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segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Gracias a la vida"...

Com algumas modificações, vai uma crônica que escrevi mais de uma década atrás. Acho que hoje dá para postá-la aqui, agora que eu posso dizer que faz parte das vivências da época da 'minha juventude’ .

Gracias a la vida...

Ele sempre me olhava com esses olhos grandes, escuros meio esverdeados, e me fazia perguntas engraçadas: “Professora, como serão as relações entre os homens e as mulheres no futuro?”, ou “Professora, quero estudar ‘a noite’. Não é alí que as pessoas se procuram, para se acasalarem?” Ou afirmava, outra vez com aquele sorriso, aquele rostro iluminado, “Professora, eu quero estudar essas coisas ... do feminismo!” E olhava para mim de uma forma intensa, acesa, urgente.

Eu comecei o levando na esportiva, quase resistindo, achando que afinal de contas, deveria considerar sua atitude como elogio, como identificação. Era tão bonito ele, mas tão menino, com o andar ainda de pós-adolescente, o tom sempre ingênuo de suas perguntas. Mas continuava a me procurar. E vinha com suas histórias: a ex-namorada, de família rica, que pôs fim à relação com o jovem com poucas chances de se tornar um bom provedor, um bom senhor esposo para uma advogada; o irmão mais velho, que quando tinha quatro anos e ele dois, o empurrou da janela do segundo andar e até hoje o acusa de ser um incompetente que “só estuda para comunista”; a mãe separada que é artista plástica e gosta de inventar teorias “do nada”, o pai que se maravilhava com o menininho que sempre gostava de conversar com todo mundo e que até propiciou sua ida para o Peru, mas com quem já não gosta mais de morar...

Acho que qualquer uma na minha posição poderia começar a se envolver. O será só eu, a eterna carente? Um dia ele me pergunta, “Não entendo quem é que começa o relacionamento, o homem ou a mulher.” E eu aproveito, “Quer dizer, quem que começa, você ou eu?” “É, isso.”

Convido ele para almoçar no dia seguinte, e ele aceita. Chega ao meu escritório até meia hora antes do horário marcado, lindo, o rostro iluminado. Passamos umas horas legais: a conversação, as risadas, animados, felizes. Mas a gente não se toca. Nenhum sinal de aproximação vem de ele, e eu fico morrendo de medo, pois o que é que uma quarentona como eu pode esperar de um rapaz daqueles, qual a liberdade que posso tomar? Qué confusão, penso eu. Eh, menina,, veja só como você gosta de arranjar para você umas belas confusões! E quando quase sem linguagem para isso acho a forma de perguntar, ele me responde como surpreso, que não é nada disso, como se não houvesse nada no caminho para me indicar, como se todas as palavras e olhares dele valessem muito menos que seu peso, seu som, sua textura...Mas eu as ouvi! Eu estava te vendo! Lógico que isso não falo, falo só que tudo bem, não se preocupe, imagine... E me conta a história da menina do curso de geografia, a colega com a qual ele gostava de conversar, como foram no cinema, e depois para a casa dela, e depois para a cama dela, e depois ele, arrependido, está com a menina “o perseguindo” por todo quanto é canto da faculdade...

Como é que eu posso entender essa vida!! No carro, conversamos mais, deixo ele em frente da reitoria, a gente se abraça, sinto o corpo, o calor dele. Estou com uma vontade danada de chorar, mas só digo, “Não se preocupe. Conte comigo” Continuo reto, vou assinar o recibo da tradução, vou buscar o filho, pôr o jantar na mesa, os meninos na cama, o tempo todo com um vazio expandindo-se por dentro.


Depois, esses largos dias na Patagonia, tardes de vento, as montanhas- finalmente vejo a Cordilheira dos Andes! - e eu com sua figura me rondando, eu que não consigo esquecer. Gracias a la vida que me ha dado tanto, cantamos com meus amigos pelos caminhos pedregosos da Carretera Austral. O sul do Chile é tão belo e me faz lembrar outros momentos desta longa vida de menina atrevida. Tá bom, já vivi muito, já sei que “paixão é doença”, ou que, em todo caso, minha própria paixão pela vida continuará sempre sendo maior do que a paixão que pudesse chegar a sentir por qualquer homem. Que todos os homens que conheci intimamente, com uma só exceção, sempre acabavam se mostrando pequenos frente à generosidade de espírito da qual nós mulheres somos capazes. E assim por diante...

O vento varre a Patagonia, bate na noite nas asas da barraca, canta com fúria nas tardes, na casa da Carla e do Enrique, antes da chuva. Em Buenos Aires, ando feliz. Compro mais cds e fitas de música latinoamericana e uma saia vermelha para sair à noite, e quando saimos uns jovens na rua me vêem feliz, e dizem, Mira como esa mujer está hermosa! E eu sei que é minha coragem que é grande e talvez hermosa, que a paixão se apaga e a vida continua, que eu andarei por essas ruas e muitas outras, que amarei muito aos meus amigos e aos meus filhos, e esse enigmático muchacho, talvez muito mais “muchacho” do que enigma, irá já ocupar seu lugar fugaz na minha história. E, é verdade. Gracias a la vida...

sábado, 22 de maio de 2010

Versão...

Gente, aí vai, já incorporando algumas sugestões do amigo
Marcelo Toffoli...

CASAMENTO

- Denise Duhamel (do livro Kinky)

Barbie imagina se seria traição
sonhar com namorados, bonecos que
Mattel nunca fabricou para suas brincadeiras.
Um com dreads rastafári feitos de pelúcia
Em lugar de duros arcos de plástico,
Outro gordinho, meio calvo
Com óculos de John Lennon
E um terceiro com um nariz grande e sexy
como Gerard Depardieu.
Porém, supõe ela, seu Ken é mesmo inofensivo
Peitoral todo sarado afastado por rígidos seios
que não cedem ao toque
e ele não pode lhe obrigar à nada
quando ela não está
com vontade.
Ela se lembra das últimas palavras
da descontinuada boneca Midge,
“Hey Barbie, não complique,
É um casamento, não é?”
Desde o outro lado do corredor
Entre o monte de brinquedos pra menino
O Soldado Joe de vez em quando olha pra ela
Mas não faz exatamente seu tipo.
Ela na sua caixa, com elásticos que prendem
Seus braços.
A capa de plástico distorce sua visão
Do mundo.
Não é só aventura romântica o que ela deseja::
Há passeios de balão,
Aulas no curso noturno, trabalho de caridade.
Barbie se consola, reconhecendo que não é
Muito diferente do resto de nós, de como jogamos:
Entre gratidão e ambição,
Passividade e culpa.





versão: Miriam Adelman.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Telling stories, connecting lives.

(Part I)

To travel is the best way to learn and empower yourself”, said Yasmina, my grandmother, who was illiterate and lived in a harem, a traditional household with locked gates that women were not supposed to open. “You must focus on the strangers you meet and try to understand them”. The more you understand a stranger and the greater is your knowledge of yourself, the more power you will have”. For Yasmina, the harem was a prison, a place women were forbidden to leave. So she glorified travel and regarded the opportunity to cross boundaries as a sacred privilege, the best way to shed powerlessness.
(Fatema Mernissi, Scheherezade Goes West…)

Of all the authors and writers on my ever-expanding list for this one of my current projects (helping to extend mappings of gender and culture beyond the borders and boundaries of Euro-american paths and patterns; advancing the fusion of feminist and post colonial perspectives for sociology, etc. ), no one has inspired me more than Moroccan feminist, Fatema Mernissi, in her more personally-informed writings, Dreams of Tresspass and Scheherezade Goes West. These two works, which weave their tapestry through a language particularly rich in personal memoir and reflection (and thus show how the fabric of each of our lives is linked up to culture, history and social institutions), render a convincing picture of the common threads, that, moving beyond conventional bias and stereotype, connect women’s struggles for equality, for full access to public space and voice, and for (individual and collective) self-representation (in politics and in art, in media and everyday life), historically and at present, in different parts of the world.


The disabling myths and traps of patriarchy have different faces and versions. We westerners tend to be unaware of the wide array of mechanisms and strategies that women in other parts of the world have developed to thwart and challenge their subordination, as we fall prey to “orientalist” mentalities that have encouraged us to think of Middle Eastern –and non-Western women in general – in monolithic terms, as oppressed victims who have been denied of the opportunities to reflect upon their lives and struggle for better ones. But as Mernissi points out, in Arab and Middle Eastern literary and folk traditions - and in history and society as well-, there is a legacy of intelligent, daring and competent women who not only assert themselves but are also admired for their unconventional attitudes. From a legendary tiger-hunting Persian princess to the clever Scheherezade who used her wit and story-telling skills to change her own fate, as well as that of other women who had been destined to doom , to the many women across the Arab world today who flock into universities, politics and scientific and technological occupations, Mernissi evokes another notion of the feminine: “A woman", she tells us, "must always be ready to jump on a horse and cross alien territories. Uncertainty is a woman´s destiny”. (And the courage to face this uncertainty, a not so uncommon response, I might add here)Yet Western philosophers, writers and painters (men, for the most part), mesmerized by what they had heard about the “harems of the Orient”, let their own imaginations run wild, fantasizing an enigmatic world populated by sensual eastern beauties who existed for and through their almost magical abilities to guarantee men their pleasures. These harem women became an object of male fascination – written about and painted by “masters” over the course of several centuries. As Mernissi’s witty narrative unfolds, she shares with us her unique insights – her own process of uncovering a foreign way of thinking – into Western representations of the harem, which have been cleansed of, or were perhaps always blind to, the intense subjective and relational dynamics in which women acted to assert their own desires, wrest control from men or construct particular forms of “counter-power”.

The worlds of east and west have both been, for many centuries, a “man’s world”. And modernity – as it makes its way over the globe, in different times and rhythms, and full of holes and contradictions of its own – does, in the best of hypotheses, create an important new terrain where women struggle for “subjecthood”. Mernissi evokes the work of other contemporary writers, such as Naomi Wolf and Pierre Bourdieu, who have been particularly brilliant in unmasking the forms of symbolic violence that are at work, in the West today, and run against the grain of modern feminist struggle. These are extremely powerful ways of devaluing women – and doing so through the reproduction of consent. Thus, “Unlike the Muslim man, who uses space to establish male domination by excluding women from the public arena, the Western man manipulates time and light… by putting the spotlight on the female child and framing her as the ideal of beauty, he condemns the mature woman to invisibility…”; the “violence embodied in the Western harem is less visible than in the Eastern harem because is not attacked directly, but masked as an aesthetic choice.”

[to be continued]

domingo, 2 de agosto de 2009

e estes...

escritos quando eu morava em NYC:


Lovers


they move into each other, pouring
from the separateness of their lives
into this brief burning, the way fire
melts all things together, leaves
nothing. the sea at the heels of
the city drums against silence,
the white line of the coast in
winter, abandon.

in the early evening, heat gone
from her thighs, she finds him
lost from her, moving off, the
distant streak of a dinghy
vanishing into salt fog. he
hears something stirring
in his past, something
that will make him need her
again. again, the long inching
toward their meeting.
a wisp of time.
the pale of the moon.
some other route out of or into the
darkness.


Michoacán


the hard hills of the sierra
nose up into blue and gray, bearing tracks
no one could count. the landscape swallows
time: here, women carry the earth, rub cloth
on stone, let the sweet smoke of corn out into
the air. there are clothes hung out, pencas,
adobe. here a girl-child grows, knowing
the brown paths into the mountain, one color
repeated in water and land. here, her breasts
ripen, as the sky gathers its rain clouds for
the season to come.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Você, minha pérola do mar - poema de Sandra Cisneros

Gostei muito deste poema na sua versão original ("You my saltwater pearl" do livro de Sandra Cisneros, Loose Woman.) Tentei captar o sentido brincalhão do seu ir e vir "trans"...(trans-sexo/gênero, digo) que penso que tem muito a ver com outros momentos da obra dela. A tradução que vocês encontrarão aqui está ainda em versão preliminar, com algumas sugestões das minhas parceiras Sabrina Lopes e Marcia Cavendish Wanderley já incorporadas.

Você, minha pérola do mar
minha mãe, meu pai
minha cria bastarda,
meu ceu minha mágoa,
você da minha tristeza escrava,
meu coração enrugado.

Moedinha dos meus olhos,
minha tulipa, minha caneca de mendigo
minha mulher, meu menino
para eu lhe sustentar ou você a mim,
para eu lhe chatear ou embrabecer.


Me pegue como um menino,
me machuque um pouquinho. Me faça chorar.
sou seu leite e mel.
Seu Nabucodonosor.
seu zigurate de prazer.
Sua penosa impressão digital.

Serei haxixe.
O item guardado que não se vende,
para doação ao marajá,
vulgar como uma jóia da Liz Taylor,
Seu Taj Mahal.

Agrade-me. Eu lhe farei carinho,
lhe aterrorizarei, lhe penetrarei.
Mãe do meu coração,
cria bastarda,
minha querida, meu querido,
minha pérola do mar.







segunda-feira, 23 de março de 2009

Five of Staves - um poema de Diane Wakoski

Vou postar este poema de Diane Wakoski em versão original em língua inglesa. Por questões de linguagem e referências culturais, é muito difícil de traduzir (talvez a gente ainda tente). Mas gosto dele -muito forte!- como poema, e também me chamou muito a atenção por tratar - com tanta sagacidade e ironia - do tema da "homosociabilidade", que é até uma questão muito relevante para as pesquisas que minha orientanda Fernanda Moraes e eu andamos fazendo na sociologia (quem tiver curiosidade ao respeito, um texto nosso está no:http://www.uff.br/esportesociedade/pdf/es903.pdf )

5 of Staves (Wands):Young Men Fighting or Playing with Green Poles.


The secret
has always been
what men find
to do
with eachother. Those great
majority of moments which, like football
and jock itch, and mining
exclude women.

We have so
little.
The hut
where we go
when we’re bleeding, and the moon
is swimming or being washed from out between our
thighs.
Water polo,
a big sport,
at my Southern California high school,
favored by rich kids who lived in the
Heights with swimming pools
boys
who drove their new Fords when they were juniors
after their sixteenth birthday, boys
who closed their eyes when they touched
us in those wet places, all
of us hoping their hands
would not come away bloody. But the
lips always were.
whether we say “Bah-bah-bah-
Bah-bah-bra-Ann” or
my “Little Deuce Coupe”
whether we drank cherry cokes
or milk or wrote poetry or watched movies, we walked in our starched crinolines
and lacy blouses once a month to
segregated rooms, smelling like fish
under our deodorant.

But the boys, they had fun
when they were segregated;
when they were alone together
they touched
-- with jokes,
or greetings
“Hey Man”
as we never did;
they talked,
as we still cannot;
they found out how to run the world,
as,
of course,
we do not.

And water polo, those boys
hitting that big white ball around
in the green-like-emerald water
of the FUHS Olympic-sized pool,
Oh, they even knew our secrets.
That the moon they tapped and spun and slapped
around the water was just like the one
pushed out between our thighs each month
- if we were good,
- if we were lucky,
- if we were smart.

Oh, don´t tell me EVER
that women have secret lives
or treasures
that no one except other women
knows about.
Tell me,
instead,
that the secret is,
and always has been,
why
men find so much pleasure in each
other’s company; why women
when they are segregated and together with
each other, have only the menstrual hut,
the old, rusty, monthly blood
to share?
or its taboo opposite:
the little clone of ourselves
forming inside our bodies,
etching its face and shape on the moon,
which will then disappear for nine even lonelier
months.

A child to replace the mother.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O tempo passa, o quê acontece com os objetos/sujeitos do desejo?

[Após participação num programa de rádio e depois, uma tarde de papo com @s amig@s em que voltamos mais uma vez ao tema...]

Entre “nós da academia” virou quase clichê a afirmação que o sujeito se produz nos (através dos) discursos. Não que todo mundo concorde. Afinal, as velhas discussões entre “materialistas” e “culturalistas” continuam e todos nós também sabemos muito bem que na nossa área os debates nunca se resolvem. Muito pelo contrário, se repetem, se re-significam, encenando novas e antigas dimensões - fonte de persistente ansiedade para os que querem encaixá-los noutro modelo de “cientificidade”.

Não muito distante destas discussões, ou melhor dito, parte delas, é como “os corpos se constroem discursivamente.” Concretizando um pouco: no meu próprio trabalho venho discutindo diversos discursos sobre corporalidade feminina - as formas de falar e pensar sobre o corpo e sua relação com práticas que nos tornam mais competentes, ou mais inseguras, mais “empoderadas” ou mais obcecadas (apenas?) com as belas formas...

Na poesia de Diane Wakoski, está sempre presente esse corpo/sujeito feminino construído, constrangido, emergido da cultura, do nosso tempo/momento. Por vezes, tratado com muita auto-ironização, e sem nenhum receio de mostrar-se em constante conflito com os modelos de feminilidade que tormentam e atraem. Em conflito com os códigos que nos validam socialmente como seres que podem ser desejados por outros. Códigos que têm um impacto enorme sobre nossa subjetividade, pelo poder que têm de nos frustrar como sujeitos do desejo...
,
Pensemos por exemplo um pouco sobre os discursos que circulam sobre as mulheres (e os homens) na meia idade. Num filme recente, Fatal – baseado no romance O Animal Agonizante do renomado escritor norteamericano Phillip Roth - resgata-se mais uma vez o “direito natural” dos homens velhos sobre as mulheres mais novas, através de uma curiosa estratégia narrativa: após longos questionamentos sobre a “sustentabilidade” ou validade da relação entre a jovem e seu muito mais velho professor, a jovem apaixonada perde o poder ou vantagem outorgada por sua juventude perante o amante quando desenvolve câncer no seio (a mutilação do seu corpo que resultará da cirurgia a vulnerabilizará, sugerindo a destruição da sua perfeição juvenil ao mesmo tempo que legitima a proteção que o macho lhe dará!) O que me fez lembrar de um outro filme, que assisti uma vez numa viagem de ônibus para Florianópolis, Stepmom - produção hollywoodiana comum, mas protagonizada pela maravilhosa Susan Sarandon que contracena com a "queridinha" Julia Roberts. História do conflito entre as 2 mulheres - a ex-esposa e mãe dos filhos, e uma nova, jovem e linda fotógrafa, atual namorada do ex-marido - que gira em torno de disputa por uma posição na família, o papel materno –, nos traz mais uma vez de volta à naturalização do direito dos homens mais velhos, seu "privilégio" de viver a vida como o desfile de fêmeas sempre renovadas, como descarte das mais velhas. Curiosamente (?), a doença é neste filme também a “estratégia narrativa” utilizada para naturalizar esta sucessão de mulheres (e de afirmar, entre outras coisas a superioridade do corpo masculino, ainda “forte e desejante”), pois a personagem de Susan Sarandon morre de câncer. E finalmente, lembrei de um romance de Milan Kundera, que li anos atrás, Imortalidade no qual a protagonista, uma bela e inteligente cinquentona – que um dia andando pela praia tem a percepção resignada que os homens não mais olham para ela e ao longo da história vai perdendo a vontade de continuar vivendo, acabando morta em acidente de estrada – vai no mesmo sentido. Mulheres mais velhas que “não servem mais” para agradar os olhos dos seus antigos parceiros, e cujos filhos não mais precisam delas! Como no ditado popular “Deixa a fila andar”!!??

Sei que há outras “construções discursivas”... bem minoritárias ainda, ou que não circulam muito pelos circuitos da cultura de massas ( a não ser nas formas diluídas e ambíguas de certas celebridades brasileiras -- ah, qual a nossa dívida com Susana Viera!?) Há, como escrevi noutro lugar*, a dignidade e sabedoria das personagens femininas mais velhas criadas por Virginia Woolf, entre elas Clarissa Dalloway (Mrs. Dalloway) e Mrs. Ramsey (Ao Farol) Também por isso estou gostando do trabalhar com a poesia de Diane. Uma voz que me parece genial. Pelo sarcasmo e a compaixão, ou bem, pela coragem de se expor, e com sua mistura particular de senso de humor e raiva, de ternura e contestação, de se afirmar como sujeito e objeto do desejo. De reivindicar poeticamente e ironicamente esse direito que todas temos, ao longo de nossas vidas, de sermos admiradas e valorizadas pelo fazemos – com as mãos, ccom a mente, com o coração, com o corpo.

* no prelo, artigo "Modernidade e pós-modernidade em vozes femininas"

domingo, 4 de janeiro de 2009

Rilke e formas de ser e de estar- no- mundo

para nc

Conversando recentemente com um amigo meu sobre uma dessas temáticas nossas mais recorrentes - relações amorosas, formas de ser e estar no mundo de mulheres e homens hoje, formas de apego das pessoas às pessoas - me veio à memória um poema de Rainer Maria Rilke que havia lido, anos atrás, numa revista de letras norteamericana. Na época, quando o li pela primeira vez, me chamou a atenção e gostei dele o suficientemente para tomar o tempo para recortá-lo, levar para fotocopiar (as fotocópias, a gente sabe, costumam resistir mais o passar dos anos do que o papel fino e fácil de manchar do jornal) e guardar. Curiosamente, tempo depois – estando no meio de pesquisa para um texto sobre a produção literária e cultural das mulheres – tive motivo para lembrar muito dele. Mais de um dos autores que lia, ao comentar sobre sensibilidades “modernistas” no masculino e no feminino, assinalava que Rilke, quem escrevia belos textos satirizando o desejo de posse – atitudes ou comportamentos que procuram possuir, aprisionar, reter para sempre um outro ser - na sua própria pratica parecia padecer de uma tendência contrária: a falta de capacidade de se apegar (muito) às pessoas, e particularmente, às mulheres que passavam por sua vida. Ou seja, o que por um lado aparece como rebeldia libertária (“ critique of the property inscriptions and the violence of male possessiveness in the bourgeois institutions of love and marriage” – *) poderia facilmente se tornar a recusa da conexão com o Outro. Construía -se um “masculino heróico” (talvez menos em Rilke do que em outros escritores representativos ) no qual a independência, a liberdade e a criatividade construíam-se em oposição a vínculos firmes, principalmente com membros do sexo feminino - elemento comum este, aliás, a vozes de homens que escreviam em outras épocas, e sendo particularmente notável na obra dos escritores da geração beat norteamericana.

As vezes quase parece que nunca conseguimos sair de um mesmo terreno muito cheio de armadilhas. O mundo muda um pouco, sim (entre outras coisas, durante todo o século XX, são muitas as escritoras que ponderam formas de significar a liberdade “no feminino”, conjugando-a também com a conexão). E há quem argumenta (o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em primeiro lugar) que estamos no momento das “relações líquidas” – as sociabilidades são mais frágeis e a tendência é de fugir dos compromissos “mais sólidos” que caracterizavam outras épocas da modernidade, com evidentes perdas para nossa vida em comum. Embora eu não endosse muito as teses de Bauman, por inúmeros motivos que não poderei discutir aqui, talvez pudéssemos dizer que há mais mulheres hoje, entrando na modalidade “líquida” dos homens. Se esta, a final de contas, não a consideramos tão nova, e mais uma generalização de uma tendência com raízes numa vertente da rebeldia modernista. Estamos perante a novidade? Ou meramente reproduzimos antigas dicotomias de comportamento masculino e feminino? Qual a relação entre “liberdade” e “conexão” ? São questões que tem todo a ver com o cotidiano que quase tod@s vivemos, embora os elementos nos pareçam mais abertos, menos presos a formulações binárias e mais prováveis que se apresentem de formas ainda... mais complexas!

Talvez tenha exagerado na digressão. Volto agora ao poema em si, que lembro ter lido, a primeira vez, “apenas” pelo prazer do texto. Posso hoje compartilhá-lo com vocês, para ler, curtir, e quem sabe, trocar umas reflexões sobre estes assuntos que não têm “ponto final”... (Agradeço aqui à tradutora, pela gentileza de permitir esta reprodução do seu trabalho.)

Rainer Maria Rilke
You need not be afraid, God (from The Book of Hours)


You need not be afraid, God. They say: my
to all the things that will be patient.
They are like wind that brushes against branches
and says: my tree.

They hardly feel
how everything their hands grasp glows red-hot
so that they could not even by its outer hem
hold on to it and not burn down to ashes.

They will say my as sometimes someone likes
to call the Duke a friend, in talk with peasants,
but only if the duke is great – and very far.
They will say my of their peculiar walls
not knowing even who is master of their house.
They will say my and call it property
while everything shuts down if they come near,
just like an obsolescent charlatan
perhaps will say the sun is his, and lightning.
Like this they say: my life, my wife,
my dog, my child, and know full well
that all that: life and wife and dog and child
are foreign forms, with which they blindly
and with their hands outstretched sometimes collide.
Certain of this, of course, are only great ones,
the ones who long for eyes. For all the others
don´t want to hear their impoverished wandering
does not cohere with anything around,
that, while they´re pushed away with all their havings
and not acknowledged by their property,
they have the woman no more than the flower
which is of foreign life to anyone.

Don´t fall, God, out of equilibrium,
He, too, who loves you and who recognizes
your face in darkness – if he, like a flame,
will shudder in your breath – does not possess you.
And even if someone will grasp you in the night
so that you must arrive into his prayer:
you are the guest
who will go again.
Who can embrace you, God? For you are yours,
by no proprietor´s hand disturbed,
like wine which while it is not yet mature
and growing ever sweeter, is its own.

“Du mußt nicht bangen, Gott.” American Poetry Review, back
cover, Jan/Feb 1999.)
Traduzido do alemão por Silke-Maria Weineck, U. of Michigan.

* Andréas Huyssens, “Paris/Childhood: the Fragmented Body in Rilke´s Notebooks of Malte Laurid Brigge” In: Huyssen & Bathrick, orgs. Modernity and the Text: Revisions of German Modernism. NY: Columbia U. Press, 1989, p. 136

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

TRÊS de Larissa Pelucio

Um conto escrito por Larissa:

Três

Ele se via diante de três possibilidades. Estava feliz. Três é um bom número. Os números ímpares têm arestas, deixam brechas que abrem possibilidade. São mais flexíveis, uma vez que oferecem mais plasticidade além da rigidez do par. Eram três. Deu um gole triunfante na cerveja e se sentiu ainda melhor. Quente e poderoso. Nunca tinha se visto assim. Sempre havia se sentido feio, inadequado. Desinteressante, nunca. Apenas não tinha a menor chance de mostrar tudo o que tinha por dentro. Aquele turbilhão de sentimentos, de filosofia, de descobertas incríveis feitas entre os livros e a solidão do desprezo.

Três. Estava vingado. Vingava-se da vida. E não era propriamente uma vingança, uma vez que não tinha raiva. Só prazer. Triunfo. César, Napoleão. Era isso. Estava cheio de poder. Um poder inebriante que não nascia da opressão, só da força. Da certeza que Era. Era muito bom Ser. Domino, logo existo.

Quantas descobertas. Quantos delírios. E um mundo inteiro lá fora. Zeus no Olimpo. Sátiro na terra. Baco à mesa. Deu um outro gole feliz e pensou nas três. Uma suficientemente conhecida para despertar ainda interesse. Na sua avaliação, depois de conhecê-la, ela era complicada. A outra, ingênua demais. Problemas futuros, com certeza. Meninas que batem pestanas enquanto falam dão problema, sentenciou com ares de sábio. Mas havia a de número três. Forte. Sarada. Durinha. Carne quente e, certamente, macia. Morena. As morenas são sempre as morenas. Eram três morenas. Era muita sorte. Com certeza, três era o seu número de sorte.

Virou-se para dentro de si mesmo, enquanto as palavras vinham fáceis. Fluíam certeiras, sem qualquer dificuldade. Ele sentia o efeito de suas palavras e saboreava-as. Um homem quando sai na noite se sente um guerreiro, pensou sem filosofia. Mas disse aquilo com uma maestria, com uma simplicidade confunciana. Estava dito. ...Sai pronto para o combate, para o enfrentamento. Nunca sabe exatamente o que vai acontecer. Nem se importa. Alguma coisa vai acontecer. Mulheres, não. Mulheres planejam. Arquitetam cuidadosamente. Armam teias ardilosas. São ótimas estrategistas, mas não entendem nada de logística. Por isso perdem. Saem premeditadas. Tudo foi estudado, excerto a possibilidade de se renderem de forma incondicional. Pronto, estão derrotadas. As mulheres sabem o que querem, por isso planejam. Homens temem todos os desejos que não sejam sexuais. Homens têm fome. Mulheres têm sonhos.

Era o efeito da cerveja. A cabeça fervia verdades axiomáticas, e tudo que um dia fora nebuloso e inacessível lhe era revelado. Mais um gole. Um brinde à superação dos recalques. Dio, como o tempo pode ser bom com a gente! E aquelas três ali. Elas o querem. A três querem. Cada uma de um jeito. Uma quer exercer seu poder; outra se sentir seduzida; a última, ser salva da torre por um príncipe de espada em riste. Ela é ingênua. Um perigo. Sabe, dessas que você tem certeza que grudam, que choram e, que pior de tudo, não dão? Não assim, na primeira noite. Nem na primeira semana. Mas não vamos descartá-la. É bom tê-la assim, aqui.

Satélites. Mulheres satélites fazem com que nos sintamos astros.
Cerveja demais?! Não. Astro, sim. Ele brilha no escuro daquele bar. Sua mente brilha e ele pode sentir que enfeitiça. A noite pode ser interminável. A cerveja pode ser interminável. Os satélites podem continuar ali para sempre. Ele controla a situação sem qualquer presunção de ser deus. Apenas astro.

Mas as mulheres não são satélites. Ela percebem. São percepitivas demais. Já sabem. Só uma será eleita e, como são amigas, preferem não entrar em atrito direto. Duas delas, oh não, vão-se embora. Não. Não. Não. Mas elas se levantaram. E se vão: uma triste, outra sonhadora.

The Game is over. Mais uma ficha, mais um gole. Ele estava com sorte. A número três ficou. Ela não era nem ingênua nem suficientemente conhecida. Ele não era assim normalmente, mas pensou que tinha ficado com o melhor pedaço. Desculpou-se para si mesmo. Amava as mulheres, ainda que as temesse, e não queria ser desrespeitoso pensando nelas como reses. Mas já não era ele que pensava. Homem com tesão não pensam. Júlio César, Sansão, Pares. Todos derrotados pelo tesão. Cleopatrás, Dalilas, Helenas são todas devoradoras. Mas a vida não é um épico nem uma lenda grega. A histórias das vidas de pessoas como nós são todas com “H” minúsculo. Não havia o que temer. Seria só mais uma noite agradável ao lado de uma mulher interessante, vivendo prazeres da carne. Só.

Mas as mulheres são imprevisíveis. Como entendê-las? Lá estava ela ali, a número três. Cada gesto dela dizia “vem”. Cada sorriso pedia mais. Vaidosa e envaidecida ela estava em jubilo. As outras duas haviam desistido, admitido que aquela noite era dela. Ele percebeu isso. Como homem arguto que era, viu tudo o que não se mostrou, mas se disse de forma muda. Ajeitou-se na cadeira. Só mais um gole. Sentiu-se confortável naquele corpo. Disse “vamos”, ela disse sim. Foram.

Aqueles terríveis segundos que separam o fim da dança do acasalamento até a hora de consumar o rito são intermináveis. Arrastados e opressores. Mudos e excitados eles andam em direção ao carro. Ela pensa em tantas coisas, mas nada é suficientemente pesado para tirar-lhe a leveza daquela certeza: ele a quer. Ela pensa nos próximos passos. O olhar, a aproximação, o beijo. Olha-o rapidamente para lembrar como era mesmo aquela boca. Pensou de novo no beijo, e já não estava mais tão certa de que o beijaria. Assim, de pé, ele não aprecia tão interessante. Foi inevitável: comparo-o com seu mais recente homem. Não. Ele não era nem mais gostoso, nem tão interessante. Ela nem sequer o amava. Não poderia. Já estava dentro do carro. Já estavam parados diante da porta de sua casa. Ela não poderia.

Ele não podia simplesmente beijá-la. Era uma impossibilidade do corpo. Travado parou para olhá-la quase pedindo. Ela o olhava quase se desculpando. No olho dela podia ver que ela queria, mas não sei porque porra, caralho, merda, ela não podia. Porra, caralho, merda. As outras duas! Porra, caralho, merda, ela foi embora com aquele olhar dissimulado. Sumiu rápido no vão da noite. Ele só. Ele só e com tesão pensou como era morna aquela mulher complicada e já conhecida. Imaginou como seria bom ter entre os dedos os pêlos aloirados das pernas ingênuas da menina que batia as pestanas ao falar.

Ele se via diante de três possibilidades. Estava cansado. Três horas da manhã. Descartou prontamente, duas das três possibilidades. The game is over. As fichas haviam acabado, a cerveja fermentava dentro de sua alma trôpega. Ele era um homem em estado de natureza. Tinha fome e tesão, sem nenhuma filosofia.

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...