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terça-feira, 31 de março de 2026

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.

                   de Mosab Abu Toha

                     versões:  Miriam Adelman


Aldeia Palestina.


Na colina da aldeia, você pode consertar

as rodas do seu carrinho de verduras

com uma pedra que seu avô usava

para esmagar tomilho. Ou esmagar alho com

uma pedra que sua avó usava como trava-porta.

Pode repousar numa cadeira de vime

perto de uma romãzeira,

onde um canário nunca para de cantar.

Pode cavar um buraco com suas mãos

e achar uma minhoca que respira

o frescor da terra reanimada pela chuva de ontem.

Pode fazer chá com sálvia ou com  hortelã.

Se um vizinho ou transeunte sentir o aroma,

o convite a compartilhá-lo é feito.

Aí você coloca mais xícaras sobre a mesa,

 anda até o jardim e colhe

mais sálvia fresca ou mais hortelã.

 

Sem arte

              The art of losing isn’t hard to master.

                      Elizabeth Bishop


Você sabe que tudo terá um fim:

o açúcar, o chá, a sálvia seca,

a água.

 

Até mesmo sua sombra o abandonará

quando não houver luz.

Portanto, conserve apenas as coisas que exigem somente você:

o livro de poemas que só você consegue decifrar,

o mapa em branco de um país,

cidades e vilarejos que só você consegue reconhecer.

 

Perdi três amigos por causa da guerra,

uma cidade por causa da escuridão e um idioma por causa do medo.

Sobreviver a isso não foi fácil,

Mas foi necessário dominar a sobrevivência.

Acima de tudo, perder

a única foto do meu avô

sob os escombros da minha casa

foi um verdadeiro desastre.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Mais um poema de Rachida Madani (Tangier, 1951)

 

Você não veio ao mundo

para ver os seus ossos embranquecerem

nas águas brancas

de um rio Bou-reg-reg

nem para contemplar a sua sombra minguante

nas estradas da angústia.

Pegue fogo na minha voz, irmão

Tenho o feliz privilégio

de plantar a tempestade.

Levante-se e grite a sua noite

                        se tiver coragem

Levante-a acima da sua cabeça trémula

e atire-a para o chão

                      se tiver coragem

a noite estilhaça-se como vidro!

então deixe a sua canábis falar

quando cantares catástrofes...

Levante-se, irmão

Cada pôr de sol

é um homem morto





quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Um poema de Rachida Madani (Tangier, 1951)

 

Vem esconder-te aqui

bem atrás do meu coração

de lá verás

a vida com os seus dentes longos.

 

Porque é que o sol é tão pequeno

dizes com as tuas palavras de criança

por que não há o suficiente

para todo o mundo?

porque é que o céu está tão baixo

que os meus brinquedos pendem dele?

 

Por que razão esta chuva de lama, fetos

e amantes desvairados na cidade!

Estas mulheres que já não se cobrem

No cobrem nada além do seu número

deitadas uma ao lado da outra

por um copo, um sonho,

um cigarro?

 

Porque uma mulher tão jovem

num caminho tão nu

em direção a esta casa sem janelas?

Por que razão estes corredores, estas cortinas

estas grades

esta solidão

esta sala de estar?

 

Mas paciência dizes, Paciência

Já é tão tarde dizes,

que a água se desfaz

que os homens na esquina

pisam e sopram os dedos

vigiando dizes

pela primeira estrela

para desfazer a aurora.





terça-feira, 26 de agosto de 2025

Poesia contemporânea marroquina .


 

Começo agora este trabalho, versões minhas (sugestões sempre bem-vindas!) a partir das traduções

de Deborah Kapchan, publicadas em Poetic Justice: an anthology of contemporary Moroccan

poetry. (Traduzir diretamente do original em língua árabe ou darija, terei que deixar para quem

consegue!)  Espero que gostem do que aqui ofereço .




sábado, 1 de abril de 2023

new one... evoluindo ainda


 (Acordei hoje e escrevi este poema, que na verdade é mais como um fragmento de um poema longo em que venho trabalhando - em inglês, embora por vezes há coisas que nascem em português!)

O dia amanheceu querendo nos agradar.

Uma mulher entoava uma música.  Começou a chuva fina.

Ressoavam as palavras do poeta,  alguém que eu já conhecia

lembrando-me de cada gesto da manhã :     a criança que

aparece na sacada perguntando por que seu cachorro não

voltou, o início da jornada do vendedor de bilhetes

de loteria, a moça chegando para abrir a lanchonete.    

             As   boias   ou a âncora.      

As músicas eram bonitas     e nem do tudo

tristes.     Começava a chover mais forte e descendia das

montanhas uma névoa fria        envolvendo os corpos dos

          pés à cabeça    e minhas mãos também encetavam

uma metamorfose em veias azuis.

Uma mulher   - outra -    que usava um lenço escarlate

nos cabelos asselvajados   chegou para dizer que não havia tanto motivo

de preocupação         que a letra logo  

seria           a            nossa

        ****

[version]

 

The hastening day was trying to please us.

A woman began to wail out a tune.   

There were fine threads of drizzle falling and

the words that rang out were those of old man,

a fine master poet     calling me to cradle

each gesture of the early morning:  the child who

came out on the balcony, asking why his dog had not

returned from the night out, the lady selling lottery tickets

on the streetcorner, a girl lifting the heavy awning of a diner.

                Buoys or anchors.

The songs were lovely and in fact

                                not so sad.

It was beginning to rain and coming down  from the mountains

was a heavy fog    clinging to our bodies from head to toe

and my hands too began to show their purply veins.

A woman appeared    -  another -  wearing a scarlet headscarf

over her wilding tresses.  She looked me straight in the eye

as if to say    there was not such great reason for worry.

The lyrics would soon be our own.


terça-feira, 27 de setembro de 2022

CARTA ABERTA AO CRIADOR/OPEN LETTER TO OUR CREATOR


Here you have it again:  working on the translation of this text by Fabio Flora*, and hoping to be able to take it to a reading soon!



Com todo o respeito, Chefia: bem que o Senhor podia aproveitar o domingo de Páscoa, as famílias reunidas, o clima ensolarado de recomeço e mudança para apertar aquele botão (o reset, fique bem claro) e reiniciar o sistema. Mais ou menos como Vossa Excelência fez quando mandou o dilúvio.

Só que desta vez, Patrão, sem o coxinha do Noé, sem aquela arca ecologicamente incorreta e sem essa de salvar só os casais héteros de cada espécie. Não pega bem. Não agrega valor ao Paraíso. Sugestão: deixe apenas três amebas, para ver se de um ménage nasce coisa melhor que o Homo bolsonaris gentilis – essa criatura que, dizem mas não acredito, foi feita à Sua imagem e semelhança.
Não me entenda mal, Eminência: se peço um replay em slow-motion da maior inundação de todos os tempos – e uma garoa de asteroides junto, só para garantir –, é porque andamos precisando muito de um reboot. Quem sabe com a página outra vez em branco nós, e aí incluo Vossa Senhoria, não escrevamos certo finalmente.
Sem tanta linha torta.

Um mundo sem glúten, sem hora para acordar, sem segundas-feiras, sem celulares nos cinemas, sem livros de autoajuda, sem frases bregas atribuídas a Clarice ou Machado, sem acento grave ou vírgula onde não deve, sem fumantes e bebuns, sem juros, sem tomates superfaturados, sem novelas ruins, sem filmes dublados, sem crise de fígado e dor de cabeça, sem humoristas sem graça, sem reaças, sem filas, sem hora extra e serão, sem guerras, sem canções cafonas para promover a paz, sem bandeirinhas míopes, sem PM de TPM, sem manchetes sensacionalistas, sem bundas de plástico, peitos de plástico, cérebros de plástico, corações de plástico – sem plástico, enfim.

Ah, e o mais importante: sem vergonha de dizer eu te amo durante o expediente. 
Mas com vergonha de levar gaita na cueca, com hora de ninar os filhos, com mais sextas de Carnaval, com celulares que toquem valsa, com mais sonhos e pés de valsa, com poesia nos muros (se eles insistirem em existir), com sujeito e predicado vivendo em concordância, com fumantes viciados em cachimbos da paz, com cerveja amanteigada nos botecos, com juras (de amor), com toda a horta em promoção, com novelas que valem a pena ver de novo, com filmes franceses nas periferias, com riso frouxo mesmo depois de um tropeção, com uma horinha a mais de sono, com o Messi no meu time, com policiais sem pimenta, com jornais bem-humorados.

E não nos esqueçamos, Vossa Magnificência, que isto é fundamental: com violinos ao fundo sempre que disserem eu te amo durante o expediente.
Sem mais por ora, me despeço aqui, ó Pai de Todos, Fura-Bolo e Mata-Piolho, desejando-Lhe uma Páscoa trufada de boas intenções e chocolates (sem glúten, lactose e açúcar, cem por cento cacau; que nem divindade da Sua catiguria pode brincar com o colesterol, o Tinhoso disfarçado de gordurinha). Tchau e bença.

* Texto publicado em 2014 no Pasmatório (http://pasmatorio.blogspot.com/). De lá para cá, permaneceu super atual. (Sem mais comentário...)



With all due respect, dear Chief:  perhaps you dear Lord could take advantage of this Easter Sunday, families gathered round the hearth, the sunny weather of rebirth and change, to press that button (the reset one, make no mistake!) and restart the whole system.  Kind of  like what Your Excellence did when you sent out the diluvium.

Only this time, Boss, let's try a go without that bigot, Noah, without that ecologically incorrect ark and that crap of saving only the hetero couples of each species.  It doesn´t go over very well. It adds no value to Paradise. A  suggestion: leave us just three amoebas, to see if from the ménage we get something better than that Homo bolsonaris gentilis,  that creature that they say - but I don´t  believe them - was made in your image and semblance.

Don't get me wrong, your Eminence: if I ask for a slow-motion replay of the greatest flood of all times - and a shower of asteroids together,  to take no chances - it is because we are in dire  need of a reboot. Who knows, with a blank page once again , we—and I include you, dear Lord, in this—can do a better job at the writing.  Finally. 
Without the crooked lines.  

A world without gluten, without a time to get up, without Mondays, without cell phones ringing at the movies, without self help books or corny phrases attributed to Clarice or Machado, without accent marks and commas where they shouldn't be, without smokers or drunkards, without interest, without overpriced tomatoes, without bad novels, dubbed movies, bad livers and headaches, dumb comedians,  fascists,  long lines, overtime; without wars and corny songs purportedly promoting peace, without myopic flags,  without a military unless demilitarized, without sensationalistic headlines, plastic butts, plastic tits, plastic brains, plastic hearts—with no  plastic, at all.

Ah and most importantly: to be able to say I love you, shamelessly,  during the work shift. But with shame enough to carry cash in our underwear, to have time to put our kids to bed, to have more Carnival Fridays, and cell phones that play waltzes, and more dreams and waltzing feet, and more poetry on the walls (if they don't all crumble), with subjects and predicates in agreement, more smokers hooked on peace pipes and buttery beer at the corner-bars, with oaths (of love) and special offers on all the vegetable gardens, good novels to read and French films showing on the outskirts of town, to always  know how to laugh even after screwing up, and get in an extra hour of sleep, have Messi on our team, police officers without pepper spray and newspapers with a hip sense of humor.

And let us not forget, Your Excellence, another essential:  violins in the background every time one says  I love you during the work shift.

Since  I've gone through the list, for now,  let me take my leave here, oh dear Father of Us All, Milk Spiller and Lice Killer, wishing You an Easter layered with good intentions and chocolates (no gluten, lactose or sugar and 100% pure chocolate; as no one of Your stature can play around with cholesterol, you little sneak)
  
Bye for now, and  god bless...


quarta-feira, 28 de abril de 2021

Sign Language Barbie/ Barbie LIBRAS


BARBIE LIBRAS


Barbie flutua no centro do palco

em seu vestido cor-de-rosa, seu marido,

um rosto de papel forçando um sorriso.

Ele se desespera ao tentar se lembrar

do miolo do discurso

que fará a esposa-boneca.

Barbie torce a boca numa careta momentânea,

não querendo parecer muito confiante, 

as luzes que lhe farão um halo, o comportamento

desvairado do marido dela, a cara que vai ficando roxo

em sua nuvem carregada de mentiras. 

Então a Barbie se lembra do dever  -  

sinalizar para quem não consegue ouvir

- e que tem também uma imagem para recuperar,

e as multidões que a aguardam,

 enquanto mastigam amendoim ou pipoca.  

Lembra-se também do encanto discreto

das caridosas, como aquelas damas inglesas

em um filme que viu uma vez, polidas nas gentis artes 

da distração, que disfarçavam tão bem seu nojo 

pelas criadas. Os generais da época andavam

a cavalo, levantavam seus óculos para ler mapas,

escreviam para casa, para mulheres em vestidos longos

 e luvas brancas.  Barbie nunca leu um romance

 britânico, nem mesmo um livro de etiqueta,

mas jura que dominou tudo por intuição,

e pelas viagens frequentes ao estilista top.  

Neste admirável mundo novo, a Mattel agora

oferece uma Barbie pastora, com ovelhas

e pastagens de plástico, um Ciclope para conquistar

e até o Rambo Ken que pode se transformar

em um homem de verdade, pronto para puxar sua arma

na primeira briga de trânsito.

Mas a Barbie Libras é um problema: como se obter os

múltiplos movimentos de pulsos e dedos,

 fabricar mãos que varrem suavemente para cima 

e para baixo em gestos não muito robóticos.

A Mattel mobiliza seu exército de engenheiros, 

esperando que esta Barbie traga boas vendas

 para um mercado em queda, hoje que as garotas

 estão sempre querendo da vida

coisa demais.



SIGN LANGUAGE BARBIE

Barbie floats center stage in her pink dress,

her paper-faced husband forcing a smile. He is struggling

to remember the gist of the speech she 'll deliver. 

Barbie twists her mouth in momentary grimace, 

not wanting to come off too self-assured,   the lights that will

 halo her,  the clumsy demeanor of her husband, so purple

 and smothered in his raincloud of fibs. But then

she's reminded of duty, how she signs to those

who can't hear,  of the image to  recover

and the peanut -crunching crowd.  The irresistible

 charm of the  charitable,  like  those English ladies

 in a film she once saw, so polished in gentle arts of

distraction, so  promptly disguising their scorn for the handmaids.

The generals all rode horses back then, raised their  monocles

 to read maps, wrote home to women in long white dresses

and gloves.  She has never read a British novel,

not even a book of etiquette but swears

 she has mastered it all by intuition, and the frequent trips

 to her top-notch stylist.  In this brave new world,

Mattel now offers plastic sheep and pastures, a Cyclops

 to conquer and even Rambo Ken who can morph

 into a real man, ready to pull his gun at the first traffic fight. 

 Yet this Barbie has issues:  how to fabricate the multiple

 movements of wrists and fingers, make hands that sweep

 softly up and down in gestures not too robotic.

 Mattel calls its engineer army into action,

 hoping this Barbie can bring good sales to a falling market,

 one where girls are always wanting more out of life. After all,

has she not come in the flesh of a savior, someone chosen 

to return to the unborn their value, quiet to the streets, 

 and a choir of angels to  home and  hearth?


(original em inglês e tradução ao português :  Miriam Adelman)

 


quinta-feira, 30 de julho de 2020

History Lesson /Lição de História - Natasha Tretheway

 

I am four in this photograph, standing   

on a wide strip of Mississippi beach,   

my hands on the flowered hips

 

of a bright bikini. My toes dig in,   

curl around wet sand. The sun cuts   

the rippling Gulf in flashes with each   

 

tidal rush. Minnows dart at my feet

glinting like switchblades. I am alone

except for my grandmother, other side   

 

of the camera, telling me how to pose.   

It is 1970, two years after they opened   

the rest of this beach to us,   

 

forty years since the photograph   

where she stood on a narrow plot   

of sand marked 

 

her hands on the flowered hips   

of a cotton meal-sack dress.

 


Estou com quatro anos nesta fotografia,

de pé numa larga faixa de praia em Mississippi

minhas mãos nos quadris  floreados

 

de um bikini colorido. Os dedos do pé

cavam, enrolam-se na areia molhada. O sol corta o Golfo

ondulado,  lampejos a cada

 

investida do maré.  Peixinhos lançam-se contra

meus pés, brilham como canivetes. Estou sozinha

exceto minha vó, do outro lado

 

da câmera, me dizendo como posar.

É o ano 1970, dois anos depois deles

abrirem o resto da praia para nós,

 

quarenta anos depois da foto

onde ela estava  de pé numa estreita

faixa de areia marcada, ‘colored’, sorrindo

 

com as mãos nos quadris coloridos

de um vestido de saco de algodão.

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...