("bringing words together") poesia, crônica, fotografia, tradução//poetry, stories, photography, translation ///// /// ©miriamadelman2020 Unauthorized reproduction of material from this blog is expressly prohibited
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Liberdade e desejo
(dedico estas reflexões a minha 'irmazinha' Nina)
O quê é a liberdade?
Grande tema, que desafia a filosofia, a sociologia e o senso comum. Conquista da sociedade ou do sujeito, ilusão
ou sine qua non do tipo de vida que
queremos viver? Se não pode ser
absoluta, qual então suas formas de negociação, já que podemos tentar conhecer
e viver nosso desejo, mas o desejo do outro sempre nos escapará.
Quando eu era muito jovem demais para realmente entender o
desejo e seus meandros, ouvia pessoas marxistas falar sobre liberdade como “consciência
da necessidade”. E colocá-la, desta
maneira, num horizonte de possibilidades coletivas e históricas (e portanto também,
institucionais) antes do que existenciais.
Posteriormente, sem saber exatamente de onde vinham, vim a conhecer as problematizações
dos existencialistas, nas quais alcançar um estado “não alienado” vinculava-se à possibilidade de transcender,
individualmente, os limites tensos que a sociedade deposita na vida de cada um/a.
Depois, a partir dos meus primeiros encontros com a teoria e
as práticas feministas, entendi que a liberdade se complicava muito quando falada
ou procurada na voz, e na vida, de um sujeito feminino –pela censura, mas principalmente pelo enquadramento social, porque
ser mulher geralmente nos atrela ao desejo do outro de uma forma particular. Passei as próximas décadas lidando com isso,
tentando me decifrar a partir dessa tensão básica, tentando me fazer.
Mas fui uma jovem mulher livre, porque o desejo me empurrava
sempre para novos caminhos e nunca deixei que a falta de compreensão ou as
tentativas de me censurar ou controlar – que não por acaso, muitas vezes vinham
dos mais próximos- me detivessem ou me desviassem, e eu assumia os riscos da
vida e o ônus dos tropeços. Os muitos
tropeços, claro. E principalmente,
porque meu desejo maior sempre foi conhecer, entender, e me unir a outras pessoas que também isso
sentiam. Nada fácil, mas também, algo que eu podia fazer, pois estava, sempre,
ou quase sempre, nas minhas próprias mãos.
E a partir dai, sempre quando um caminho se esgotava, alguma bússola
interior, e alguma energia, tão estranhas quanto pulsantes, me empurravam de
novo em direção a algum novo manancial.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Ramadan (new one of mine)
Ok, this one came out in Portuguese. I've now done the English version as well, but don't find it as convincing...
Ramadan
Não tinham como se entender.
O encontro veio por acaso,
Cada um chegando do seu ponto cardinal
ao centro da praça, onde os turistas
desciam
dos charretes para fotografar serpentes
mansas,
cegos e domadores de camelo.
Por filosofia entendiam mantras diferentes,
Por filosofia entendiam mantras diferentes,
e à cada coisa a imagem que havia por trás
ou por dentro
se pintava em tons distintos:
“quarto”, “cortina” ou “
venha comigo”.
Foi apenas um momento que suspendeu os rumos:
cruzar juntos uma antiga ponte de pedra e
ouvir o mesmo som do rio balançando embaixo,
esperar o sol
quente ceder ao momento da noite,
ao banquete e um lugar onde os corpos
virassem água. Onde viria o desfile
dos cavalos de todas as cores, e um
vento do deserto ou
melhor dito, uma brisa
leve
com a qual seria possível
conviver. A mesquita no alto não
destoava:
era puro encanto, como uma diferença
a mais,
algo talvez para diminuir a sua, embora
decifrar-se em alguma noção
comum
do humano
nunca fora suficiente.
Ramadan.
No mutual understanding was possible.
They had met by chance, each one
arriving from his or her own direction
toward the center of the plaza, just where the tourists
dismounted carriages to take their snapshots
of gentled serpents, blind men and camel trainers.
Philosophy had to each its meaning
and for each thing, the image that lay behind
or underneath it took on different tones,
like "room", "curtain" or "come with me".
It was hardly more than a suspended moment:
crossing an old stone bridge and listening together
to the water swishing underneath
and waiting for the hot sun to yield to the night
for the banquet and the place where bodies
turn momentarily into water, and then
the parade of colorful horses, and a wind from
the desert, or better yet, the gentle breeze
that one can so easily live with.
Up on high, the call from
the mosque was pure delight,
like one more difference, one that might perhaps
shrink the abyss separating them, although
looking to some common notion of being human
would never be enough.
- both versions by Miriam Adelman
.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Wild Geese by Mary Oliver + versão
WILD
GEESE by Mary Oliver.
You
do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting-
over and over announcing your place
In the family of things.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting-
over and over announcing your place
In the family of things.
Gansos
selvagens.
Não precisa ser
bonzinho.
Nem andar cem milhas no
deserto de
joelho, pedindo penitência.
Você só precisa
deixar que o animal macio
que habita seu corpo
ame aquilo que ama.
Me conte do desespero,
o seu, e eu lhe contarei
do meu.
Enquanto isso, o mundo
gira.
Enquanto isso, o sol e
as pedras claras da chuva
se movem através das
paisagens,
sobre os prados e as
árvores profundas,
as montanhas e os rios.
Enquanto isso, os
gansos selvagens, voando
nas alturas do límpido
ar azul
estão voltando para
casa.
Quem seja que você
for, quão grande sua solidão
o mundo está ali para
sua imaginação,
lhe chamando como o
fazem os gansos
selvagens, tão duro
quanto excitante-
anunciando,
uma e outra vez, o lugar que você ocupa
na
família das coisas.
Versão: Miriam
Adelman
domingo, 28 de julho de 2013
Quando chegar a primavera
(Eu, tentando dialogar com Germaine Calderón... e até saiu em português!)
Quando chegar a primavera
não irei me surpreender
com o sol repentino
ou tua mão fria
posando na minha nuca.
Nas estradas que um dia
amanheceram brancas
haverá apenas a esperança
sutil
de um calor que dure mais um pouco
de cores pequenas que despontem
do jasmim ou dos juncos que crescerão
na terra molhada,
e eu terei mudado em alguma coisa
desde o lugar onde hibernei
com meus ursos mansos
no oco de uma árvore esculpida
pelas décadas, saboreando apenas
amoras doces e cenas da vida,
e se por acaso houver alguma
aprendizagem,
aprendizagem,
será apenas das mais simples, com
as patas no barro escuro e fresco,
sabendo das chuvas e dos caminhos
enganosamente infinitos.sexta-feira, 19 de julho de 2013
Germaine Calderón, poeta mexicana.
Many years ago I found this poem, by Germaine Calderón, in a Mexico City newspaper.
Although I posted it here on my blog in 2009, it took me a long time to try to translate it into
English. Let's see how this works!
Ya no soy un caballo
Germaine Calderón
Los montes marineros azules
nosotros silenciosos
buscando algún rellano
un pueblo más que este
insignificante en tres patas
una sombra del tamaño del agua
y un vino incesante
a la hora de la memoria
para caer tumbados en las lindes
donde se rie
com una extraña mueca
por nuestra desnudez obcena
Hoy he volteado
mi sueño como un guante
yo mismo
me he puesto a secar por el reverso
y el corazón se extraña
de su doblez
de su flanco
de su tamaño inminente
y yo me extraño
de ser tan parecido
a un hombre
The mountains, blue´clad sailors
English version:
Miriam Adelman
Although I posted it here on my blog in 2009, it took me a long time to try to translate it into
English. Let's see how this works!
Ya no soy un caballo
Germaine Calderón
Hay
signos
desesperanzas en duelo
algunos vagabundos
en crecimiento con la noche
con el olor del mundo
muchachos
como pájaros tímidos
desesperanzas en duelo
algunos vagabundos
en crecimiento con la noche
con el olor del mundo
muchachos
como pájaros tímidos
Los montes marineros azules
nosotros silenciosos
buscando algún rellano
un pueblo más que este
insignificante en tres patas
una sombra del tamaño del agua
y un vino incesante
a la hora de la memoria
para caer tumbados en las lindes
donde se rie
com una extraña mueca
por nuestra desnudez obcena
Hoy he volteado
mi sueño como un guante
yo mismo
me he puesto a secar por el reverso
y el corazón se extraña
de su doblez
de su flanco
de su tamaño inminente
y yo me extraño
de ser tan parecido
a un hombre
Siempre pensé que
era un caballo
las gentes me llamaban por mi nombre
y yo acudia
con un instinto manso
Amaba la corteza llovida
el grano tierno como dádiva
y creia
en los músculos simples
en la rapidez del aire
en la oración impaciente
desbocada
Entonces
los árboles
semejaban guerreros
lo verde venia de las raíces
y las raíces no tenian
un lugar fijo
las gentes me llamaban por mi nombre
y yo acudia
con un instinto manso
Amaba la corteza llovida
el grano tierno como dádiva
y creia
en los músculos simples
en la rapidez del aire
en la oración impaciente
desbocada
Entonces
los árboles
semejaban guerreros
lo verde venia de las raíces
y las raíces no tenian
un lugar fijo
En esas largas
caminatas
se estrenaban los dias
y no habia outro lenguaje que vivir
de uma manera recia
desde el origen
casi brutalmente
Sabia que estar
era doblegarse
por disciplina
no por hambre
que era el tiempo de los mitos
de los encantadores
con sus flautas
La medida era el fuego
el bienestar residia
en ser
de pronto
de la crin a los nervios
rebelde
y sin embargo,
el ojo siempre
agrandado
por la mansedumbre
Pero hoy me descubro
tan igualmente a todos
limitado en ideas
en trabajo
y tan sólo
y tan sólo mirando
se estrenaban los dias
y no habia outro lenguaje que vivir
de uma manera recia
desde el origen
casi brutalmente
Sabia que estar
era doblegarse
por disciplina
no por hambre
que era el tiempo de los mitos
de los encantadores
con sus flautas
La medida era el fuego
el bienestar residia
en ser
de pronto
de la crin a los nervios
rebelde
y sin embargo,
el ojo siempre
agrandado
por la mansedumbre
Pero hoy me descubro
tan igualmente a todos
limitado en ideas
en trabajo
y tan sólo
y tan sólo mirando
Now that I am no longer a horse.
There are signs
duels of despair
hobos who wander
and grow with the night
with the aromas of the
world,
boys like birds
in their shyness
The mountains, blue´clad sailors
and we here silent,
seeking some flatland
some little town that
is more
than this one,
insignificant on its
three legs
a shadow in the measure
of water
and wine, incessant
at memory's hour
where we collapse on
the hillsides
where there is
laughter,
like a strange grimace
in the face of our obscene
exposure.
exposure.
Today I have turned my
dreams inside out like
a glove,
I have turned myself
out to dry
my heart puzzled
by its seams
and its flanks
by its imminent size
and I am puzzled
to find myself looking
so much
so much
like a human.
I always thought I was
a horse
people called me by my
name
and I came
by gentle instinct
I loved the damp bark
grains as tender
as a gift
and I believed
in simple muscles
in the swiftness of
air
in impatient, runaway
prayer
In those days
trees were like
warriors
and greenness shot up
from the roots
and roots were fixed
nowhere
On those long strolls
a debut of days
and there was no other
language
for living
except in a way that
was hard
almost brutal
from the start
I knew that to be
was to give in -
to discipline
and not in hunger
that these were the
days of tales
of charmers and
their flutes
Measures were welded in fire
and well being meant
being
suddenly
from mane to nerves,
a rebel
but always with the wide
rounded eyes of the docile
Today however
I discover myself
so much the same
as all others,so
bounded in ideas
in labor
and watching,
merely watching.
English version:
Miriam Adelman
"First Day of the Future"
(from his book, THE PAST, 1985)
First
Day of the Future
Galway Kinnell
They always seem to come up
on the future, these cold, earthly dawns;
the whiteness and the blackness
make the flesh shiver as if it's starting to break.
But that is always just an illusion,
always it is just another day they illuminate
of the permanent present. Except for today.
A motorboat sets out across the bay,
a transfiguring spirit, all its little puffy gasps
of disintegration collected
and anthemed out in a pure purr of dominion.
It disappears. In the stillness again
the shore lights remember the dimensions of the black
water.
I don't know about this new life.
Even though I burned the ashes of its flag again and
again
and set fire to the ticket that might have conscripted
me into its
ranks forever,
even though I squandered all my talents composing its
emigration
papers,
I think I want to go back now and live in the present
time,
back there
where someone milks a cow and jets of intensest
nourishment go
squawking into a pail,
where someone is hammering, a bit of steel at the end of
a stick
hitting a bit of steel, in the archaic stillness of
an afternoon,
or somebody else saws a board, back and forth, like hard
labor
in the lungs of one who refuses to come to the very end.
But I guess I'm here. So I must take care. For here
one has to keep facing the right way, or one sees one
dies, and
one dies.
I'm not sure I'm going to like it living here in the
future.
I don't think I can
keep on doing it indefinitely.
O
primeiro dia do futuro.
Parecem sempre irromper
no futuro, estas alvoradas frias e terrenas;
a clareza e a escuridão fazem
a pele se arrepiar como se começasse a rasgar.
Mas é sempre uma ilusão,
sempre apenas mais um dia que iluminam
no presente permanente. Hoje é exceção.
Uma lancha inicia sua travessia da bahia,
um espírito que transfigura, seus pequenos sopros
ofegantes de desintegração recolhidos e cantados
num ronronar de poderio puro.
Ela desaparece. De novo na quietude as luzes
dos cais se lembram das dimensões das águas turvas.
Nada entendo desta vida nova.
Mesmo que eu tenha queimado as cinzas da sua bandeira
uma e outra vez
e incinerado o bilhete que talvez tivesse me
recrutado para suas tropas
para sempre,
mesmo que eu tenha desperdiçado todos meus talentos
compondo meus
documentos de emigração
acho que prefiro voltar agora e viver no tempo
presente,
alí
onde alguém tira leite de uma vaca e jatos do mais
intenso alimento
vão grasnando para dentro de um balde,
onde alguém vai martelando, um pedaço de aço na
ponta de uma vara
batendo um pedaço de aço, na quietude arcaica de
uma tarde,
ou outra pessoa serra uma tábua, para frente e para
trás como o penoso
trabalho nos pulmões de alguém que se recusa a
chegar ao fim.
Mas suponho que estou aqui. Pelo devo que me cuidar.
Porque aqui
você precisa olhar em direção certa, porque se
não, você vê que você morre,
e você morre.
Acho que não vou gostar de viver aqui no futuro.
Penso que não seria capaz de fazê-lo
sem prazo determinado.
Versão: Miriam Adelman
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