domingo, 15 de fevereiro de 2009

O tempo passa, o quê acontece com os objetos/sujeitos do desejo?

[Após participação num programa de rádio e depois, uma tarde de papo com @s amig@s em que voltamos mais uma vez ao tema...]

Entre “nós da academia” virou quase clichê a afirmação que o sujeito se produz nos (através dos) discursos. Não que todo mundo concorde. Afinal, as velhas discussões entre “materialistas” e “culturalistas” continuam e todos nós também sabemos muito bem que na nossa área os debates nunca se resolvem. Muito pelo contrário, se repetem, se re-significam, encenando novas e antigas dimensões - fonte de persistente ansiedade para os que querem encaixá-los noutro modelo de “cientificidade”.

Não muito distante destas discussões, ou melhor dito, parte delas, é como “os corpos se constroem discursivamente.” Concretizando um pouco: no meu próprio trabalho venho discutindo diversos discursos sobre corporalidade feminina - as formas de falar e pensar sobre o corpo e sua relação com práticas que nos tornam mais competentes, ou mais inseguras, mais “empoderadas” ou mais obcecadas (apenas?) com as belas formas...

Na poesia de Diane Wakoski, está sempre presente esse corpo/sujeito feminino construído, constrangido, emergido da cultura, do nosso tempo/momento. Por vezes, tratado com muita auto-ironização, e sem nenhum receio de mostrar-se em constante conflito com os modelos de feminilidade que tormentam e atraem. Em conflito com os códigos que nos validam socialmente como seres que podem ser desejados por outros. Códigos que têm um impacto enorme sobre nossa subjetividade, pelo poder que têm de nos frustrar como sujeitos do desejo...
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Pensemos por exemplo um pouco sobre os discursos que circulam sobre as mulheres (e os homens) na meia idade. Num filme recente, Fatal – baseado no romance O Animal Agonizante do renomado escritor norteamericano Phillip Roth - resgata-se mais uma vez o “direito natural” dos homens velhos sobre as mulheres mais novas, através de uma curiosa estratégia narrativa: após longos questionamentos sobre a “sustentabilidade” ou validade da relação entre a jovem e seu muito mais velho professor, a jovem apaixonada perde o poder ou vantagem outorgada por sua juventude perante o amante quando desenvolve câncer no seio (a mutilação do seu corpo que resultará da cirurgia a vulnerabilizará, sugerindo a destruição da sua perfeição juvenil ao mesmo tempo que legitima a proteção que o macho lhe dará!) O que me fez lembrar de um outro filme, que assisti uma vez numa viagem de ônibus para Florianópolis, Stepmom - produção hollywoodiana comum, mas protagonizada pela maravilhosa Susan Sarandon que contracena com a "queridinha" Julia Roberts. História do conflito entre as 2 mulheres - a ex-esposa e mãe dos filhos, e uma nova, jovem e linda fotógrafa, atual namorada do ex-marido - que gira em torno de disputa por uma posição na família, o papel materno –, nos traz mais uma vez de volta à naturalização do direito dos homens mais velhos, seu "privilégio" de viver a vida como o desfile de fêmeas sempre renovadas, como descarte das mais velhas. Curiosamente (?), a doença é neste filme também a “estratégia narrativa” utilizada para naturalizar esta sucessão de mulheres (e de afirmar, entre outras coisas a superioridade do corpo masculino, ainda “forte e desejante”), pois a personagem de Susan Sarandon morre de câncer. E finalmente, lembrei de um romance de Milan Kundera, que li anos atrás, Imortalidade no qual a protagonista, uma bela e inteligente cinquentona – que um dia andando pela praia tem a percepção resignada que os homens não mais olham para ela e ao longo da história vai perdendo a vontade de continuar vivendo, acabando morta em acidente de estrada – vai no mesmo sentido. Mulheres mais velhas que “não servem mais” para agradar os olhos dos seus antigos parceiros, e cujos filhos não mais precisam delas! Como no ditado popular “Deixa a fila andar”!!??

Sei que há outras “construções discursivas”... bem minoritárias ainda, ou que não circulam muito pelos circuitos da cultura de massas ( a não ser nas formas diluídas e ambíguas de certas celebridades brasileiras -- ah, qual a nossa dívida com Susana Viera!?) Há, como escrevi noutro lugar*, a dignidade e sabedoria das personagens femininas mais velhas criadas por Virginia Woolf, entre elas Clarissa Dalloway (Mrs. Dalloway) e Mrs. Ramsey (Ao Farol) Também por isso estou gostando do trabalhar com a poesia de Diane. Uma voz que me parece genial. Pelo sarcasmo e a compaixão, ou bem, pela coragem de se expor, e com sua mistura particular de senso de humor e raiva, de ternura e contestação, de se afirmar como sujeito e objeto do desejo. De reivindicar poeticamente e ironicamente esse direito que todas temos, ao longo de nossas vidas, de sermos admiradas e valorizadas pelo fazemos – com as mãos, ccom a mente, com o coração, com o corpo.

* no prelo, artigo "Modernidade e pós-modernidade em vozes femininas"

2 comentários:

  1. e é muito difícil pensar em estratégias (práticas corporais e relacionais) que contestem essa "necessidade" (e agora não sei se com ou sem aspas) de sermos corpos desejados. muitas vezes é na briga mesmo.
    quero reler o artigo, sai onde?

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  2. Sai no livro que o Adriano organizou, das conferências do SESC. Mas tá demorando muito. (Quando tiver notícias aviso!)

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