sábado, 12 de outubro de 2013

Terra Adentro



Terra Adentro

Tinha chovido.
A terra roxa coberta por uma camada
de barro escorregadio, e em todas as direções,
o horizonte impossível.  Lado a lado,
o animal e o humano, um menino
que aninha  a irmazinha e uma mulher
que põe as mãos à tarefa:   a lenta reconstrução
da cidade onde tudo começou.
Parei já de procurar a primavera.
Dias mais estranhos da minha vida.

    -  Miriam Adelman



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Retomando os poemas de Denise Duhamel



BARBIE COMO MAFIOSA

                                     Para Dangerous Diane

Quando lhe repassam o saquinho de cocaína,
Barbie foge para seu beco preferido.
Ela tira sua cabeça e se preenche com o pó
Como se fosse tão inocente quanto um saleiro de curvas gostosas.
Os malandros deixam o tráfico de pequenas coisas para ela-
e enquanto ela desliza pelos aeroportos internacionais
ou os agitados cais dos portos, ninguém lá em cima
se enerva. Seja aninhada entre o receptor
e a base do telefone de um automóvel, ou guardadinha
na gaveta de uma cômoda com um pequeno gravador no
seu torso oco, Barbie ama o divertimento e o tesão da aventura.
Mas por ser uma boneca muito séria, ela também sabe dar o beijo
da morte se precisar.  Seus ousados lábios
se recusam a abrir, tornando-a a mais perfeita guardadora de segredos.
Nas conferências de imprensa, ela negará todas as afiliações.
Só estou brincando, dirá ela, ou
Vocês não conseguem provar nada.  Mal tenho cérebro.
Quando a Barbie fica assim tão na cara, por vezes
o poderoso chefão passa apertos. Sua mulher fica com ciúmes,
se perguntando porque a Barbie liga para o marido não-boneco de outra
de cabines telefônicas no meio da noite.
Os detalhes das senhas, dos sapatos de cimento e das propostas irrecusáveis,
todos precisam ser bem pensados. O chefão
vai acalmar sua esposa, argumentando que é só ela
que ele ama:  esta Barbie nem sequer é uma dama de verdade.
Não sei porque você se preocupa.
A esposa admite que se sente tola, mas ao voltar
para a cama fica de olho aberto. Os policiais
se sentem tolos também, prendendo brinquedos.
Por isso a Barbie anda por onde ela quiser tendo a audácia
de deixar seus óculos escuros em casa.   Ela freqüenta
clubes privados enfumaçados e senta à janela nas mesas
dos cafés de Little Italy.  Mas são as praias dos resorts
que ela mais gosta,  onde pode realmente espairecer
e ser ela mesma. Sua pequena caixa de isopor  segura o cantinho
da sua toalha de praia de marca. Ela observa seu namorado loiro
Malibu Ken, mexendo com seus pé-de-pato e óculos.
Ela o ama porque ele não sabe de nada –
mera peça acessória para seus crimes.

- Denise Duhamel.     
Do livro Kinky                                

-          Versão:  Miriam Adelman
-          Revisão: Keo Cavalcanti

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Changes...


 My intention was to stick strictly to texts, but now that I am starting to enjoy photography, and after hearing the Portuguese/Brazilian photographer Orlando Azevedo's reassuring words, "The art that is closest to photography is poetry", I wasn't able to resist... So, here goes!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Liberdade e desejo

    (dedico estas reflexões a minha 'irmazinha'  Nina)

O quê é a liberdade?  Grande tema, que desafia a filosofia, a sociologia e o senso comum.  Conquista da sociedade ou do sujeito, ilusão ou sine qua non do tipo de vida que queremos viver?  Se não pode ser absoluta, qual então suas formas de negociação, já que podemos tentar conhecer e viver nosso desejo, mas o desejo do outro  sempre nos escapará.

Quando eu era muito jovem demais para realmente entender o desejo e seus meandros, ouvia pessoas marxistas falar sobre liberdade como “consciência da necessidade”.  E colocá-la, desta maneira, num horizonte de possibilidades coletivas e históricas (e portanto também, institucionais) antes do que existenciais.  Posteriormente, sem saber exatamente de onde vinham, vim a conhecer as problematizações dos existencialistas, nas quais alcançar um estado “não alienado” vinculava-se  à possibilidade de transcender, individualmente,  os limites tensos  que a sociedade deposita na vida de cada um/a.

Depois, a partir dos meus primeiros encontros com a teoria e as práticas feministas, entendi que a liberdade se complicava muito quando falada ou procurada na voz, e na vida, de um sujeito feminino –pela censura,  mas principalmente pelo enquadramento social, porque ser mulher geralmente nos atrela ao desejo do outro de uma forma particular.  Passei as próximas décadas lidando com isso, tentando me decifrar a partir dessa tensão básica, tentando me fazer.


Mas fui uma jovem mulher livre, porque o desejo me empurrava sempre para novos caminhos e nunca deixei que a falta de compreensão ou as tentativas de me censurar ou controlar – que não por acaso, muitas vezes vinham dos mais próximos- me detivessem ou me desviassem, e eu assumia os riscos da vida e o ônus dos tropeços.  Os muitos tropeços, claro.  E principalmente, porque meu desejo maior sempre foi conhecer, entender, e me  unir a outras pessoas que também isso sentiam. Nada fácil, mas também, algo que eu podia fazer, pois estava, sempre, ou quase sempre, nas minhas próprias mãos.  E a partir dai, sempre quando um caminho se esgotava, alguma bússola interior, e alguma energia, tão estranhas quanto pulsantes, me empurravam de novo em direção a algum novo manancial. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ramadan (new one of mine)


Ok, this one came out in Portuguese.  I've now done the English version as well, but don't find it as convincing...



Ramadan

Não tinham como se entender.
O encontro veio por acaso,
Cada um  chegando do seu ponto cardinal
ao centro da praça,  onde os turistas desciam
dos charretes para fotografar  serpentes mansas,
    cegos e domadores de camelo.
Por filosofia entendiam mantras diferentes,
e à cada coisa a imagem que havia por trás
               ou por dentro
se pintava em tons distintos:
   “quarto”, “cortina” ou “ venha comigo”.
Foi apenas um momento que suspendeu os rumos:
cruzar juntos uma antiga ponte de pedra e
ouvir o mesmo som do rio balançando embaixo,
   esperar o sol
quente ceder ao momento da noite,
ao banquete e um lugar onde os corpos
virassem água.  Onde viria o desfile
dos cavalos de todas as cores, e um
vento do deserto ou
     melhor dito, uma brisa leve
com a qual seria possível
conviver.   A mesquita no alto não destoava:
era puro encanto,  como  uma diferença a mais,
algo talvez para diminuir a sua, embora
   decifrar-se em alguma noção comum
                   do humano
nunca fora suficiente.


Ramadan.

No mutual understanding was possible.
They had met by chance, each one
arriving from his or her own direction
toward the center of the plaza, just where the tourists
dismounted carriages to take their snapshots
of gentled serpents, blind men and camel trainers.
Philosophy had to each its meaning
and for each thing, the image that lay behind
or underneath it took on different tones,
like "room", "curtain" or "come with me".
It was hardly more than a suspended moment:
crossing an old stone  bridge and listening together
to the water swishing underneath
and waiting for the hot sun to yield to the night
for the banquet and the place where bodies
turn momentarily into water, and then
the parade of colorful horses, and a wind from
the desert, or better yet, the gentle breeze
that one can so easily live with.

Up on high, the call from
the mosque was pure delight,
like one more difference, one that might perhaps
shrink the abyss separating them, although
looking to some common notion of being human
would never be enough.


- both versions by Miriam Adelman
.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wild Geese by Mary Oliver + versão



WILD GEESE by Mary Oliver.

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting-
over and over announcing your place
In the family of things. 


Gansos selvagens.

Não precisa ser bonzinho.
Nem andar cem milhas no
 deserto de joelho, pedindo penitência.
Você só precisa deixar que o animal macio
que habita seu corpo ame aquilo que ama.
Me conte do desespero, o seu, e eu lhe contarei
do meu.
Enquanto isso, o mundo gira.
Enquanto isso, o sol e as pedras claras da chuva
se movem através das paisagens,
sobre os prados e as árvores profundas,
as montanhas e os rios.
Enquanto isso, os gansos selvagens, voando
nas alturas do límpido ar azul
estão voltando para casa.
Quem seja que você for, quão grande sua solidão
o mundo está ali para sua imaginação,
lhe chamando como o fazem os gansos
selvagens, tão duro quanto excitante-  
anunciando, uma e outra vez, o lugar que você ocupa 
na família das coisas.
Versão: Miriam Adelman

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...