quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Vida virtual



Desça do preto e branco
ônibus da vida.  Aqui você,
não importa quem for
nem para onde ia, terá seu
lugar para brilhar, aquela foto
a cores que encontrou seu melhor
ângulo, apagou  a inadequada sombra,
e poderá ser visto –
      enquanto a página não rolar
      muito para abaixo, e se
       as configurações permitirem –
por um navegante solitário
em Beijing ou na  Croácia,
esse pequeno sorriso seu que será
para alguém, o mais intrigante
mistério.



Virtual reality

Get off the black and white
bus of life.  Here, you-
whoever you are, wherever you're heading -
can manage a place in the sun,
a color picture that translates
your best angle, wipes out the
shadows. It can be seen
by a lonely navigator in, let's say
Beijing or Croatia - as long as you
needn't scroll down too far, as long as
the setting's enabled -, 
your subtle smile
the quintessence of
mystery.

- Miriam Adelman

domingo, 12 de janeiro de 2014

AVE, Diane di Prima

Versão minha, preliminar, quase rascunho, do poema com que Diane di Prima,
a mais reconhecida das poetas Beat, começa seu livro LOBA.  O poema, pelo que percebo,
é do início dos anos 70. 


Ô minhas irmãs perdidas da lua
arco nos cabelos, o mar embaixo dos  pés, vocês perambulam
com véu azul, folha verde, xale rasgado, perambulam
com a pele de folha de ouro, cabelo incendiado, perambulam
na Avenida A, na Rua Bleecker, perambulam
com coroa de flores,  hálito prateado, perambulam

          pisadas
                 madrepérola brilhante
                        atrás de vocês
                   olhos de pedra lunar
                    onde a lua crescente

com luvas, com chapéu, farrapos, peles, miçanga,
sob a lua minguante, o cabelo escorrendo na chuva preta
uivando com os cães de rua, silvando nas portas
sombras vocês são, projetadas nas encruzilhadas, nas rodovias

 atravessando as ruas na diagonal, perambulam
cuspindo, perambulam
resmungando  e chorando, perambulam
envelhecidas e falando sozinhas
com olhar distraído, perambulam
loucas por uma transa rápida, perambulam
chorando seus mortos, perambulam

    nuas, caminham
    enfaixadas em longos vestidos, caminham
    vestidas de mortalha, caminham
                  andando para trás, caminham

                                         famintas
                                             famintas
                                             famintas

             gritando as escuto
             cantando as escuto
             maldizendo as escuto
             orando as escuto

              vocês deitam com o unicórnio 
vocês deitam com a Naja
vocês deitam na grama seca
vocês deitam com os yéti
vocês giram os longos pintos dos sátiros com suas línguas

 

           armadas estão
           conduzindo carros de guerra vão
           muito mais altas do que eu são
           pequenas são
           acuadas nas ladeiras estão
                fora dos ventos

 grávidas, perambulam
 descalças, perambulam
 espancadas por homens bêbados, perambulam

 vocês matam em mesas de aço
 dão à luz em camas negras
o feto que arrancaram enrijece na neve,
    sobe como uma lua nova
vocês gemem enquanto dormem
 cavando por inhame, perambulam
procurando embriagantes, perambulam
brincando com pássaros, perambulam
entalhando pedra, perambulam

eu ando a noite longa, procurando vocês
eu subo a crista da onda, procurando vocês
eu deito nas pradarias, bato nas cercas de pedra
chamando
seus nomes
vocês são de coral
são de lápis e turquesa
cérebro que se enrosca como uma concha
 vocês dançam nos morros

     usuárias de substâncias pesadas, vocês rodopiam
      dançam nos metrôs
      ocupam os prédios
     as crianças lambendo suas tetas

vocês  são as colinas, o formato e a cor dos planaltos 
são as tendas de pele, as ocas
os vestidos de pele de  búfalo, as colchas, as blusas tricotadas
são as caldeiras e a estrela da noite
que se eleva sobre o mar, cavalgando a escuridão
eu me movo junto, acendo a fogueira noturna
meto minha mão e como sua carne
você minha imagem no espelho, minha irmã
   que desaparece como fumaça na colina nevoada
você que me conduz a cavalo pela floresta de sonhos
grande mãe cigana, deito minha cabeça nas suas costas
sou você
e devo me tornar você
eu fui você
e devo me tornar você
sou sempre você
  devo me tornar você

         ay-a
        ay-a ah
         ay-a
        ay-a-ah ah
         maya ma maya ma
         om star mother ma om
         maya ma ah
 
 
  versão:  Miriam Adelman
  Meus agradecimentos a Alexandra Barcellos e Álvaro Posselt pelas sugestões.

sábado, 11 de janeiro de 2014


My love for the world
is as simple as this calm Saturday
after  the summer rain,
is soft as the soil that
     seeping  so much water
runs red and crumbly  through
 my  hands.

Unread newspaper sprawls the
dining room table,  waylaid by
the scratch of words to
friends stranded half-way
round  this globe.  Evening
spreads its  scant peace
through lingering dusk.  Beyond
the visible  horizon, there are still some
rutted paths,  and reasons
to move on.
               

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Mais uma tradução

Poema meu, de uns anos atrás (o original em inglês encontra-se neste blog, em postagem
antiga).

Dia das mães, 2011.

Minha égua e eu subimos
a última rua da favela
passando o coágulo de fumaça
onde uns garotos queimam lixo:
uma rasgada camiseta vermelha,
garrafas plásticas, pacotes de
leite. Seguimos o morro até o topo,
até os braços de roca onde a vista
deste pequeno canto do mundo
nos segura. De repente
não tem mais gente.
Sumiram também
os vira latas amarelos e
seus latidos curtos
e estamos só nos duas, eu e a
Madja, suas orelhinhas indo
para frente, para atrás
e para frente de novo,
num galope contido, pela trilha
de areia que contorna muralha de
pedra, pinheiros partidos até
a raiz

Descemos pelo bairro,
minha égua colocando
seus pequenos cascos
um por um, sobre o arenito
endurecido de uma terra
com sede. Ela me protege,
protege a cria que cresce
dentro dela, que virá
na próxima virada
da estação, junto com
os dias mais longos.
E aí vamos, de novo,
por onde os garotos
deixaram a pilha de restos
amassados, onde voltam
também os vira latas amarelos
e as senhoras, de braços cruzados
em baixo do sol amarelado
do inverno, deixaram os sacos
de lixo todos arrumadinhos,
uma fileira de verde escuro
que espera o caminhão.
Uma garota passa
com bebê nos braços.
Será seu? Ontem
assisti um filme sobre uma mãe
e o filho dela que virou fumaça,
a história seguindo seu curso
como nesses dias que nada
podemos fazer para pará-la.
Caminhos de pedra, trilhas de
areia que conduzem ao topo
ou ao pé do mundo: terra
baldia de ambos os lados, e nada
pode fazer-se com os meninos
uma vez que se perderam

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Traduzi hoje...

este poema meu  de uns anos atrás:

os macacos

os macacos tagarelas me deixam sem palavras.

pendurada aqui no silêncio de um galho sem folhas
eu os observo, sua dança ágil,
e como no seu regozijo vão balançando de ramo em ramo
o rabo tão útil quanto mão ou pé,
e como lhes sobe a raiva e logo em seguida a alegria, e
quão fácil é reconciliar-se com filhote, parceiro ou o
resto do bando irrequieto, quão fácil
compartilhar as frutas vermelhas
que passam de pata
     em pata

espero e observo da minha árvore distante,
uma plataforma improvisada que cede sob meus pés
no frio da madrugada.
o alaranjado sol africano sobe devagarinho
aqui, nesta ordem humana, onde
custa tanto aprender qualquer movimento
onde qualquer pulo é perigo.







quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Another short one!



Just as the dwarf cherry tree
cut and stunted to human dimensions
   still
needs its dosage
   of sun, wind and rain, we

 reach
      not only into
this night in the city
but
  into someplace
     that is buried,
balancing with bare feet
over rough edges, hot sand -
      risking  the  leap!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Perhaps

unexpected affection
at the end of springtime ?

  or perhaps just more of the same old tricks:
     hands, elbows, shoulders touching,
                  flight.

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...