sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Que tempos são estes/What kind of times are these/ Adrienne Rich


Que tempos são estes

Há um lugar entre dois feixes de bosque onde a grama cresce
em direção ao topo da colina, onde o velho caminho revolucionário sedissolve nas sombras, nas vizinhanças de uma cabana de reuniões clandestinas 
abandonada já pelos que nessas sombras desapareceram.

Eu já andei por lá, no limiar do medo, colhendo cogumelos.
Mas não se engane: este não é um poema russo, não é
outro lugar que este, nosso país se aproximando ao próprio
medo, às suas formas de fazer as pessoas desaparecerem. 


Não te direi onde fica, esse escuro enredo de
bosque que se junta a essa faixa de luz não demarcada –
encruzilhadas povoadas por fantasmas, paraíso de fungos vegetais:
já sei quem deseja comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.

E se não te digo onde fica, para que dizerte
qualquer coisa?  Porque vc ainda escuta, porque em tempos como
estes, para que vc me escute,  é preciso falar
sobre árvores.

(versão minha)



There's a place between two stands of trees where the grass grows uphill and the old revolutionary road breaks off into shadows

near a meeting-house abandoned by the persecuted who disappeared into those shadows.

I've walked there picking mushrooms at the edge of dread, but don't be fooled this isn't a Russian poem, this is not somewhere else but here,

our country moving closer to its own truth and dread, its own ways of making people disappear

I won't tell you where the place is, the dark mesh of the woods meeting the unmarked strip of light— ghost-ridden crossroads, leafmold paradise:

I know already who wants to buy it, sell it, make it disappear.

And I won't tell you where it is, so why do I tell you anything? Because you still listen, because in times like these to have you listen at all, it's necessary to talk about trees.


Adrienne Rich, "What Kind of Times are These" from Collected Poems: 1950-2012. Copyright © 2016 by The Adrienne Rich Literary Trust. Copyright © 1995 Adrienne Rich. Reprinted by permission of W. W. Norton & Company, Inc..
Source: Dark Fields of the Republic: Poems 1991-1995 (W. W. Norton and Company Inc., 1995)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

(not) keeping it simple


we tilt away from the sun
feeling something new in
our bones, something expectant
like the lives of the young. but
today will not be the day. desire
 moves through fickle minds,
fingers and bodies, its objects
slipping into uncanny shapes,
terrestrial shadows. pulsing and
 not yet lost.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Amor Fati /Jane Hirshfield


Pequena alma,
vc perambula sem rumo
há muito tempo.

Já anoiteceu
na floresta,
há pássaros, há olhos.

E logo, uma luz, uma cabana, uma fogueira, uma porta que está aberta.

Os contos de fadas dão advertência:
Não entre,
Quem quis se alimentar, será alimento.

Vc entra. Vc se apressa.

Vc deseja ter pés.
Vc deseja ter olhos.
Vc deseja ter medos.

Tradução:  Miriam Adelman

sexta-feira, 22 de março de 2019

red elephants

at the day's end
i empty my pockets.
        no/thing
could ever be enough.
i would give you
a piece of sun, of heart.
from south to south, a
radiance.  against the craft
of despair

terça-feira, 5 de março de 2019

Novato que precisa de maior indagação sobre a subjugação anglicana serafina de uma Reserva Indígena Selvagem

 poema de Natalie Diaz*
 traduzido por mim (e desculpem porque aqui aparece para vcs
desformatado... espero logo publicar em outro lugar tudo direitinho!!)


Anjos não visitam a reserva.
Morcegos, talvez, ou corujas, coisinhas quadradas e manchadas.
Coiotes, também.  Todos querem dizer o mesmo -
morte.  E a morte 
come os anjos, eu suponho, porque nunca vi um anjo

sobrevoar este vale.

Gabriel? Nunca ouvi falar dele. Embora conheça um cara chamado Gabe -
ele passou por aqui num powwow e acabou ficando, típica coisa
de índio.  Claro que tinha asas, como todos os que voam
de cárcere em cárcere. Ele voa em carros roubados. E onde quer
que ele pare, crianças crescem como abóboras nas barrigas de mulheres.
Como já disse, índio nenhum, que eu saiba, fosse ou visse alguma vez um anjo.
Talvez numa peça de Natal ou algo parecido -
a igreja Nazarena faz uma todo dezembro
organizada pela esposa do Pastor John. Surpresa nenhuma
que o filho do Pastor John faça o papel do anjo - todos sabem que anjos são brancos.
Pare de se incomodar com os anjos, digo eu. Não fazem bem para os índios.
Se lembra da última vez que um deus branco veio 
boiando através do oceano?

Verdade é, talvez haja anjos, mas se os há, lá em cimão,

vivendo nas nuvens ou sentados em tronos do outro lado do mar

vestindo roupões de veludo e anéis de ouro, bebendo uísque de xícaras de prata,
é melhor para nós que lá permaneçam, ricos e gordos e feios e
exatamente onde se encontram -  em seus próprios e distantes céus.
Você deve torcer para não ver anjos na rez. Porque se os vê, é porque estão
       te embalando para a marcha,

para Zion, Oklahoma, ou qualquer outro inferno inventado

          especificamente para nós.



*  https://www.poetryfoundation.org/poems/56353/abecedarian-requiring-further-examination-of-anglikan-seraphym-subjugation-of-a-wild-indian-rezervation



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Sign Language Barbie

Sign language Barbie.



     for Denise Duhamel  (my attempt at "Kinky" -inspired poetry,

                                           albeit feeble by comparison)



Barbie floats center stage in her pink dress, her paper-faced

husband forcing a smile.  He is struggling to remember

the gist of the speech she 'll deliver.  Barbie twists her mouth

in a momentary grimace,   not wanting to come off too self-assured,  

the lights that will halo her,   the clumsy demeanor of her

husband, so purple and smothered in his raincloud of fibs.  But

then she's reminded of duty, how she signs to those who can't

hear,  of the image to  recover and the  peanut -crunching crowd. 

The irresistible charm of the  charitable,  like  those English ladies in a film

 she once saw,  so polished in gentle arts of distraction,  so  promptly disguising 

 their scorn for the handmaids. The generals all rode horses back then,

 raised their spectacles to read maps,  wrote home to women in long dresses and

white gloves.  She has never read a British novel, not even a book of etiquette

but swears she has mastered it all by intuition, and the frequent trips to her top-notch

stylist.  In this brave new world, Mattel now offers plastic sheep and pastures,

 a Cyclops to conquer and even Rambo Ken who can morph into a real man, ready to pull

his gun at the first traffic fight.  Yet this Barbie has issues:  how to manage the multiple

movements of  wrists and fingers, make hands that sweep softly up and down in

gestures not too robotic. Mattel calls its engineer army into action, hoping this Barbie

can bring  some good sales to a falling market, one where girls are always wanting more

out of life.   After all, is she not an embodied saviour, poised to return to the unborn their value,

some quiet to the streets,  and a choir of angels to  home and  hearth?

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

a viajante ( work in progress)

(eternamente grata a Sarah Valle e a todas
as  viajantes -  de palavra e ato - que iluminam
nossos dias e noites de leitura )


a manhã da viajante

acordei, o sol brilhando como nunca.
era dia de viagem, e a imagem da noite
anterior, ainda uma cena mediterrânea
de barcos quietos na bahia, uma mesquita
branca refletindo os sonhos do porto.
eu também vou seguir adiante,
te disse, porque entre a mulher
e o mar, são anos milhares, rastros,
gritos, alguns prazeres que não desistem
da memoria, um chiaroscuro ainda a
pintar.

segundo dia

quem já ouviu a fúria do vento nas velas
nunca esquece.  entala no peito, enrosca nos cabelos,
ocupa a memoria.  porém, para o navegante
experiente, é outra a historia:  o mastro feito a mãos de
mestre resiste sempre à direção do vento,  a traição
mais simples e mais certeira.

terceiro dia

era hora de desembarcar.
chuva e cheiro de outono. andar
descalça nas pedras da praia
e subir o morro que conduz à cidade.
senti a lama espalhar-se, as folhas
molhadas entre os dedos dos pés.
tentei pinta-las: o alaranjado intenso,
o formato preciso, como pequenas
mãos úmidas marcando caminho.
o gesto condescendente  me segurou
por uns instantes, mas continuei
 como sempre. é só se concentrar,
 o trilho reaparece


quarto dia

era dia de feira.  o sol que se
escondia voltou a esbanjar o povoado,
a colorir os mantos e a aquecer mais
esse vinho que se servia quente. me
ofereceram colares e brincos, e as
castanhas assadas que pude
aceitar, um par de olhos escuros me
indagando,   "e você, quem é? "
ser forasteira pode sempre
ser bom, um enigma que
se preserva.


quinto dia.

as crianças do vilarejo se juntam ao pé da  fonte.  abro
meu coração para suas travessuras, tal como uma vez
fiz para ti,  abrindo as porteiras do pasto verde,  vindo
todos os potrinhos e bezerros  junto.   mas hoje os
meninos dão infindáveis voltas ao poço, pescando as moedas
que restaram ao fundo, todas tão ordinárias como
um dia sem surpresas.  só  eu, que  mudei de língua
sem perceber.


sexto dia

à luz de uma lua antiga
e do óleo que ainda queima na
lanterna de bronze, arde em
mim o receio de prosseguir,
rumo mais uma vez ao sul.
a cabina da travessia cheira
a sal, a peixe.  eu que começava
a amar demais a terra chovida,
os confiáveis jegues que levam
 a lenha no lombo.  não ha
nada mais escuro que a noite
no mar. o habitat suspenso.
os continentes perdendo seus traços
no horizonte

sétimo dia

a carta que escrevo
apenas reinventa.  não
 posso te contar o
 primeiro sonho,  ou como
enquanto o óleo secava,
sentia a febre subir.  esses
olhos que me miravam
não eram os teus.  me
prometiam desvendar
o labirinto do mapa.
caminhávamos lentamente
zelando pelo água, os
alimentos escassos. meus
passos não eram mais
de mulher, senão de
elefante, fêmea. ou de
tigre. íamos ao encontro
do que seria apenas
luz.  apenas som.
apenas pele.  sem
argumento algum.
apenas  -  e entre  os
silêncios - o sim.


oitavo dia

hoje me descubro
membro de uma tribo antiga.
a história me escuta, e eu a ela.
partiram-se já meus navegantes
do Mar Vermelho, e as rústicas
cavaleiras das montanhas do Altai
mas juntos, somos.  me delicio
na sensação dos pés descalços
sobre velhos minerais, grama, e o
pedregoso caminho do templo.
quis que me contasse as lendas
do  teu povo.  tento acoplar
meus passos aos teus. e nada adianta.
deve ser o sangue herdado das bruxas,
me criou impulso, me criou
estrada.  apesar das pernas curtas
ou o cheiro de fêmea,ou os
lastros dos partos. não entendo
o que os deuses tanto falam
para os fieis. ou para seus pacientes
intérpretes. prefiro é viver
a passagem da escuridão ao
 lado dos bichos, os camelos que
mastigam a noite toda, cabras,
bezerros.  e você lá no meio
dos homens, horas de xadrez,
baralho, os copos do arak. o
sol nos aguarda em portos
diferentes.





Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...