRIADOR/OPEN LETTER TO OUR CREATOR


Here you have it again:  working on the translation of this text by Fabio Flora*, and hoping to be able to take it to a reading soon!



Com todo o respeito, Chefia: bem que o Senhor podia aproveitar o domingo de Páscoa, as famílias reunidas, o clima ensolarado de recomeço e mudança para apertar aquele botão (o reset, fique bem claro) e reiniciar o sistema. Mais ou menos como Vossa Excelência fez quando mandou o dilúvio.

Só que desta vez, Patrão, sem o coxinha do Noé, sem aquela arca ecologicamente incorreta e sem essa de salvar só os casais héteros de cada espécie. Não pega bem. Não agrega valor ao Paraíso. Sugestão: deixe apenas três amebas, para ver se de um ménage nasce coisa melhor que o Homo bolsonaris gentilis – essa criatura que, dizem mas não acredito, foi feita à Sua imagem e semelhança.
Não me entenda mal, Eminência: se peço um replay em slow-motion da maior inundação de todos os tempos – e uma garoa de asteroides junto, só para garantir –, é porque andamos precisando muito de um reboot. Quem sabe com a página outra vez em branco nós, e aí incluo Vossa Senhoria, não escrevamos certo finalmente.
Sem tanta linha torta.

Um mundo sem glúten, sem hora para acordar, sem segundas-feiras, sem celulares nos cinemas, sem livros de autoajuda, sem frases bregas atribuídas a Clarice ou Machado, sem acento grave ou vírgula onde não deve, sem fumantes e bebuns, sem juros, sem tomates superfaturados, sem novelas ruins, sem filmes dublados, sem crise de fígado e dor de cabeça, sem humoristas sem graça, sem reaças, sem filas, sem hora extra e serão, sem guerras, sem canções cafonas para promover a paz, sem bandeirinhas míopes, sem PM de TPM, sem manchetes sensacionalistas, sem bundas de plástico, peitos de plástico, cérebros de plástico, corações de plástico – sem plástico, enfim.

Ah, e o mais importante: sem vergonha de dizer eu te amo durante o expediente. 
Mas com vergonha de levar gaita na cueca, com hora de ninar os filhos, com mais sextas de Carnaval, com celulares que toquem valsa, com mais sonhos e pés de valsa, com poesia nos muros (se eles insistirem em existir), com sujeito e predicado vivendo em concordância, com fumantes viciados em cachimbos da paz, com cerveja amanteigada nos botecos, com juras (de amor), com toda a horta em promoção, com novelas que valem a pena ver de novo, com filmes franceses nas periferias, com riso frouxo mesmo depois de um tropeção, com uma horinha a mais de sono, com o Messi no meu time, com policiais sem pimenta, com jornais bem-humorados.

E não nos esqueçamos, Vossa Magnificência, que isto é fundamental: com violinos ao fundo sempre que disserem eu te amo durante o expediente.
Sem mais por ora, me despeço aqui, ó Pai de Todos, Fura-Bolo e Mata-Piolho, desejando-Lhe uma Páscoa trufada de boas intenções e chocolates (sem glúten, lactose e açúcar, cem por cento cacau; que nem divindade da Sua catiguria pode brincar com o colesterol, o Tinhoso disfarçado de gordurinha). Tchau e bença.

* Texto publicado em 2014 no Pasmatório (http://pasmatorio.blogspot.com/). De lá para cá, permaneceu super atual. (Sem mais comentário...)



With all due respect, dear Chief:  perhaps you dear Lord could take advantage of this Easter Sunday, families gathered round the hearth, the sunny weather of rebirth and change, to press that button (the reset one, make no mistake!) and restart the whole system.  Kind of  like what Your Excellence did when you sent out the diluvium.

Only this time, Boss, let's try a go without that bigot, Noah, without that ecologically incorrect ark and that crap of saving only the hetero couples of each species.  It doesn´t go over very well. It adds no value to Paradise. A  suggestion: leave us just three amoebas, to see if from the ménage we get something better than that Homo bolsonaris gentilis,  that creature that they say - but I don´t  believe them - was made in your image and semblance.

Don't get me wrong, your Eminence: if I ask for a slow-motion replay of the greatest flood of all times - and a shower of asteroids together,  to take no chances - it is because we are in dire  need of a reboot. Who knows, with a blank page once again , we—and I include you, dear Lord, in this—can do a better job at the writing.  Finally. 
Without the crooked lines.  

A world without gluten, without a time to get up, without Mondays, without cell phones ringing at the movies, without self help books or corny phrases attributed to Clarice or Machado, without accent marks and commas where they shouldn't be, without smokers or drunkards, without interest, without overpriced tomatoes, without bad novels, dubbed movies, bad livers and headaches, dumb comedians,  fascists,  long lines, overtime; without wars and corny songs purportedly promoting peace, without myopic flags,  without a military unless demilitarized, without sensationalistic headlines, plastic butts, plastic tits, plastic brains, plastic hearts—with no  plastic, at all.

Ah and most importantly: to be able to say I love you, shamelessly,  during the work shift. But with shame enough to carry cash in our underwear, to have time to put our kids to bed, to have more Carnival Fridays, and cell phones that play waltzes, and more dreams and waltzing feet, and more poetry on the walls (if they don't all crumble), with subjects and predicates in agreement, more smokers hooked on peace pipes and buttery beer at the corner-bars, with oaths (of love) and special offers on all the vegetable gardens, good novels to read and French films showing on the outskirts of town, to always  know how to laugh even after screwing up, and get in an extra hour of sleep, have Messi on our team, police officers without pepper spray and newspapers with a hip sense of humor.

And let us not forget, Your Excellence, another essential:  violins in the background every time one says  I love you during the work shift.

Since  I've gone through the list, for now,  let me take my leave here, oh dear Father of Us All, Milk Spiller and Lice Killer, wishing You an Easter layered with good intentions and chocolates (no gluten, lactose or sugar and 100% pure chocolate; as no one of Your stature can play around with cholesterol, you little sneak)
  
Bye for now, and  god bless...


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Life in times of (2)


Como muitas pessoas no mundo inteiro, o horário de passear o cachorro é ‘o filé mignon’ do dia (se me perdoam a alusão aos prazeres carnívoros, um tanto de mau gosto nos momentos atuais, eu mesma acho).  O Zeus é boxer, e brincalhão sem igual – parece confirmar o apreciação feita nesses dias por um velho amigo meu, que disse que a raça, apesar da sobrancelha franzida que lhe  dá ares de pensador profundo, é ‘o palhaço do reino canino’- e só de me ver pondo os tênis, sai dando pulos de alegria que o catapultam a um metro do chão.  Após nossas duas semanas de saídas, consegui traçar o que me parece ser a melhor rota:  saímos à direita, passando pela casa de nossos únicos vizinhos simpáticos, uma família, aliás, que também vive à espreita dos melhores horários para ocupar o pedaço de rua que lhes cabe, para o passeio de bici das crianças;  vamos seguindo o contorno da rua,  passando pelo mato denso de onde alguma vez  a vizinhança foi surpreendida por uns macacos (e bem na época do famigerado pânico da febre amarela), atravessamos a ponte de madeira, e seguimos até a rua mais movimentada, onde passam carros e motos mas ainda assim, raras as vezes cruzamos caminhos com outros humanos, ou humanos com seus respectivos cães).   Depois nos enveredamos por outras ruas, mais tranquilas, arborizadas.

O Zeus sempre vai muito animado, mas tem dia que estou com meus nervos a flor de pele, imaginando os mais absurdos dos encontros possíveis com o diabo do coronavirus – como se fosse uma criatura viva e voadora, capaz de aparecer do nada, do céu, do chão, só para invadir meus pulmões e me fazer mais uma na sua lúgubre lista.   Nesses dias, eu encurto nosso passeio,  e ele, pois, não tem escolha nessa história. 

Outros dias, vence meu lado mais racional, e isso de ter o privilégio de morar num bairro com baixa densidade populacional e pessoas que evidentemente, até agora, vêm respeitando a quarentena, me anima também.   Por exemplo, ontem:   

a primeira manhã mais fria, e andamos para mais longe, exploramos as duas ruas sem saída perto do parque – onde preocupadamente  percebo os sinais de destruição das fitas que barravam, pelo menos simbolicamente, a entrada – mas ainda  somos  nós os únicos representantes das nossas respectivas espécies.   À distância, vejo os trabalhadores da prefeitura, fazendo a costumeira poda da densa vegetação que contorna a  rua, conversando entre eles, como se todo estivesse normal, mas quando chegamos mais perto de onde estavam, já tinham ido almoçar. 

 Passamos por uma casa onde o foodtruck de pierogi antes ficava estacionado na rua. Agora está bem encaixadinho na entrada, com uma placa convidando o pessoal a ‘buscar  aqui sua encomenda’.  Não tem ninguém à vista,  mas sim um grande cardápio, e ao lado, um pote bem gordinho de álcool gel.

Embora outras opções existam, seguimos o mesmo caminho de volta -  menos gente, e menos cachorro também, já que o Zeus, apesar do sua cara que assusta alguns humanos que não sabem muito bem a diferença entre boxer e pitbull,  é facilmente amedrontado e principalmente, por cães bem menores do que ele.  Chegando perto da ponte, vejo o contorno de uma pessoa, na verdade, de uma mulher e uma criança, a mãe agachada e conversando, mostrando alguma coisa à pequeninha. Reconheço a sujeita – uma jovem que quando criança, brincava com meus filhos, quando nossa rua ainda não era asfaltada, quando ainda parecia chácara ou bairro do interior por aqui, quando as pessoas ainda chegavam até botar uma grande mesa de madeira bem no meio da estradinha para festarmos, todos juntos...  Mas nesses últimos tempos, outras coisas aconteceram.  Muitas coisas, muita ‘água embaixo da ponte’.  Também literalmente.

Vejo que ela já me viu. Vira mais um pouco de costas, enquanto vou chegando mais perto.  Motivos, uma de duas.  Ou duas de duas. Não sei.  Pretendo passar reto.  Ela, sem levantar, alça a cabeça, vejo o esboço de um sorriso tímido, e ela me cumprimenta, falando meu nome.  E eu aproveito o momento, pois havia muito tempo que lhe precisava dizer umas quantas coisas.   Olhei para ela:
    - Sabe, fulana, eu não costumo conversar com eleitores do Bolsonaro.  E muito menos com vizinhos que xingaram meus filhos.  Que vergonha, hein? Quanto preconceito.  E quanta tragédia que estamos vivendo,  graças a vocês.

Ela, que tanto tinha vociferado, no grupo WhatsApp da rua, ela, a mais fanática, a mais negacionista, a mais ridícula e braba de todos.  Hoje fica lá agachada, olhando timidamente para mim.  Sem palavras.    

Zeus e eu seguimos nosso caminho, e me pergunto se terei ainda a oportunidade de tirar esse peso de cima, de olhar para a cara de outras pessoas que conheço, e dizer bem isso, o que a gente está guardando dentro, para quando vier o momento cara-a-cara.  E sabendo também que isso não mudará nada.  O rumo da história, as péssimas escolhas de muitas pessoas, e tudo o que virá por causa disso.  Volto a casa, apenas um pouquinho mais leve.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Life in times of....


This is a morning that was meant to be beautiful.  I open the shutters onto a quiet neighborhood, but here  it is always quiet, even at 9:00 on a Friday, when many of those who have work and school routines are already out.  I can hear the birds outside, busy at their communication, but again, that is the way it always is.  We’ve had days of zero rain, perfect sun - perfect to hang out blankets and clean laundry and soak in our 15 recommended minutes per day – but in the reservoirs of the city, levels are dropping,  a warning that even that simplest of pleasures may carry ill omen.   I don’t want to read the news this morning, need to preserve some morning calm and the chance to throw myself into my pages, for at least several hours, but somehow have not been able to block the British scandal sheet that pops up from time on my screen, always with the worst of it all. (Which celebrities have succumbed, soaring number of new cases, delusions of cure...)  I grab a sweatshirt  from my open wardrobe, so proudly finished last year, after over 20 of living in this house we  built, but rather than admiring my persistence or its design, or admonishing myself over the ease with which my organization turns into mess, I wonder about the dresses that are hanging there, the folded sweaters, the pairs of different colored jeans, the two suitcases nestled away on the overhead shelves, and wonder when I will ever use any of this again.  Last night I dreamt that two very dear friends from a Central American country had come to visit me, and how I was torn between the joy and the apprehension of their surprise arrival.  And when I awoke, I thought of my niece, caught in the newest epicenter of the crisis, and of the rising red alert. And about how despite the fact I have envied the friends who live out the country surrounded by their dogs and horses and almost able to live “life as usual” (inveja da boa, as we say around here!) I am still in this little corner where the birds always sing, and it is always quiet, and we can almost feel that it is just an  ordinary morning, and go on with our work – and for now,  that makes us lucky.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Tales of one city (uma crônica em elaboração)

TALES OF ONE CITY (uma crônica em fase de elaboração)
Lembro claramente do choque que tive quando cheguei a Curitiba, início dos anos 90, após muitos anos morando primeiro, na cidade de México e depois, em NYC, e me vi diante de atitudes cotidianas de pessoas da classe média curitibana 'típica', que eu - sempre esperando o melhor - logo descobri preconceituosas, egoístas, com preocupação quase exclusiva com a própria família, a pesar de todos os conflitos que esta última também lhes trazia. Com isto eu quero dizer que era totalmente evidente que eles, como todos nós, passavam por muitos problemas nas suas vidas pessoais: nos seus casamentos e relações amorosas, com seus filhos, com o próprio desejo, com a violência doméstica e assim por diante; contudo, mantinham tudo recalcado, disfarçado, para tentar sustentar publicamente a cara da 'família tradicional feliz'. Nunca tinha me visto diante de tanta hipocrisia.
Nem preciso dizer que a palavra 'feminismo' era anátema. Na época, porém, eu me dedicava à pesquisa que nesse tempo pertencia a meu projeto de doutorado. Era sobre 'relações de poder no casamento'. Assim, mesmo sem carro e sem conhecer bem a cidade, eu pegava ônibus para cima e para baixo, gravando entrevistas com mulheres de 'classe média' e 'classe trabalhadora', empregadas, profissionais, donas de casa, que davam depoimentos sobre o que era, para elas, ser mulher casada, com filhos pequenos, nos anos 90. Das muitas que eu lembro - e sobre as quais já escrevi - lembro de uma moradora de periferia que me recebeu na sua casa - uma casa de material, linda e super arrumadinha- cujo marido tinha oficina de mecânica, tipo 'fundo de quintal'. Ela me disse que seu marido a tinha proibido de trabalhar fora, mas ela, desejosa de uma atuação fora do âmbito doméstico, inventou então de fazer um trabalho voluntário 'com os pobres' ... se me lembro bem, ajudando outras mulheres a aprender a ler e escrever. Pois o que ela mais queria, mais ainda do que ter o 'dinheiro dela' (importante para tantas mulheres que falaram para mim das suas necessidades de autonomia financeira) era participar da vida pública e social. Ela que era uma mulher católica, e não tinha vínculo algum com a vida política organizada. Nessa época, vale acrescentar, eu ainda falava mais portuñol do que português, mas mesmo assim, arregacei às mangas e me joguei 'no campo', onde logo comecei a conhecer esse outro universo, que contrastava com o egoísmo e 'umbiguismo' que prevalecia no bairro de classe média em que a gente morava. Foi também nessa época que sofremos uma situação de abuso por parte da proprietária do prédio onde moráva
mos, bem nesse bairro de 'classe média típica curitibana' (notem bem as aspas, pois nas ciências humanas, sabemos que as generalizações são tanto necessárias quanto tristemente enganosas..) Essa experiência foi , para mim, uma marcante aprendizagem também, lição sobre algumas 'raízes do Brasil'... pois a proprietária e sua família (que incluía um marido bem tipo coronel que bebia muito e a quem ela detestava, embora como parceiros de negócios defendessem seus 'interesses' a unhas e dentes) vinham do interior, onde tinham sido fazendeiros; falavam dos empregados da fazenda com muita condescendência, e ao que tudo indicava, conosco, que morávamos no prédio que eles construíram para poder viver de rendas aqui na cidade, esperavam ter o mesmo tipo de relação bizarra. Bom, para encurtar a história, pelo menos por enquanto, vou contar que desatou-se um conflito por conta de um simples questionamento que lhes fizemos sobre ajuste de aluguel, que se traduziu em mudança completa comportamental dos srs: da atitude paternalista, para o assédio cotidiano (tipo de desligar a eletricidade quando estava no elevador com meus dois filhos pequenos, ou fazer uma macumba na porta da nossa casa..). As outras famílias moradoras do prédio também sofriam das arbitrariedades dos proprietários, mas quando falávamos com elas para obter um pouco de apoio (moral, antes de mais nada), diziam que a pesar de entenderem perfeitamente, 'não queriam se meter'. Daí outra vez, a gringa que eu era, que eu sou, de certa maneira, se chocou, pois nunca na minha vida tinha vivenciado essa absoluta falta de solidariedade vindo de outras pessoas adultas e que se sabiam diante de uma situação de injustiça... Bem, embora sendo uma triste introdução a uma 'cultura local' que não consegui esquecer, eu, como a pessoa otimista que sou por natureza, logo 'esqueci': a gente se mudou, e eu embora detectasse essa mentalidade em outros lugares e outros 'personagens', fui dando mais importância a outras coisas- ao nosso trabalho na UFPR, aos meus filhos que cresciam e se tornavam excelentes pessoas, aos e às jovens que eram meus alunos e alunas na universidade, cada vez mais questionadores, abertos para o mundo, críticos de discursos e práticas antigas , esses que sustentam até hoje ainda terríveis desigualdades de classe, raça e gênero e poderes simbólicos violentos e podres. Botamos nossos corações e mentes numa luta que estava nos levando para algum lado, permitindo a visão de um mundo solidário, e talvez, com sorte, ainda a sobrevivência de um planeta tão destruído e depredado pelo egoísmo e cobiça humanos....
PS Esta história nem tento finalizar ela hoje. Prefiro deixá-la em aberto, pois há tanta coisa em jogo agora, neste momento e conjuntura. Será que terei que retomar o fio, em tons absolutamente trágicos? Será que ainda há pessoas que 'dormiram no ponto' e podem acordar?


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Scenes from the neighborhood/Cenas do bairro



"What would he do without his horses?" asks Dona Benedita, the common law partner of 'Zé dos cavalos [Zé of the horses].  She explains that she also rode - how she loved country life! - when she was a girl.  Benedita and Zé live in a northern neighborhood in the city of Curitiba, where they have now spent more than thirty years, working, raising a family and observing the intense change brought about as more the metropolitan area has been urbanized (and neighborhoods like their own, situated at the jaggedy edges of gentrification processes, a mix of middle class residences and ramshackle constructions which bring the word favela to mind).  The couple, along with their children and grandchildren, have managed to get by, resisting the onslaught of ruthless patterns of urban development spearheaded by the interests of a lucrative construction industry:  an affluent neighbor has complained about manure and animals, but the kids in the hood who happily hop onto one of Seu Ze´s  horses and head off over the hills where the power lines impose building restrictions are the happy beneficiaries of a paradox.

'O que faria ele sem seus cavalos?' ,  pergunta dona Benedita, a companheira do 'Zé dos cavalos'. Ela explica que também montava - como amava a vida do campo !- quando era menina.  Moradores de um bairro do norte de Curitiba há mais de 30 anos,  eles continuam cultivando uma vida que para outros pode parecer um resquício de tempos passados, que não produz nostalgia ou respeito em todo mundo - Dona B. conta, por exemplo, que há vizinho que reclama dos cavalos, hoje 7, que eles mantém.  O casal, junto com filhos e netos,  moram em um dos muitos bairros da cidade que ao longo das últimas décadas vão sendo profundamente modificadas - casinhas de madeira cedendo pouco a pouco a condomínios e sobrados de classe média alta ou baixa, ruas que antes eram de terra sendo cobertas primeiro com anti pó e depois, camadas de asfalto - que também, com a passagem do tempo e das águas, vão  se tornando irregulares e esburacadas, mas sem deixar de permitir o aumento do trânsito dos automóveis.  Mas Seu Zé e seus cavalos resistem - as torres de luz e o morrinho que as abriga formou uma barreira não intencional ao apagamento de suas condições de sobrevivência -   e para a garotada que mora aí perto, poder subir num dos animais em um sábado ou domingo ensolarado, como o dia de hoje, é um grande luxo, um prazer e um paradoxo da vida nos interstícios.


Dona B,  março 2016.  Imagem:  Miriam Adelman








segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Gracias a la vida"...

Com algumas modificações, vai uma crônica que escrevi mais de uma década atrás. Acho que hoje dá para postá-la aqui, agora que eu posso dizer que faz parte das vivências da época da 'minha juventude’ .

Gracias a la vida...

Ele sempre me olhava com esses olhos grandes, escuros meio esverdeados, e me fazia perguntas engraçadas: “Professora, como serão as relações entre os homens e as mulheres no futuro?”, ou “Professora, quero estudar ‘a noite’. Não é alí que as pessoas se procuram, para se acasalarem?” Ou afirmava, outra vez com aquele sorriso, aquele rostro iluminado, “Professora, eu quero estudar essas coisas ... do feminismo!” E olhava para mim de uma forma intensa, acesa, urgente.

Eu comecei o levando na esportiva, quase resistindo, achando que afinal de contas, deveria considerar sua atitude como elogio, como identificação. Era tão bonito ele, mas tão menino, com o andar ainda de pós-adolescente, o tom sempre ingênuo de suas perguntas. Mas continuava a me procurar. E vinha com suas histórias: a ex-namorada, de família rica, que pôs fim à relação com o jovem com poucas chances de se tornar um bom provedor, um bom senhor esposo para uma advogada; o irmão mais velho, que quando tinha quatro anos e ele dois, o empurrou da janela do segundo andar e até hoje o acusa de ser um incompetente que “só estuda para comunista”; a mãe separada que é artista plástica e gosta de inventar teorias “do nada”, o pai que se maravilhava com o menininho que sempre gostava de conversar com todo mundo e que até propiciou sua ida para o Peru, mas com quem já não gosta mais de morar...

Acho que qualquer uma na minha posição poderia começar a se envolver. O será só eu, a eterna carente? Um dia ele me pergunta, “Não entendo quem é que começa o relacionamento, o homem ou a mulher.” E eu aproveito, “Quer dizer, quem que começa, você ou eu?” “É, isso.”

Convido ele para almoçar no dia seguinte, e ele aceita. Chega ao meu escritório até meia hora antes do horário marcado, lindo, o rostro iluminado. Passamos umas horas legais: a conversação, as risadas, animados, felizes. Mas a gente não se toca. Nenhum sinal de aproximação vem de ele, e eu fico morrendo de medo, pois o que é que uma quarentona como eu pode esperar de um rapaz daqueles, qual a liberdade que posso tomar? Qué confusão, penso eu. Eh, menina,, veja só como você gosta de arranjar para você umas belas confusões! E quando quase sem linguagem para isso acho a forma de perguntar, ele me responde como surpreso, que não é nada disso, como se não houvesse nada no caminho para me indicar, como se todas as palavras e olhares dele valessem muito menos que seu peso, seu som, sua textura...Mas eu as ouvi! Eu estava te vendo! Lógico que isso não falo, falo só que tudo bem, não se preocupe, imagine... E me conta a história da menina do curso de geografia, a colega com a qual ele gostava de conversar, como foram no cinema, e depois para a casa dela, e depois para a cama dela, e depois ele, arrependido, está com a menina “o perseguindo” por todo quanto é canto da faculdade...

Como é que eu posso entender essa vida!! No carro, conversamos mais, deixo ele em frente da reitoria, a gente se abraça, sinto o corpo, o calor dele. Estou com uma vontade danada de chorar, mas só digo, “Não se preocupe. Conte comigo” Continuo reto, vou assinar o recibo da tradução, vou buscar o filho, pôr o jantar na mesa, os meninos na cama, o tempo todo com um vazio expandindo-se por dentro.


Depois, esses largos dias na Patagonia, tardes de vento, as montanhas- finalmente vejo a Cordilheira dos Andes! - e eu com sua figura me rondando, eu que não consigo esquecer. Gracias a la vida que me ha dado tanto, cantamos com meus amigos pelos caminhos pedregosos da Carretera Austral. O sul do Chile é tão belo e me faz lembrar outros momentos desta longa vida de menina atrevida. Tá bom, já vivi muito, já sei que “paixão é doença”, ou que, em todo caso, minha própria paixão pela vida continuará sempre sendo maior do que a paixão que pudesse chegar a sentir por qualquer homem. Que todos os homens que conheci intimamente, com uma só exceção, sempre acabavam se mostrando pequenos frente à generosidade de espírito da qual nós mulheres somos capazes. E assim por diante...

O vento varre a Patagonia, bate na noite nas asas da barraca, canta com fúria nas tardes, na casa da Carla e do Enrique, antes da chuva. Em Buenos Aires, ando feliz. Compro mais cds e fitas de música latinoamericana e uma saia vermelha para sair à noite, e quando saimos uns jovens na rua me vêem feliz, e dizem, Mira como esa mujer está hermosa! E eu sei que é minha coragem que é grande e talvez hermosa, que a paixão se apaga e a vida continua, que eu andarei por essas ruas e muitas outras, que amarei muito aos meus amigos e aos meus filhos, e esse enigmático muchacho, talvez muito mais “muchacho” do que enigma, irá já ocupar seu lugar fugaz na minha história. E, é verdade. Gracias a la vida...

sexta-feira, 25 de março de 2011

DES LIENS ET DES RAPPORTS.

Le thème des relations amoureuses, est le sujet de conversation préferé de bien des gens aujourd’hui. Certain jour, mon ami G., un français qui a habité en Afrique pendant un certain temps et qui croit être une véritable autorité sur son peuple, m’a parlé de son désir d’embrasser la polygamie. Pour lui, et il insiste, c’était impossible satisfaire ses besoins – sexuels, emotionels, intelectuels – avec une seule femme. Ça ne m’a pas surpris parce ce que je connaissais bien cet ami et ses idées saugrenues . De plus , j’avais déja lu un livre sur l´histoire de la construction de l’imaginaire masculin occidental sur les « harem » - « Scheherazade Goes West » par la sociologue et écrivaine marroquine, Fatema Mernissi. Celle-ci décrit la longue tradition discursive des hommes qui cultivent ces fantasmes : ils s’imaginent toujours entourés par des belles femmes, sensuelles, sexuelles, jeunes et bien disposées à leur procurer du plaisir. Je n’ai donc pas hesité à protester avec mon ami, "Ce que peut être paraître interessant pour toi, ne serait jamais le choix des femmes".


C’est ainsi qu’est née ma grande curiosité pour la realité des femmes et familles africaines qui demeurent dans cette structure. Je connaissais seulement les textes de Mernissi, ses mémoires qui racontent principalement des situations où les femmes utilisent des méthodes ingénieuse voire violentes pour résister ou se moquer des règles et coutumes patriarcales . Elle a dit, par exemple :

"In my native Fez medina, women staged huge uproars when their husbands married a second wife, holding funeral-like protests, during which their friends and relatives wailed along with them in the harem courtyards. The fact that polygamy is institutionalized by male law does not make it emotionally acceptable to women. Many queens, as historians have written, suffocated or choked their husbands’ plans to acquire a second wife, or when the rival actually arrived in the home. Still other historical records show that it was often the women who were the victims of [another woman’s] jealousy.” (p. 156)

Après un temps, j’ai connu un professeur africain, directeur d’un lycée dans un des pays les plus pauvres de d’Afrique de l’Ouest . Un jour, je lui ai posé des questions sur la polygamie, sur les visions et le vécu des Africains de son pays. Le professeur, une personne très reflexive, m’a répondu initialement à partir de sa propre expérience :

"..de part mon éducation, il me serait très difficile de parler de çela ,sans parti pris, car dans la famille dont je suis issu, tout marchait bien. Je me sens plus heureux avec mes deux mères. La preuve en est qu’alors que ma propre mère ne vit plus, j'ai toujours l'impression d’avoir une autre mère."

Ensuite, il m’a proposé son aide pour obtenir une perspective « plus réaliste », en faisant un sondage auprès de ses élèves afin de mieux comprendre l’évolution des points de vue de la jeunesse. Tenant compte des bouleversments liés aux transformations et à l globalisation du monde, les premiers resultats de l’enquête ne me paraissent pas remarquables : des 159 élèves garçons et filles, de 11 à 14 ans ou plus, 14,46% sont « pour la polygamie » (16,98% des garçons et 9.43% des femmes) et le 85,54% des élèves (83,02% des garçons et 90,57% des filles) sont « contre ».

Tout d’abord selon les statistiques connues, les societés qui pratiquent la polygamie , sont presque exclusivement de type « polygynie ». L’homme se marie avec plus d’ une femme ; la situation inverse est peu commune. Si pour mon ami Monsieur G., bien amusé avec son imaginaire « orientaliste » ( pour reprendre le concept d’ Edward Said, enrichi des significations de Mernissi !) et libéral, la polygamie peut permettre « les mêmes possibilités » de liberté et de plaisir aux hommes comme aux femmes. Mais je sens que son argument n’est pas très consistant…Sa proposition est une possibilité presqu’exclusivement théorique, face à la realité historique et culturelle du pouvoir patriarcal et ses infléchissements entre autres religieux et économiques.

On peut argumenter à partir d’autres critères, par exemple en s’appuyant sur les affirmations d’une fille qui a participé à l’enquête de mon ami directeur de lycée. Cette fille fait partie du petit groupe qui s’est prononcé « pour la polygamie »,

"Je suis pour la polygamie parce que si j’étais à la place de mon père j’aurais dû me marier à deux femmes car si tu te maries avec une seule femme au cas oú elle est stérile oú au cas ou elle meurt que ferras-tu ? Une famille polygame permet d’avoir beaucoup d’enfants et permet d’être entouré quand tu serras vieux."

Ce témoignage offre il est vrai une perspective sur le mariage très différente de celle qui est à la base de l’amour passion/amour romantique – un autre mythe de notre culture occidentale moderne, liée à la naissance de l’ individualisme, de la famille dans sa version bourgeoise et protestante et, peut être, des nouvelles formes de domestiquation des femmes. Dans l’énoncé ci-dessus nous pouvons observer l’importance des questions materielles, des besoins de survie des personnes, de leurs préoccupations pour la réproduction des générations – et parfois, peut-être, des formes de solidarité inconnues parmi nous, « les occidentaux ». Mais ces relations provoquent aussi on beaucoup de malaises, de rivalités et de conflits. Dans leurs récits de femmes du monde arabe et africain que je découvre à travers les oeuvres de Mernissi et des sénégalaises Mariama Bâ et Fatou Diome, la polygamie n’est pas apreciée par les femmes. Elle est au contraire, clairement representée comme un système qui produit de la souffrance et limite la liberté, les choix et les actions des femmes. Parfois, elle est à l’origine des pires humiliations ou brutalités. Ramatoulaye, personnage du roman de Mariama Bâ, Une si longue lettre, en réflichissant à son expérience et celle des autres femmes au sein des structures polygames, en rêvant d’ une autre vie possible, a dit :

"...being the first pioneers of the promotion of African women, there were very few of us. Men would call us scatter-brained. Others labeled us devils. But many wanted to possess us. How many dreams did we nourish hopelessly that could have been fulfilled as lasting happiness and that we abandoned to embrace others, those that have burst miserably like soap bubbles, leaving us empty-handed ?"

Moi, je dirais que nous, hommes et femmes « occidentaux », emmènons notre propre baggage, produit d’une histoire qui converge et diverge avec celles des autres peuples. Je suis plutôt incliné à être d’accord avec le point de vue de Martha Fineman, chercheuse américaine, lorsqu’elle dit que nous n’avons pas de besoin de faire appel à l’ État pour sanctionner nos relations intimes, mais bien (exclusivement) pour garantir les soins et les droits des personnes vulnérables – les enfants, les anciens, etc. Si la societé (État, économie, culture etc. ) promouvait vraiment les droits de tous, la nécessité du mariage comme forme de subsistance, pour n’importe qui, disparaitrait… Et nous aurions davantage de liberté pour rechercher les formes diverses d’intimité, de sexualité et de solidarité qui nous plaisent...

Ah, mais ceci est une autre histoire, aussi longue, que je laisserai pour un autre jour...

[Remerciements à Pierre et Germano, pour la révision!)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Outros rumos...

[primeira parte]

Finalmente, realizo um sonho da minha juventud: uma viagem ao terra dos Incas, ao Peru. A proposta da viagem surge em última hora; na verdade, pensávamos viajar para outro lugar, mais distante, desistimos da ideia – encarar de novo despesas em euro, trocar nosso tão desejado verão, mais uma vez, para o frio do continente europeu, etc. É assim que embarcamos, no final de janeiro, no final das férias que quase se acabam sem romper muito o ritmo costumeiro do trabalho, com passagens obtidas por “milhas TAM” e sem ter tido muito tempo prévio para informarnos ou nos preparar para o que vendrá...

No primeiro dia, vamos navegando as ruas barulhentas de Lima, um trânsito totalmente maluco de carros que parecem empilharse uns sobre outros, motoristas que não param de buzinar, cobradores de ônibus cujo trabalho parece consistir em pular do vêículo a cada quadra, anunciando a rota e chamando o pessoal para subir. Vou conversando com uma dos meus acompanhantes, a Julinha, de nove anos, quem já passou 15 dias nos Estados Unidos, conhece uma boa parte do Brasil – desde o sul e a cidade de São Paulo até as praias e capitais do nordeste brasileiro - e claro, tem assistido filmes e noticieros mostrando incontáveis imagens de todos os cantos do planeta. Por não dizer que antes de embarcar, eu não tinha perdido a oportunidade de falar com ela sobre o Peru, olhando o mapa e fazendo alguma fala, ainda bem “basicão” (afinal, que tanto sabia eu sobre o tema?) da sua história e cultura, tão embebida de raízes indígenas, histórias de resistência, conquista, sobrevivência, miséria... “Julia”, eu pergunto, “isto te lembra àlgum lugar que você já conhece?” Ela fica pensativa uns segundos e logo me responde, “Eu acho que … se parece com a Índia!”

Em Cuzco, ficamos num “Bed and Breakfast” econômico, longe do tão belo centro histórico, num bairro proletário … até a rua onde se localiza chama-se “Avenida Industrial”. Na verdade, os quartos ficam no quarto andar acima da casa dos donos, uma família que trabalha com o turismo. Subimos por uma escada caracol que dá ao andar onde ficam os hóspedes, e desde a qual se sente um leve cheiro de esgoto, pois é, problemas de encanamento. Nossos vizinhos, simpáticos, nos acordam antes da 7 da manhã, conversando e fazendo seu café ou assistindo t.v na área comum que fica de ladinho. Mas logo no mesmo dia, Macchu Picchu o compensa todo – embora inundado por um constante fluxo de turistas (há alguma outra possibilidade?), se conseguiu isolar um pouco o sítio (nada de banheiros e lixeiras lá dentro, só as ruinas e as paisagens inigualáveis, entre os picos das montanhas)- viajamos no tempo, respirando o ar mais puro que jamais sentimos, total admiração por um mundo tão astutamente elaborado a partir de um profundo conhecimento da terra e das estrelas... (como diz outra pequena menina brasileira que descia as escadas de pedra, conversando alegremente com a mãe – “Esses incas, eles eram muito espertos!!)


Nos próximos dias, percorremos vários sítios arqueológicos, tentamos conhecer um pouco da cidade de Cuzco e seus alrededores, vamos numa excursão pelo Valle Sagrado até o pueblito indígena de Chinchero, com uns dois mil habitantes. Lá assistimos a exposição proferida por Naydé, uma moça que trabalha explicando aos turistas, num espanhol ou inglês fortemente marcado pela intonação da sua língua materna, o quechua, como se fazem as mantas, chales e tapetes de forma tradicional, desde a lavagem da lã de alpaca com um sabão que se faz expremendo um tubérculo até o uso de ervas, flores e o milho azul, para obter as tintas. Um saber que se passa de uma geração de mulheres a outras. Andamos um pouco pelas ruas, conhecemos a catedral. Meu filho fica, como sempre, indignado. “E esses malditos espanhóis com seu catolicismo, como conseguiram! Aqui todo mundo, indígenas e não, acreditam em tudo isso!” Eu me encanto com o lugar, com suas ruas de pedra, suas casitas de adobe, as crinças que brincam, as menininhas que se aproximan de nós para vender bonecas feitas “por nuestras mamás”, o atardecer que cai enquanto por aí caminhamos. Mais tarde, nosso guia nos disse– “Pero no se crean, estas personas tienen mucho dinero!” “Como assim?”, pergunta, incrédula. uma senhora italiana que faz parte do nosso grupo. “Pues si, acaban de aprobar la construcción del aeropuerto internacional de Cuzco, aqui en Chinchero. Saldrán los vuelos directos de Europa para acá, muy cómodo para los turistas que vienen por un sólo dia, sólo para conocer Macchu Picchu. A algunos de aqui les conviene, a outros no...”. Na saída do pueblito, vejo as letras carrafais pintadas num muro- "Si hay atropelo a nuestros derechos, no hay aeropuerto! Chinchero es tierra indígena!"
E por aí rola a história...
Eu como simples turista, me impressiono com tantas coisas – as senhoras indígenas que nos assediam constantemente para que compremos suas artesanatos (se pudiera, lhes comprava uma coisa a cada uma!), as casinhas de barro dos pueblitos e as crianças andando pelos campos com seus cachorros e alpacas como fieis companheiros, a pobreza tão visivel de quase todos, os cartazes pré-eleitorais (mas eu não estou informada, não sei quase nada sobre a política atual peruana, só vi um artigo num jornal no qual um candidato que apoia o direito ao aborto e as parcerias civis – ah, pós-modernidade! - é duramente castigado por atentar contra a “lei natural” da sociedade – é, velhos discursos que já conhecemos...)...

(a continuar)

sábado, 27 de março de 2010

Tunisia, part II.

It is windy, very windy and the sand blows over the desert in a gauzy white veil. We are there, my son and I, part of group coming from Spain in which we are the exception – the other 20 odd folk are all young Spanish university students, from Barcelona and Madrid, Valladolid and Granada. We mount the camels that are waiting for us and begin our saunter into the dunes: a tame ride on the fringes of the Sahara, where the sands have not yet taken on the reddish-ochre glow of the “deep desert” postcards we have seen. In fact, this is but a common ride offered to tourists, two or three camels pulled by taciturn men who seem disgruntled with their task. They become even more so when I exchange my odd mount for a better one - the fiery red Arabian horse who is offered to me, too tempting not to accept after so many years of nurturing my own “Orientalist” fantasy of deserts and desert horses…


As the days go by, we get to know our fellow travelers better. The young Spanish students in our group seem to take in everything with a definite enthusiasm for difference (the “natural”, the “cultural”) on occasions with awe … yet without any apparent signs of discomfort. Of course, our contact with the local people has been basically limited to the perfunctory – bargaining at the marketplace, primarily, and then there are the linguistic barriers that leave us content just to take in the long descriptions and explanations that our guide, who is quite fluent in Spanish, provides us. There are few moments when the barrage of vendors subsides. They are there even when rocky surge of the Atlas mountains separating Tunisia from Algeria rises before us, or while eating succulent dates in an “oasis” that looks more like a park in a small city than that which our long-kindled fantasies have led us to expect…

From the window of the bus, rapid succession of images: arid landscapes, arid towns. Peasant women with scarves and headgarb, or working alongside other members of the family in orchards and fields not so unlike “a roça” back home, occasional shepherds with their diminished flocks picking their way through the incongruous juxtaposition of new constructions and old mosques, people hawking their wares on the highway, a young woman waiting at an empty train station in the middle of nowhere. Driving through one small city at twilight, I see a neon sign outside a long flat building that says something like ‘Faculte d’Études Sociales et Politiques’, seeming so strangely out of context (my bias, albeit.)

Grabbing at any chance I get to talk to anyone, with whatever linguistic resources I have at my disposal – the cab driver, a gracious woman pharmacist with whom I share a brief exchange when I go in to purchase a pair of tweezers, the handsome young man whose horse I ride over the sands that in this case, are but the “gateway” to a Sahara I will never really enter. As days go by, we get better at the tasks at hand: bargaining at the medina, photographing peasants, veiled and unveiled women from a bus window as the scenarios whizz by, framing everything in transient perspective. Our guide is perpetually taking advantage of the hours spent riding our tour bus to feed us tidbits of information on his country: its long history since the days of Carthage and Rome, its route into modernity, the current political regime and the historic, improved status of women within this Muslim country, how Berber shepherds who still live inside caves carved into the stony hills depend also on the few dinars we drop into their boxes after our brief glimpse at their abode. I am not sure how many of the young folk on board pay attention, but some, I am sure, are as interested as I am. For others, perhaps much less.

Like most of the places I have been through too quickly, I feel like I should come back. There are things around me I try to grasp in too little time. Too many days spent on the bus, with all those landscapes and dun-colored towns whirring by. A calm afternoon in Sidi Bou Said and the gleaming blue sea stretching out behind it, Lucas and I drinking mint tea and almonds with the young ladies from Barcelona, and gentle caress of the Mediterranean sea and feeling just so damn lucky to be in a place I had never dreamed of getting to. Time, travel and strong(er) currencies are a privilege I know are not to be taken lightly. To greedily drink from the fountain of what this world has to offer and to perhaps give something back: just some coins, just these words?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Day three in Tunisia: reflections on “consuming place” and searching for the Other…

Part 1.

When we venture out on our own in the late afternoon, I stop to ask for directions from a young man who has anxiously offered his services in escorting us to the city center in his horse and cart. We hesitate a bit, wondering whether to accept or to continue our trajectory on foot. I gather all my available linguistic resources to carry out our conversation in bits and pieces – as much French as possible, with Spanish and English thrown in whenever I get stuck. Twenty year old Mohammed takes a liking to us and offers to show us a bit of the city “not for money”…and then to take us to a store where we can pick up some swimming trunks or a pair of shorts for Lucas. When he drives us a bit out of the way, into what is evidently the periferia of a city that, with the exception of its row of luxury hotels, in itself has a shabby and chaotic appearance, I wonder for a moment where he is taking us… just as I am grateful for the chance to get a bit further from the beaten path. He seems kind and interested in conversation, and I feel frustrated with myself for my still so very limited ability to express myself in French. I believe him when he says he is taking us “not for money” and attempts to refuse the coins I give him…

My son, who complains that I am “too optimistic” about everything, most of the time, believes that the local folks’ interactions with us could hardly be based on anything more than immediate interest in financial reward and seems to find my attempts at communication rather silly. Even when we stop some young women on the street, and I use my feeble French to ask for directions, what I interpret as shy smiles are to him grins and laughter at my linguistic limitations. Of course, I do not fool myself… we are little more than part of a huge mass phenomenon, coming now to a country whose economy is moved by tourism, traveling the world at any chance we get. “You must be a sociologist”, said a young man whom I talked with at convenience store, “you ask so many questions!” Just as he is perceptive, I suppose I am obvious. And I also suppose one could say, this is one of the many moments in which my professional and my personal interest come together. Perhaps also, for many of the people who deal with the throngs of tourists crowding their markets and streets, sociability, communication and curiosity intermingle with their need or interest in making a livelihood from the foreign visitors who come to their shores. (After all, haven’t notions of pure sentiments, actions, borders and boundaries lost their credibility? )

sexta-feira, 31 de julho de 2009

DIAS CINZENTOS EM CURITIBA

So it has been for over a month now, a taciturn parade of cold gray days in a city which sometimes seems to be one of the worst habitats on this planet. The sun has rarely peered out from behind the thick masses of clouds and mist, the white walls of our house speckle with humid brownish flecks in snowflake patterns and we shiver underneath several layers of clothing all day long, trying to resist the usual assortment of colds and gripes. And now half the city has gone into a panic over the bout of swine flu that has made its way here in the worst moment of our winter, closing down schools, gyms and swimming pools (by health department order). Those who are the most perturbed admonish us to stay away from social gatherings, shopping malls and cinemas as well. To top it all off, today – one of the chilliest thus far- there are workmen from COPEL changing the electrical posts and cables on our street. They’ve been back and forth along the power lines all days, in a bright orange cart that has been hoisted up into the treetops, weathering occasional rain showers, while I struggle to nurture some patience. No power till the late afternoon. So in the meantime, I´m back to the pen and paper of old… sentences that begin at the left margin but go on and on and on until they coil and curl around the edges of the pages, reminding me of phrases and thoughts to be added.

In some ways, the whole year has thus far proven much harder than I would have imagined it. I didn´t get my research grant, which I requested a total of four times, twice each from two different financing agencies. (There were no criticisms – actually only praise – for the project itself, on women in equestrian sports in Brazil and Spain. Just not a priority, I guess, for agencies that prefer to finance gender studies focusing on topics like violence and prostitution, and are less interested in this possible, yet uncommon sphere of women´s empowerment…) Other things, too, that have happened, are best left to express through poetry. Nonetheless, the months spent “there” and then “here” have hardly been unproductive. Most recently, we were finally able to send our edited volume “Mulheres e homens, olhares e cenas: estudos sobre representações de gênero no cinema contemporâneo” off to the publisher (with some luck, it may be out in 2010!) And I´m anxious to move on, as I will in a few weeks: first to Chicago and then (again) to Barcelona, where new projects and friends are awaiting. Most of all, now that we are past mid-year, I can sum up what is perhaps my most crucial personal discovery: I´m still in some ways the same person I was many years ago, drawn to challenges and willing to deal with the adverse circumstances that are often a part of them. As for the last months of 2009, well, one never knows what surprises lie in store...

terça-feira, 19 de maio de 2009

Hoje*

Early in the morning, I catch a train from Barcelona to the town of Mataró, a ride that lasts a little less than an hour (though later a taxi driver who takes me to the outskirts confirms that coming up from the city by car would slash trip time in half ). The women sitting in front of me, one of them nestled asleep in the cushions of her seat, both have very Latin American faces: the sleeping one is dark red-brown with a thin, worn Indian face, the other, a round and middle-aged mulatta. A common sojourn, taking them perhaps from one periphery to another, to their quotidian chores of cleaning or caring or simply keeping afloat.

Heading north along the coast, a still-empty Mediterranean beach stretches out alongside me, and I imagine by the time the breakfast hour has gone by it will be sprinkled with bathers and beach goers. The towns we pass seem almost to repeat the density of the big city we have left behind us, but are not all the same: in one, a reddish brown medieval church spire rises into the morning air; in another, the houses across the road from the railroad tracks have quaint Spanish balconies and weathered wooden shutters and, finally, closer to my destination, become the neat but rather desolate rows of cinderblock constructions that as my new friend reminds me, house immigrants from the Maghreb and sub-Saharan countries lying below. And then, the rise of short green bushes and slender trees as we head by cab through this sparse countryside, toward the equestrian center where I have an interview to carry out. A brief conversation, a half- hour or so spent watching a woman of about my age – a non-practicing veterinarian of about my age who has told me she is the mother of six children – take a riding class, and another, younger, blonde, who exercises a monumental dappled gray . Today, though, nobody tells me anything I don´t already know. Moment of impasse in my work? In my life? To cross an ocean looking for love and change and knowledge, e dar de cara com (a falta de) o desejo do Outro. Or perhaps just more of the same old story: one person´s work is another´s leisure; one person´s pleasure, another’s pain…Again, it seems I cannot avoid handing myself over to the crueler moments of life. O vazio onde esperava a resposta. The stilted choreography of breaking loose. Maybe I didn´t think it would happen again. Maybe not quite this way. I wait, though today rather impatiently, for my ride back to the station.


* Or: "Today I kind of feel like going home..."

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...