sábado, 28 de novembro de 2009

Here`s one of mine...

Narciso (Fábula II)

the pale faces of the women who love you
shimmer on the surface of the river.
of course you have not yet noticed.
underneath,
beyond the bed of rushes & cattails
their murky hearts lie.
they are beginning to rot,
to fill up with maggots,
round-bellied catfish pecking at
severed valves, at the purplish
aorta.
the women of course can live on
without them,
like the ferns along the banks of the
river that can manage
on so little sun.
you feast on the way they
continue to want you,
your image repeating, this
cold screen of desire.

Chicago

Nem faz tanto frio para o final de novembro em Chicago, mas
quem não está mais acostumada sente bastante! Minha irmã me
emprestou um livro maravilhoso, "Kinky" (1997: Orchide Press) 42 poemas da poeta
norteamericana Denise Duhamel protagonizados pela boneca Barbie,
por Barbies diversas em seus diversos e irônicos encontros com a cultura norteamericana. Un dos meus preferidos até agora se intitula,
"One afternoon when Barbie wanted to join the military". Outro, "Barbie as
Religious Fanatic". Reproduzo aqui o primeiro do livro,
"Differently-able Barbie". Talvez consiga traduzi-lo...


Differently-abled Barbie

by Denise Duhamel

In Chicago a Barbie
loses her arm. Only the boy next door knows he has taken it
to use as a toothpick. A little girl
refuses to throw the Barbie away
and knots her doll's right sleeve
that hangs limp like a sail on a breeze-less day.
Another Barbie in Seattle has a run-in
with a German Shepherd
who leaves her face as scarred
as Marla Hanson´s. It would be easy
for a child to cry for another doll,
but this little girl suffers
from bouts of eczema on her forehead.
She knows that Barbie is still the same underneath.
In Baton Rouge, Barbie's hand melts into a finger-less fist,
a nob, when someone leaves her on top of a stove.
In Missoula, Montana, a baby sister cuts off most of Barbie`s hair
not realizing it won[t grow back.
Creative mothers invent slings and casts, flattering hats.
Our impulse to destroy what is whole,
to coddle and love what we have injured.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"O Velho Jasão em San José"

Do livro de Diane Wakoski, Jason the Sailor (1993)



(Key, Key, What Bird Sings that Song
?)
(Key, Key, que pássaro canta assim?)

Lá vive ele, entre os chips de computador
e uma grande população vietnamita. Seu nome aparece
em aparelhos de som caríssimos mas eu duvido que seja
a sua
a família proprietária da empresa. Nem sei mais como se sobrevive
com cachorros azuis latindo para a lua. Eu imagino
Stone Key, onde preparam uns caranguejos deliciosos
e penso que poderia dirigir pela longa cadeia dos Keys,
conectadas por pontes que serpenteiam
que me dão alucinações, as grades irrompendo nos meus olhos,
querendo me chamar à água. Mas também me atraem
os lugares onde homens e mulheres se distorcem; como
poderia não aprender sobre imagens
no quarto escuro fotográfico de adolescência
na Califórnia?
Eu pensava que estava procurando a verdade
mas quando a encontrei eu fiquei tão horrorizada
que me encerrei neste quarto no Meio-Oeste
com muitas janelas, nenhuma cortina e sem a chave. Nenhuma
necessidade de sair de novo
para o mundo.
Eu me disfarço
reclamando da idade, ponho minha
máscara de velhinha para obter
credibilidade para minha vida neste quarto. Me protege
dos constrangimentos, as rejeições, os fracassos deludidos
dos encontros sexuais.
É esta uma face
da estória. A outra, a verdade
terrível sobre o que as mulheres perdem
com a idade, os cachorros azuis que latem
para a lua,
– a raiva de Medeia quando Jasão arruma uma jovem –
enquanto os homens continuam suas aventuras;
ele mora em São José com sua esposa
e filhos, provavelmente até netos, e continua
tendo tudo.
As constelações viram,
dois leões nascidos
com apenas umas horas de diferença,
um destino de macho, outro de fêmea.
É esta a chave? A diferença entre duas vidas
que começaram entre as laranjeiras da Califórnia,
as folhas poeirentas contra a fruta dourada.
Ele as possuía, eu as comi.
Pode esta diferença ser a chave
de tantas estórias?

Tradução: Miriam Adelman
Revisão: Sabrina Lopes.


* Na tradução, me vi obrigada a abrir mão do jogo que Wakoski faz com a palavra key – algumas vezes, “chave” (objeto concreto ou metafórico), outras vezes, em referência às pequenas ilhas próximas ao litoral do estado de Florida que levam esse nome. E também empregada de forma auto-referencial, remetendo-se assim à toda a obra da poeta, na qual chave/chaves são um elemento metafórico recorrente (Agradeço a Sabrina por sua acertada insistência neste ponto).

sábado, 7 de novembro de 2009

fragmento del poema “Ancla Tyzak” de Cristina Peri Rossi

XXXVI.

Si fui amarga fue por la pena.
El capitán gritó, “Sálvese quien pueda”
y yo, sin pensarlo más, me lancé al agua,
como ávida nadadora
como si hubiera estado esperando ese momento,
el momento supremo de soledad
en que nada pesa
nada queda ya
sino el deseo impostergable de vivir;
me lancé al agua, es cierto, sin mirar atrás.
De mirar quizás no me lanzara
habría vacilado mirando tus grandes ojos tristes
siniestros remordimientos me hubieran impedido ya
saltar al espacio
tocar la fría humedad del aire
el nocturno relente
y caer
como recién nacida
en la flotante superficie del bote
donde todo habria de continuar,
no se sabe adónde.
Si hubiera mirado atrás,
tus grandes ojos tristes
la vela suspendida
los cabos sueltos
las cámaras anegadas
como los recuerdos salados del mar.
Si hubiera mirado atrás,
tus grandes ojos tristes,
la vela mística suspendida
los cabos sueltos
las cámaras anegadas
como los recuerdos salados del mar.
Si hubiera mirado atrás.
“Sálvese quien pueda” gritaba el capitán.
De haber mirado
de haber vuelto los ojos
como la mujer de Lot
ya no podría saltar
pertenecería al pasado
anclada entre las redes del barco, tu capitán, el moho de las sillas
los versos que consumíamos en las noches de vigilia,
tu pereza de saltar,
tu vergüenza de correr,
atrapada entre las hermosas lianas de los versos preferidos,
acaso no hubiera respirado más el aire salino
ni visto aparecer el sol:
era um caso de vida o muerte.
“Sálvese quien pueda”,
había gritado el capitán,
la vida era una hipótesis de salto,
quedarse, una muerte segura.

-- Cristina Peri Rossi

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Next project!

Me estou propondo nova tradução da Diane, deste poema
que publico aqui em versão original.

OLD JASON IN SAN JOSE

(Key, Key, What Bird Sings that Song ?)

He´s there, living among the computer chips
and large Vietnamese population. His name appears
on expensive speaker systems, though I doubt if it is his
family
which owns that company. I don´t know any more
how one survives blue dogs barking at the moon. I imagine
Stone Key, where they have such delicious crabs,
and think of driving the chain of keys, connected by snaking
bridges which gave me hallucinations, the bars snapping
at my eyes, trying to draw me into the water. But I am
drawn also to places where women and men are
distorted; how could I not have learned about images
in the photo-darkroom of California adolescence?
I thought I was searching for truth,
but when I found it I was so horrified
that I locked myself into this room in the Midwest
with plenty of windows, no curtains, and no key. No need
ever to go out again
into the world.
I disguise myself,
complaining of age, use my
old lady mask to give credence
to my life in this room. I am screened
away from the embarrassments, the
rejections and denied failures of sexual
encounter.
That’s one side of the
story. The other is the terrible truth
that women are neutered with age,
blue dogs barking at the moon,
- Medea’s rage when Jason takes a younger woman -
and men continue their adventures;
he lives in San José with his wife
and children, probably grandchildren, and still has
everything. Constellations turn,
two lions born only hours apart, one
destiny male, one female. Is that the key? the difference
between two lives begun
in the California orange groves,
where the dusty leaves rustle against
bright gold fruit. He owned it; I ate it.
Could that difference be the subject
of so many tales?


-Diane Wakoski, do livro Jason the Sailor.