sábado, 23 de setembro de 2017

such is...

such unsatisfactory men
hunched behind shoulders and
soliloquy. how  the rain falling behind
 them bores its pores into the
world. if we could whisk them away
even for a minute, some different tune
might be audible, some suggestion of  a new
way to paint the walls or lay the bricks, a
nimbler dance   perhaps, and some way
to become
again.

domingo, 10 de setembro de 2017

Poema dos vinte anos - Benedito Costa Neto

 Caminhávamos de mãos dadas até uma esquina
Quando vc me olhou triste, a dizer
Coisas estranhas sobre a liberdade
Olhei para o mar e vi cortinas de chuva no horizonte
Era fevereiro e tantas pessoas se divertiam
Não entendo bem metáforas
Tampouco vejo presságios nos voos dos pássaros
Passeávamos como um casal de dálmatas alegres
Lembrei da tapeçaria com o tema da caça ao cervo
Contávamos cães e cervos
Não queria olhar para trás: seria quer balizar
Algo não mensurável, o tempo
Baixei os olhos e temi a morte
Brincaria com os pêlos do seu braço se ninguém nos visse
De alto de um templo você me oferecia o mundo
E éramos como uma foto de revista, editada
Cena de filme de um ou outro cineasta engajado
Completamente underground para o resto
Num bar, homens jogavam cartas
Jamais invejei tanto o grito de “seis” 
Uma mulher olha pra seu calção de linho branco
E para sua camiseta de listras azuis
Já não sinto mais aquele misto de compaixão
Ciúme, ironia
Porque
Caminhávamos de mãos dadas até uma esquina
Quando, sem jeito, você começou a questionar a liberdade
Com palavras estranhas
Vi seu corpo difuso num dark-room de São Francisco
Numa viagem a Madrid, a ler guias queer
E os azulejos brancos dos banhos públicos modernos
Onde as águas são a um só tempo
Mais e menos que disfemismos baratos
A procurar o amor nas praças, nuança mais negra de Eros
Andávamos juntos até uma esquina
Quando você me disse coisas tristes sobre a liberdade
Sob a imagem de um Heliogábalo
Emplumado num carro alegórico de 20 metros
A dançar, a girar
Como um demônio vermelho
Ambíguo por natureza e força
Num baile de máscaras aberto
Angélico nas formas femininas
Luciferino porque andrógino
Caminhávamos juntos até uma esquina
De mãos dadas até o fim
Porque eu vi dois rapazes a andar de bicicleta
E fiquei a admirá-los até que desaparecessem.

Poem for my twenty years
(translated by Miriam Adelman)

Hand in hand we strolled to the street corner
Where you found me with your sad gaze, to
Pronounce strange words on  freedom
And I looking to the sea found curtains of rain on the horizon
It was February and so many people were out having fun
I don't understand much about metaphor
Nor do I find omen in the flight of birds
We strolled along like a cheery pair of dalmations
I  remembered the tapestry with its deer-hunting motif
How  we counted dogs and deer
 I had no desire to look backwards: which would be a beacon to
Something incommensurable, time itself
So I lowered my gaze, felt fear of death
I would have caressed the hair along your arm were no one to see  us
From high atop the temple you offered me the world
And we were like a magazine shot, scene
Cut from a film of some committed film director
From the unrecognized underground
There in the bar, men were playing cards
 I never so envied  that cry of  "six!"
A woman stared  at your white linen trousers
At your blue-striped tee shirt
Gone now my mixture of compassion
Jealousy, irony
Because
There we strolled  hand in hand to the corner
Where clumsily you began to question freedom
With your strange words
I  envisioned your body diffuse in a San Francisco darkroom
Or on a trip to Madrid, reading queer guidebooks
The white tiles of modern public bathrooms
Where waters flow in one sole tempo
More or less than cheap old dysphemisms
Searching for love in city squares, Eros in its darkest nuance
We strolled together  to the street corner
Where you began sad words on freedom
Under the image of a plumed
Elagabalus
Parading twenty meters high atop a float
Dancing, swiveling
Like a red demon
Ambiguous by nature and force
At a masquerade ball open to all
Angelical in feminine forms
Androgynously Lucifer-like
We strolled together  to the street corner
Hand in hand till  the end
Where I saw two boys riding their bicycles
And stayed to watch until they disappeared.





quinta-feira, 4 de maio de 2017

Como ajudar as crianças em tempos de guerra



                          - Denise Duhamel

Mister Rogers recomenda dizer às crianças americanas
que a tristeza faz parte.  Apresente então para elas o globo
em lugar do mapa ordinário,  para  mostrar e dizer
quão longe realmente fica o Oriente Médio.  Enfatize que
assistir meteorologia da TV Saudita não quer dizer
que se chega lá de carro. Enfatize para elas o que
seu presidente lhes garante:  que toda vida é preciosa,
a de uma criança iraquiana igual à do soldado americano.
Diga isto para seus filhos, acreditando ou não
nas palavras dele.  Fale para as crianças que seus pais
sejam civis ou soldados, as amam, seja qual for
o chão que habitam. Considere descrever para elas
a guerra como ela é,
mas se sua filha joga Nintendo, não lhe sirva
sangue em lugar de leite no cereal matinal.  Se seu filho
anda numa gangue perigosa, então deixe que ele
te explique a guerra.  Aos pequeninhos, sugira
que levem seus jogos de química para a areia do parquinho.
Se você ensina arte, explique eventos atuais
com bonecos de papel.  Uma corrente de homens de cartolina vermelha:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Peça para os aluninhos que amassem um dos bonecos,
que lhe deem o nome Noriega. Que o joguem num copo de papel
que representa a cadeia.  Nesse momento pode fazer perguntas
para que percebam o quanto um boneco se parece
com o outro.  Peça para cada criançinha
escolher um que seja seu favorito.
É esse que devem retalhar, os pedaços mais minúsculos
que suas tesourinhas permitam.
Talvez alguns aluninhos se inquietem, se polvilhando uns
aos outros com os pedaçinhos cor carmim.   Permita isso:
confete, carnificina, neve vermelha, bombas.

Versão:  Miriam Adelman





quarta-feira, 3 de maio de 2017

How to Help Children Through Wartime

How to Help Children Through Wartime

                           - Denise Duhamel

Mister Rogers says to tell your American young
it's OK to be sad.  Present them a globe
rather than a flat map to show-and-tell
how far away the Middle East really is.  Stress
that the TV Saudi weather report
doesn´t mean the country is within driving distance.  Stress
that their U.S. president assures them that all life is precious,
an Iraqi child's equal to that of an American soldier.
Tell your children this, whether or not
you yourself believe him.  Tell children that parents,
be they civilian or soldier, love them regardless
of what soil they're on.  Consider letting children know
what the war is really like,
but if your daughter has Nintendo, do not pour blood
instead of milk on her Cheerios.   If your son
is in a dangerous gang, let him explain
war to you instead.  Encourage all elementary schoolers
to take their chemistry sets to the sandbox.
If you teach art, explain current events
with paper dolls.  A strand of red construction paper men:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Have students crumple up one doll and name him
Noriega. They may throw him in a Dixie cup
that represents a jail. Then you may ask questions
that lead students to notice the resemblance
of one paper man to the next.  Have each of the children
pick a doll who represents their favorite.
Instruct them to cut that man up into the teeniest pieces
their safety paper scissors will permit.
Members of the class may begin to get restless, to sprinkle
each other with the crimson bits.  Allow this:
confetti, bloodshed, red snow, bombs.





sábado, 21 de janeiro de 2017

manhã



fiz as perguntas necessárias.
a solidão é uma cerejeira, e o fruto,
possível.  como você, amo as vozes
da rua, mas já se calaram. na labuta
 diária contra a toxina lenta,  imagem
que procura espelho.  não é  mais a minha
beleza, nem a tua. o tempo se encarregou disso,
as nuvens dos desastres nucleares, ou
o perfurar abrupto de armas comuns.
as pessoas com seus pequenos potes
de veneno, também.  é com o mínimo
que nos contentamos:  o pão ainda fresquinho,
uma ameixa que conseguimos colher, a cabeça
do cachorro contra minhas canelas. talvez
continuemos.  mas não são mais
os barcos que se afundam.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

fair play



you give me this, i give you
that. it should be simple and
without much sentiment. such
are the tacit rules of human
exchange for times like this
one: an evening roll in the hay, au
bord de la marne, where it is late into
autumn and steam rises gently off the
bodies of the munching bovines, the mud-
crusted ponies. i take off my old
lady mask - as diane once said-
and slip easily out of my street
worn jeans. i sleep all night in
your branches. it is warm there,
despite the snowflakes falling
around us. which of us paid
for dinner at the country
inn?  was it momentary shelter,
altar of encounter?   did nothing
flicker in the heart, beyond
basic calculation, the thought
that one place is as good
or perhaps better
than another?

sábado, 17 de dezembro de 2016

flaneuse

sometimes there is something you need to do
just once.  walking along a channel in the winter sun
and watching the reflections go from blue to brown to
a momentary green, no one catching your eye but a wind
sweeping by briskly to remind you, it is just this once. you
think of Rilke and how he admonished us to never believe
the lie of holding on or having forever.  you pride yourself
on how close you get. the freest of spirits in the crowd,
how you can hold a hand so close to your heart, or your
parts, in the deep blue of one single night, and then raise your
glass to the freedom of roads and journeys. but then once again
in the specter of morning and the rough waves of finitude,  you
are  wondering again,  just how to hang on.