sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Desejo e Solidão - Richard Miskolci

Publico aqui os primeiros parágrafos de um texto recente de um dos meus grandes amigos e interlocutores, Richard Miskolci. (O texto completo encontra-se online no:
www.clam.org.br/publique/media/RichardMisk.pdf)


Nos dois últimos séculos, o tema da solidão na sociedade contemporânea gerou importantes obras literárias e profícuas reflexões sociológicas, mas apenas recentemente a teoria social distinguiu as diferentes formas como as pessoas se sentem sozinhas e as categorias históricas que constituem os eixos para pensarem sobre si mesmas como solitárias. De forma esquemática, o sociólogo Richard Sennett distinguiu três formas de solidão: aquela imposta pelo poder como o exílio; a solidão auto-imposta do rebelde e, por fim, a solidão daqueles que se sentem estranhos em seu próprio mundo e, por causa desta diferença, apartados das pessoas normais.[i] A breve reflexão que segue focará sobre este último tipo de solidão engendrado por um desejo socialmente considerado ameaçador.
No intuito de compreender as origens desta solidão torna-se necessária uma breve genealogia do sujeito moderno, ou seja, uma história da forma como a sociedade ocidental associou desejo e verdade individual. Segundo Michel Foucault, a associação entre sexo, subjetividade e verdade remonta à moralidade pagã centrada em valores como monogamia, fidelidade e procriação. Esta moralidade antiga foi incorporada pelo Cristianismo, mas transformada de forma importante por Santo Agostinho quando descreveu o que hoje chamaríamos de libido ou desejo como o componente interno, rebelde e perigoso da vontade interior. Segundo o teólogo cristão, a ereção involuntária de Adão equivalia à sua rebelião contra Deus. A teologia moral de Agostinho problematizou o desejo de forma a ver no interior dos sujeitos uma luta espiritual que exigia um constante auto-exame, uma hermenêutica do sujeito em que só se alcançaria o domínio de si por meio da vitória definitiva com relação à vontade. O eixo desta luta espiritual contra a impureza estaria em descobrir a verdade sobre si mesmo e vencer as ilusões.
A hermenêutica de Agostinho foi aprimorada e disseminada quer no contínuo exame de consciência instituído pela Reforma Protestante quer por meio da confissão obrigatória dos católicos imposta a partir da Contra-Reforma. A mesma técnica espiritual disseminou-se e adquiriu contornos agnósticos na vida cotidiana assim como na sua herdeira mais conhecida, a prática psicanalítica. O paralelo crítico não deixa de ser esclarecedor: enquanto no passado se confessava a fraqueza da carne ao padre, desde o final do século XIX confidenciam-se segredos sexuais ao terapeuta. Uma coisa é certa, a centralidade do desejo como meio de acesso à verdade do sujeito é uma herança cristã que nos lega a associação entre sexualidade e caráter[ii] ...
[i] FOUCAULT, Michel e SENNETT, Richard. Sexuality and Solitude In: London Review of Books. May 21-June 3, p.4-7, 1981.
[ii] Não por acaso, muitas das obras que constituíram historicamente um saber hegemônico sobre a sexualidade têm como eixo esta associação como os livros de Cesare Lombroso e o clássico de Otto Weininger Geschlecht und Charakter (Sexo e Caráter, 1903).

Nenhum comentário:

Postar um comentário