Com Lorenzo no Centro do Universo, el Zócalo, Cidade de México
de Sandra Cisneros (do livro "Loose Woman", Vintage Contemporaries, 1995)
Atravessamos duas vezes a rua
por causa dos ratos. Diante de nós,,
o zócalo de noite e a Calle de la Moneda
como num sonho de Canaletto. Esqueça
Canaletto. Esto era real.
E você estava lá, Lorenzo.
A catedral com fumaça nos olhos
ainda subia como um pirâmide após
tantos séculos. Você nomeou os quatro
centros sagrados – Amecameca, Tepeyac and mais
dois que não lembro. Me lembro de você
querida flecha, e como todas as palavras
que eu sabia me abandonaram. Em inglês
e as poucas em espanhol também.
Este é o centro do universo,
eu disse e eu quis dizer. Esta é eternidade.
Neste momento. Agora. E o amor,
esse fio de copal que tanto te apavorou
quando o mencionei,
o amor é eterno, mas o quê a eternidade
tem a ver com amanhã, não sei, compreende?
Não sei se você me acompanhava.
Nem agora, nem naquele momento.
Mas sei o que senti quando botei minha mão
no teu coração, e surgiu aquele beijo,
só isso, desde o centro do universo.
Ou pelo menos, de meu universo.
Lorenzo, é o centro do universo
tão solitário de noite e tão
sobrelotado de dia? Ao meio dia,
a terra me pariu, o metrô se lançando
do túnel. Eu tropeçava nas
canetas Bic bordadas com o logo
do Batman, cabos de extensão
vermelhas, carteiras de vinyl, rosas de
veludo, vendedores de sementes, pedreiros
brilhantes que procuravam trabalho.
Lembro do menino de pés queimados
no colo da mãe,e o cheiro da carne que
fritavam, um prato de isopor grudento,
gorduroso.
De noite fugíamos
da barulheira da praça Garibaldi, os mariachis
que perseguiam os carros ao longo da Avenida Lázaro Cárdenas
correndo atrás da próxima refeição. No La Hermosa Hortênsialuzes brilhando como numa sorveteria,
rostos suados e marcados por suas penas
bebi meu primeiro pulque morno e espumoso como o sêmen.
Na última noite nos despedímos
entre duas ruas com nome de rio.
Eu me atrapalhava com a história
do Borges e sua Delia. Lorenzo,
quando nos encontrarmos de novo,
A qual beira rio? Mas este não era poema.
Somente os mosquitos que picavam
para caralho e um beijo de adeus como
mosquito picando que me deixou com raiva
durante horas. Afinal, não foram séculos
que passaram para a gente se encontrar
ao centro do universo
onde consumamos nosso beijo?
Lorenzo, eu esqueço o que é real,
confundo os detalhes sobre o ocorrido
com aquilo que testemunhei
no meu universo. É assim pra você
também? Mas por um momento
pensei, realmente pensei que
um beijo poderia ser um universo.
Ou sexo. Ou o amor, aquele sapato velho.
Veja. Continuo sem esperança.
Continuo escrevendo poemas para
rapazes bonitos. Uma metade de mim,
novamente viva.. E a outra, desde os bastidores
gritando, Sente-se, palhaça!
Ah, Lorenzo, sou uma tola.
É eternidade ou nada. Comigo é
desse jeito. Mesmo se a eternidade fosse
só um beijo, uma noite, um momento.
E se o amor não for eterno, qual sentido faz?
Se eu tivesse as palavras eu explicaria que
como um homem ama uma mulher antes do amor
e como ele a ama depois, nunca
é igual. Como se separam as duas metades
e não podem voltar a juntar-se.
Não é uma pena?
Você nomeou os centros sagrados mas esqueceu
um – o coração. Você disse que cada vez
que passasse por este zócalo
se lembraria de mim e esse beijo
desde o centro do universo.
Eu me lembro de você, Lorenzo. Está vendo
este zócalo? Se lembre.
("bringing words together") poesia, crônica, fotografia, tradução//poetry, stories, photography, translation ///// /// ©miriamadelman2020 Unauthorized reproduction of material from this blog is expressly prohibited
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
sábado, 26 de fevereiro de 2011
a response...
Just trying out a response to a poem I am translating. But since the translation is not yet ready (waiting for someone to go over it for me!) here goes what I´ve written...for whatever it is worth!
A kind of faithfulness
worse than a whining puppy,
docile as a woolly lamb or a llama
begging for cookies. A kind of
faithfulness that accepts every sort
of betrayal, wears blinkers, puts on
a fresh blindfold to begin the day
and comes back, week after week,
to drink, at the same fountain,
tainted with poison. Years
that don’t teach, don’t cure.
A poison that doesn’t kill,
Just a slow sadness that makes you
Believe you are empty.
A kind of faithfulness
worse than a whining puppy,
docile as a woolly lamb or a llama
begging for cookies. A kind of
faithfulness that accepts every sort
of betrayal, wears blinkers, puts on
a fresh blindfold to begin the day
and comes back, week after week,
to drink, at the same fountain,
tainted with poison. Years
that don’t teach, don’t cure.
A poison that doesn’t kill,
Just a slow sadness that makes you
Believe you are empty.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
“Just like any other tourist....”
A primeira semana no Peru acaba. Acabo me acostumando um pouco com aquilo que num primeiro momento impressiona, esse impacto “do exótico” que tem por trás o cotidiano do@s outr@s – neste caso, muito imbuído do performance que se faz para o turismo, ou como dizem no Brasil, aquilo que se faz “pro inglês ver”... Até por que acontece algo que me traz, rapidamente, de volta para o realismo: viajando entre Puno e
Arequipa de ônibus, num momento de descuido, levam nosso laptop junto com alguns documentos meus! (Depois, horas passadas nas dependências de delegacias e embaixada, vivenciando a burocracia com suas exigências não poucas vezes ridículas e aquele sentimento de culpa que deve ser muito comum quando estas coisas acontecem, tipo que burra que eu fui, porque não tomei mais cuidado, como se não soubesse cuidar das coisas, da vida, como se não soubesse ser viajante, quer dizer, ser... turista!)
Óbvio que o turismo é, entre outros, um dos fenômenos que move o mundo hoje. Indústria como qualquer outra, onde “o lazer de uns é o trabalho de outros”. Lugar onde as identidades são (re) construídas e “consumidas”. Espaço social onde uns procuram “o autêntico”, o diferente, o Outro. (E alguns, apenas se divertir...) Onde achamos o que queremos e por vezes, o que não queremos. Um fenômeno relacionado à procura do que somos através desse Outro, ou seja, aquilo que supostamente não somos. Captado em escritos e diários de viagem fascinantes, ao longo da história , moderna e pré-moderna, e hoje em dia, no cinema, que também promove um imaginário onde as viagens – mesmo quando a estrada não se faz mais a cavalo ou num calhambeque caindo aos pedaços, mesmo quando é tão fácil subir ao avião e pagar a passagem em 10X – são verdadeiros momentos de catarse. (Por isso acho genial a sacada de uma amiga minha, que percebeu o filme de Woody Allen,
Vicki, Cristina, Barcelona, como uma sátira: você viaja, você se relaciona com esse “Outro”, até você sofre, se mete em encrenca, passa cada uma e volta... igual, à vida de sempre, ao “nada mudou” ou ao business as usual...). Assim, como é eu posso narrar o Peru? Mas preciso narrá-lo. Para mostrar para @s outr@s que fui? Para pensar sobre “verdades sociológicas” e compartilhá-las com pessoas que quero e pessoas que não conheço?
Em todo caso, ontem meu filho e eu concordamos que a viagem valeu muito a pena.
Ter, agora em diante, as imagens daquilo que a gente viu, um país de natureza exuberante e cultura milenar, a repetida mistura de riqueza humana e as pobrezas do mundo humano, tão belo e tão mesquinho e cruel. Jurar que vamos voltar, e na próximas, saberemos navegar melhor os desafios e procurar os cantos menos conhecidos. Continuar falando com as pessoas e convidar algumas, as mais especiais, a que nos visitem, na nossa casa, nossa cidade – ou no meu caso, no pais que adotei, ou que me adotou...
Arequipa de ônibus, num momento de descuido, levam nosso laptop junto com alguns documentos meus! (Depois, horas passadas nas dependências de delegacias e embaixada, vivenciando a burocracia com suas exigências não poucas vezes ridículas e aquele sentimento de culpa que deve ser muito comum quando estas coisas acontecem, tipo que burra que eu fui, porque não tomei mais cuidado, como se não soubesse cuidar das coisas, da vida, como se não soubesse ser viajante, quer dizer, ser... turista!)
Óbvio que o turismo é, entre outros, um dos fenômenos que move o mundo hoje. Indústria como qualquer outra, onde “o lazer de uns é o trabalho de outros”. Lugar onde as identidades são (re) construídas e “consumidas”. Espaço social onde uns procuram “o autêntico”, o diferente, o Outro. (E alguns, apenas se divertir...) Onde achamos o que queremos e por vezes, o que não queremos. Um fenômeno relacionado à procura do que somos através desse Outro, ou seja, aquilo que supostamente não somos. Captado em escritos e diários de viagem fascinantes, ao longo da história , moderna e pré-moderna, e hoje em dia, no cinema, que também promove um imaginário onde as viagens – mesmo quando a estrada não se faz mais a cavalo ou num calhambeque caindo aos pedaços, mesmo quando é tão fácil subir ao avião e pagar a passagem em 10X – são verdadeiros momentos de catarse. (Por isso acho genial a sacada de uma amiga minha, que percebeu o filme de Woody Allen,
Vicki, Cristina, Barcelona, como uma sátira: você viaja, você se relaciona com esse “Outro”, até você sofre, se mete em encrenca, passa cada uma e volta... igual, à vida de sempre, ao “nada mudou” ou ao business as usual...). Assim, como é eu posso narrar o Peru? Mas preciso narrá-lo. Para mostrar para @s outr@s que fui? Para pensar sobre “verdades sociológicas” e compartilhá-las com pessoas que quero e pessoas que não conheço?
Em todo caso, ontem meu filho e eu concordamos que a viagem valeu muito a pena.
Ter, agora em diante, as imagens daquilo que a gente viu, um país de natureza exuberante e cultura milenar, a repetida mistura de riqueza humana e as pobrezas do mundo humano, tão belo e tão mesquinho e cruel. Jurar que vamos voltar, e na próximas, saberemos navegar melhor os desafios e procurar os cantos menos conhecidos. Continuar falando com as pessoas e convidar algumas, as mais especiais, a que nos visitem, na nossa casa, nossa cidade – ou no meu caso, no pais que adotei, ou que me adotou...
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Outros rumos...
[primeira parte]
Finalmente, realizo um sonho da minha juventud: uma viagem ao terra dos Incas, ao Peru. A proposta da viagem surge em última hora; na verdade, pensávamos viajar para outro lugar, mais distante, desistimos da ideia – encarar de novo despesas em euro, trocar nosso tão desejado verão, mais uma vez, para o frio do continente europeu, etc. É assim que embarcamos, no final de janeiro, no final das férias que quase se acabam sem romper muito o ritmo costumeiro do trabalho, com passagens obtidas por “milhas TAM” e sem ter tido muito tempo prévio para informarnos ou nos preparar para o que vendrá...
No primeiro dia, vamos navegando as ruas barulhentas de Lima, um trânsito totalmente maluco de carros que parecem empilharse uns sobre outros, motoristas que não param de buzinar, cobradores de ônibus cujo trabalho parece consistir em pular do vêículo a cada quadra, anunciando a rota e chamando o pessoal para subir. Vou conversando com uma dos meus acompanhantes, a Julinha, de nove anos, quem já passou 15 dias nos Estados Unidos, conhece uma boa parte do Brasil – desde o sul e a cidade de São Paulo até as praias e capitais do nordeste brasileiro - e claro, tem assistido filmes e noticieros mostrando incontáveis imagens de todos os cantos do planeta. Por não dizer que antes de embarcar, eu não tinha perdido a oportunidade de falar com ela sobre o Peru, olhando o mapa e fazendo alguma fala, ainda bem “basicão” (afinal, que tanto sabia eu sobre o tema?) da sua história e cultura, tão embebida de raízes indígenas, histórias de resistência, conquista, sobrevivência, miséria... “Julia”, eu pergunto, “isto te lembra àlgum lugar que você já conhece?” Ela fica pensativa uns segundos e logo me responde, “Eu acho que … se parece com a Índia!”
Em Cuzco, ficamos num “Bed and Breakfast” econômico, longe do tão belo centro histórico, num bairro proletário … até a rua onde se localiza chama-se “Avenida Industrial”. Na verdade, os quartos ficam no quarto andar acima da casa dos donos, uma família que trabalha com o turismo. Subimos por uma escada caracol que dá ao andar onde ficam os hóspedes, e desde a qual se sente um leve cheiro de esgoto, pois é, problemas de encanamento. Nossos vizinhos, simpáticos, nos acordam antes da 7 da manhã, conversando e fazendo seu café ou assistindo t.v na área comum que fica de ladinho. Mas logo no mesmo dia, Macchu Picchu o compensa todo – embora inundado por um constante fluxo de turistas (há alguma outra possibilidade?), se conseguiu isolar um pouco o sítio (nada de banheiros e lixeiras lá dentro, só as ruinas e as paisagens inigualáveis, entre os picos das montanhas)- viajamos no tempo, respirando o ar mais puro que jamais sentimos, total admiração por um mundo tão astutamente elaborado a partir de um profundo conhecimento da terra e das estrelas... (como diz outra pequena menina brasileira que descia as escadas de pedra, conversando alegremente com a mãe – “Esses incas, eles eram muito espertos!!)
Nos próximos dias, percorremos vários sítios arqueológicos, tentamos conhecer um pouco da cidade de Cuzco e seus alrededores, vamos numa excursão pelo Valle Sagrado até o pueblito indígena de Chinchero, com uns dois mil habitantes. Lá assistimos a exposição proferida por Naydé, uma moça que trabalha explicando aos turistas, num espanhol ou inglês fortemente marcado pela intonação da sua língua materna, o quechua, como se fazem as mantas, chales e tapetes de forma tradicional, desde a lavagem da lã de alpaca com um sabão que se faz expremendo um tubérculo até o uso de ervas, flores e o milho azul, para obter as tintas. Um saber que se passa de uma geração de mulheres a outras. Andamos um pouco pelas ruas, conhecemos a catedral. Meu filho fica, como sempre, indignado. “E esses malditos espanhóis com seu catolicismo, como conseguiram! Aqui todo mundo, indígenas e não, acreditam em tudo isso!” Eu me encanto com o lugar, com suas ruas de pedra, suas casitas de adobe, as crinças que brincam, as menininhas que se aproximan de nós para vender bonecas feitas “por nuestras mamás”, o atardecer que cai enquanto por aí caminhamos. Mais tarde, nosso guia nos disse– “Pero no se crean, estas personas tienen mucho dinero!” “Como assim?”, pergunta, incrédula. uma senhora italiana que faz parte do nosso grupo. “Pues si, acaban de aprobar la construcción del aeropuerto internacional de Cuzco, aqui en Chinchero. Saldrán los vuelos directos de Europa para acá, muy cómodo para los turistas que vienen por un sólo dia, sólo para conocer Macchu Picchu. A algunos de aqui les conviene, a outros no...”. Na saída do pueblito, vejo as letras carrafais pintadas num muro- "Si hay atropelo a nuestros derechos, no hay aeropuerto! Chinchero es tierra indígena!"
E por aí rola a história...
Eu como simples turista, me impressiono com tantas coisas – as senhoras indígenas que nos assediam constantemente para que compremos suas artesanatos (se pudiera, lhes comprava uma coisa a cada uma!), as casinhas de barro dos pueblitos e as crianças andando pelos campos com seus cachorros e alpacas como fieis companheiros, a pobreza tão visivel de quase todos, os cartazes pré-eleitorais (mas eu não estou informada, não sei quase nada sobre a política atual peruana, só vi um artigo num jornal no qual um candidato que apoia o direito ao aborto e as parcerias civis – ah, pós-modernidade! - é duramente castigado por atentar contra a “lei natural” da sociedade – é, velhos discursos que já conhecemos...)...
(a continuar)
Finalmente, realizo um sonho da minha juventud: uma viagem ao terra dos Incas, ao Peru. A proposta da viagem surge em última hora; na verdade, pensávamos viajar para outro lugar, mais distante, desistimos da ideia – encarar de novo despesas em euro, trocar nosso tão desejado verão, mais uma vez, para o frio do continente europeu, etc. É assim que embarcamos, no final de janeiro, no final das férias que quase se acabam sem romper muito o ritmo costumeiro do trabalho, com passagens obtidas por “milhas TAM” e sem ter tido muito tempo prévio para informarnos ou nos preparar para o que vendrá...
No primeiro dia, vamos navegando as ruas barulhentas de Lima, um trânsito totalmente maluco de carros que parecem empilharse uns sobre outros, motoristas que não param de buzinar, cobradores de ônibus cujo trabalho parece consistir em pular do vêículo a cada quadra, anunciando a rota e chamando o pessoal para subir. Vou conversando com uma dos meus acompanhantes, a Julinha, de nove anos, quem já passou 15 dias nos Estados Unidos, conhece uma boa parte do Brasil – desde o sul e a cidade de São Paulo até as praias e capitais do nordeste brasileiro - e claro, tem assistido filmes e noticieros mostrando incontáveis imagens de todos os cantos do planeta. Por não dizer que antes de embarcar, eu não tinha perdido a oportunidade de falar com ela sobre o Peru, olhando o mapa e fazendo alguma fala, ainda bem “basicão” (afinal, que tanto sabia eu sobre o tema?) da sua história e cultura, tão embebida de raízes indígenas, histórias de resistência, conquista, sobrevivência, miséria... “Julia”, eu pergunto, “isto te lembra àlgum lugar que você já conhece?” Ela fica pensativa uns segundos e logo me responde, “Eu acho que … se parece com a Índia!”
Em Cuzco, ficamos num “Bed and Breakfast” econômico, longe do tão belo centro histórico, num bairro proletário … até a rua onde se localiza chama-se “Avenida Industrial”. Na verdade, os quartos ficam no quarto andar acima da casa dos donos, uma família que trabalha com o turismo. Subimos por uma escada caracol que dá ao andar onde ficam os hóspedes, e desde a qual se sente um leve cheiro de esgoto, pois é, problemas de encanamento. Nossos vizinhos, simpáticos, nos acordam antes da 7 da manhã, conversando e fazendo seu café ou assistindo t.v na área comum que fica de ladinho. Mas logo no mesmo dia, Macchu Picchu o compensa todo – embora inundado por um constante fluxo de turistas (há alguma outra possibilidade?), se conseguiu isolar um pouco o sítio (nada de banheiros e lixeiras lá dentro, só as ruinas e as paisagens inigualáveis, entre os picos das montanhas)- viajamos no tempo, respirando o ar mais puro que jamais sentimos, total admiração por um mundo tão astutamente elaborado a partir de um profundo conhecimento da terra e das estrelas... (como diz outra pequena menina brasileira que descia as escadas de pedra, conversando alegremente com a mãe – “Esses incas, eles eram muito espertos!!)
Nos próximos dias, percorremos vários sítios arqueológicos, tentamos conhecer um pouco da cidade de Cuzco e seus alrededores, vamos numa excursão pelo Valle Sagrado até o pueblito indígena de Chinchero, com uns dois mil habitantes. Lá assistimos a exposição proferida por Naydé, uma moça que trabalha explicando aos turistas, num espanhol ou inglês fortemente marcado pela intonação da sua língua materna, o quechua, como se fazem as mantas, chales e tapetes de forma tradicional, desde a lavagem da lã de alpaca com um sabão que se faz expremendo um tubérculo até o uso de ervas, flores e o milho azul, para obter as tintas. Um saber que se passa de uma geração de mulheres a outras. Andamos um pouco pelas ruas, conhecemos a catedral. Meu filho fica, como sempre, indignado. “E esses malditos espanhóis com seu catolicismo, como conseguiram! Aqui todo mundo, indígenas e não, acreditam em tudo isso!” Eu me encanto com o lugar, com suas ruas de pedra, suas casitas de adobe, as crinças que brincam, as menininhas que se aproximan de nós para vender bonecas feitas “por nuestras mamás”, o atardecer que cai enquanto por aí caminhamos. Mais tarde, nosso guia nos disse– “Pero no se crean, estas personas tienen mucho dinero!” “Como assim?”, pergunta, incrédula. uma senhora italiana que faz parte do nosso grupo. “Pues si, acaban de aprobar la construcción del aeropuerto internacional de Cuzco, aqui en Chinchero. Saldrán los vuelos directos de Europa para acá, muy cómodo para los turistas que vienen por un sólo dia, sólo para conocer Macchu Picchu. A algunos de aqui les conviene, a outros no...”. Na saída do pueblito, vejo as letras carrafais pintadas num muro- "Si hay atropelo a nuestros derechos, no hay aeropuerto! Chinchero es tierra indígena!"
E por aí rola a história...
Eu como simples turista, me impressiono com tantas coisas – as senhoras indígenas que nos assediam constantemente para que compremos suas artesanatos (se pudiera, lhes comprava uma coisa a cada uma!), as casinhas de barro dos pueblitos e as crianças andando pelos campos com seus cachorros e alpacas como fieis companheiros, a pobreza tão visivel de quase todos, os cartazes pré-eleitorais (mas eu não estou informada, não sei quase nada sobre a política atual peruana, só vi um artigo num jornal no qual um candidato que apoia o direito ao aborto e as parcerias civis – ah, pós-modernidade! - é duramente castigado por atentar contra a “lei natural” da sociedade – é, velhos discursos que já conhecemos...)...
(a continuar)
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Thinking about Sweden, and other mappings...
"To learn from travel, one must train
oneself to capture messages."
Fatema Mernissi.
Sweden is a country I had never really thought about visiting, although in the back of my mind there lingered some awareness of its status as the best-ranking country in the world in gender inequality, and some notion that this wealthy Scandinavian nation is recognized as exemplary in terms of social equality in general and successful welfare state policy.
Would it be "too boring", too "solved" to really capture my imagination, I wondered, when the chance to go there came in the form of professional commitment. Of course, there would always be historical monuments, natural beauty, perhaps the chance to take a ride through the countryside on a fine Swedish (or Icelandic) horse, and then of course, the numerous museums to visit....
Now I am already on my second trip there. On the plane from Amsterdam to Stockholm, after a grueling 11 hour flight from São Paulo, I sit next to a Swedish woman whom I soon learn has gone from nursing to a doctorate in public health. Probably well into her fifties, she is a still youthful mother of three, now in her second marriage to a man who had several children of his own. When I comment, “So, I know that your country is considered number one in gender equality”, her reply comes quickly, together with a wide smile and, I detect, a twinkle in her eyes, “Yes, this is true! But we are still not satisfied [with the way things are]!”
My first stroll around Stockholm takes place on a drizzly, mid-November afternoon. There, at the boutique she works at in a trendy Stockholm neighborhood, I meet Sari, a young Afghani immigrant. Although the acute perceptions of life in Sweden that she shares with me lead me to believe she has a real penchant for the social sciences, she tells me, in beautiful English, that she has finished high school and not gone on the university. Then she explains that in Sweden, her adopted country, everyone has all their basic needs taken care of, so that the real difference between rich and poor can be seen through access to spheres such as hobbies and leisure. “There are many things you may want to do but if you are from a poor family, perhaps an immigrant family, you just won´t get the chance”. She also tells me that her mom wanted to bring her daughters to Sweden so that they could have the opportunities she never did. And as her daughters lives unfold in new ways, Sari´s father "isn´t too happy with it".
Later, in the evening, I am at a bar with my Rumanian friend, enjoying a bit of the city's night life. As the night draws to its end, emptying out rather early, in fact (well, it is a Tuesday evening, after all) there is just us and a large party at another table. One member of the group, a young man, gets up and starts to dance, showing off his not-so-meager talents in flashy movements of hands, legs and body, rather à la Michael Jackson. Then the d.j., who seems to be a friend of the group, switches the track to Middle-Eastern music, and a middle aged woman and another, somewhat younger one, who we later learn is her daughter get up from the table as well. Soon we are all dancing and laughing together, this one brief chance meeting pulsing with a sweet and dizzying current of something larger. Tamara, the older woman, tells us it is her daughter´s birthday, gestures toward her lovely granddaughter, a girl of about 16, and then goes on to lament the closed-off nature of Swedish life, its families and reserved society. “Look at us, we are all from somewhere else!,” she exclaims. Somewhere, in this case, means mostly Iran, but also Cabo Verde and Chile. Later, the young Chilean I speak to in Spanish tells me she was born in Sweden, daughter of people who found exile there, after Pinochet´s coup wrought fear and terror in their native land.
I am in Uppsala, after day one of our conference, chatting with Johanna and Ingrid over a beer. It is rather noisy in the pub, populated at the moment by a gregarious crowd that doesn´t seem to fit the “boring” label I have heard foreigners apply to the Swedes over the past few days. So I ask my friends to tell me something about young people in Sweden today, their habits and their life style. Johanna tells me her older sister is a Lutheran pastor, a single mother who “made” her child under the auspices of a Danish sperm bank and with current plans to follow suit for a second one. Ingrid, who tells me she still dreams of a rather conventional married life, like the ones who parents built and enjoy, to date, also adds, “A husband! Yes, I would like one. But I can also easily make my life without one. In fact, my best friends are a bunch of guys, and I´m almost always hanging out them, só for them, maybe, I´m just... well, one of the boys!”
On the final evening of my stay in Uppsala, snow is falling lightly, covering the ground with a thin and gauzy sheet. It is almost warm outside, and better yet, I have the prospect of a toasty, cozy hotel room awaiting me. So, there is none of the discomfort of Curitiba at the end of a winter day in store for me tonight. I feel satisfied after several days of “communing with kindred spirits” and after a well- received talk on fellow women travelers - in this case the Brazilian women in Barcelona who have shared their life stories of searching for self, of border-crossings, introspection and sometimes, “muito jogo de cintura” (a particular kind of cleverness, roughly speaking). On the plane home the next day, I read stories from the book my son has given me for my recent birthday. There are many good ones among them, but one in particular (Conversa de Bar, by the gaucha Renata Wolff)catches my attention, reminding me of the session my students and I “back home” spent re-visiting Rosario* . Like Castellanos, Woolff, Plath and others I so admire, Wolff's story takes a humorous and ironic look at mythologizing - and often disabling- ways of writing women, and perhaps also, of being women: the scripts, the "contracts" we accept and their “fine print” - and bringing me back again to a one of the questions that so often, or from time to time, come backs to haunt me: if in our ocean and border crossing, if, amidst our changing circumstances and selves, there is something we must still, most urgently, most importantly, dislodge from within.
*(Castellanos, El eterno femenino)
oneself to capture messages."
Fatema Mernissi.
Sweden is a country I had never really thought about visiting, although in the back of my mind there lingered some awareness of its status as the best-ranking country in the world in gender inequality, and some notion that this wealthy Scandinavian nation is recognized as exemplary in terms of social equality in general and successful welfare state policy.
Would it be "too boring", too "solved" to really capture my imagination, I wondered, when the chance to go there came in the form of professional commitment. Of course, there would always be historical monuments, natural beauty, perhaps the chance to take a ride through the countryside on a fine Swedish (or Icelandic) horse, and then of course, the numerous museums to visit....
Now I am already on my second trip there. On the plane from Amsterdam to Stockholm, after a grueling 11 hour flight from São Paulo, I sit next to a Swedish woman whom I soon learn has gone from nursing to a doctorate in public health. Probably well into her fifties, she is a still youthful mother of three, now in her second marriage to a man who had several children of his own. When I comment, “So, I know that your country is considered number one in gender equality”, her reply comes quickly, together with a wide smile and, I detect, a twinkle in her eyes, “Yes, this is true! But we are still not satisfied [with the way things are]!”
My first stroll around Stockholm takes place on a drizzly, mid-November afternoon. There, at the boutique she works at in a trendy Stockholm neighborhood, I meet Sari, a young Afghani immigrant. Although the acute perceptions of life in Sweden that she shares with me lead me to believe she has a real penchant for the social sciences, she tells me, in beautiful English, that she has finished high school and not gone on the university. Then she explains that in Sweden, her adopted country, everyone has all their basic needs taken care of, so that the real difference between rich and poor can be seen through access to spheres such as hobbies and leisure. “There are many things you may want to do but if you are from a poor family, perhaps an immigrant family, you just won´t get the chance”. She also tells me that her mom wanted to bring her daughters to Sweden so that they could have the opportunities she never did. And as her daughters lives unfold in new ways, Sari´s father "isn´t too happy with it".
Later, in the evening, I am at a bar with my Rumanian friend, enjoying a bit of the city's night life. As the night draws to its end, emptying out rather early, in fact (well, it is a Tuesday evening, after all) there is just us and a large party at another table. One member of the group, a young man, gets up and starts to dance, showing off his not-so-meager talents in flashy movements of hands, legs and body, rather à la Michael Jackson. Then the d.j., who seems to be a friend of the group, switches the track to Middle-Eastern music, and a middle aged woman and another, somewhat younger one, who we later learn is her daughter get up from the table as well. Soon we are all dancing and laughing together, this one brief chance meeting pulsing with a sweet and dizzying current of something larger. Tamara, the older woman, tells us it is her daughter´s birthday, gestures toward her lovely granddaughter, a girl of about 16, and then goes on to lament the closed-off nature of Swedish life, its families and reserved society. “Look at us, we are all from somewhere else!,” she exclaims. Somewhere, in this case, means mostly Iran, but also Cabo Verde and Chile. Later, the young Chilean I speak to in Spanish tells me she was born in Sweden, daughter of people who found exile there, after Pinochet´s coup wrought fear and terror in their native land.
I am in Uppsala, after day one of our conference, chatting with Johanna and Ingrid over a beer. It is rather noisy in the pub, populated at the moment by a gregarious crowd that doesn´t seem to fit the “boring” label I have heard foreigners apply to the Swedes over the past few days. So I ask my friends to tell me something about young people in Sweden today, their habits and their life style. Johanna tells me her older sister is a Lutheran pastor, a single mother who “made” her child under the auspices of a Danish sperm bank and with current plans to follow suit for a second one. Ingrid, who tells me she still dreams of a rather conventional married life, like the ones who parents built and enjoy, to date, also adds, “A husband! Yes, I would like one. But I can also easily make my life without one. In fact, my best friends are a bunch of guys, and I´m almost always hanging out them, só for them, maybe, I´m just... well, one of the boys!”
On the final evening of my stay in Uppsala, snow is falling lightly, covering the ground with a thin and gauzy sheet. It is almost warm outside, and better yet, I have the prospect of a toasty, cozy hotel room awaiting me. So, there is none of the discomfort of Curitiba at the end of a winter day in store for me tonight. I feel satisfied after several days of “communing with kindred spirits” and after a well- received talk on fellow women travelers - in this case the Brazilian women in Barcelona who have shared their life stories of searching for self, of border-crossings, introspection and sometimes, “muito jogo de cintura” (a particular kind of cleverness, roughly speaking). On the plane home the next day, I read stories from the book my son has given me for my recent birthday. There are many good ones among them, but one in particular (Conversa de Bar, by the gaucha Renata Wolff)catches my attention, reminding me of the session my students and I “back home” spent re-visiting Rosario* . Like Castellanos, Woolff, Plath and others I so admire, Wolff's story takes a humorous and ironic look at mythologizing - and often disabling- ways of writing women, and perhaps also, of being women: the scripts, the "contracts" we accept and their “fine print” - and bringing me back again to a one of the questions that so often, or from time to time, come backs to haunt me: if in our ocean and border crossing, if, amidst our changing circumstances and selves, there is something we must still, most urgently, most importantly, dislodge from within.
*(Castellanos, El eterno femenino)
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
"Corpos e crise"
Muito tempo ausente! Nem era minha intenção, mas gente do ceu, quanto trabalho tive nestes meses!!! Vou postar um pedaçinho de uma resenha que escrevi, que logo sairá publicado...
Bodies in Crisis: Culture, Violence and Women’s Resistance in Neo-liberal Argentina, by Barbara Sutton. Piscataway, NJ: Rutgers University Press, 2010. 256 pp. ISBN: 9780813547404 $25.95
The history of contemporary feminism the world over has been characterized by practical struggles and political debate which bring women’s bodies into focus. At the theoretical level, this has included the critique of a disembodied, universal enlightenment notion of the human being (“man”), portrayed as fully human insofar as “he” is revealed to be a subject of reason and fully in control over the “messier side” of existence (body, emotions, etc.) and perpetuating a dichotomy in which women are ultimately defined as Other: body, emotion and the danger of all that threatens to escape disciplinary control. This of course has been a contradictory cultural legacy, one in which women were (are) exhorted or expected to “be [just] the body”… yet certainly not a body of their [our] own; rather, a body to be constantly shaped and redefined according to the vicissitudes of the patriarchal imaginary, according to openly or surreptitiously imposed codes and languages of “what a woman is” – whether domestic servant, wife (and mother), piece of property, Playboy bunny, prostitute or “ human dictaphone”, as Gayle Rubin ironically commented in her pioneering text (1975). It also enables us to understand why a political-discursive focus on re-thinking and re-claiming our bodies became such an important focus of late 20th century feminism.
Argentine-born and raised, sociologist Barbara Sutton provides a unique account of the social and political conjuncture in her country at the beginning of the 21st century that is both a brilliant attempt to theorize women’s lives and struggles by bringing the body clearly “back” into the picture, and a rendering of a concrete story of oppression and resistance in which women come to life as embodied (and rational/reflective and emotional) subjects of history...
Bodies in Crisis: Culture, Violence and Women’s Resistance in Neo-liberal Argentina, by Barbara Sutton. Piscataway, NJ: Rutgers University Press, 2010. 256 pp. ISBN: 9780813547404 $25.95
The history of contemporary feminism the world over has been characterized by practical struggles and political debate which bring women’s bodies into focus. At the theoretical level, this has included the critique of a disembodied, universal enlightenment notion of the human being (“man”), portrayed as fully human insofar as “he” is revealed to be a subject of reason and fully in control over the “messier side” of existence (body, emotions, etc.) and perpetuating a dichotomy in which women are ultimately defined as Other: body, emotion and the danger of all that threatens to escape disciplinary control. This of course has been a contradictory cultural legacy, one in which women were (are) exhorted or expected to “be [just] the body”… yet certainly not a body of their [our] own; rather, a body to be constantly shaped and redefined according to the vicissitudes of the patriarchal imaginary, according to openly or surreptitiously imposed codes and languages of “what a woman is” – whether domestic servant, wife (and mother), piece of property, Playboy bunny, prostitute or “ human dictaphone”, as Gayle Rubin ironically commented in her pioneering text (1975). It also enables us to understand why a political-discursive focus on re-thinking and re-claiming our bodies became such an important focus of late 20th century feminism.
Argentine-born and raised, sociologist Barbara Sutton provides a unique account of the social and political conjuncture in her country at the beginning of the 21st century that is both a brilliant attempt to theorize women’s lives and struggles by bringing the body clearly “back” into the picture, and a rendering of a concrete story of oppression and resistance in which women come to life as embodied (and rational/reflective and emotional) subjects of history...
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
new one of mine...
Ties
He loves a devastated land
the warring tribes have stilled
but the uprooted fields, the children
with open hands and limp hair
cows gone to bone, still swaggering on their feet,
an utter impossibility to reconstruct –
it is not like the way his kinsmen repopulate,
not like the way age comes to green mountainsides
in the Pyrenees, where balding hikers set down to
an evening meal they have chosen to make meager, the dry wine,
the goat cheese, so carefully selected
perhaps a bit closer it is, to we who have chosen love
in its strangest formulae-
the broken-winged sparrows, our children’s freedom,
happiness or toil in the hardest tongues or feats.
He loves a devastated land
the warring tribes have stilled
but the uprooted fields, the children
with open hands and limp hair
cows gone to bone, still swaggering on their feet,
an utter impossibility to reconstruct –
it is not like the way his kinsmen repopulate,
not like the way age comes to green mountainsides
in the Pyrenees, where balding hikers set down to
an evening meal they have chosen to make meager, the dry wine,
the goat cheese, so carefully selected
perhaps a bit closer it is, to we who have chosen love
in its strangest formulae-
the broken-winged sparrows, our children’s freedom,
happiness or toil in the hardest tongues or feats.
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