segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Versão preliminar

Com Lorenzo no Centro do Universo, el Zócalo, Cidade de México

de Sandra Cisneros (do livro "Loose Woman", Vintage Contemporaries, 1995)

Atravessamos duas vezes a rua
por causa dos ratos. Diante de nós,,
o zócalo de noite e a Calle de la Moneda
como num sonho de Canaletto. Esqueça
Canaletto. Esto era real.

E você estava lá, Lorenzo.
A catedral com fumaça nos olhos
ainda subia como um pirâmide após
tantos séculos. Você nomeou os quatro
centros sagrados – Amecameca, Tepeyac and mais
dois que não lembro. Me lembro de você
querida flecha, e como todas as palavras
que eu sabia me abandonaram. Em inglês
e as poucas em espanhol também.

Este é o centro do universo,
eu disse e eu quis dizer. Esta é eternidade.
Neste momento. Agora. E o amor,
esse fio de copal que tanto te apavorou
quando o mencionei,
o amor é eterno, mas o quê a eternidade
tem a ver com amanhã, não sei, compreende?

Não sei se você me acompanhava.
Nem agora, nem naquele momento.
Mas sei o que senti quando botei minha mão
no teu coração, e surgiu aquele beijo,
só isso, desde o centro do universo.
Ou pelo menos, de meu universo.

Lorenzo, é o centro do universo
tão solitário de noite e tão
sobrelotado de dia? Ao meio dia,
a terra me pariu, o metrô se lançando
do túnel. Eu tropeçava nas
canetas Bic bordadas com o logo
do Batman, cabos de extensão
vermelhas, carteiras de vinyl, rosas de
veludo, vendedores de sementes, pedreiros
brilhantes que procuravam trabalho.
Lembro do menino de pés queimados
no colo da mãe,e o cheiro da carne que
fritavam, um prato de isopor grudento,
gorduroso.


De noite fugíamos
da barulheira da praça Garibaldi, os mariachis
que perseguiam os carros ao longo da Avenida Lázaro Cárdenas
correndo atrás da próxima refeição. No La Hermosa Hortênsialuzes brilhando como numa sorveteria,
rostos suados e marcados por suas penas
bebi meu primeiro pulque morno e espumoso como o sêmen.

Na última noite nos despedímos
entre duas ruas com nome de rio.
Eu me atrapalhava com a história
do Borges e sua Delia. Lorenzo,
quando nos encontrarmos de novo,
A qual beira rio? Mas este não era poema.
Somente os mosquitos que picavam
para caralho e um beijo de adeus como
mosquito picando que me deixou com raiva
durante horas. Afinal, não foram séculos
que passaram para a gente se encontrar
ao centro do universo
onde consumamos nosso beijo?

Lorenzo, eu esqueço o que é real,
confundo os detalhes sobre o ocorrido
com aquilo que testemunhei
no meu universo. É assim pra você
também? Mas por um momento
pensei, realmente pensei que
um beijo poderia ser um universo.
Ou sexo. Ou o amor, aquele sapato velho.
Veja. Continuo sem esperança.
Continuo escrevendo poemas para
rapazes bonitos. Uma metade de mim,
novamente viva.. E a outra, desde os bastidores
gritando, Sente-se, palhaça!

Ah, Lorenzo, sou uma tola.
É eternidade ou nada. Comigo é
desse jeito. Mesmo se a eternidade fosse
só um beijo, uma noite, um momento.
E se o amor não for eterno, qual sentido faz?


Se eu tivesse as palavras eu explicaria que
como um homem ama uma mulher antes do amor
e como ele a ama depois, nunca
é igual. Como se separam as duas metades
e não podem voltar a juntar-se.
Não é uma pena?


Você nomeou os centros sagrados mas esqueceu
um – o coração. Você disse que cada vez
que passasse por este zócalo
se lembraria de mim e esse beijo
desde o centro do universo.

Eu me lembro de você, Lorenzo. Está vendo
este zócalo? Se lembre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário