quarta-feira, 29 de abril de 2009

Viagens...

São muitas, as sensações, e as reflexões, inclusive as que tomarão uma forma de escrita mais na "modalidade sociológica". Por enquanto, é isto o que consegui escrever -- sobre esta, a continuação das muitas viagens desta vida.



Mediterranean sunlight
white as bleached bone,
expanding the heat
of the heart. How strange,
how estranged life can get!
A language spoken loudly,
and no characters you can
decipher. People you’ve known
your whole life suddenly
worlds apart. A hand
warm and unfamiliar
cupped to a thigh. Having to live
for the moment with no
hearts breaking. People
talking to each other across
tables, pulling notes you
don´t have from their
wallets and pockets. Solitudes
growing the thickness of bushes,
the heavy waists of many
pregnancies. Alone in a
windy spring on Las Ramblas.
With students crossing a silent campus,
deserted Sunday in a French river
town. Solo saxophone in the Paris
metro. Lessons learned in singular
and plural. Morrocan pipes and distant
homelands. Hands curled around
grimy subway car poles, around
glimmers of light through
wounded afternoons. A place
where each city is
as good as the next.

domingo, 26 de abril de 2009

"O coração ronda sobre conjecturas"

Posto mais uma tradução da obra da poeta Sandra Cisneros.
O título original, "The heart rounds up its usual suspects."
Versão da minha colega, Marcia Cavendish Wanderley, com uma
pequena colaboração minha de revisão!



Dormirei com o gato
quando não houver ninguém ,
a quem eu possa me dar,
por amor ou dinheiro -

Ligarei para todos
que costumaram me amar.
Ou seduzir-me com o olhar
em minha teia de aranha

Pirada como as noivas de verão
Gelada como uma teta de bruxa,
uma patética puta .
Em suma, uma mulher ordinária.
Grata pelos excessos.

Ao menor esforço de generosidade
agarro-me ao primeiro ciclope que me pega,
me deixa mijar no tapete
e me mantém farta.

Está vendo esta mulher?
Considerada inofensiva
Perigosa e destrutiva
Apenas para si mesma.

sábado, 18 de abril de 2009

Algo a dizer...

Estou em viagem, vendo muita coisa e com vontade de escrever. Mas também, precisando de mais tempo para ir assimilando o que vejo e realmente ter algo a dizer. E como a estrada não é um lugar muito propício para preparar novas traduções, estou meio "com as mãos vazias" e não sei bem o quê postar hoje. Assim, só me ocorre publicar este poema - o escrevi anos atrás, após outras viagens...

Gypsy II.

there were days i would step out
from my cove, into the sunshine
of some midday, to pick red
berries and feel the company
of doves and slippery fishes.
my hands were two open gourds,
swishing cool water for the little ones,
gathering the grains of sand through the green
hours, finding in them some shining stone or
some dark stone brighter than the others.

now solitude has slipped
from the summer. others have
settled the furthest shores,
and so we recede, past the blue
hotel and the rocks with their angry
black letters. my children
cling hungrily to me. in the
distance, the craggy outline
of the city looms. the soles of my feet
thicken, not stumbling now
on the long-rooted vines
or the twisted brush of the beach.
gulls stalk close to me, take bread crumbs
from the shiny leather of my palms.
when the wind comes, it is cold and low
and loved. we are alone, waiting for night.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Outras primaveras...

Estava fuçando nos meus arquivos, a ponto de publicar um poema que escrevi que leva o título "Harsh Winter". Mas mudei de idéia: já que estou (dentro de poucos dias) viajando para onde a primavera logo começará, melhor postar outro que também estava guardadinho (do ano passado, com uns ajustes que acabei de fazer) -

Seasons

Winter coming on.
Here I have only these few words,
These hands rubbing out some warmth
In the frost of the morning,
This offering stolen
From the middle of life.

A distant friend.
Rain falling
Somewhere I´ve never yet been,
Somewhere spring has come.

Tread lightly then, that path
Into the woodlands.
Let´s not frighten the deer,
Arouse too early the slumbering bear.
Let him await his hour.
He will come searching
For his honey,
Big brown paws spreading
Into the hollowed marrow
Of a trunk.
Bees flying.
Buds like plush pink fingertips,
Everywhere.
An aroma of summer.
Soon, there will be children
Dashing into ponds,
Diving from above,
Taking short, quick gulps
Of clear, new water.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Nova tradução de poema de Sandra Cisneros






Bom, pessoal, eu continuo na tarefa - muito prazerosa!- de procurar formas de traduzir a voz da escritora e poeta chicana Sandra Cisneros ao português. Venho refletindo muito sobre a obra dela - eu já li seus dois romances, "The House on Mango Street" e "Caramelo", li também seu livro de contos "Woman Hollering Creek" e os dois livros de poesia dos que venho selecionando os poemas que traduzo. Penso logo escrever mais sobre ela como escritora, continuando um pouco o trabalho "teórico" que fiz no meu texto "Modernidade e Pós-modernidade em Vozes Femininas" (que aliás está agora disponível no livro que acaba de sair esta semana, organizado por meu colega da UFPR Adriano Codato, com o título 'Para viver no século XXI - os problemas da contemporaneidade' Editora SESC Paraná). Por agora, só digo que enquanto traduzia, sentia na voz dela, o que talvez sejam algumas influências... a grande Sylvia, e Bukowski "no feminino"...?? Natureza Morta com Batatas, Pérolas, Carne Crua, Lantejoulas, Gordura e Casco de Cavalo. [Still Life with Potatoes, Pearls, Raw Meat, Rhinestones, Lard and Horses’ Hooves. ] Para Franco Mondini Em espanhol é naturaleza muerta e de maneira alguma é vida. E certamente não é natural. Mas o quê é natural? Você e eu. Eu te compro um drinque. A uma mulher que não se comporta como mulher. A um homem que não se comporta como homem. A morte é natural, pelo menos em espanhol, creio. A vida? Fico na dúvida. Veja o exemplo da Contessa, quem nos seus tempos era divina e agora porta uma verruga do tamanho deste diamante. Então ragazzo, você é Veneza. A você. A Veneza. Não aquela de Casanova. mas a das pensões baratas, ao lado da rodoviária. Eu recomendo uma cama estreita manchada de sêmen, mijos e pena face à parede. As manchas, os detritos são românticos. Você é positivamente Pasolini. Dançando tango e fandango até a morte. Se deixarmos. Eu não deixo! Ninguém me supera, sou Piazzola. Dançarei o tango com você na minha calçinha fio dental de renda manchada com fluxo de primeiro dia e uma teta só pendurada do meu vestido como as cataratas do Niágara. Você falou 'duress' ou 'dress'? Vamos cantar um dueto de Puccini – eu gosto de La Traviesa. Serei teu macaco treinado. Serei lantejoula e pulseira. Serei Mae, Bette, Joan e Marlene para ti – Serei qualquer coisa que você pedir. Mas peça algo glamuroso. E que me faça rir. Outro? O que eu quero dizer, querido, é que nada há de romântico na fome para os famintos O que eu quero dizer é que o medo não é emocionante quando é você que tem medo. O que eu quero dizer é que a pobreza não é charmosa quando é a tua casa da qual não se pode escapar. A corrosão não é bela para os corroídos. O que é beleza? Batom num pênis. Um beijo numa ferida purulenta. Um salto agulha que pode perfurar um coração. Um tijolo atravessando o pára-brisas que quer dizer eu te amo. Uma mágoa que bate na porta. Olha, eu preciso te confessar, aqui não é Veneza nem Buenos Aires. Que vivan las perras. “Que me sirvan otro trago…” É San Antonio. O espelho não é uma feirinha. É um incêndio. E estes são os vestígios do que se pôde levar ou salvar. As pérolas? Comprei na loja Winn’s. Meu casaco de pele? Acrílico genuíno. Graças a deus aqui não é Berlin. Outro drinque? Barman, outra garrafa, mas- Ay caray e ah, meu deus!- O loirinho bonito não quer mais nos servir. Aos campos da morte! Aos campos da morte! Que grosso. Que vulgar. Beba até o fundo, meu docinho. Tenho a grana. E ele, não sabe quem nos somos? Que vivan los de abajo de los de abajo, los de rienda suelta, as bruxas, as mulheres, os perigosos, os bizarros. Eu conheço um bar onde nos pagarão os drinques se eu botar minha saia na cabeça e você entrar vestindo nada mais além do meu sutiã preto. [do livro Loose Woman., New York: Vintage, 1995] Versão em língua portuguesa: Miriam Adelman Revisão: Marcia Cavendish Wanderley.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Five of Staves - um poema de Diane Wakoski

Vou postar este poema de Diane Wakoski em versão original em língua inglesa. Por questões de linguagem e referências culturais, é muito difícil de traduzir (talvez a gente ainda tente). Mas gosto dele -muito forte!- como poema, e também me chamou muito a atenção por tratar - com tanta sagacidade e ironia - do tema da "homosociabilidade", que é até uma questão muito relevante para as pesquisas que minha orientanda Fernanda Moraes e eu andamos fazendo na sociologia (quem tiver curiosidade ao respeito, um texto nosso está no:http://www.uff.br/esportesociedade/pdf/es903.pdf )

5 of Staves (Wands):Young Men Fighting or Playing with Green Poles.


The secret
has always been
what men find
to do
with eachother. Those great
majority of moments which, like football
and jock itch, and mining
exclude women.

We have so
little.
The hut
where we go
when we’re bleeding, and the moon
is swimming or being washed from out between our
thighs.
Water polo,
a big sport,
at my Southern California high school,
favored by rich kids who lived in the
Heights with swimming pools
boys
who drove their new Fords when they were juniors
after their sixteenth birthday, boys
who closed their eyes when they touched
us in those wet places, all
of us hoping their hands
would not come away bloody. But the
lips always were.
whether we say “Bah-bah-bah-
Bah-bah-bra-Ann” or
my “Little Deuce Coupe”
whether we drank cherry cokes
or milk or wrote poetry or watched movies, we walked in our starched crinolines
and lacy blouses once a month to
segregated rooms, smelling like fish
under our deodorant.

But the boys, they had fun
when they were segregated;
when they were alone together
they touched
-- with jokes,
or greetings
“Hey Man”
as we never did;
they talked,
as we still cannot;
they found out how to run the world,
as,
of course,
we do not.

And water polo, those boys
hitting that big white ball around
in the green-like-emerald water
of the FUHS Olympic-sized pool,
Oh, they even knew our secrets.
That the moon they tapped and spun and slapped
around the water was just like the one
pushed out between our thighs each month
- if we were good,
- if we were lucky,
- if we were smart.

Oh, don´t tell me EVER
that women have secret lives
or treasures
that no one except other women
knows about.
Tell me,
instead,
that the secret is,
and always has been,
why
men find so much pleasure in each
other’s company; why women
when they are segregated and together with
each other, have only the menstrual hut,
the old, rusty, monthly blood
to share?
or its taboo opposite:
the little clone of ourselves
forming inside our bodies,
etching its face and shape on the moon,
which will then disappear for nine even lonelier
months.

A child to replace the mother.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Seis irmãos – um poema de Sandra Cisneros

[Título original: Six Brothers. Do livro: My wicked wicked ways.
Third Woman Press. 1987]

Seis Irmãos


No conto de Grimm, Os seis cisnes, a irmã mantém um silêncio de
seis anos e tece seis camisas de urtiga para romper o feitiço que
transformou seus irmãos em cisnes. Ela as tece todas, mas deixa de
fazer a manga esquerda da última camisa, e quando seus irmãos voltam a
ser homens, ao caçula lhe falta o braço esquerdo – no seu lugar,
está uma asa de cisne.




Em espanhol nosso sobrenome significa cisne.
Um grande passado – castelos talvez
ou uma cidade do Saara,
se bem mais provável
um sobrenome que grudou
num menino descalço
que tocava o rebanho poeirento
por uma estrada luminosa.

Nunca vamos saber.

Talvez soubessem
os tátaro-avós
mas família gosta de guardar silêncio
talvez com bons motivos
e nem precisamos olhar muito para atrás.
Há de parte de pai um primo
de segundo grau, mas de todas maneiras,
primo –
que deu um tiro em alguém, creio
que era na sua mulher.
E por outro lado, há
um irmão da mãe que deu
um tiro nele mesmo.

Depois somos nós –
sete maneiras de fazer um sobrenome
ou quebrá-lo.
Nosso pai tem tudo planejado:
o mais velho, você será médico,
o segundo, administrador,
você – ele encolhe os ombros –deveria
apresentar meteorologia no jornal ,
o próximo, músico,
atleta,
gênio,
e o caçula, bom,
você assumirá o negócio da família.

Vocês seis, uma equipe,
seguindo o plano mestre,
o movimento cadenciado da tradição.
Vivemos para o que um espera do outro.
Meus irmãos, como é difícil acompanhá-los.
Eu tenho em mim o sangue ruim, eu penso,
o tio demente, o pedaço de bala.

Peçam-me qualquer coisa.
Seis camisas de urtiga. Um voto de silêncio.
Eu cumprirei. Mas eu sempre submergida
na minha admiração terrenal .
Meus seis irmãos, ágeis, fortes.
Salvo você, pequeno de uma asa só,
que se atrapalha igual eu
para manter limpo o bom sobrenome.

Tradução: Miriam Adelman.

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...