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terça-feira, 27 de setembro de 2022

CARTA ABERTA AO CRIADOR/OPEN LETTER TO OUR CREATOR


Here you have it again:  working on the translation of this text by Fabio Flora*, and hoping to be able to take it to a reading soon!



Com todo o respeito, Chefia: bem que o Senhor podia aproveitar o domingo de Páscoa, as famílias reunidas, o clima ensolarado de recomeço e mudança para apertar aquele botão (o reset, fique bem claro) e reiniciar o sistema. Mais ou menos como Vossa Excelência fez quando mandou o dilúvio.

Só que desta vez, Patrão, sem o coxinha do Noé, sem aquela arca ecologicamente incorreta e sem essa de salvar só os casais héteros de cada espécie. Não pega bem. Não agrega valor ao Paraíso. Sugestão: deixe apenas três amebas, para ver se de um ménage nasce coisa melhor que o Homo bolsonaris gentilis – essa criatura que, dizem mas não acredito, foi feita à Sua imagem e semelhança.
Não me entenda mal, Eminência: se peço um replay em slow-motion da maior inundação de todos os tempos – e uma garoa de asteroides junto, só para garantir –, é porque andamos precisando muito de um reboot. Quem sabe com a página outra vez em branco nós, e aí incluo Vossa Senhoria, não escrevamos certo finalmente.
Sem tanta linha torta.

Um mundo sem glúten, sem hora para acordar, sem segundas-feiras, sem celulares nos cinemas, sem livros de autoajuda, sem frases bregas atribuídas a Clarice ou Machado, sem acento grave ou vírgula onde não deve, sem fumantes e bebuns, sem juros, sem tomates superfaturados, sem novelas ruins, sem filmes dublados, sem crise de fígado e dor de cabeça, sem humoristas sem graça, sem reaças, sem filas, sem hora extra e serão, sem guerras, sem canções cafonas para promover a paz, sem bandeirinhas míopes, sem PM de TPM, sem manchetes sensacionalistas, sem bundas de plástico, peitos de plástico, cérebros de plástico, corações de plástico – sem plástico, enfim.

Ah, e o mais importante: sem vergonha de dizer eu te amo durante o expediente. 
Mas com vergonha de levar gaita na cueca, com hora de ninar os filhos, com mais sextas de Carnaval, com celulares que toquem valsa, com mais sonhos e pés de valsa, com poesia nos muros (se eles insistirem em existir), com sujeito e predicado vivendo em concordância, com fumantes viciados em cachimbos da paz, com cerveja amanteigada nos botecos, com juras (de amor), com toda a horta em promoção, com novelas que valem a pena ver de novo, com filmes franceses nas periferias, com riso frouxo mesmo depois de um tropeção, com uma horinha a mais de sono, com o Messi no meu time, com policiais sem pimenta, com jornais bem-humorados.

E não nos esqueçamos, Vossa Magnificência, que isto é fundamental: com violinos ao fundo sempre que disserem eu te amo durante o expediente.
Sem mais por ora, me despeço aqui, ó Pai de Todos, Fura-Bolo e Mata-Piolho, desejando-Lhe uma Páscoa trufada de boas intenções e chocolates (sem glúten, lactose e açúcar, cem por cento cacau; que nem divindade da Sua catiguria pode brincar com o colesterol, o Tinhoso disfarçado de gordurinha). Tchau e bença.

* Texto publicado em 2014 no Pasmatório (http://pasmatorio.blogspot.com/). De lá para cá, permaneceu super atual. (Sem mais comentário...)



With all due respect, dear Chief:  perhaps you dear Lord could take advantage of this Easter Sunday, families gathered round the hearth, the sunny weather of rebirth and change, to press that button (the reset one, make no mistake!) and restart the whole system.  Kind of  like what Your Excellence did when you sent out the diluvium.

Only this time, Boss, let's try a go without that bigot, Noah, without that ecologically incorrect ark and that crap of saving only the hetero couples of each species.  It doesn´t go over very well. It adds no value to Paradise. A  suggestion: leave us just three amoebas, to see if from the ménage we get something better than that Homo bolsonaris gentilis,  that creature that they say - but I don´t  believe them - was made in your image and semblance.

Don't get me wrong, your Eminence: if I ask for a slow-motion replay of the greatest flood of all times - and a shower of asteroids together,  to take no chances - it is because we are in dire  need of a reboot. Who knows, with a blank page once again , we—and I include you, dear Lord, in this—can do a better job at the writing.  Finally. 
Without the crooked lines.  

A world without gluten, without a time to get up, without Mondays, without cell phones ringing at the movies, without self help books or corny phrases attributed to Clarice or Machado, without accent marks and commas where they shouldn't be, without smokers or drunkards, without interest, without overpriced tomatoes, without bad novels, dubbed movies, bad livers and headaches, dumb comedians,  fascists,  long lines, overtime; without wars and corny songs purportedly promoting peace, without myopic flags,  without a military unless demilitarized, without sensationalistic headlines, plastic butts, plastic tits, plastic brains, plastic hearts—with no  plastic, at all.

Ah and most importantly: to be able to say I love you, shamelessly,  during the work shift. But with shame enough to carry cash in our underwear, to have time to put our kids to bed, to have more Carnival Fridays, and cell phones that play waltzes, and more dreams and waltzing feet, and more poetry on the walls (if they don't all crumble), with subjects and predicates in agreement, more smokers hooked on peace pipes and buttery beer at the corner-bars, with oaths (of love) and special offers on all the vegetable gardens, good novels to read and French films showing on the outskirts of town, to always  know how to laugh even after screwing up, and get in an extra hour of sleep, have Messi on our team, police officers without pepper spray and newspapers with a hip sense of humor.

And let us not forget, Your Excellence, another essential:  violins in the background every time one says  I love you during the work shift.

Since  I've gone through the list, for now,  let me take my leave here, oh dear Father of Us All, Milk Spiller and Lice Killer, wishing You an Easter layered with good intentions and chocolates (no gluten, lactose or sugar and 100% pure chocolate; as no one of Your stature can play around with cholesterol, you little sneak)
  
Bye for now, and  god bless...


domingo, 10 de janeiro de 2010

Contribuições...

Com este poema da escritora curitibana e grande amiga minha,
Claudia Borio, @s lembro que a proposta de Juntando Palavras é cultivar um espaço de troca literária. Assim, espero neste ano receber cuentos, crônicas e poemas de vocês, querid@s amig@s, em inglês, português ou espanhol...


Separação

(para Giorgia)

Ela estava incrivelmente bela
E digna.
Eles a tinham convidado
Para tirar fotografias de uma festa,
Nada menos,
Como se ela não tivesse
Mais com o que se preocupar.
Ela tomou somente uma cerveja
E tirou algumas fotos,
Desinteressadamente.
No entanto, lembrava-se.
Seu cãozinho, que morrera,
Luto por uma relação, por uma época,
Tudo o que acabara.
Lágrimas concentradas.
E hoje ele estava aqui,
Aquele homem,
De cabelos raspados, como ela
Sempre o descrevia,
Tudo o que ela deixara para trás,
Tudo ao que renunciara,
Tudo o que tinha dado errado
Ou que tinha significado
Algo que fracassara.
Ele viera para a Grande
Divisão dos Bens.
Era um bom homem,
Diziam os que o conheciam.
Mas ela também, fôlego,
era
Uma Boa Mulher.
Dividiram, então, os CDs
E ele ficou com os Rolling
Stones. Mas eu gosto mais
Do que você, disse ela.
Ele não se interessou
Por seus argumentos
E ficou com todos eles,
Mesmo aqueles de que ele não
Gostava

-- Claudia Borio

sexta-feira, 6 de março de 2009

Trocando palavras...

Continuando nossos novos diálogos literários, posto hoje um poema do amigo e bloguiero "fn"
(e aproveito para lembrar mais uma vez ao pessoal todo, do "convite" que já fiz ...):

LIVRES, LEVES, LOUCAS
fn

Palavras abandonam minha boca
e alcançam teus ouvidos.
Dali tomam rumos incertos,
desconhecidos.
Não pense com elas,
embora já te pertençam.
Deixe-as fluir,
como qualquer coisa
que não se imagina conter.
Palavras soltas, indomáveis,
fortes ou suaves,
que não medimos as consequências
antes de libertar.
Percorrem o corpo e a mente,
como o sangue a correr
duvidoso
por baixo de tão alva pele.
Solte as suas,
talvez
em forma de súplica, gemido
ou falta de ar.
Também não pense duas vezes
antes de agarrar as asas
e partir
só pra ver no que vai dar.
Palavras, às vezes voam
como aviões de guerra
a transportar sentimentos feridos.
Palavras não são donas de nada,
mas uma vez proferidas
têm a força
de fecundar ou destruir
o futuro incerto na parede.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Naumaquia, um conto de Benedito Costa Neto

[Um conto que foi premiado no último concurso Newton Sampaio. É, nas palavras do autor, "uma narrativa sobre o amor paterno". Será publicado na próxima edição do concurso, com outros oito contos de escritores brasileiros.]

Ele viajou, estudou em Londres, passou por diversos países, depois voltou com um piercing atravessando a orelha, palavras estranhas para apontar as coisas mais comuns e um namorado. Quando chegou, não entendi muito bem a figura sempre presente do amigo. Um rapaz de ombros largos, ex-praticante de remo,arquiteto formado por uma federal. Eu não disse nada, e fingia não entender as indiretas de minha mulher e também as diretas dela: você não vê o óbvio, você não enxerga um palmo frente a seu nariz, você só vê o que quer ver, etc. Mas ela me dizia isso a respeito de carros, do meu orgulho pela seleção de vôlei, da política. Era algo que se perdia num lodaçal de coisas ditas, que ao longo do casamento se transformam num mantra e, como num mantra muito repetido, perdiam (e perdem) o sentido. Esperava que um dia meu filho aparecesse em casa com uma menina, tão linda que eu diria a ele: vou trocar sua mãe por sua namorada, muito mais jovem, você que arrume outra, essas coisas de que todos ririam, e eu levaria um beliscão... afinal não criei meu filho de outra forma que não fosse a única possível que era criar um garoto para que um dia esse garoto gostasse de uma garota que viria à minha casa e me chamaria de sogrinho querido, algo assim, mas aqui paro para ouvir a voz do Rodrigo, o amigo de tantos anos: o mundo mudou e todos estão enlouquecidos. O rapaz apertou minha mão com tanta força e por tanto tempo – mostrando um interesse tão vívido pelo pai do amigo, dizendo que ouvira muito falar de mim – que tive de pedir minha mão de volta. Disse que era um orgulho estar na casa de um ex-nadador que fora a Los Angeles e que a casa era realmente mais bonita do que a descrição que tivera. Meu filho fora injusto com o pai. Não as via, mas sabia que as mulheres estavam rindo atrás de mim. Minha filha deu um abraço no rapaz e depois um tapinha nas costas do irmão, dizendo aí, rapaz! ponto pra você! De fato o mundo mudara e as pessoas estavam enlouquecidas, trocando as falas. Os dias foram passando e a presença do rapaz foi ficando mais e mais intensa. Aniversários, almoços, jantares, troca de receitas com as mulheres, conversas amenas sobre política e economia comigo, longas apresentações de fotos de viagens. A cada dia convivíamos mais e mais com o poder esmagador de seu sorriso. Chegou também o dia em que as famílias se conheceriam. O rapaz forte, sem pai, trouxe a mãe e uma irmã tímida, cheia de dedos. Eram pessoas muito distintas e fiquei encantado com o modo como a mãe dele contou como criara os filhos sozinha, principalmente a alegria dela ao ver o filho na equipe de remo e a tristeza pela equipe não ter conseguido ir a Atenas. Falava do filho como tratasse de um herói morto havia muito, mas com que dedicação! Era uma mulher mais bonita que a minha, tivera uma vida mais dura que a nossa, jamais se casara de novo e, com tudo isso, mantinha uma classe antiga, que não se compra em antiquários. Jantar finalizado, cafezinho, o licor que recusaram, conversa na sala que dava para o jardim. Horas depois de a mãe dele haver chegado,após quase duas horas de conversa, estava chorando, do nada, sem parar e com ritmo, por todas as coisas, como diria Guimarães Rosa, pelas coisas vividas e pelas que viriam. Não sei, mas acho que entendia seu choro assim como entendi o abraço carinhoso que ela recebeu de minha esposa: naquele momento elas estavam em consonância e talvez se emocionassem por coisas parecidas. O filho foi ao toalete, trouxe papel dobrado, estendeu-o à mãe, fez um gesto querendo dizer é assim mesmo, ela fica emocionada com qualquer coisa, é uma manteiga derretida, e foram. Meu filho os acompanhou e, como nunca tinha sentido antes,nem em sua despedida para a Inglaterra, anos antes, nem quando foi ao hospitalaos quatorze, quase morto por uma queda do cavalo, jamais em minha vida sentira tão forte uma perda. Esperei as mulheres todas saírem, acompanharem as visitas até o carro delas, e caí no sofá, esperando o sinal da imensa platéia que assistira minha derrota: elas apontariam com o polegar o próprio pescoço para que o outro gladiador me desse o golpe de misericórdia. No clube, comentei com os amigos mais próximos que em meu escritor predileto, Guimarães Rosa, isso tudo seria impossível, ao que fui abertamente recriminado, de novo: eu só via o que queria. Mas Diadorim era uma mulher, eu disse, uma donzela guerreira! Terminei a conversa dizendo que isso jamais haveria em Machado, ao que fui recriminado de novo: vai que Bentinho fosse apaixonado por Escobar! E o que dizer de Proust? Na verdade, queriam me chatear, mas a zombaria dos amigos é um bom vinho: só não mata a sede. O pior sempre foram as piadinhas sobre quem ficava por cima. Evidentemente sempre defendi meu filho, mas quando, no clube, vêem os ombros intermináveis de remador do outro, sobram ironias ou um certo olhar de espanto. Fui a Londres, dia desses, para uma reunião anual com gerentes do mundo todo. Foram dias aborrecidos e solitários.Saí à pé, muitas vezes, olhando os prédios, as ruas, o que mudara em tantos anos – conheci a cidade nos anos 80 – e procurei pelo que teria mudado a vida de meu filho. Vi indianos, gente branca e sem graça, vi os museus, as ruas, os novos ônibus, mas nada que me explicasse algo. Tomei listas, peguei em bares flyers de festas jovens, passei por lugares da moda, mas nada achei. Foi boa a viagem, perguntou minha mulher, ao que respondi: não muito. Londres está tão diferente! Encontrei com os dois no supermercado, meu carrinho cheio, o deles cheio, dois casais a tentar encher uma despensa, um buraco negro, para todo o sempre, dois casais que tentam uma vida em comum. Enquanto a mãe conversava com o filho sobre a nova programação da Sony, passei a observar o que havia no carrinho do meu filho que não havia no meu. Massas, alguns congelados, óleo,verduras, tudo muito parecido, tudo igual na verdade, coisas de comer, entre o que faz bem e o que engorda, coisas que qualquer nutricionista condena ecoisas que vibraria ao ver. Gosta disso? Perguntou o outro. É um tempero meio oriental, mas um pouco forte, ele disse. Se quiser experimentar, fazemos um prato pra você, bem especial, que aprendemos em Amsterdã. Amsterdã, então,devia guardar os segredos que eu não encontrara em Londres. Não, não quero não, eu não gosto muito dessas coisas... modernas. Pai, não tem nada de moderno numa coisa que usam na Indonésia há séculos!, disse meu filho. Mas por insistência da mãe foi marcado um jantar, o primeiro jantar na casa do meu filho agora casado, sem mulher ou uma gravidez para me alegrar. De novo no clube – e a família dele era sócia desde a fundação, ou seja, bem mais importante que a nossa, ele mostrou orgulhoso a placa de sócios fundadores como nome do bisavô – fiquei com vergonha pela primeira vez na frente de meu filho. Ensinara uma criança a nadar, ficara ao lado dela, olhava-a o tempo todo com medo de afogamento, creio que dei muitas vidas a meu filho, como se a medida que fosse envelhecendo passasse para ele a vida que se esvaía de mim.Nunca então tivera receio de ficar nu diante dele, talvez como uma forma de ele conhecer o universo masculino, os tesouros e segredos da vida íntima do homem, tão menos cantada na poesia mas tão fantástica, tão de homem, esse poder que se mostra indiferentemente a nós quando menos queremos, esse poder de jagunços e gladiadores, de reis militares e de astronautas, de atletas ede... Aí fiquei envergonhado. Senti-me velho e pequeno, principalmente diante dos corpos jovens e brancos, depilados como uma escultura. Pela primeira vez em décadas, usei o banheiro fechado, aquele mesmo que era alvo das gozações mais esdrúxulas. Por que alguém teria vergonha de sua nudez? Mas o rapaz era meio assim, um guerreiro e passei a lastimar o fracasso de Atenas. Voltamos sem medalhas de Los Angeles, mas fomos. O rapaz trabalhava loucamente, amava oque fazia, cuidava da mãe chorona, retribuía com um sorriso a carranca da vida. Na casa deles, pedi para fumar um cigarro lá fora. Quer companhia, me perguntaram. Tinham sido bem criados esses meninos, gentis e cavalheiros, com as damas e com os senhores. Disse que não e que ficassem à vontade para tirara mesa, porque, eu disse, isso não era serviço para homem, ao que fui repreendido suavemente pela minha mulher: eu sou a única mulher aqui, então vou ter que fazer isso sozinha! Foram lá os três cuidar da arrumação. Andei pelo jardim, um misto de jardim brasileiro, cheio de curvas, ao gosto de Burle Marx, com detalhes orientais. Uma raia comprida ao longo do muro, para praticarem natação, uma bica nada singela, horizontal, com água perene, ao fundo, luzes estratégicas. Havia uma quaresmeira no fim do terreno, alta e linda, bem mais antiga que a casa, preservada com todo o cuidado. Estava florida e chegara ao máximo que uma árvore dessas pode atingir. De repente o cigarro me pareceu inadequado, pois parecia que eu estava profanando um templo. Gosta? – ouvi. Era meu filho. Fiz questão de preservar, disse ele. Ela me lembra muito a infância e morro de saudade da casa da vovó, dos cavalos, das suas desajeitadas aulas de equitação. Esta árvore é sua presença na minha casa, pai, de um modo ou de outro. E cadê sua mãe, perguntei eu. Não conte pra ela, ele disse, acho que a presença dela está na desarrumação da cozinha, nada muito glamouroso. Um jardim tão cuidado e uma cozinha bagunçada, não é estranho? Há tantas coisas estranhas. O jardim foi todo projetado, mas em função da quaresmeira. Ela, por assim dizer, deu vida a ele. Olhei para a árvore, depois para meu filho, mas eu estava sozinho. Voltei para a sala,sentei no sofá assinado e passei a entender a razão de terem me presenteado com o livro cujo título era O sentido da beleza.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Casamento e os Marimbondos - um conto de Claudia Borio

[ De outra escritora curitibana, e também grande amiga, Claudia:]


Sentada em minha varanda, coloco os pés sobre a balaustrada de ripas de madeira pintadas de verde. Ao longe, vejo passar meu marido, dirigindo um trator, chapéu de palha na cabeça. Como é que pode um homem ser tão bonito. Pena que beleza não se pode comer. Penso em comer, uma onda de náusea me percorre. Respiro fundo, e passa. Por enquanto é só isso a minha gravidez. Não sinto mais nada de especial, e nem minha barriga começou a crescer ainda. Tenho os pés cansados, como sempre, e as mãos ressecadas. Dá vontade de me levantar para passar um creme, mas a preguiça é muito grande. Agora que o sol está baixando, as moscas diminuíram e os pernilongos ainda não estão atacando, preciso ficar sentada um pouco sem fazer nada. Acho que tenho esse direito. Ainda bem que Marilda, a negra (negra!) Marilda veio me ajudar. Sempre penso nela como "la Negresse". Parece mogno polido, sua pele escura e brilhante. Creio que é um anjo que foi enviado para me proteger. Ela faz feijão marrom como a sua pele para comermos no almoço, encera o chão, guarda as roupas e passa pela casa cantando, cantando.
Em cima da minha cabeça escuto o barulhinho da casa de marimbondos. Está ficando enorme. A cada semana eles acrescentam mais uma camada por fora da casa e ela já está com um meio metro de diâmetro. Quando chega esta hora, no final da tarde, os marimbondos todos correm a se recolher, ficam inquietos junto da entrada da casa. Escuto-os voando, nervosos, emitem pequenos estalidos e zumbem. Eles trazem água para dentro da caixa, e lentamente caem alguns pingos no chão.
Meu marido volta e meia fala que vai queimar a caixa dos marimbondos. Eu sempre invento um pretexto e não deixo. Da última vez, fui para a cozinha e comecei a fazer bolinhos de maçã. Quando ele sentiu o cheiro, largou dos marimbondos e veio lanchar. Simpatizo com eles. Tenho a sensação de que me conhecem. E nunca me atacaram.
Marilda fala:
- Eles não picam a senhora porque a senhora é branca e só usa roupas de cor clara. Eles não gostam de gente escura não, nem de cheiro forte. Cruz credo, não gosto desses bichos não.
Eu gosto. Eles me fazem companhia, trabalhando incessantemente em sua casa, estalando ao por do sol.
Parece ridículo imaginar que marimbondos possam servir de companhia para alguém. Tenho vontade de chorar. Levantem-se pés cansados, toca para a cozinha, fazer alguma coisa para parar de pensar.
Devagar, neste local solitário, estranho, diferente de tudo o que já conheci, começa a se delinear um novo caráter de meu marido.
Um desespero amargo parece ir tomando conta dele à medida que as coisas que ele tenta fazer não dão certo.
Vou notando diariamente que ele vai se tornando uma pessoa cruel, que vai perdendo os traços amigos e sociáveis, que vai se endurecendo e seu rosto vai tomando contornos duros e desagradáveis.
Sua boca, que era bela como a de um anjo, vai se abaixando nos cantos, vai se endurecendo e surge uma ruga feia nos cantos.
Na hora das refeições, ele evita olhar para mim.
Procuro não pensar muito nisso.
Céus, minha barriga está cada vez maior, não pensei que fosse ficar tão grande. Já sinto o bebê se mexendo dentro de mim, com espanto e diversão.
Estava me lembrando dos meus tempos de escola.
Sempre fui muito mimada, criada com tudo do bom e do melhor, freqüentando as melhores escolas, fazendo balé. De grande coisa isso não me serviu. Agora estou aqui, perdida nesta desolação, e descubro que não sei como remendar as calças de meu marido.
Estou puta da cara. Peço perdão a mim mesma por usar esta expressão. Mas até parece que falar palavrões me traz um certo alívio. Puta da vida. Puta da cara. Eu aqui, barriguda como se tivesse engolido uma bola de basquete bem cheia, e descubro que uma semana antes de casar meu marido estava alegremente transando com outra mulher.
Como se isso não bastasse, uma colega minha de escola. E uma que sempre foi o patinho feio.
Vou colocando as calças sobre a máquina de costura e recorto as pernas de outra calca que está irremediavelmente rasgada. Com um pouco de jeito vou colocando outro grande remendo na roupa, fazendo um quadriculado com a máquina de costura. Até que não ficou tão ruim.
As lágrimas inúteis vão caindo sobre o remendo. Tenho vontade de enfiar um vodu dentro do remendo, uma magia negra como já ouvi falar que se põe dentro dos travesseiros, um monte de espinhos amarrados com linha preta. Quem sabe um alfinete enferrujado para ele se espetar e morrer de tétano, desgraçado.
Num acesso de ódio, jogo a tesoura contra a parede.
Ela cai, com um barulho surdo.
Minha serva fiel, Marilda, bota a cara avermelhada e suada na janela e me chama, sorridente:
- Patroa não quer doce de leite? Tá pronto!...
Sem mais o que fazer, enxugo as lágrimas com o outro retalho que não cheguei a usar e me vou, comer doce de leite.
E eu que fiz tanta força para me casar virgem. Que idiota.

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...