sábado, 28 de março de 2026

Um poema do poeta palestino Mosab Abu Toha

 Refeições diárias durante as guerras.


Em guerras anteriores, nossos vizinhos compartilhavam as refeições conosco no porão. Meu irmão acendia o fogo no antigo braseiro e preparava o chá e colocava a chaleira sobre as brasas.

Havia tréguas de tempos em tempos. Meu pai podia sair a verificar as galinhas e os patos nos galinheiros. Minha mãe subia a escada até o telhado para deixar água em tigelas para os pardais e os pombos.

Os homens eram levados para prisões ou  para campos de concentração. Eles conseguiam ver quem os combatia e quem matava eles e suas famílias

Hoje não vemos os que nos tiram tudo o que é belo.  Nem conseguimos ver nossas sombras durante o dia.  Os F-16 engolem a luz do sol, projetam as sombras das suas barrigas gordas sobre nós, vivos ou mortos.

As bombas esmurram as casas, derrubam-nas, estilhaçam as geladeiras e a louça.  A casa se transforma num  ensopado de concreto e sangue.

Já não compartilhamos refeições com os vizinhos.


(Tradução minha do  poema   Everyday Meals During Wars, do livro  Things You May Find Hidden in my Ear)

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