quarta-feira, 11 de junho de 2014

Quarta feira ao sol.




                                                                                                                          Imagem:  Miriam Adelman

Quarta feira ensolarada, após dias de chuvoso inverno curitibano.  Deve ser meu dia de sorte, penso eu – sendo exatamente este, o único que tinha livre, que tinha programado para botar as mãos às tarefas fotográficas.  Lá vou eu, um pouco receosa de pegar minha máquina – minha primeira Nikon, comprada com um tanto de sacrifício, junto com minhas primeiras lentes tão cuidadosamente escolhidas – em direção ao centro histórico da cidade, que apesar de tão mal falado (lugar de assaltos, assédios e todas aquelas coisas que a gente preferiria ignorar mas que fazem parte do nosso “normal” de grande cidade) até agora sempre me reservou boas surpresas. Mas estou um pouco cética.  Queria ter chance de fazer algo diferente, tipo ir para um terreiro de umbanda ou poder captar com minhas lentes - e minha mão de iniciante -  os rituais mágicos de alguma outra tribo.  Mas vou lá, àquilo que posso.
Na primeira quadra das minhas andanças, bem onde as fachadas começam a mudar para aquelas tentativas coloridas de preservar um tempo longínquo, passo na frente da loja de antiguidades. Passo uma parede recém pintada de ocre e branco, e olho, meio de relance, para um homem negro sentado a um lado da porta, vestindo colar de madeira e tocando, bem suavemente, um tambor.  Ele deve ter achado que sou turista – afinal, não estamos a poucos dias da Copa? – e sorri para mim, perguntando se preciso de alguma coisa, se pode me ajudar com “alguma informação?”

Me animo.
- Na verdade, eu queria lhe fazer uma fotografia!, lhe digo.

-  Quer? Tudo bem, pode então ...

Como eu  estou ainda na fase de me sentir meio idiota fazendo este tipo de solicitação (mas é melhor, com certeza, do que roubar imagem), me lanço às explicações. Tipo, “sabe, tô fazendo um curso de fotografia (que provavelmente se tornará minha melhor e eterna desculpa ) e preciso cumprir uma tarefa...” E daí faço umas fotos, posadas, bonitas – bom, talvez nem tanto, mas se dependesse só da vontade dele de ser fotografado, seriam belíssimas.  Ele e seu amigo uruguaio, dono da loja, puxam o papo comigo.  Devem ter percebido meu sotaque, que apesar dos meus 23 anos em terra brasileira continua me revelando.  E rola conversa, da boa.  Em certo momento, eu lhes comento,

- Sabem o que nosso professor de fotografia nos mandou fazer?  Um ensaio:  “Do sacro ao profano”...  Difícil, de certa maneira.  Porque eu tenho meu pensamento sobre isso.  Ou na verdade, nem sei exatamente o que seria 'o sacro' para mim...

-  Então-  diz o novo amigo - deixa eu pegar este cachecol e faço para vc... um turbante de africano!  Veio trabalhar o exu! Você sabe, na verdade, tudo é sagrado, tudo é profano. O profano é sacro. O sacro é profano...

-  É exatamente a isso que eu estava querendo chegar!

Filosofamos um pouco e ele me pede que eu lhe mando as fotos –' todos usamos Facebook, não é´?' – e eu lhe respondo que sim, claro, com prazer, mas que não espere muita coisa, pois eu sou apenas iniciante nesta história de máquina e imagem, mas enfim, vamos lá...  

A gente se despede, sigo meu rumo, que ao longo da tarde vai enredar pelo Museu de Arte Sacra, a porta fechada do Templo Hari Krishna, ruas.  Paro num  café e faço umas fotos da minha absolutamente mundana xícara, repleta com as absolutamente banais marcas de batom e  café nas bordas, e ainda assim vou procurando efeitos de luz com a mesa de vidro e as grandes janelas que há por trás dela.  Mas não gosto dos pobres resultados que espio no monitor da minha máquina.  Debato se vou comer uma tortinha de maça ou de banana e decido esperar chegar em casa, lembrando dos bolos que tinha comprado de manhã, e me lembrando que seria melhor  não ficar gastando à toa nessas saidinhas.  "Vamos, já deu", penso eu, " fiz fotos em vários lugares sacro-profanos e certeza vou achar entre todas elas algumas das quais não me envergonho.  Porque também tenho as que fiz uns dias atrás, no meio do mato..." Vou  voltando pro ao carro, entre frustrada e contente.  Paro para tirar uma última foto, uns jovens que se juntaram numa esquina, e bem nesse momento  uma mulher loira que parou o carro na esquina tira umas fotos deles,  vira para mim, me olha e me diz, sorrindo, “Uma foto da fotógrafa também!” Me sinto elogiada, mas por pouco não faço algum comentário para lhe desfazer a ilusão.  Mudo de ideia. Sorrio também para ela e lhe digo, “É, a gente se entende, né?”  O carro arranca e eu o puxo o papo com os jovens:  jovens viajantes latino-americanos que ocupam minutos de sinaleiro fechado para fazer seu ato cigano e juntar os trocos que precisam para continuar na estrada. As meninas são lindas e radiantes, os meninos também, e na luz de final de tarde, todo se cobre de uma estranha luminosidade, uma neblina clara e azulada.  Converso com eles em castelhano e lhes digo que os admiro, que são muito corajosos.  Vou andando de novo, lembrando do que pensei uns dias atrás, quando comecei a refletir sobre alguma concepção do sagrado que valesse para mim. E naquilo que tinha vindo à mente:  os laços humanas e a estrada, a natureza – o que resta dela- e os estranhas veredas do coração, quando mudam de rumo e nos pegam de surpresa.  Trocas inesperadas. E uma tarde como esta: momento sacro, se é que isto existe, tarde sacra, se é que pode.





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