domingo, 24 de fevereiro de 2013

Nocturne, by Frank O'Hara


There’s nothing worse
 than feeling bad and not
being able to tell you.
Not because you’d kill me
or it would kill you, or
we don’t love each other.
It’s space. The sky is grey
and clear, with pink
and blue shadows under each cloud.
A tiny airliner drops its
 specks over the UN Building.
My eyes, like millions of
glassy squares, merely reflect.
Everything sees through me,
in the daytime I’m too hot
and at night I freeze; I’m
built the wrong way for the
 river and a mild gale would
break every fiber in me.
Why don’t I go east and west
Instead of north and south?
It’s the architect’s fault.
And in a few years I’ll be
useless, not even an office
building. Because you have
no telephone, and live so
 far away; the Pepsi-Cola  sign,
the seagulls and the noise.

Frank O’Hara.



terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Na rota: I-80 Westbound.


Na rota: I-80 Westbound.

Duas da manhã e após atravessar a metade do estado da Pennsylvania – colinas nevadas e temperaturas caindo de 38 (NYC) para 25° F - chegamos ao motelzinho de beira de estrada que, a pesar do seu nome soberbo, é definitivamente um recanto para a plebe. A jovem que trabalha na recepção, que não parece ter mais de 27 ou 28 anos, é loirinha quase ruiva, branquinha e sardenta, bem do tipo que na minha juventude apelidávamos inescrupulosamente de “all American”. Me atende com uma simpatia que atiça minha curiosidade: quem pode estar tão alegremente dispensando chaves a viajantes irritados de tantas horas na estrada gélida a estas horas? Puxo a conversa, com perguntas basiquinhas: se já atendeu muitos hospedes esta noite, se estamos perto de alguma cidade - ou talvez de um vilarejo dos Amish? - e como é trabalhar neste horário, em pleno inverno pensilvaniano. Coisas de socióloga que sempre esquece que está de férias, claro. A moça oferece informações sem estranhar minha curiosidade: chama-se Pat, é mãe de dois meninos e nem acha ruim seu horário de emprego – das 11:00 hrs às 7:00 da manhã, três ou quatro dias por semana – porque pode chegar em casa, preparar seus pequenos para o dia na escola e dormir enquanto assistem aula, que ela é daqui mesmo, que é uma pequena cidade no meio “do nada” mas grande o suficiente para ter uma agência pública de (des)emprego, onde trabalha seu pai. Que a crise é braba, que o motel dá um preço especial para pessoas que vêm para ficar mais tempo, “long term”, nas palavras dela. Como quem? Os trabalhadores da construção civil, por exemplo – a US$250, 00 por semana e com direito a um café da manhã (que, desde um ponto de vista “brasileiro” resulta pouco convincente). Que não gosta do Obama (mas não sabe dizer por que, já que “nem gosta de política”, só achava que “não dava para confiar nele”) Que ela mesma não gosta de viajar para longe e que nunca foi para nenhum lugar a não ser para o estado de Nebraska -out west -, onde mora sua cunhada, e que ela não gosta, porque tem que dirigir durante horas, enveredando por estradas sinuosas que a deixam tonta. Mas deve ser lindo para essas bandas, né? Eu pergunto, porque não conheço, mas adoraria conhecer. Inclusive porque tenho uma imagem do Nebraska do oeste, forjada nas paisagens românticas dos filmes e porque já me imagino a cavalo por trilhas que não sei bem se seriam de planície ou montanha ou ambas... Não, me disse ela, eu prefiro aqui, onde pego o carro, faço tudo que precisar. Onde não preciso que meu marido dirija, me disse.

Conversa curiosa para uma madrugada gélida, mas vejo que minha terra de fantasia está definitivamente fora da sua zona de conforto. (Eu que nestes tempos vinha refletindo tanto sobre o conceito. Sobre as zonas de conforto de cada um/a de nós. A do meu amigo. A minha... Zonas que encolhem ou que esticamos. Regiões construídas ou herdadas que definem uma parte do que somos, do que nos fazemos...)

No dia seguinte, nem custa tanto pular da cama num quarto que nem esquentou direito. Chego na recepção para entregar a chave, encontro-me com um jovem indiano, também simpático, que diz ser o dono do hotel (leia-se, a franquia). Ele me conta que é empresário do ramo do comércio internacional, me entrega seu cartão profissional onde leio, numa letra azul itálica, as palavras commodities trader. Me diz que daqui a uns tempos irá por primeiro vez para Rio de Janeiro, para vender o carvão das minas da Pennsylvania. Faz um elogio a si próprio e me sugere entrar no ramo, pois quem sabe no Brasil não estejam precisando destes “talentos”? Apenas dou uma risada e peço para ele algumas informações sobre as condições de estrada, pois desde cedo começou a nevasca que deixou nosso pequeno veículo alugado quase invisível. Será que ousaremos pegar estrada? Mas minha turma já está ansiosa, quer terminar a viagem e chegar “em casa” bem antes do ano novo. Novo ano vindo. Já nos lançamos à vida, à estrada, assim que os riscos fazem parte. Os membros mais novos do nosso grupo exigem. ( Embora os deste tipo, eu definitivamente preferiria evitar. ) Vamos. Vamos bem. Num ponto onde a neve fechou a estrada, fazemos um desvio pela rota rural paralela, encontrando “paisagens de cinema”: casinhas e casarões, todas de madeira, com varandas de tamanhos e formas diversas, quase enterradas sob os espessos cobertores brancos e os flocos que continuam caindo. Quase não dá para acreditar. Embora ainda tensa, estou feliz de estar aqui, nestes últimos momentos do ano, e nem penso mais no que virá. Afinal, será apenas mais um dia parecido com muitos outros. Afinal,  nos rituais do ano novo, com seus votos e resoluções, suas celebrações e pronunciamentos, o risco é sempre esperar que as coisas mudem mais do que podem. Pensando bem, o que eu sou mesmo é ...boa para o trabalho de cada dia

domingo, 23 de dezembro de 2012

Generations




.My parents lives, and the world view they developed and shared with many of their generation, were guided by a kind of critical optimism. They taught me to question and to speak out: over the years, among all the books that populated the shelves in my father's study, but on that one particular shelf where the books destined to our reading – the daughters' books – sat, there was one title I have not forgotten. A book called The Right to be Different. I think they also taught me to be courageous and rather stubborn about what I wanted to do or be or believed in. And they taught me to ask a lot of questions about the world and never to accept any authority blindly (which of course, from my young woman's point of view, eventually included their own...)

For any number of reasons, the critical optimism with which they engaged the world seems harder to sustain today. No, it is not yet the “end of the world” and yes, the legacy of their generation, and that of the iconoclastic, restless and creative “sixties” and those that have followed in their footsteps have made a difference. Not as much as my parents - my mother Gertrude, my father Norman, would have wished. But the issues that are on the agenda today bear the mark of their dreams and their struggles. Now, we wonder just what it is we can pass on to our own children, our nieces and nephews, our students or the young people who look to us – overtly, explicitly or not – for some clues on how to proceed ahead, for some bits of our wisdom. Today we are more suspicious ofready made “truths” and have, as philosopher Jane Flax once noted, permanently left the “age of innocence”behind us. We know that no positive outcomes are guaranteed – for ourselves, our communities, the world – but that does not justify stepping back, doing “nothing” The choice we have is, as my parents understood and passed on to us – certainly the most precious of gifts – is as poet Carolyn Forché once wrote: “It is either the beginning or the end / of the world, and the choice is ourselves / or nothing." Or, at a  perhaps humbler level, there where our own daily lives unfold ( I would say) : The only way to find meaning in life is to actively engage in making it.

[At: Memorial for Norman Adelman
Children's Outing Association
Milwaukee, Wisconsin
December 2012.]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Surely...

"Surely all art is the result of one's having been in danger, of having gone through an
          experience all the way to the end"  

 Carolyn Forché,  The Angel of History

terça-feira, 16 de outubro de 2012

More Galway Kinnell


from “That silent evening”

“So many things that happen here are really little more,
if even that, than a scratch, too. Words, in our mouths,
are almost ready, already, to bandage the one
whom the scritch, scritch, scritch, meaning if how when
we might lose each other, scratches scratches scratches
from this moment to that. Then I will go back
to that silent evening, when the past just managed
to overlap the future, if only by a trace,
and the light doubles and casts
through the dark a sparkling that heavens the earth”.

Galway Kinnell

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

THE ROAD BETWEEN HERE AND THERE - Galway Kinnell

Lembrei do livro de Galway Kinnell, THE PAST, ontem, no falecimento do meu pai.
Lembrei das reflexões deste poeta, sobre o tempo e sobre nossa finitude.
Estou com vontade de traduzir este, o primeiro poema do livro e um dos meus preferidos, mas é uma tarefa um tanto amedrontadora - começando pelo título...

THE ROAD BETWEEN HERE AND THERE

Here I heard the snorting of hogs trying to re-enter the underearth.
Here I came into the curve too fast, on ice, and touched the brake pedal
and sailed into the pasture.
Here I stopped the car and snoozed while two small children crawled all 
over me.
Here I reread Moby Dick, skipping big chunks, skimming others, in a single day, while
Maud and Fergus fished.
Here I abandoned the car because of a clunk in the motor and hitchhiked
(which in those days in Vermont meant walking the whole way with
 a limp) all the way to a garage, where I passed the afternoon with ex-
loggers who had stopped by to oil the joints of their artificial limbs
and talk.
Here a barn burned down to the snow. 'Friction' one of the ex-loggers said.
'Friction?' 'Yup, the mortgage, rubbin' against the insurance policy.'
Here I went eighty but was in no fear of arrest, for I was blessed -
speeding, trying to get home to see my children before they slept.
Here I bought speckled brown eggs with bits of straw shitted to them.
Here I brought home in the back seat two piglets who rummaged inside
the burlap sack like pregnancy itself.  
Here I heard again on the car radio Handel's Concerto transcribed for harp and lute, which
Ines played to me the first time, making me
want to drive after it and hear it forever.
Here I sat on a boulder by the winter-steaming river and put my head in
my hands and considered time - which is next to nothing, merely
vanishes, and yet can make one's elbows nearly pierce one's thighs.
Here I forgot how to sing in the old way and listened to frogs at dusk.
Here the local fortune teller took my hand and said "What is still possible
is inspired work, faithfulness to a few, and a last love, which, being 
last, will be like looking up and seeing the parachute opening up in
a shower of gold.'
Here is the chimney standing up by itself and falling down, which tells
you you approach the end of the road between here and there. 
Here I arrive there.
Here I must turn around and go back and on the way back look carefully
to the left and to right.
For when the spaces along the road between here and there are all used
up, that's it.


Galway Kinnell

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Retomando, gente...



 Nestes últimos meses, me ocupei com um livro nosso que deverá ser lançado ano que vem, pela editora holandesa Springer (se preparem para coisa boa!).  Na retomada, vejam o que preparei para um evento aqui em Curitiba, dia 9 de outubro, junto à APP Sindicato:

Dzi Croquettes

Sinopse:

Nos anos 70, no Brasil da ditadura militar, surge o grupo teatral Dzi Croquettes , formado basicamente por homens gays.  Emerge em torno de uma proposta que “misturando cabaré com carnaval” leva para os palcos um espetáculo extraordinário,  libertário e andrógino que une música, dança e sátira de uma forma que rompe os esquemas e paradigmas da época.  Trata-se de uma verdadeira experiência contracultural à brasileira,  que rompe os esquemas da “normalidade” social inventando uma nova linguagem - que nem  o poder da censura era capaz de identificar, pois não teria, para eles, uma “inteligibilidade” que os permitisse entender em que realmente consistia a “ameaça” do grupo ao regime e ao status quo. E não era apenas um grupo de pessoas que faziam e apresentavam juntos um espetáculo: adotaram um modo de vida comunitária (que foi incluindo também algumas mulheres, amigas e solidárias, também artistas) e entregaram-se a um projeto todo que buscava  re-significar família e embaralhava as fronteiras entre masculino e feminino e vida e arte, entre outros. Atravessaram livremente não só as fronteiras de gênero, de raça e classe social, do “permitido” e “proibido”  senão também as geopolíticas, levando este pioneirismo da cultura brasileira para  Europa, fazendo sucesso em Paris. Uma volta precoce para o Brasil é assinalada por alguns dos seus antigos integrantes como, talvez, o começo do fim – também acelerado pela crise da AIDS nos anos 80, que abala o grupo com a morte de algumas de suas figuras centrais.  Este documentário acompanha o grupo desde o seu surgimento até os anos 90 -  antes da morte de Lenny Dale, um norte-americano que “adotou o Brasil” e que teve um papel chave no  grupo -  integrando material de entrevistas atuais com filmagens antigas e a narrativa da diretora Tatiana Issa, cujo pai trabalhou com o grupo quando ela era criança.  Ao fazer um relato fascinante de pessoas que fizeram uma contribuição singular para com a cultura brasileira e internacional nas últimas décadas do século XX , o filme nos coloca diante da necessidade de usar esta inspiração para avaliar não só  seu legado para com a política e a cultura brasileiras senão tentar um balanço da própria conjuntura atual, o futuro das lutas pela “diversidade” e o potencial (ainda?) cultural transformativo de performances que trabalham – no teatro e no cotidiano – com a desestabilização, desconstrução e transgressão das fronteiras da ordem normativa.


Bibliografia sugerida:

Dunn, Christopher, “Tropicália:  modernidade, alegoria e contracultura” In: Basualdo, Carlos org.  Tropicália: uma revolução na cultura brasileira (1967-1972) Cosac & Naify, 2007.

Pereira, Carlos Alberto M., O que é contracultura? Editora Brasiliense: Coleção Primeiros Passos.

Miskolci, Richard.   Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças, Belo Horizonte: Autêntica Editora pela série Cadernos da Diversidade, 2011.

Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha

 Do livro  FOREST OF NOISE.                    de Mosab Abu Toha                      versões:  Miriam Adelman Aldeia Palestina. Na colina d...