segunda-feira, 16 de março de 2009

Seis irmãos – um poema de Sandra Cisneros

[Título original: Six Brothers. Do livro: My wicked wicked ways.
Third Woman Press. 1987]

Seis Irmãos


No conto de Grimm, Os seis cisnes, a irmã mantém um silêncio de
seis anos e tece seis camisas de urtiga para romper o feitiço que
transformou seus irmãos em cisnes. Ela as tece todas, mas deixa de
fazer a manga esquerda da última camisa, e quando seus irmãos voltam a
ser homens, ao caçula lhe falta o braço esquerdo – no seu lugar,
está uma asa de cisne.




Em espanhol nosso sobrenome significa cisne.
Um grande passado – castelos talvez
ou uma cidade do Saara,
se bem mais provável
um sobrenome que grudou
num menino descalço
que tocava o rebanho poeirento
por uma estrada luminosa.

Nunca vamos saber.

Talvez soubessem
os tátaro-avós
mas família gosta de guardar silêncio
talvez com bons motivos
e nem precisamos olhar muito para atrás.
Há de parte de pai um primo
de segundo grau, mas de todas maneiras,
primo –
que deu um tiro em alguém, creio
que era na sua mulher.
E por outro lado, há
um irmão da mãe que deu
um tiro nele mesmo.

Depois somos nós –
sete maneiras de fazer um sobrenome
ou quebrá-lo.
Nosso pai tem tudo planejado:
o mais velho, você será médico,
o segundo, administrador,
você – ele encolhe os ombros –deveria
apresentar meteorologia no jornal ,
o próximo, músico,
atleta,
gênio,
e o caçula, bom,
você assumirá o negócio da família.

Vocês seis, uma equipe,
seguindo o plano mestre,
o movimento cadenciado da tradição.
Vivemos para o que um espera do outro.
Meus irmãos, como é difícil acompanhá-los.
Eu tenho em mim o sangue ruim, eu penso,
o tio demente, o pedaço de bala.

Peçam-me qualquer coisa.
Seis camisas de urtiga. Um voto de silêncio.
Eu cumprirei. Mas eu sempre submergida
na minha admiração terrenal .
Meus seis irmãos, ágeis, fortes.
Salvo você, pequeno de uma asa só,
que se atrapalha igual eu
para manter limpo o bom sobrenome.

Tradução: Miriam Adelman.

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