domingo, 12 de janeiro de 2014

AVE, Diane di Prima

Versão minha, preliminar, quase rascunho, do poema com que Diane di Prima,
a mais reconhecida das poetas Beat, começa seu livro LOBA.  O poema, pelo que percebo,
é do início dos anos 70. 


Ô minhas irmãs perdidas da lua
arco nos cabelos, o mar embaixo dos  pés, vocês perambulam
com véu azul, folha verde, xale rasgado, perambulam
com a pele de folha de ouro, cabelo incendiado, perambulam
na Avenida A, na Rua Bleecker, perambulam
com coroa de flores,  hálito prateado, perambulam

          pisadas
                 madrepérola brilhante
                        atrás de vocês
                   olhos de pedra lunar
                    onde a lua crescente

com luvas, com chapéu, farrapos, peles, miçanga,
sob a lua minguante, o cabelo escorrendo na chuva preta
uivando com os cães de rua, silvando nas portas
sombras vocês são, projetadas nas encruzilhadas, nas rodovias

 atravessando as ruas na diagonal, perambulam
cuspindo, perambulam
resmungando  e chorando, perambulam
envelhecidas e falando sozinhas
com olhar distraído, perambulam
loucas por uma transa rápida, perambulam
chorando seus mortos, perambulam

    nuas, caminham
    enfaixadas em longos vestidos, caminham
    vestidas de mortalha, caminham
                  andando para trás, caminham

                                         famintas
                                             famintas
                                             famintas

             gritando as escuto
             cantando as escuto
             maldizendo as escuto
             orando as escuto

              vocês deitam com o unicórnio 
vocês deitam com a Naja
vocês deitam na grama seca
vocês deitam com os yéti
vocês giram os longos pintos dos sátiros com suas línguas

 

           armadas estão
           conduzindo carros de guerra vão
           muito mais altas do que eu são
           pequenas são
           acuadas nas ladeiras estão
                fora dos ventos

 grávidas, perambulam
 descalças, perambulam
 espancadas por homens bêbados, perambulam

 vocês matam em mesas de aço
 dão à luz em camas negras
o feto que arrancaram enrijece na neve,
    sobe como uma lua nova
vocês gemem enquanto dormem
 cavando por inhame, perambulam
procurando embriagantes, perambulam
brincando com pássaros, perambulam
entalhando pedra, perambulam

eu ando a noite longa, procurando vocês
eu subo a crista da onda, procurando vocês
eu deito nas pradarias, bato nas cercas de pedra
chamando
seus nomes
vocês são de coral
são de lápis e turquesa
cérebro que se enrosca como uma concha
 vocês dançam nos morros

     usuárias de substâncias pesadas, vocês rodopiam
      dançam nos metrôs
      ocupam os prédios
     as crianças lambendo suas tetas

vocês  são as colinas, o formato e a cor dos planaltos 
são as tendas de pele, as ocas
os vestidos de pele de  búfalo, as colchas, as blusas tricotadas
são as caldeiras e a estrela da noite
que se eleva sobre o mar, cavalgando a escuridão
eu me movo junto, acendo a fogueira noturna
meto minha mão e como sua carne
você minha imagem no espelho, minha irmã
   que desaparece como fumaça na colina nevoada
você que me conduz a cavalo pela floresta de sonhos
grande mãe cigana, deito minha cabeça nas suas costas
sou você
e devo me tornar você
eu fui você
e devo me tornar você
sou sempre você
  devo me tornar você

         ay-a
        ay-a ah
         ay-a
        ay-a-ah ah
         maya ma maya ma
         om star mother ma om
         maya ma ah
 
 
  versão:  Miriam Adelman
  Meus agradecimentos a Alexandra Barcellos e Álvaro Posselt pelas sugestões.

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