Enquanto prepare nova crônica, vai este pequeno trabalho:
Eu acordo no meio da noite e me pergunto se já te levaram.
de Sandra Cisneros
A qualquer momento, os soldados podem chegar.
A qualquer segundo, Sarajevo pode render-se.
Como também podemos abrir mão do incômodo de sobreviver.
A qualquer momento, esse exato segundo pode acabar contigo.
A qualquer momento decisivo, Deus pode não dar a mínima.
Você está lá, naquela cidade. Você não importa. Você não é história.
Eu na minha cama com edredom e lençóis antigos,
E ao lado, um altar de Buddhas e Madres Dolorosas
renda fina e espelhos de Storyville,
Estou aqui. Acordei de um pesadelo.
Eu como você sou mulher.
Tampouco importo –
Nada que eu diga
Nada que eu faça.
("bringing words together") poesia, crônica, fotografia, tradução//poetry, stories, photography, translation ///// /// ©miriamadelman2020 Unauthorized reproduction of material from this blog is expressly prohibited
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segunda-feira, 21 de março de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Versão preliminar
Com Lorenzo no Centro do Universo, el Zócalo, Cidade de México
de Sandra Cisneros (do livro "Loose Woman", Vintage Contemporaries, 1995)
Atravessamos duas vezes a rua
por causa dos ratos. Diante de nós,,
o zócalo de noite e a Calle de la Moneda
como num sonho de Canaletto. Esqueça
Canaletto. Esto era real.
E você estava lá, Lorenzo.
A catedral com fumaça nos olhos
ainda subia como um pirâmide após
tantos séculos. Você nomeou os quatro
centros sagrados – Amecameca, Tepeyac and mais
dois que não lembro. Me lembro de você
querida flecha, e como todas as palavras
que eu sabia me abandonaram. Em inglês
e as poucas em espanhol também.
Este é o centro do universo,
eu disse e eu quis dizer. Esta é eternidade.
Neste momento. Agora. E o amor,
esse fio de copal que tanto te apavorou
quando o mencionei,
o amor é eterno, mas o quê a eternidade
tem a ver com amanhã, não sei, compreende?
Não sei se você me acompanhava.
Nem agora, nem naquele momento.
Mas sei o que senti quando botei minha mão
no teu coração, e surgiu aquele beijo,
só isso, desde o centro do universo.
Ou pelo menos, de meu universo.
Lorenzo, é o centro do universo
tão solitário de noite e tão
sobrelotado de dia? Ao meio dia,
a terra me pariu, o metrô se lançando
do túnel. Eu tropeçava nas
canetas Bic bordadas com o logo
do Batman, cabos de extensão
vermelhas, carteiras de vinyl, rosas de
veludo, vendedores de sementes, pedreiros
brilhantes que procuravam trabalho.
Lembro do menino de pés queimados
no colo da mãe,e o cheiro da carne que
fritavam, um prato de isopor grudento,
gorduroso.
De noite fugíamos
da barulheira da praça Garibaldi, os mariachis
que perseguiam os carros ao longo da Avenida Lázaro Cárdenas
correndo atrás da próxima refeição. No La Hermosa Hortênsialuzes brilhando como numa sorveteria,
rostos suados e marcados por suas penas
bebi meu primeiro pulque morno e espumoso como o sêmen.
Na última noite nos despedímos
entre duas ruas com nome de rio.
Eu me atrapalhava com a história
do Borges e sua Delia. Lorenzo,
quando nos encontrarmos de novo,
A qual beira rio? Mas este não era poema.
Somente os mosquitos que picavam
para caralho e um beijo de adeus como
mosquito picando que me deixou com raiva
durante horas. Afinal, não foram séculos
que passaram para a gente se encontrar
ao centro do universo
onde consumamos nosso beijo?
Lorenzo, eu esqueço o que é real,
confundo os detalhes sobre o ocorrido
com aquilo que testemunhei
no meu universo. É assim pra você
também? Mas por um momento
pensei, realmente pensei que
um beijo poderia ser um universo.
Ou sexo. Ou o amor, aquele sapato velho.
Veja. Continuo sem esperança.
Continuo escrevendo poemas para
rapazes bonitos. Uma metade de mim,
novamente viva.. E a outra, desde os bastidores
gritando, Sente-se, palhaça!
Ah, Lorenzo, sou uma tola.
É eternidade ou nada. Comigo é
desse jeito. Mesmo se a eternidade fosse
só um beijo, uma noite, um momento.
E se o amor não for eterno, qual sentido faz?
Se eu tivesse as palavras eu explicaria que
como um homem ama uma mulher antes do amor
e como ele a ama depois, nunca
é igual. Como se separam as duas metades
e não podem voltar a juntar-se.
Não é uma pena?
Você nomeou os centros sagrados mas esqueceu
um – o coração. Você disse que cada vez
que passasse por este zócalo
se lembraria de mim e esse beijo
desde o centro do universo.
Eu me lembro de você, Lorenzo. Está vendo
este zócalo? Se lembre.
de Sandra Cisneros (do livro "Loose Woman", Vintage Contemporaries, 1995)
Atravessamos duas vezes a rua
por causa dos ratos. Diante de nós,,
o zócalo de noite e a Calle de la Moneda
como num sonho de Canaletto. Esqueça
Canaletto. Esto era real.
E você estava lá, Lorenzo.
A catedral com fumaça nos olhos
ainda subia como um pirâmide após
tantos séculos. Você nomeou os quatro
centros sagrados – Amecameca, Tepeyac and mais
dois que não lembro. Me lembro de você
querida flecha, e como todas as palavras
que eu sabia me abandonaram. Em inglês
e as poucas em espanhol também.
Este é o centro do universo,
eu disse e eu quis dizer. Esta é eternidade.
Neste momento. Agora. E o amor,
esse fio de copal que tanto te apavorou
quando o mencionei,
o amor é eterno, mas o quê a eternidade
tem a ver com amanhã, não sei, compreende?
Não sei se você me acompanhava.
Nem agora, nem naquele momento.
Mas sei o que senti quando botei minha mão
no teu coração, e surgiu aquele beijo,
só isso, desde o centro do universo.
Ou pelo menos, de meu universo.
Lorenzo, é o centro do universo
tão solitário de noite e tão
sobrelotado de dia? Ao meio dia,
a terra me pariu, o metrô se lançando
do túnel. Eu tropeçava nas
canetas Bic bordadas com o logo
do Batman, cabos de extensão
vermelhas, carteiras de vinyl, rosas de
veludo, vendedores de sementes, pedreiros
brilhantes que procuravam trabalho.
Lembro do menino de pés queimados
no colo da mãe,e o cheiro da carne que
fritavam, um prato de isopor grudento,
gorduroso.
De noite fugíamos
da barulheira da praça Garibaldi, os mariachis
que perseguiam os carros ao longo da Avenida Lázaro Cárdenas
correndo atrás da próxima refeição. No La Hermosa Hortênsialuzes brilhando como numa sorveteria,
rostos suados e marcados por suas penas
bebi meu primeiro pulque morno e espumoso como o sêmen.
Na última noite nos despedímos
entre duas ruas com nome de rio.
Eu me atrapalhava com a história
do Borges e sua Delia. Lorenzo,
quando nos encontrarmos de novo,
A qual beira rio? Mas este não era poema.
Somente os mosquitos que picavam
para caralho e um beijo de adeus como
mosquito picando que me deixou com raiva
durante horas. Afinal, não foram séculos
que passaram para a gente se encontrar
ao centro do universo
onde consumamos nosso beijo?
Lorenzo, eu esqueço o que é real,
confundo os detalhes sobre o ocorrido
com aquilo que testemunhei
no meu universo. É assim pra você
também? Mas por um momento
pensei, realmente pensei que
um beijo poderia ser um universo.
Ou sexo. Ou o amor, aquele sapato velho.
Veja. Continuo sem esperança.
Continuo escrevendo poemas para
rapazes bonitos. Uma metade de mim,
novamente viva.. E a outra, desde os bastidores
gritando, Sente-se, palhaça!
Ah, Lorenzo, sou uma tola.
É eternidade ou nada. Comigo é
desse jeito. Mesmo se a eternidade fosse
só um beijo, uma noite, um momento.
E se o amor não for eterno, qual sentido faz?
Se eu tivesse as palavras eu explicaria que
como um homem ama uma mulher antes do amor
e como ele a ama depois, nunca
é igual. Como se separam as duas metades
e não podem voltar a juntar-se.
Não é uma pena?
Você nomeou os centros sagrados mas esqueceu
um – o coração. Você disse que cada vez
que passasse por este zócalo
se lembraria de mim e esse beijo
desde o centro do universo.
Eu me lembro de você, Lorenzo. Está vendo
este zócalo? Se lembre.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Você, minha pérola do mar - poema de Sandra Cisneros
Gostei muito deste poema na sua versão original ("You my saltwater pearl" do livro de Sandra Cisneros, Loose Woman.) Tentei captar o sentido brincalhão do seu ir e vir "trans"...(trans-sexo/gênero, digo) que penso que tem muito a ver com outros momentos da obra dela. A tradução que vocês encontrarão aqui está ainda em versão preliminar, com algumas sugestões das minhas parceiras Sabrina Lopes e Marcia Cavendish Wanderley já incorporadas.
Você, minha pérola do mar
minha mãe, meu pai
minha cria bastarda,
meu ceu minha mágoa,
você da minha tristeza escrava,
meu coração enrugado.
Moedinha dos meus olhos,
minha tulipa, minha caneca de mendigo
minha mulher, meu menino
para eu lhe sustentar ou você a mim,
para eu lhe chatear ou embrabecer.
Me pegue como um menino,
me machuque um pouquinho. Me faça chorar.
sou seu leite e mel.
Seu Nabucodonosor.
seu zigurate de prazer.
Sua penosa impressão digital.
Serei haxixe.
O item guardado que não se vende,
para doação ao marajá,
vulgar como uma jóia da Liz Taylor,
Seu Taj Mahal.
Agrade-me. Eu lhe farei carinho,
lhe aterrorizarei, lhe penetrarei.
Mãe do meu coração,
cria bastarda,
minha querida, meu querido,
minha pérola do mar.
Você, minha pérola do mar
minha mãe, meu pai
minha cria bastarda,
meu ceu minha mágoa,
você da minha tristeza escrava,
meu coração enrugado.
Moedinha dos meus olhos,
minha tulipa, minha caneca de mendigo
minha mulher, meu menino
para eu lhe sustentar ou você a mim,
para eu lhe chatear ou embrabecer.
Me pegue como um menino,
me machuque um pouquinho. Me faça chorar.
sou seu leite e mel.
Seu Nabucodonosor.
seu zigurate de prazer.
Sua penosa impressão digital.
Serei haxixe.
O item guardado que não se vende,
para doação ao marajá,
vulgar como uma jóia da Liz Taylor,
Seu Taj Mahal.
Agrade-me. Eu lhe farei carinho,
lhe aterrorizarei, lhe penetrarei.
Mãe do meu coração,
cria bastarda,
minha querida, meu querido,
minha pérola do mar.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Las Girlfriends, de Sandra Cisneros.
Dando continuidade ao projeto de tradução do trabalho poético da escritora chicana Sandra Cisneros, posto hoje esta versão do seu poema "Las Girlfriends". Agradeço a Sabrina Lopes e Marcia Cavendish Wanderley pela ajuda. As sugestões delas foram fundamentais para conservar, na nova versão, o espirito das gírias e a linguagem coloquial usadas pela poeta, e remetem a essa parte - a mais dificil - de nosso trabalho, a da "tradução cultural".
Dê uma gorjeta pra garçonete
de calça jeans apertada.
Ela é minha amiga.
Já foi e voltou do inferno.
E eu também.
Amiga, eu acredito em Gandhi.
Mas tem algumas noites que nada dá
tão precisamente como uma garrafa de Lone Star
quebrada em alguma cabeça.
Semana passada neste mesmo bar,
dei um chute no traseiro de um cowboy
que quis pegar na bunda da Terry.
Como vou explicar? Era todo Texas
que eu chutava, e os de todas nós
tavam na reta.
No Tacolândia, a Cat dançava
um flamenco furioso ao redor
do jogador de sinuca de língua felpuda.
Um dança de guerra de certa maneira
por todas as sacanagens que já
nos fizeram.
E a Terry aqui, também fez história.
num bar desta rua onde não a deixam
entrar, e n´ outro no baixo da central.
E naquele café francês em Austin
ninguém me convida- entrez vous
A pequena Rosa de San Antonio
é a abelha-rainha do chute-na-bunda.
Quando você sair com ela
não ponha tuas roupas domingueiras.
Mas a melhor história é da Bárbara
que corre pra pegar a maior faca de cozinha
pra cada briga doméstica, dessas ruins.
Aponta pro corazón dela mesma
como uma sacerdotisa azteca que pirou
ME MATO!
Eu te digo, em noites como estas,
algo sai borbulhando
desde as pontas de nossas botas
até o pico do nosso uivo de coiote.
Vocês são muito ruins, diz uma voz
que vem do bar. Mas não, nós não somos ruins.
Porra! Eu já fui e voltei do inferno.
Menina, e eu também.
Tradução: Miriam Adelman
Revisão: Sabrina Lopes e Marcia Cavendish Wanderley.
Dê uma gorjeta pra garçonete
de calça jeans apertada.
Ela é minha amiga.
Já foi e voltou do inferno.
E eu também.
Amiga, eu acredito em Gandhi.
Mas tem algumas noites que nada dá
tão precisamente como uma garrafa de Lone Star
quebrada em alguma cabeça.
Semana passada neste mesmo bar,
dei um chute no traseiro de um cowboy
que quis pegar na bunda da Terry.
Como vou explicar? Era todo Texas
que eu chutava, e os de todas nós
tavam na reta.
No Tacolândia, a Cat dançava
um flamenco furioso ao redor
do jogador de sinuca de língua felpuda.
Um dança de guerra de certa maneira
por todas as sacanagens que já
nos fizeram.
E a Terry aqui, também fez história.
num bar desta rua onde não a deixam
entrar, e n´ outro no baixo da central.
E naquele café francês em Austin
ninguém me convida- entrez vous
A pequena Rosa de San Antonio
é a abelha-rainha do chute-na-bunda.
Quando você sair com ela
não ponha tuas roupas domingueiras.
Mas a melhor história é da Bárbara
que corre pra pegar a maior faca de cozinha
pra cada briga doméstica, dessas ruins.
Aponta pro corazón dela mesma
como uma sacerdotisa azteca que pirou
ME MATO!
Eu te digo, em noites como estas,
algo sai borbulhando
desde as pontas de nossas botas
até o pico do nosso uivo de coiote.
Vocês são muito ruins, diz uma voz
que vem do bar. Mas não, nós não somos ruins.
Porra! Eu já fui e voltei do inferno.
Menina, e eu também.
Tradução: Miriam Adelman
Revisão: Sabrina Lopes e Marcia Cavendish Wanderley.
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