domingo, 30 de junho de 2013

To the Harbor Master - Frank O'Hara






To the Harbormaster.

I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or am I hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.

- Frank O'Hara

Ao Mestre do Porto.

Queria ter a certeza de chegar até você;
mas meu navio estava no caminho quando enroscou-se
em algum ancoradouro. Sempre que o amarro
logo decido partir. Nas tempestades
e ao pôr do sol, com os espirais metálicos da maré
segurando meus braços incomensuráveis, não consigo
entender as formas da minha vaidade,
ou estarei de sotavento com o leme polonês
na minha mão e o sol se afundando no horizonte. Para
você ofereço meu casco e o cordame rasgado
do meu testamento. Os terríveis canais onde
o vento me joga contra os lábios escuros
dos juncos não estão todos no meu passado. Mas
eu confio na sanidade do meu barco: e se afundar,
pode bem ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impedem  de te alcançar.

Versão:  Miriam Adelman

domingo, 23 de junho de 2013

The Heart - Frank O'Hara

Here's another one by Frank O'Hara, a poet associated with
the Beat generation:




My Heart – Frank O'Hara


I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don´t prefer one “strain” to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper but also the big
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says, “That's
not like Frank!”, all to the good! I
don't wear brown and gray suits all the time,
do I? No, I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart -
you can't plan on the heart, but

the better part of it, my poetry, is open.


Não vou chorar o tempo todo
nem vou rir o tempo todo,
eu não prefiro uma “vertente” à outra.
Eu escolheria o tom imediato de um filme ruim,
não só desses comuns senão dos grandes
de muita produção e muito público. Quero ser
tão vivo quanto o vulgo. E se algum
aficionado às minhas encrencas disser, “Mas isso
não parece o nosso Frank!”, está tudo bem! Eu
não uso ternos marrons ou cinzas o tempo todo,
não é? Não, vou para a ópera com camisa de
trabalhador, com frequência. Eu quero é
meus pés descalços, meu rosto sem barba
e meu coração - você não faz planos para
o coração, mas a melhor parte do meu,

minha poesia, está aberta.  

sábado, 22 de junho de 2013

O Enchente/The Flood - Louise Erdrich

O Enchente

Eu tinha doze anos aquela vez que dormi na terra.
O quarto perfeito de madeira estéril,
era o melhor lugar, o porão.
No ritmo dos aparelhos domésticos
uma criança dorme como se não tivesse nascido.
A máquina de lavar rimbombava ao longo da noite
como um emotivo coração, a geladeira batia,
resgatava os ossos e discutia,
o radiador um pulmão que ardia,
mas eu estava segura, entre os tubos
do encanamento


Em cima, quando tudo tinha ruido,
Escutei meus pais rearranjando os estragos do dia
até formar uma cama.
Ouvia minhas irmãs cavando com suas patas,
se enfiando sob as tabuas.
Dai começou a nevar, implodindo o céu,
ao redor de nós numa formação vazia.

Na primavera aconteceu, como deveria ser.
A chuva violenta irrompendo por trás dos muros
me empurrou para fora do alçapão
navegando numa banheira azul redonda.
Num telefone feito de latas e corda
meus irmãos me chamaram.
Alfa! Na escuta?... Mais eu já tinha ido.
O rio martelava e borbulhava entrando pelos ralos,
a corda rompeu, suas vozes ferozes como a dança dos
pernilongos na cabeça de um alfinete, nublando as ruínas
que eu deixava atrás, o enchente me apressando sobre
sua larga superfície, rasgando minha camisola, minha
manta de ferrões

Deixei atrás de mim uma espuma branca, a rede
se arrastando em baixo da água até os pés dos irmãos e irmãs.
Agora eu temo por eles, pisando
nas aberturas e sendo sugados
na corrente da minha sorte. Entenda:
é como se eu pudesse escapar só ao abandonar tudo.
Não pensei naquilo que ficava atrás,
entrançado entre grossas raízes, as paredes de terra
sob ameaça, os fios se desprendendo dos postes
deslizando-se, vivos e perigosos, para dentro d'água.

- Louise Erdrich


Versão: Miriam Adelman

quarta-feira, 19 de junho de 2013

The Man Who Loved Horses (new one of mine)


He was mostly gentle, mostly kind
calling to the horses as no other could,
The bay's ears twitching, rising, the cranky dun
lifting its head and the dapple gray coming to
greet him at a gallop, muzzle lined with
a thin green lather. He would ride out
with the first changing sky of the morning,
following clouds of dust into the grasslands,
relentless in his search for the grizzlies,
Gray Wolf, or a few stray cattle.
I lived there on the other side of the mountain,
brewing my potions of corn and cactus by day,
riding my sorrel mare to the crest of red rock
before evening, hoping to be spotted. His eyes
though were always fixed on the hills,
through the snows and the season of rushes, and
when the hawk returned slowly over the valley
scanning in singular precision.
In the beginning my voice was strong.
I would sing for him, and again the horses
would prick their ears, shake tangled manes,
nicker. He never heard me. He heard the horses
calling to him, and pounding hoofbeats, and a
long slow whistle that could be coming
from anywhere.

The Flood - Louise Erdrich


I was twelve the year I slept in the earth,
in a perfect room lined with scentless wood.
It was the best place, the basement.
In the rhythm of appliances,
a child sleeps as though she wasn't born.
The washer boomed into the night
like an emotional heart, the refrigerator knocked,
dragged out the bones and argued.
The furnace was a fiery lung, but I was safe,
surrounded by plumbing.

Over me, when everything had fallen into ruin,
I heard my parents rearrange the day's wreckage
into the shape of a bed.
I heard my sisters dig forward with their paws
and wedge themselves under its boards.
And then the snow came down, collapsing the sky
around us in a blank formation.

In the spring it happened, as it was meant to.
The violent rain surged through the walls,
forced me out the cellar hatch in a round blue tub.
The calls of my brothers came over the string-can telephone.
Come in! Do you read me? But I was gone.
The river hammered and bubbled through the drains,
the line snapped, their voices grew fierce as mosquitoes
dancing on the head of a pin, clouding the wreckage
I passed, as the flood rushed me over its wide surface,
shredding my nightgown, my shawl of stingers.

I left a white foam in my wake, a net
drifting underwater for the feet of my sisters and brothers.
And now I fear for them
stepping in the holes of it and pulled underneath
the current of my luck. Understand:
it was as if I could escape only by abandoning everything.
I didn't think of all that's left in the aftermath,
twisted in the slogged roots, the earth walls undermined, the wires
slipping from the poles, alive and dangerous, into the water.


 - Louise Erdrich

sábado, 15 de junho de 2013

Primeira versão...


The Visit/ A Visita

    Para Eileen Cowin.
Não era amor. Nem flores nem figos
maduros nas suas mãos, nem palavras
na sua boca. Não havia corpo
para obstruir um do outro.
O sol era branco e quente, marca de ferro
que me atravessou sem deixar resquício.
Mas eu sabia. E Joseph,
Joseph o coitado com suas palmas calejadas
portando seus chifres de alce.
O que ele podia fazer
a não ser lavar para que o cheiro de
chamuscado saísse dos lenções?
O que ele podia fazer
a não ser encaixar as lâminas de madeira
para que formassem um berço?

A chuva caia e as folhas fechavam
sobre nós como um escudo.
Uma pequena luz se formou e a ponta
que a mantinha no alto
mergulhou-se muitas vezes no meu sangue.
Agora o ser descansa na tigela do meu
quadril. Não tem volta.  As unhas
já se formaram. A árvore engrossa.

Louise Erdrich

versão:  Miriam Adelman

The Visit - Louise Erdrich

Este poema é de Louise Erdrich,  mais conhecida por seus (muitos) romances publicados,
contadora de estórias sobre a vida de um povo indígena do norte dos EUA (o primeiro e muito
famoso Love Medicine, por exemplo.)

Do livro Baptism of Desire (Harper, 1989) aguardem minha versão...

The Visit

    For Eileen Cowin.

It was not love. No flowers or ripened figs
were in his hands, no words
in his mouth. There was no body
to obstruct us from each other.
The sun was white-hot, a brand
that sank through me and left no mark.
Yet I knew.  And Joseph,
poor Joseph with his thick palms,
wearing antlers.
What could he do but wash
 the scorched smell from the linen?
What could he do but fit the blades
of wood together into a cradle?

The rain fell and the leaves closed
 over us like a shield.
A small light formed and the taper
that held it aloft
was dipped many times in my blood.
Now the being rests in the bowl of my hips.
There is no turning. Already
the nails are forged.
The tree thickens.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Versão

A ausência.

Escrevo isto por vingança
que é uma mágoa que se profere ao eu
em nome de outro. Tem a ver com
criar um motivo   o que é
uma ausência não pouco parecida
com uma arma. Um homem atirou
num oceano atrás da minha casa.
Foi um ato de coragem. Os pássaros
se libertaram porque era minha
varanda com um oceano atrás.
Ele reconheceu um alvo que
apareceu, com seu olhar de
punhos prontos. É essa a maneira
dos alvos, um tão bom quanto o outro
até você decidir. O oceano estava lá
assim como a arma que reconhecia o
oceano e o desejo do homem
 de se ausentar     o que é
uma forma de começar de novo. Eu
escrevo isto como vingança    e a palavra
porque nada tem a ver. O motivo
se esquece. O homem atirou.

Tess Gallagher

versão:  Miriam Adelman

The Absence - Tess Gallagher


Vou ao resgate meio aleatório de poemas escondidos em livros meio velhos da minha biblioteca.
Vai este de Tess Gallagher, do livro Instructions to the Double (Graywolf Press, 1976). Logo vem
versão!

The Absence

I am writing this out of vengeance
which is a hurt given to the self
in the name of another. It has to do
with becoming a purpose
which is an absence not unlike
a gun. A man fired one
into an ocean in back of my house.
It was an act of bravery. The birds
went free because it was my
back porch and an ocean
behind it. He knew a target
when he saw one, those fists loose
in his eye. That is the way of targets,
one as good as another until
you decide. The ocean was there
and a recognition of the gun
for the ocean and the need too
of the man to leave himself out
which is a way of beginning
again. I am writing this
out of vengeance and the word
because has nothing to do
with it. The reason forgets
itself. The man has fired.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Poema de amor para um incrédulo / Sandra Cisneros

 (Título original: Love Poem for a Non-Believer)


Porque eu sinto saudade de
você, repasso com a minha mão
a lisura da minha coxa, a curva
do meu quadril, minha bunda
arredondada como uma manga. Imagino-a
como se a mão fosse tua, dedilhando
minhas costelas, o harpejo dos
meus seios, a clavícula que você adora
e eu não.

Meu pescoço é fino.
Você poderia contorná-lo
com só uma mão e
arrancar-me a vida
se quisesse

Cortei meus cabelos.
Não dá mais para puxá-los.
Apenas um jato de fios pretos
entre os dedos agora

Suas mãos friozinhas
passeiam por minha mandíbula
a pele das pálpebras
a nuca
macia como uma boca

e quando nos abrimos como uma
maçã rachada no meio e vemos
o coração
do coração
do coração      essa parte que
você não eu não
mostramos para ninguém
essa parte que queremos recolher

tão logo desenrole
como uma bandeira de seda
ou o berro vindo da mesquita
no horário da oração          não teremos
palavra nenhuma para isto
a não ser      talvez
crença.

Versão: Miriam Adelman

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Analysis (new work-in-progress)


analysis



if things were as simple as this-
a world divided into givers and takers-
you and i might be face to face
on opposite sides of the gameboard
 playing out the last round in the only
language we'd learned, tactics  not
meant to inflict deep wounds.

but the mestres tell us it can't be so,
that i, for example, am round as an overfed 
guppy,  at risk of bursting from life -
and yet so hungrily
 return to your door
with my beggar's tin, in my
 Halloween rags,  wading in my wicked
pool of melancholy. as for you, my dear, 
 the word is not yet out  -  so silence is
safer, and lingering in the sunlight,
 listening harder for the pinching
                     cues. 

miriam adelman

terça-feira, 4 de junho de 2013

Tantas Cosas Asustan, Tantas

Eu publiquei este poema de Sandra Cisneros, poeta e romancista, uns anos atrás (escrito por ela
em espanhol), aqui neste blog (procure em baixo, quem quiser!).  Ontem brinquei de lhe fazer uma versão em português.  Acho que acertei no ritmo, mas como vocês - leitoras, leitores - sabem, sempre aceito comentários e sugestões!


Tantas Coisas Assustam, Tantas



Tantas coisas assustam. Tantas.
Os mortos e os vivos.

O que a escuridão não nos permite
e o que nos permite

Passos no pátio
assim como o silêncio

E coisas simples.
Aritmética. O aluguel.

O infinito também assusta.
Números. O céu.
Deuses que sempre foram e serão.

O que é pior?
Estar  sempre só
ou estar com alguém para sempre

E o finito aterroriza.
Nossas vidas por exemplo.

O amor assusta.
Igual a lua e os militares
E pesam muito.

Não um por um
Mas todos juntos
Como bolas de gude
numa latinha

A felicidade, pelo contrário,
é assunto diferente.
Coisa de pipas voando.

domingo, 2 de junho de 2013

New one of mine (work in progress!)


Noite de cão



This is one of them no-show nights.
Her man gets sidetracked on the way home,
stopped by some friend who pops up, lighting up
bright as an orange-bulbed street lamp
just as a fog sets over the city. An ecstatic
'Man, where you been all these years?'
and grins as wide as embraces are hurried,
and they sit down at the  bar on the corner
on weathered red stools with yellow foam
gaping  from  cracks and  the
 glasses empty, one after another,
as the night shrinks before them, stories
winding up and up and then down again
like a life when it gets stuck at the place
no doors want to open.
Back at her place
his lady is sleeping, television blaring and the telephone
off the hook buzzing alone into the madrugada.

-   Miriam Adelman