Refeições diárias durante as guerras.
Em guerras anteriores, nossos vizinhos compartilhavam as refeições conosco no porão. Meu irmão acendia o fogo no antigo braseiro e preparava o chá e colocava a chaleira sobre as brasas.
Havia tréguas de tempos em tempos. Meu pai podia sair a verificar as galinhas e os patos nos galinheiros. Minha mãe subia a escada até o telhado para deixar água em tigelas para os pardais e os pombos.
Os homens eram levados para prisões ou para campos de concentração. Eles conseguiam ver quem os combatia e quem matava eles
e suas famílias
Hoje não vemos os que nos tiram tudo o que é belo. Nem conseguimos ver nossas sombras durante o dia. Os F-16 engolem a luz do sol, projetam as sombras das suas barrigas gordas sobre nós, vivos ou mortos.
As bombas esmurram as casas, derrubam-nas, estilhaçam as geladeiras e a louça. A casa se transforma num ensopado de concreto e sangue.
Já não compartilhamos refeições com os vizinhos.
(Tradução minha do poema Everyday Meals During Wars, do livro Things You May Find Hidden in my Ear)