sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sonho (despedida)

(Este é um dos dois ou três poemas que
escrevi diretamente em português:)


Sonhei teu corpo aberto.
folhagem de verão, grama imensa.
você voltava dos anos de sono, me
disse que estava pronto. e
a chuva que começava, lentos pingos
que segurava na língua. você ria,
risadas largas. o eco ia e
voltava, até cair a noite:
escuridão, lua, frio
repentino. meu sonho
se deslizando sobre teu peito
como córrego claro, como depois,
a calma.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

As novas gerações escrevem...

Tempo

A pedra da vida,
A pele do rosto,
A perda da pele.

E nem a pobre entalhada pedra,
Ao tempo,
Resiste.


Gabriel Adelman Cipolla

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Poem for the Man who Drives the Sphinx and Makes All Ferrari Owners Weep with Envy.

Uma nova tradução de um poema de Diane Wakoski, ainda em versão
preliminar! (Do livro, "Waiting for the King of Spain",
Black Sparrow Press)

Poema para o Homem que Dirige un Esfinge e Faz Todos os Donos de
Ferrari Chorar de Inveja


Você, sempre excedendo a velocidade
correndo nas suas patas de felino
sobre as estradas do deserto.
Suas garotas
vestem casacos transparentes
feitos de gotas de chuva:
meigas e nuas, elas
somem
no deserto
e voltam com pó
de canela nos lábios
e tornozelos,
lhe enviam mensagens
dentro de sementes
de cardamomo com cheiro
da Arábia.

Estou aqui sentada
na minha adoração,
meu amor por mecânicos e condutores
de boas maquinas,
sabendo que os veículos antigos
são freqüentemente os mais elegantes,
me perguntando quantos vizinhos
belos & bizarros
descobrirei ao longo dos anos
habitando o deserto do Egito


Há muito tempo
que jogo o tarot
e monto nua no meu okapi
passando Tanzânia ao galope,
entrando nos bares dos operários
onde todos os amantes são poetas
e os diamantes traem seus donos,
onde a esperança é um tubarão do mar
e a tentação, um mito.


Este é um bilhete para lhe dar
as boas-vindas às vizinhanças,
para lhe dizer que é um prazer
vê-lo
indo a toda velocidade
conduzindo seu esfinge,
para lhe dizer
que espero que goste deste país,
para lhe oferecer um convite
para que a qualquer hora
que você passar por aqui,
venha tomar um drinque/
deste mar,
nossa poesia.

Um conto de Claudia Bório

Uma nova contribuição da escritora curitibana Claudia Bório:


Manorama


Manorama foi um nome inventado ou um nome que eu ouvi nas notícias. Manorama foi um nome inventado ou um nome que saltou para meus ouvidos, um nome que alguém falou, um nome que gritou chorando do meio da noite para o mundo. Manorama, morando à beira dos campos de arroz. Manorama, seus pés pisavam a lama dos arrozais, os caminhos em meio aos campos inundados. Manorama, à noite somente os mosquitos acariciavam seu rosto. Seu rosto, aos poucos, como pétalas de jasmim, deixava escorrer uma lágrima que secava sem ninguém perceber. Manorama, menina, panorama, o arroz na panela todos os dias. O arroz era sua incumbência diária. Manorama, um dia o arroz não ficou pronto a tempo como deveria. Manorama, um dia eu ouvi seu nome e sei que não foi imaginação. Se foi um sonho, todos devem me perdoar, pois sei que, em algum lugar, Manorama existiu. Manorama, fazedora de chapéu trançado, caminhando com os pés na lama dos campos de arroz, sentindo o perfume das frutas e olhando uma nuvem pesada de chuva sobre as montanhas distantes. Manorama sabendo que nunca, nunca deixaria os campos de arroz. Manorama, um dia, deixou de fazer o arroz na hora certa. Ela nunca sabia quando era a hora certa. Manorama não tinha relógio e às vezes se distraía olhando as borboletas sobre o campo de arroz. Manorama, suas mãos morenas, seus dedos sem enfeites, a panela, o arroz, o fogo no fogão de lenha. O cheiro de esterco dos campos de arroz, a umidade que subia do chão, o calor, o suor aos poucos descendo pela nuca. Um dia, um dia, Manorama deixou de fazer o arroz na hora certa. Um dia, um dia, gritou um pássaro em uma árvore, Manorama, não havia arroz pronto quando os homens voltaram do trabalho no campo. Voltaram, voltaram com fome, voltaram querendo sentir o cheiro do arroz cozinhando na panela e o fogão estava frio, o fogo quase apagado e não havia panela alguma. Um dia Manorama se distraiu e não cozinhou o arroz na hora certa. Um dia, um homem chegou do trabalho com fome. Manorama era tão ninguém, tão nada, apenas um mosquito acariciava seu rosto à noite, apenas a lama se preocupava com as solas de seus pés. As mãos de Manorama sabiam que lavar o arroz com água era a melhor carícia que elas jamais experimentariam. Mas um dia Manorama não fez o arroz na hora certa e ele a matou, por isso ele a matou, ele a matou com um golpe de seu facão. A cabeça de Manorama caiu rolando pela varanda e foi parar na beira de um campo de arroz, olhando para aquela muda pequena mas já carregando um cacho de arroz pesado, muito pesado, pesado demais para ela. Por isso tudo ele a matou, porque o arroz não estava cozido na panela, e Manorama nunca mais caminhou, Manorama nunca mais cantou na beira dos campos de arroz.


Homenagem a Manorama, menina assassinada na Índia porque não preparou o arroz do almoço (de acordo com uma notícia de jornal)

domingo, 2 de agosto de 2009

resgatando...

coisas escritas, de outros tempos.
Estes são de quando morava no México:

sin título

I.

Eran noches del más espeso silencio

noches que jugamos sobre un puente
suspendidos
entre enigma e encuentro
y nos arrojamos a la tempestad del mar
a guiar negros buques de piratas
hacia algún horizonte.

II.

he desbordado mi cauce
he recogido helechos e zarzamoras
con tus manos
has dejado entre mis cabellos
una hoja verde
una cáscara vacía

III.

hoy vuelvo hacia mi
y tu nombre irrumpe en mis labios
en mis ojos cuando averiguan la altura del sol
encuentro tus pies en mis zapatos
un destello tuyo brota en mi ventana
un aroma de tu piel ruboriza la ausencia
en las calles ando entre nuestras palabras
cada rostro desconocido me dice que existes
cada presencia me roza el vacío
y yo asumo
un cierto destino
de descubrirte
siempre
en un cuadro
una pileta de agua tranquila
un patio deshabitado
un canto lejano que vuelve.


Ocaso

los bosques están lejos.
aqui:
solamente luz de lámpara
y nuestras piernas dormidas.
sobre los sueños há crecido un moho espeso
como la telaraña que cubre el tragaluz
de nuestra casa.

nos conocemos desde otro invierno
menos herrumbroso que éste.
hoy, detrás de tus cuadros,
me escondes unos brazos que se han marchitado.
yo, cada noche,
recopilo pedazos de baladas tristes
y bailo para tu sombra.

hemos assistido al incendio de los senderos.

ahora, maletas vacías en las manos,
trepamos por un calendario de destierros,
por sus interminables escalinatas:
espacios blancos,
rayas negras,
como dos sonámbulos
arrastrándose por las calles
de una ciudad arrasada.

e estes...

escritos quando eu morava em NYC:


Lovers


they move into each other, pouring
from the separateness of their lives
into this brief burning, the way fire
melts all things together, leaves
nothing. the sea at the heels of
the city drums against silence,
the white line of the coast in
winter, abandon.

in the early evening, heat gone
from her thighs, she finds him
lost from her, moving off, the
distant streak of a dinghy
vanishing into salt fog. he
hears something stirring
in his past, something
that will make him need her
again. again, the long inching
toward their meeting.
a wisp of time.
the pale of the moon.
some other route out of or into the
darkness.


Michoacán


the hard hills of the sierra
nose up into blue and gray, bearing tracks
no one could count. the landscape swallows
time: here, women carry the earth, rub cloth
on stone, let the sweet smoke of corn out into
the air. there are clothes hung out, pencas,
adobe. here a girl-child grows, knowing
the brown paths into the mountain, one color
repeated in water and land. here, her breasts
ripen, as the sky gathers its rain clouds for
the season to come.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

DIAS CINZENTOS EM CURITIBA

So it has been for over a month now, a taciturn parade of cold gray days in a city which sometimes seems to be one of the worst habitats on this planet. The sun has rarely peered out from behind the thick masses of clouds and mist, the white walls of our house speckle with humid brownish flecks in snowflake patterns and we shiver underneath several layers of clothing all day long, trying to resist the usual assortment of colds and gripes. And now half the city has gone into a panic over the bout of swine flu that has made its way here in the worst moment of our winter, closing down schools, gyms and swimming pools (by health department order). Those who are the most perturbed admonish us to stay away from social gatherings, shopping malls and cinemas as well. To top it all off, today – one of the chilliest thus far- there are workmen from COPEL changing the electrical posts and cables on our street. They’ve been back and forth along the power lines all days, in a bright orange cart that has been hoisted up into the treetops, weathering occasional rain showers, while I struggle to nurture some patience. No power till the late afternoon. So in the meantime, I´m back to the pen and paper of old… sentences that begin at the left margin but go on and on and on until they coil and curl around the edges of the pages, reminding me of phrases and thoughts to be added.

In some ways, the whole year has thus far proven much harder than I would have imagined it. I didn´t get my research grant, which I requested a total of four times, twice each from two different financing agencies. (There were no criticisms – actually only praise – for the project itself, on women in equestrian sports in Brazil and Spain. Just not a priority, I guess, for agencies that prefer to finance gender studies focusing on topics like violence and prostitution, and are less interested in this possible, yet uncommon sphere of women´s empowerment…) Other things, too, that have happened, are best left to express through poetry. Nonetheless, the months spent “there” and then “here” have hardly been unproductive. Most recently, we were finally able to send our edited volume “Mulheres e homens, olhares e cenas: estudos sobre representações de gênero no cinema contemporâneo” off to the publisher (with some luck, it may be out in 2010!) And I´m anxious to move on, as I will in a few weeks: first to Chicago and then (again) to Barcelona, where new projects and friends are awaiting. Most of all, now that we are past mid-year, I can sum up what is perhaps my most crucial personal discovery: I´m still in some ways the same person I was many years ago, drawn to challenges and willing to deal with the adverse circumstances that are often a part of them. As for the last months of 2009, well, one never knows what surprises lie in store...

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...