sábado, 20 de março de 2021

Excerpt from Ferlinghetti, A Coney Island of the Mind

 

 Not like Dante

discovering a commedia
upon the slopes of heaven
I would paint a different kind
of Paradiso
in which people would be naked
as they always are
in scenes like that
because it is supposed to be
a painting of their souls
but there would be no anxious angels telling them
how heaven is
the perfect picture of
a monarchy
and there would be no fires burning
in the hellish holes below
in which I might have stepped
nor any altars in the sky except
fountains of imagination

(extract from Ferlinghetti, A Coney Island of the Mind)

TRADUÇÃO PROVISÓRIA:

Não como Dante
descobrindo a commedia
sobre os morros do céu
eu pintaria outro tipo
de Paradiso
em que as pessoas estariam nuas
como sempre o são
em cenas como estas
porque supõe- se tratar
de pintar suas almas
e nada haveria de anjos ansiosos para nos narrar
como o céu é
a pintura perfeita de
uma monarquia
nem de fogo queimando
em buracos infernais lá em baixo
onde eu poderia ter pisado
nem altares no céu salvo
fontes de imaginação


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

a fumaça (xii)

(fragmento de um 'work in progress')

vinha de longe

                   e  de perto.  

 embora embaçasse a vista,  fizesse a mão

errar o alvo,  eles a continuavam negando.  as casas que

ardiam  ainda à distância, não eram deles.   nem as selvas, as relvas.

nem a fome.  na noite de patas queimadas, o lobo mais uma

vez soltava seu uivo, ouvindo a fuga noturna dos cavalos

que  alguma vez foram mansos.   





quinta-feira, 30 de julho de 2020

History Lesson /Lição de História - Natasha Tretheway

 

I am four in this photograph, standing   

on a wide strip of Mississippi beach,   

my hands on the flowered hips

 

of a bright bikini. My toes dig in,   

curl around wet sand. The sun cuts   

the rippling Gulf in flashes with each   

 

tidal rush. Minnows dart at my feet

glinting like switchblades. I am alone

except for my grandmother, other side   

 

of the camera, telling me how to pose.   

It is 1970, two years after they opened   

the rest of this beach to us,   

 

forty years since the photograph   

where she stood on a narrow plot   

of sand marked 

 

her hands on the flowered hips   

of a cotton meal-sack dress.

 


Estou com quatro anos nesta fotografia,

de pé numa larga faixa de praia em Mississippi

minhas mãos nos quadris  floreados

 

de um bikini colorido. Os dedos do pé

cavam, enrolam-se na areia molhada. O sol corta o Golfo

ondulado,  lampejos a cada

 

investida do maré.  Peixinhos lançam-se contra

meus pés, brilham como canivetes. Estou sozinha

exceto minha vó, do outro lado

 

da câmera, me dizendo como posar.

É o ano 1970, dois anos depois deles

abrirem o resto da praia para nós,

 

quarenta anos depois da foto

onde ela estava  de pé numa estreita

faixa de areia marcada, ‘colored’, sorrindo

 

com as mãos nos quadris coloridos

de um vestido de saco de algodão.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Life in times of (2)


Como muitas pessoas no mundo inteiro, o horário de passear o cachorro é ‘o filé mignon’ do dia (se me perdoam a alusão aos prazeres carnívoros, um tanto de mau gosto nos momentos atuais, eu mesma acho).  O Zeus é boxer, e brincalhão sem igual – parece confirmar o apreciação feita nesses dias por um velho amigo meu, que disse que a raça, apesar da sobrancelha franzida que lhe  dá ares de pensador profundo, é ‘o palhaço do reino canino’- e só de me ver pondo os tênis, sai dando pulos de alegria que o catapultam a um metro do chão.  Após nossas duas semanas de saídas, consegui traçar o que me parece ser a melhor rota:  saímos à direita, passando pela casa de nossos únicos vizinhos simpáticos, uma família, aliás, que também vive à espreita dos melhores horários para ocupar o pedaço de rua que lhes cabe, para o passeio de bici das crianças;  vamos seguindo o contorno da rua,  passando pelo mato denso de onde alguma vez  a vizinhança foi surpreendida por uns macacos (e bem na época do famigerado pânico da febre amarela), atravessamos a ponte de madeira, e seguimos até a rua mais movimentada, onde passam carros e motos mas ainda assim, raras as vezes cruzamos caminhos com outros humanos, ou humanos com seus respectivos cães).   Depois nos enveredamos por outras ruas, mais tranquilas, arborizadas.

O Zeus sempre vai muito animado, mas tem dia que estou com meus nervos a flor de pele, imaginando os mais absurdos dos encontros possíveis com o diabo do coronavirus – como se fosse uma criatura viva e voadora, capaz de aparecer do nada, do céu, do chão, só para invadir meus pulmões e me fazer mais uma na sua lúgubre lista.   Nesses dias, eu encurto nosso passeio,  e ele, pois, não tem escolha nessa história. 

Outros dias, vence meu lado mais racional, e isso de ter o privilégio de morar num bairro com baixa densidade populacional e pessoas que evidentemente, até agora, vêm respeitando a quarentena, me anima também.   Por exemplo, ontem:   

a primeira manhã mais fria, e andamos para mais longe, exploramos as duas ruas sem saída perto do parque – onde preocupadamente  percebo os sinais de destruição das fitas que barravam, pelo menos simbolicamente, a entrada – mas ainda  somos  nós os únicos representantes das nossas respectivas espécies.   À distância, vejo os trabalhadores da prefeitura, fazendo a costumeira poda da densa vegetação que contorna a  rua, conversando entre eles, como se todo estivesse normal, mas quando chegamos mais perto de onde estavam, já tinham ido almoçar. 

 Passamos por uma casa onde o foodtruck de pierogi antes ficava estacionado na rua. Agora está bem encaixadinho na entrada, com uma placa convidando o pessoal a ‘buscar  aqui sua encomenda’.  Não tem ninguém à vista,  mas sim um grande cardápio, e ao lado, um pote bem gordinho de álcool gel.

Embora outras opções existam, seguimos o mesmo caminho de volta -  menos gente, e menos cachorro também, já que o Zeus, apesar do sua cara que assusta alguns humanos que não sabem muito bem a diferença entre boxer e pitbull,  é facilmente amedrontado e principalmente, por cães bem menores do que ele.  Chegando perto da ponte, vejo o contorno de uma pessoa, na verdade, de uma mulher e uma criança, a mãe agachada e conversando, mostrando alguma coisa à pequeninha. Reconheço a sujeita – uma jovem que quando criança, brincava com meus filhos, quando nossa rua ainda não era asfaltada, quando ainda parecia chácara ou bairro do interior por aqui, quando as pessoas ainda chegavam até botar uma grande mesa de madeira bem no meio da estradinha para festarmos, todos juntos...  Mas nesses últimos tempos, outras coisas aconteceram.  Muitas coisas, muita ‘água embaixo da ponte’.  Também literalmente.

Vejo que ela já me viu. Vira mais um pouco de costas, enquanto vou chegando mais perto.  Motivos, uma de duas.  Ou duas de duas. Não sei.  Pretendo passar reto.  Ela, sem levantar, alça a cabeça, vejo o esboço de um sorriso tímido, e ela me cumprimenta, falando meu nome.  E eu aproveito o momento, pois havia muito tempo que lhe precisava dizer umas quantas coisas.   Olhei para ela:
    - Sabe, fulana, eu não costumo conversar com eleitores do Bolsonaro.  E muito menos com vizinhos que xingaram meus filhos.  Que vergonha, hein? Quanto preconceito.  E quanta tragédia que estamos vivendo,  graças a vocês.

Ela, que tanto tinha vociferado, no grupo WhatsApp da rua, ela, a mais fanática, a mais negacionista, a mais ridícula e braba de todos.  Hoje fica lá agachada, olhando timidamente para mim.  Sem palavras.    

Zeus e eu seguimos nosso caminho, e me pergunto se terei ainda a oportunidade de tirar esse peso de cima, de olhar para a cara de outras pessoas que conheço, e dizer bem isso, o que a gente está guardando dentro, para quando vier o momento cara-a-cara.  E sabendo também que isso não mudará nada.  O rumo da história, as péssimas escolhas de muitas pessoas, e tudo o que virá por causa disso.  Volto a casa, apenas um pouquinho mais leve.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Life in times of....


This is a morning that was meant to be beautiful.  I open the shutters onto a quiet neighborhood, but here  it is always quiet, even at 9:00 on a Friday, when many of those who have work and school routines are already out.  I can hear the birds outside, busy at their communication, but again, that is the way it always is.  We’ve had days of zero rain, perfect sun - perfect to hang out blankets and clean laundry and soak in our 15 recommended minutes per day – but in the reservoirs of the city, levels are dropping,  a warning that even that simplest of pleasures may carry ill omen.   I don’t want to read the news this morning, need to preserve some morning calm and the chance to throw myself into my pages, for at least several hours, but somehow have not been able to block the British scandal sheet that pops up from time on my screen, always with the worst of it all. (Which celebrities have succumbed, soaring number of new cases, delusions of cure...)  I grab a sweatshirt  from my open wardrobe, so proudly finished last year, after over 20 of living in this house we  built, but rather than admiring my persistence or its design, or admonishing myself over the ease with which my organization turns into mess, I wonder about the dresses that are hanging there, the folded sweaters, the pairs of different colored jeans, the two suitcases nestled away on the overhead shelves, and wonder when I will ever use any of this again.  Last night I dreamt that two very dear friends from a Central American country had come to visit me, and how I was torn between the joy and the apprehension of their surprise arrival.  And when I awoke, I thought of my niece, caught in the newest epicenter of the crisis, and of the rising red alert. And about how despite the fact I have envied the friends who live out the country surrounded by their dogs and horses and almost able to live “life as usual” (inveja da boa, as we say around here!) I am still in this little corner where the birds always sing, and it is always quiet, and we can almost feel that it is just an  ordinary morning, and go on with our work – and for now,  that makes us lucky.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Lockdown by Brother Richard

Há medo sim.
Há isolamento sim.
Há pânico de compras sim.
Há doença sim.
Porém
Dizem que em Wuhan após tantos anos de barulho
Se escuta de novo o cantar dos pássaros
Dizem que após apenas algumas semanas de quietude
Afinaram as nuvens de fumaça no céu,
Agora azul e cinza e claro.
Dizem que nas ruas de Assisi
O canto que as pessoas entoam,
umas para outras, atravessa as praças vazias,
E elas deixam suas janelas abertas
para que os que estão sozinhos
possam escutar sons de família
ao seu redor.
Dizem que um hotel no oeste da Irlanda
Está oferecendo refeições de graça com entrega
Para os confinados.
Hoje uma moça que conheço
Ocupa-se espalhando panfletos com seu
Número de telefone pelo bairro
Para que os velhinhos tenham a quem chamar
Hoje igrejas, sinagogas, mesquitas e templos
Se preparam para dar as boas-vindas
E abrir suas portas aos sem-teto, aos doentes e
Fatigados.
No mundo inteiro as pessoas já desaceleram,
refletem.
No mundo inteiro as pessoas já olham para
seus vizinhos de forma diferente.
No mundo inteiro as pessoas já acordam para
uma realidade mudada  de
Quão grande realmente somos,
Quão pouco o controle que realmente temos,
Sobre o que realmente importa,
O Amor.
Por isso rezamos e lembramos que
Há medo sim.
Mas do ódio, não precisamos.
Há pânico de compras sim.
Mas da mesquinhez, não precisamos.
Há doença sim
Mas não precisa infetar a alma,
Até morte há,
Mas pode sempre haver um renascimento
Do amor.
Acorde para as escolhas que vc faz sobre como
Viver agora.
Respire, hoje.
Escute, atrás do barulho do seu pânico,
Os pássaros começam a cantar novamente,
O céu se limpa,
A primavera vem.
E sempre nos abrange o Amor,
Abre as janelas da alma.
Vc talvez não consiga tocar o outro,
do outro lado da praça,
Mas cante.

Tradução: Miriam Adelman

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

the traveller



(first draft of a poem written last year, 
in Portuguese - ah, the challenges of self-translation!)


her morning

i awaken to the sun, lavish
as never before.  day to start
moving, against the image of the
night preceding,  a mediterranean
scene,  boats  lying still on the bay,
the white of a mosque reflecting
the dreams in porto. i tell you
 i too will be gathering routes: between a
woman  and the sea, there are years by the
thousands, traces, cries, pleasures
that refuse to take leave of memory,
a chiaroscuro still waiting to be
painted.

second day

if you have heard the fury
of the wind beating against sails, you will never
forget it.  it knots your chest, tangles
your hair, occupies memory. for 
experienced captains, the story is different:
a maestro’s handmade mast resists the
wind, from wherever it blows,  the simplest
and surest betrayal.

third day

time to step off the ship.
it was raining and smelling of
autumn. walking barefoot
over the stony beach, and up
the hill leading into the city
i felt muddy slippage, wet
leaves between my toes. i
would try to record them, their deep
orange, precise shape,  like
little damp hands pointing
to a path.  a condescending
gesture held me back for
some seconds, but i went
on.  with concentration,
the path will always reappear.

fourth day

it was market day. the
sun in hiding came back out
to ravish the village, to brighten
the colors of its garments,
heating the wine that was
always served warm. they 
offered me chokers, earrings and
the roasted chestnuts that i
could accept, a pair of dark eyes
asking, “and you, who are you?”.
being a stranger can sometimes be
precious,  enigma
intact

fifth day.

the children of the village gather at
the base of the fountain. i open my
heart to their mischief, just as i once
did for you, opening up all the gates to
the green pasture, and letting the
colts and calves in too. but today
the boys go around and around the
well, fishing for coins that lie at the
bottom, and are all as ordinary as
a day with no surprises.  just me, who
had switched tongues without
noticing.

sixth day

against the light of an old moon
and the oil that continues to
rage in a bronze lamp, burns in
me the wariness of moving on,
making my way once again
southward. the cabin of my
crossings smells of salt, of
fish. i who was beginning to
love too much the rain-drenched
soil, the trustworthy donkeys
who carry firewood on their backs.
nothing is darker than a night at sea.
habitat suspended. continents losing
their outline against the horizon.

seventh day.

the letter that i write
is but reinvention.
i cannot tell you my first
dream, or how while the oil
burned, i felt my fever
rising.  the eyes that followed me
were not yours. they promised to
decipher the labyrinth of the
map. we walked slowly, careful
with our water, the scarce nourishment.
my steps were no longer those of
a woman, but of an elephant, a female.
or a tiger. we went out in search of
that which would be only light,
only sound, only flesh.  there would be
no argument.  nothing-  between the
silences - but acquiescence.


eighth day

today i discover
myself member of an old
tribe.  history listens to
me, as i hear her. long
gone,  my ancestral Red
Sea navigators, and the
rustic horsewomen of the Altai
mountains, but together,
we are. i delight in the
feeling of bare feet over
ancient minerals, grasses
and the stony road to the temple.
and  long for the legends
of your people. i try to time
my steps to yours. but it isn´t
working. it must be something
 taken from  sorceresses, it gave
 me impulse, it gave me  road.
in spite of my short legs. in spite
of my female smell and the
breakings of childbirth. i cannot
comprehend what the gods babble on
with their followers or with those who
 interpret their faith. i choose instead
    to move through the night
alongside the animals, the camels
chewing patiently, the calves and
the goats. while  you sit amidst the
men, the hours of cards, chess, arak,
the sun that awaits us in different
ports.


Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...