segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

two poems of mine, from long ago (salvaging?)

Island

today on the island
we walked deep into our own wild hearts.
a ship from texas was bare red steel,
parks cluttered with summer,
a bronze-skinned lady who
smiled, sold you some pages
   from someone's past
would have loved you

back at the docks
we watched
families rush home
    to their evening.
you rested your head on my silence.
there were pigeons
    flapping above,
driving us back
    into Manhattan.

 (late 80s early nineties, NYC)


the wreck

(this was a longer poem, from which I have 'rescued' only the first stanza; the rest just didn't seem to be salvageable)


Though the children huddle at the roadside
clinging to fragments of windshield, a broken
hupcap, a bone from the steering wheel,
it is only inside our own cavernous skulls
that the memory is kept:  the place the road
took an unexpected turn, a curve too sharp
for our tires.  I would keep talking all
night while you wanted silence, a detour
from the blinding lights of each passing
town.  And I was always wanting
to dance.




domingo, 28 de fevereiro de 2016

Frank O' Hara/ nova tradução em andamento

 NOW THAT I AM IN MADRID AND CAN THINK.

I think of you
and the continents brilliant and arid
and the slender heart you are sharing my share of with the American air
as the lungs I have felt sonorously subside slowly greet each morning
and your brown lashes flutter revealing two perfect dawns colored by New York

see a vast bridge stretching to the humbled outskirts with only you
          standing on the edge of the purple like an only tree

and in Toledo the olive groves' soft blue look at the hills with silver
      like glasses like an old lady's hair
it's well known that God and I don't get along together
it's just a view of the brass works to me, I don't care about the Moors
seen through you the great works of death, you are greater

you are smiling, you are emptying the world so we can be alone



AGORA QUE ESTOU EM MADRI E CONSIGO PENSAR.

Penso em você
 e nos continentes cintilantes e áridos
e no esbelto coração que você divide dividindo minha parte  com o ar da América
como os pulmões que senti num diminuir sonoro, saúdam devagar a manhã
e os teus cílios marrons esvoaçam revelando duas alvoradas perfeitas cores de Nova Iorque

vejo uma ponte enorme que se estende até os humilhados subúrbios onde só você
    em pé à beira do púrpura como uma única árvore

e em Toledo o suave azul dos oliveirais,  olho para as colinas prateadas
    como óculos como o cabelo de uma anciã
é fato conhecido que Deus e eu não nos damos muito bem
para mim é uma simples oficina de latão, não me importo com os mouros
vistas através de você as grandes obras da morte, você é muito maior 


você está sorrindo, você está esvaziando o mundo para que possamos ficar a sós

tradução:  Miriam Adelman

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Assia Djebar and I.


Going away would return me to myself. Far away, a foreigner at last - the fruits and the pulp of being foreign, a foreigner even to my memories and my future.  Vacant, nascent. To leave!

Assia Djebar, The Tongue's Blood does not Run Dry: Algerian Stories

(For Assia)



there is rain washing this
  chance of desert,  aroma
of oasis and pine.  there
is a winter white which in the
fugitive sunlight could be warning,
  could be
       warming, could
                     almost be the white
of yr blanched algiers
walls, and blue doorways
   adorned with a chain of bells
   and a fine yellow script
and white veils blowing along the
street, imperceptible patter of feet
over the ancient cobblestone -

       as if there were no one 
       inside, nothing but air
       and muted desire, as if 

there were never
a boat at the dock,
a light at the end

of the tunnel.


                   Image: Miriam Adelman (Street art, Montevideo)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ya no soy un caballo/ Germaine Calderón

Many years ago I found this poem, by Germaine Calderón, in Mexico City's "La Jornada".
And I carried it with me - a flimsy newspaper clipping thrown into a folder with other poems
that I had found and old typed manuscripts of my own - twice across the continents.  Until one day I decided to share it here, and try my luck at this Spanish to English translation.  A 'work in progress' still!

Ya no soy un caballo
    Germaine Calderón

Hay signos
desesperanzas en duelo
algunos vagabundos
en crecimiento con la noche
con el olor del mundo
muchachos
como pájaros tímidos

Los montes marineros azules
nosotros silenciosos
buscando algún rellano
un pueblo más que este
insignificante en tres patas
una sombra del tamaño del agua
y un vino incesante
a la hora de la memoria
para caer tumbados en las lindes
donde se rie
com una extraña mueca
por nuestra desnudez obcena

Hoy he volteado
mi sueño como un guante
yo mismo
me he puesto a secar por el reverso
y el corazón se extraña
de su doblez
de su flanco
de su tamaño inminente
y yo me extraño
de ser tan parecido
a un hombre
Siempre pensé que era un caballo
las gentes me llamaban por mi nombre
y yo acudia
con un instinto manso

Amaba la corteza llovida
el grano tierno como dádiva
y creia
en los músculos simples
en la rapidez del aire
en la oración impaciente
desbocada

Entonces
los árboles
semejaban guerreros
lo verde venia de las raíces
y las raíces no tenian
un lugar fijo

En esas largas caminatas
se estrenaban los dias
y no habia outro lenguaje que vivir
de uma manera recia
desde el origen
casi brutalmente

Sabia que estar
era doblegarse
por disciplina
no por hambre
que era el tiempo de los mitos
de los encantadores
con sus flautas

La medida era el fuego
el bienestar residia
en ser
de pronto
de la crin a los nervios
rebelde
y sin embargo,
el ojo siempre
agrandado
por la mansedumbre

Pero hoy me descubro
tan igualmente a todos
limitado en ideas
en trabajo
y tan sólo
y tan sólo mirando




Now that  I am no longer a horse.


There are signs
 duels of despair
hobos who wander
and grow with the night
with the aromas of the world,
boys like birds
in their shyness

The mountains,  blue´clad sailors
and we here silent,
seeking some flatland
some little town that is more
than this one,
insignificant on its three legs
a shadow in the measure of water
and wine, incessant
at the hour of memory
where we collapse on the hillsides
where there is laughter,
like a strange grimace
in the face of our obscene
exposure.

Today I have turned my
dreams inside out like a glove,
I have turned myself out to dry
my heart puzzled
by its seams
and its flanks
by its imminent size
and I am puzzled
to find myself looking
   so much
like a human.

I always thought I was a horse
people called me by my name
and I came
 by gentle instinct

I loved the damp bark
grains as tender as a gift
and I believed
in simple muscles
in the swiftness of air
in impatient, runaway
prayer

In those days
trees were like
warriors
and greenness shot up
from the roots
and roots were fixed
nowhere

On those long strolls
  a debut of days 
and there was no other language
    for living
except in a way that was hard
almost brutal
from the start

I knew that to be
was to give in -
to discipline
and not in hunger
that these were the days of tales
of charmers and their flutes

Measures were welded in fire
and well being meant being
suddenly
from mane to nerves,
a rebel
but always with the wide
rounded eyes of the docile

Today however
I discover myself
 so much the same
as all others,so
  bounded in ideas
    in labor
and just watching, 
merely watching.


  English version:

Miriam Adelman

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Idade de Consentimento/Age of Consent

Dando continuidade ao trabalho de tradução de escritoras associadas ao círculo Beat,
ofereço uma tradução minha da poeta  Lenore Kandel (1932, NYC- 2009, San Francisco)

Idade de Consentimento


Não ficarei satisfeita até falar com os anjos
Preciso presenciar o olhar de deus
lançar meu próprio ser ao cosmos como isca para atrair milagres
respirar o ar e vomitar visões
destrancar a porta que já se abriu e entrar na presença
daquilo que não consigo imaginar

Preciso de respostas para perguntas que ainda não apreendi

Exijo o acesso do esclarecimento, a permutação para dentro do milagroso
a presença da luz que não se suporta

talvez da mesma forma que a lagarta exija suas asas de lepidóptera
ou os girinos demandem ser rã
ou o filho do homem exija sair

do útero quente seguro

Tradução:  Miriam Adelman



Original em inglês disponível na página

https://thefiendjournal.wordpress.com/2014/02/17/lenore-kandel-poems-and-prose-6/

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A túnica de Nessus, II. Assia Djebar.


Tradução a partir da versão em inglês do livro  "Fantasia: an Algerian cavalcade"


Escrever na língua do inimigo é mais do que rabiscar um monólogo resmungado em baixo do próprio nariz; usar este alfabeto  te exige colocar teu cotovelo a uma certa distância na tua frente para formar um baluarte - contudo, nesta posição torta, o que você escreve retorna como na maré.
  Esta língua foi importada  em um passado turvo e escuro, espólios arrancados do inimigo com  quem nunca se trocou uma palavra afetuosa... O francês, que já foi a língua das cortes de justiça, utilizada da mesma maneira por juízes e condenados.  Palavras de acusação, procedimentos jurídicos, violência - estas são as fontes orais do francês dos colonizados.
   Enquanto me aproxime ao inevitável cessar fogo do final de cada guerra, minha escrita retorna com a maré às orlas abandonadas do tempo presente e procura um lugar onde o armistício linguístico pode ser negociado, um pátio com fontes borbulhando onde as pessoas vão e vêm.
  Esta língua foi utilizada no passado para enterrar meu povo; quando a escrevo hoje, me sinto mensageira do passado, carregando uma missiva selada que pode ser uma sentença à morte ou ao calabouço.
   Ao me despir nesta língua, inicio um incêndio que pode me consumir. Ao tentar uma autobiografia na língua de quem era o inimigo...
  

Após cinco séculos de ocupação romana, um argelino chamado Agostinho começa a escrever sua própria biografia em latim. Fala sobre sua infância, declara seu amor pela mãe e pela concubina, se arrepende de sua época de devassidão e conta como foi finalmente consumido pela paixão por um Deus cristão.  E sua escrita deslancha,  com toda inocência, na mesma língua de César ou Sulla - escritores e generais da exitosa 'campanha africana'.
  A mesma língua passa dos conquistadores aos povos assimilados; torna-se mais flexível após cobrir os cadáveres do passado com uma mortalha de palavras... O estilo de Santo Agostinho levanta-se junto com sua extasiada busca por Deus.  Sem esta paixão, ele voltaria à indigência: 'Tornei para mim mesmo o país da indigência.' Se este amor não o mantivesse em uma viagem de euforia, sua escrita seria auto-dilaceração!

  Após o bispo de Hippo Regius, transcorrem mil anos. O Maghreb testemunha uma procissão de novas invasões, novas ocupações... Ataques repetidos de homens da tribo Banu Hilal finalmente sangram o país até a brancura.  Logo após essa virada fatal, o historiador Ibn Khaldun,  autor inovador de A história dos bérberes, e figura tão grande quanto Agostinho, arredonda uma vida de aventura e meditação ao compor sua autobiografia em língua árabe, lhe dando o título Ta' arif. Quer dizer, 'Identidade'.
    Como Agostinho, pouco lhe importa que escreve em uma língua que foi introduzida na terra dos seus pais através da conquista e acompanhada por sangria! Uma língua imposta tanto por estupro quanto por amor...
  Ibn Khaldun tem quase setenta anos:  após um encontro com Tamerlane - sua última aventura - ele se prepara para morrer no Egito.  De repente, se entrega ao anseio de olhar para si mesmo: e se torna sujeito e objeto de uma autopsia imparcial.

Da minha parte, mesmo quando estou compondo as frases mais comuns, minha escrita é imediatamente capturada pela armadilha da velha guerra entre dois povos.  Portanto, balanço como pêndulo, entre  imagens de guerra (guerra de conquista ou de libertação, mas sempre no passado) e um amor ambíguo e contraditório.
   Minha memória esconde-se numa montanha preta de restos que se decompõem; os sons que  a carregam rodopiam para cima e para fora do alcance da minha caneta. 'Eu escrevo' declara Michaux, 'para empreender uma viagem através de mim mesmo'. Eu viajo através de mim mesma ao capricho de quem era o inimigo, o inimigo cuja língua  roubei ...
   A autobiografia praticada na língua do inimigo tem a textura da ficção, pelo menos enquanto você continua dessensibilizada, esquecendo os mortos que a escrita ressuscita. Embora pensasse que simplesmente empreendesse uma 'viagem através de mim mesma', descubro que apenas estou escolhendo um véu diferente. Embora pretendesse que com cada passo para frente  eu me tornaria mais claramente identificável, me descubro paulatinamente sugada pelo anonimato dessas mulheres do passado - minhas ancestrais!

Sou obrigada a reconhecer um fato curioso: a data do meu nascimento é mil oitocentos e quarenta e dois, o ano que o General  General Saint- Arnaud chega para incendiar a zaouia do  Beni Menacer, da tribo da qual eu descendo, e ele entra em arroubos por causa das hortas, as oliveirais, 'as mais belas de toda Argélia', como descreve numa carta a seu irmão - oliveirais que já desapareceram.  
   É o incêndio de  Saint-Arnaud que ilumina meu caminho de saída do harém cem anos mais tarde: é porque seu fulgor me rodeia que encontro a força para falar.  Antes de capturar o som da minha própria voz , consigo escutar os últimos suspiros, os gemidos daqueles que foram emparedados nas montanhas Dahra e dos presos da ilha de Sainte-Marguerite; me fornecem um acompanhamento orquestral. Me intimam, me encorajam os passos  indecisos, para que quando se der o sinal, minha canção solitária se levante.


A língua dos Outros, que me cerca desde a infância, a dádiva que meu pai me concedeu amorosamente, a língua que se colou em mim desde então como a túnica de Nessus: é essa dádiva que veio do meu pai que cada manhã me levava pela mão para me acompanhar à escola.  Uma pequena menina árabe, numa aldeia do Sahel argelino...




Tradução/Imagem:  Miriam Adelman

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A túnica de Nessus. Primeira parte, traduzida do inglês..

Quinto movimento: a túnica de Nessus.

(de "Fantasia: an Algerian cavalcade", de Assia Djebar.

Meu pai, uma figura alta e ereta que veste um fez, caminha pela rua da aldeia; ele me puxa pela mão e eu, que durante tanto tempo me orgulhava de mim mesma - a primeira menina da família para quem foram compradas bonecas francesas, a que tinha escapado definitivamente do enclausuramento e nunca teve que bater o pé e protestar porque a obrigavam a colocar uma burca, ou ceder mansamente como minhas primas, eu que por vontade própria me cobria com um véu para assistir um casamento de verão como se fosse um elegante vestido, considerando-o extremamente atraente - eu ando pela rua segurando a mão do meu pai. De repente, me surgem as ressalvas:  não seria meu 'dever'  ficar com meus pares nos aposentos femininos? Mais tarde, como adolescente, quase intoxicada com a sensação da luz do sol na minha pele, no meu corpo móvel, uma dúvida surge na minha cabeça: 'Por que eu? Por que só eu, de toda minha tribo, tenho esta oportunidade?'


Eu  coabito com a língua francesa. Por vezes eu brigo com ela, ou  sinto uma explosão de carinho por ela, ou um lapso  de silêncio abrupto ou raivoso - estas são ocorrências normais na vida de qualquer casal. Se deliberadamente eu provoco uma disputa, será menos para romper o insuportável tédio  da monotonia do que por minha vaga consciência de ter sido obrigada a entrar muito cedo neste 'casamento', um tanto como outras meninas da minha aldeia que são 'comprometidas' ainda na infância.
    Neste sentido, meu pai, professor de escola,   para quem uma educação francesa forneceu um meio de fugir da pobreza da família, provavelmente tenha me doado antes da idade de 'casamento' - não havia pais que abandonavam suas filhas a pretendentes desconhecidos ou, como no meu caso, as entregavam ao campo inimigo?  O não reconhecer as implicações deste comportamento tradicional adquiriu para mim um significado diferente:  quanto eu tinha dez ou onze anos, entre minhas primas se entendia que eu era a 'predileta' do meu pai, pois ele sem hesitar me salvou do enclausuramento.
   Mas as nobres princesas com idade para casar também atravessam fronteiras, por vezes contra sua vontade, para cumprir tratados que põem fim à guerra.

O francês é minha 'língua madrasta'. Qual então minha língua materna que perdi tantos anos atrás, que me deixou na mão e sumiu? ... Língua materna, ora idealizada ora menosprezada, relegada aos gritos dos feirantes e aos carcereiros?... Com o fardo dos tabus que herdei, descubro que não tenho memória de canções de amor na língua árabe. Será porque fui afastada dessa fala apaixonada que acho o francês que eu uso tão sem graça e sem vantagens?
 O poeta árabe descreve o corpo de sua amada; o excêntrico andaluz compõe um tratado trás outro, listando uma multiplicidade de posições eróticas; o místico muçulmano, vestido em farrapos de lã e satisfeito com um tanto de encontros, exprime sua sede de Deus e seus anseios do além com um excesso de epítetos extravagantes... A prodigalidade dessa língua me resulta um tanto suspeita, consolo com palavras vazias... sua riqueza esbanjada enquanto despossuídas de sua herança árabe.
Palavras de amor ouvidas numa terra selvagem. Após vários séculos de enclaustramento, os corpos das minhas irmãs começam a emergir do seu esconderijo, aqui e acolá, ao longo dos últimos cinquenta anos; elas tateiam, cegas diante da luz, antes de ousar dar passos para frente. O silêncio rodeia as primeiras palavras escritas, e alguns risos dispersos se ouvem por cima dos gemidos.  

  'L'amour, ses cris (s 'ècrit): minha mão enquanto escrevo em francês faz um trocadilho das aventuras amorosas que vem à tona; a única coisa que meu corpo faz é ir para frente, totalmente despido, e quando descobre as ululações das minhas ancestrais nos antigos campos de batalha, descobre que é ele mesmo que está em jogo: não é mais só questão de escrever para sobreviver.

Muito antes dos franceses desembarcarem em 1830, os espanhóis estabeleceram seus presídios como pontos estratégicos ao longo da costa magrebina -- Oran, Bougie, Tangiers, Ceuta; os governantes nativos do interior continuaram a resistir e as forças da ocupação frequentemente tiveram suas provisões alimentares cortadas; nessa situação, adotaram as táticas do rebato: se escolhia um lugar isolado de onde partir para o ataque, e para bater em retirada e usar nos intervalos entre as hostilidades para cultivar a terra ou renovar provisões.
      Este tipo de prática de guerras, ofensivas rápidas alternando com rápidos recuos, permitia que cada parte continuasse lutando indefinidamente.

Após mais de um século de ocupação francesa - que terminou em tanta carnificina, pouco tempo atrás - um semelhante terra de ninguém continua separando as línguas francesa e indígenas, entre duas memórias nacionais: a língua francesa, com seu corpo e sua voz, estabeleceu em mim um presídio orgulhoso, enquanto a língua materna, plena tradição oral, em trapos e farrapos, resiste e ataca entre dois espaços de respiração.  Acompanhando o ritmo do rebato, sou alternadamente a estrangeira sitiada e a nativa que vai bamboleando até o lugar da sua morte, dando-se então uma disputa que não parece ter fim entre a palavra falada e a palavra escrita.


Versão:  Miriam Adelman


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

The Tunic of Nessus: Part II.

Writing the enemy's language is more than just a matter of scribbling down a muttered monologue under your very nose; to use this alphabet involves placing your elbow some distance in front of you to form a bulwark - however, in this twisted position, the writing is washed back to you.
  This language was imported in the murky, obscure past, spoils taken from the enemy with whom no fond word was ever exchanged... French, formerly the language of the law courts, used alike by judges and the convicted. Words of accusation, legal procedure, violence - that is the oral source of colonized people's French.
   As I come to the inevitable ceasefire at the end of every war, my writing is washed up on the deserted seashores of the present day and looks for a place where a linguistic armistice can be arranged, a patio with fountains playing where people come and go.
  This language was formerly used to entomb my people; when I write it today, I feel like the messenger of old, who bore a sealed missive which might sentence him to death or to the dungeon.
   By laying myself bare in this language I start a fire which may consume me. For attempting an autobiography in the former enemy's language....

After five centuries of Roman occupation, an Algerian named Augustine undertakes to write his own biography in Latin. Speaks of his childhood, declares his love for his mother and his concubine, regrets his youthful wild oats and tells how he was eventually consumed with passion for a Christian god .  And his writing presses into service, in all innocence, the same language as Caesar or Sulla - writers and generals of the successful 'African campaign'.
  The same language has passed from the conquerors to the assimilated people; has grown more flexible after the corpses of the past have been enshrouded in words... Saint Augustine's style is borne along his ecstatic search for God. Without this passion, he would be destitute again: 'I have become to myself the country of destitution.' If this love did not maintain him in a blissful transport, his writing would be a self-laceration!
  After the Bishop of Hippo Regius, a thousand years elapse. The Maghrib sees a procession of new invasions, new occupations... Repeated raids by the Banu Hilal tribesmen finally bleed the country white. Soon after this fatal turning point, the historian Ibn Khaldun, the innovatory author of The History of the Berbers, as great a figure as Augustine, rounds off a life of adventure and meditation by composing his autobiography in Arabic.  He calls it Ta' arif, that is to say, 'Identity'.
   As with Augustine, it matters little to him that he writes in a language introduced into the land of his fathers by conquest and accompanied by bloodshed! A language imposed by rape as much as by love...
  Ibn Khaldun is now nearly seventy years of age:  after an encounter with Tamerlane - his last exploit - he prepares to die in exile in Egypt.  He suddenly obeys a yearning to turn back on himself: and he becomes the subject and object of a dispassionate autopsy.

For my part, even where I am composing the most commonplace of sentences, my writing is immediately caught in the snare of  the old war between two peoples.  So I swing like a pendulum from the images of war (war of conquest or of liberation, but always in the past) to the expression of a contradictory, ambiguous love.
   My memory hides in a black mound of decomposing debris;  the sound which carries it swirls upward out of reach of my pen. 'I write', declares Michaux, 'to undertake a journey through myself.' I journey through myself at the whim of the former enemy, the enemy whose language I have stolen...
   Autobiography practised in the enemy's language has the texture of fiction, at least as long as you are desensitized by forgetting the dead the writing resurrects. While I thought I was undertaking a 'journey through myself', I find I am simply choosing another veil.  While I intended every step forward to make me more clearly identifiable, I find myself progressively sucked down into the anonymity of those women of old - my ancestors!

I am forced to acknowledge a curious fact:  the date of my birth  is eighteen hundred forty two, the year when General Saint- Arnaud arrives to burn down the zaouia of the Beni Menacer, the tribe from which I am descended, and he goes into raptures over the orchards, the olive groves, 'the finest in the whole of Algeria', as he writes in a letter to his brother - orchards which have now disappeared.
   It is Saint-Arnaud's fire that lights my way out of the harem one hundred years later: because its glow still surrounds me  I find the strength to speak. Before I catch the sound of my own voice I can hear the death-rattles, the moans of those immured in the Dahra mountains and the prisoners on the island of Sainte-Marguerite; they provide my orchestral accompaniment.  They summon me, encourage my faltering steps, so that at the given signal my solitary song takes off.

The language of the Others, in which I was enveloped from childhood, the gift my father lovingly bestowed on me, that language has adhered to me ever since like the Tunic of Nessus:  that gift from my father who, every morning, took me by the hand to accompany me to school. A little Arab girl, in a village of the Algerian Sahel...



Assia Djebar, "Fantasia, an Algerian Cavalcade".  Published originally in French, in 1985.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

From "Fantasia: an Algerian cavalcade". by Assia Djebar



 Fifth Movement:  the Tunic of Nessus.  (Part I)

My father, a tall erect figure in a fez, walks down the village street; he pulls me by the hand and I, who for so long was so proud of myself - the first girl in the family to have French dolls bought for her, the one who had permanently escaped cloistering and never had to stamp and protest at being forced to wear the shroud-veil, or else yield meekly like any of my cousins, I who did deliberately drape myself in a veil for a summer wedding as if it were a fancy dress, thinking it most becoming - I walk down the street, holding my father's hand. Suddenly, I begin to have qualms: isn't it my 'duty' to stay behind with my peers in the gynaeceum? Later, as an adolescent, well nigh intoxicated with the sensation of sunlight on my skin, on my mobile body, a doubt arises in my mind: 'Why me? Why do I alone, of all my tribe, have this opportunity?'

I cohabit with the French language. I may quarrel with it, I may have bursts of affection, I may subside into sudden or angry silences - these are the normal occurrences in the life of any couple.  If I deliberately provoke an outburst, it is less to break the unbearable monotony, than because I am vaguely aware of having been forced into a 'marriage' too young, rather like the other little girls of my town who are 'bespoke' in their earliest childhood.
  Thus, my father, the schoolteacher, for whom a French education provided a means of escape from his family's poverty, had probably 'given ' me before I was 'nubile' - did not certain fathers abandon their daughters to an unknown suitor, or, as in my case, deliver them into the enemy camp? The failure to realize the implications of this traditional behaviour took on for me a different significance:  when I was ten or eleven, it was understood among  my female cousins that I was privileged to be my father's 'favourite' since he had unhesitatingly preserved me from cloistering.
   But marriageable royal princesses also cross the border, often against their will, in terms of treaties which end wars.

French is my 'stepmother' tongue. Which is my long-lost mother-tongue, that left me standing and disappeared? ... Mother tongue, either idealized or unloved, left to fairground barkers and jailers!...Burdened by my inherited taboos, I discover I have no memory of Arabic love-songs. Is it because I was cut off from this impassioned speech that I find the French I use so flat and unprofitable?
  The Arab poet describes the body of his beloved; the Andalusian exquisite composes treatise after treatise, listing a multiplicity of erotic postures; the Muslim mystic, dressed in woolen rags and satisfied with a handful of dates, expresses his thirst for God and his longing for the hereafter with a surfeit of extravagant epithets... The prodigality of this language seems to me somewhat suspect, consoling with empty words... Wealth squandered while they are being dispossessed of their Arab heritage.
  Words of love heard in a wilderness.  After several centuries of cloistering,  the bodies of my sisters have begun to come out of hiding here and there over the last fifty years; they grope around, blinded by the light, before they dare advance. Silence surrounds the first written words, and a few scattered laughs are heard above the groans.
  'L'amour, ses cris (s 'ècrit): my hand as I write in French makes the pun on love affairs that are aired; all my body does is to move forward, stripped naked,  and when it discovers the ululations of my ancestresses on the battlefields of old, it finds that it is itself at stake:  it is no longer a question of writing only to survive.

Long before the French landed in 1830, the Spanish established their presidios (garrison posts) as strategic points along the Maghribin coast - Oran, Bougie, Tangiers, Ceuta; the indigenous rulers in the interior continued to resist and the occupying forces frequently found their food supplies cut off; thus they adopted the tactics of the rebato: an isolated spot could be chosen from which to launch an attack, and to which they could retreat and use in the intervals between hostilities for farming or for replenishing supplies.
  This type of warfare, rapid offensives alternating with as swift retreats, allowed each side to continue fighting indefinitely.

After more than a century of French occupation - which ended not so long ago in such butchery - a similar no-man's land still exists between the French and the indigenous languages, between two national memories: the French tongue, with its body and voice, has established a proud presidio within me, while the mother tongue, all oral tradition, all rags and tatters, resists and attacks between two breathing spaces. In time to the rhythm of the rebato, I am alternately the besieged foreigner and the native swaggering off to die, so there is seemingly endless strife between the spoken and written word. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Leonard Cohen - a poem from his Book of Longing




THE FLOW/  O FLUIR


You have been told to
"go with the flow"
but as you know
from your studies
there is no flow,
nor is there actually
any coming or going.
These are merely
helpful concepts
for the novice monk.
You can start smoking again,
and what is called 'your death'
and what is called 'your life'
you can watch now
through the eyes of wisdom.
This is why
the sages of Japan
named their cigarettes
"Hope" and "Peace"
and "Peace Light" and "Short Hope"
and "Short Hope Light".




Já te falaram para
"ir com o fluir"
mas como você sabe distinguir
pelos teus estudos, não há um fluir,
também não há realmente
nenhum vir nem ir.
Estes são meramente
conceitos uteis
para o monje novato.
Você poderá começar a fumar de novo
 e o que chamam "tua morte"
 e o que chamam "tua vida"
você pode agora assistir
através dos olhos da sabedoria.
É por isso que
os sábios do Japão
deram nomes para seus cigarros
"Hope" e "Peace"
 e "Peace Light"  e "Short Hope"
e "Short Hope Light".


Tradução:  Miriam Adelman & Takeshi Ishihara.