Posto aqui um poema da minha amiga de muitos anos, Lizbeth Padilla, poeta de renome no seu país. Este aqui saiu no seu livro, "El dolor de los iluminados" (México, Instituto Mexiquense de Cultura, 2008):
LAS COSAS QUE MIRO
Las cosas que miro son cadenas que acaricio indolente
No sabria existir sin las piedras recogidas en los viajes
palos de lluvia que suenan durante el sueño
como tampoco sé mirar el mundo
sin que el silencio tense los cables
por donde aún se puede transitar
Todo grita la condición efímera del mundo
me aferro a velas apagadas
y sumerjo la voz en caracoles
como el instante se enrosca en su pequeñez
("bringing words together") poesia, crônica, fotografia, tradução//poetry, stories, photography, translation ///// /// ©miriamadelman2020 Unauthorized reproduction of material from this blog is expressly prohibited
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
sábado, 27 de agosto de 2011
FRAGMENTO TRADUZIDO
Então, vamos lá...
Primeiro trecho (trecho que abre o capítulo 7 pp. 101-102) traduzido do livro de memórias da escritora mais reconhecida da geração Beat, Diane di Prima. Entre mais eu leio dela, e de suas amigas e colegas (as "personagens menores" como foram ironicamente denominadas por uma delas, Joyce Johnson) mais lamento não ter conhecido sua obra antes ... e mais agradecida fico por ter tido o incentivo de começar a conhecê-las agora:
“Quando eu falo, como por vezes faço, com outras pessoas sobre minha vida,quando perguntam, ou tentam descobrir o que significou para mim, naqueles tempos, decidir ser poeta, e daí, na seqüência, pôr isso em prática, agir nesse sentido, muitas vezes me dizem, ‘Ah é, sem dinheiro, mas ganhou fama; a fama precoce deve ter sido uma recompensa’. E eu os olho com estranheza, me perguntando como eles imaginam esses primeiros apartamentos, esses quartos vazios, essas caixas servindo de mesa e cadeira, e finalmente, um neném deitado em algum canto. Fama, eu pergunto tentativamente, tive fama?
O que eu sei é que escolher ser artista: escritor, bailarino, pintor, músico, ator, fotógrafo, escultor, você o diga, escolher ser qualquer um deles nesse mundo em que eu cresci, o mundo dos anos 40 e começo dos anos 50, era fazer a escolha mais completa que havia nesses tempos, viver uma vida de renunciante. Uma vida de sadhu, de santo itinerante, fora do marco das leis dessa cultura particular e peculiar.
Era um mundo em que a religião em si era suspeita, e por bons motivos. 'Religião' como a gente a conhecia, se limitava à modalidade judaico-cristã – ‘Protestante, católico ou judeu?’ nos perguntavam, ao entrar no hospital ou numa escola. E era um mundo que era impossível de aceitar com a consciência tranqüila. Não era aquilo que os liberais dos anos 40 ou 50 gostariam que a gente acreditasse, aquilo que eles tinham sonhado – um mundo onde o progresso era um dado e a sociedade humana em si um valor. Nós artistas renunciantes fora-da-lei – os que seriam renunciantes – não encontravam nela nenhum valor. Nesse impulso de ascender e progredir na América de 1950, onde não existia nada alem do mundo de cada dia, a maneira mais clara de afastar-se do materialismo era direcionar-se às artes.
Ser uma paria, um outsider, era essa a vocação. Nem fama, nem publicação. Manter as mãos limpas, não pertencer. Ao manter-se do lado de fora, a gente sentia que as guerras, as massacres, os erros não eram nossos.
(Me lembro de um jovem imigrante, anarquista, Francisco, um espanhol que como muitas outras pessoas nesses anos após a Segunda Guerra Mundial foi encarcerado, por estar na América sem papéis. Depois o deportaram para a Espanha de Franco, onde em pouco tempo foi assassinado. Mas quando estava na prisão em ou perto de Nova Iorque, as autoridades descobriram que ele era padeiro. Tentaram pôr ele para trabalhar na cozinha. Francisco se recusou, fazendo greve de um homem só. ‘Não farei nada’ ele disse, no seu inglês com forte sotaque, ‘que apóie esta casa’. Era o que todos sentíamos – tornou-se nosso grito de mobilização. E o continuou sendo, muito tempo após a desaparecimento de Francisco.)
Primeiro trecho (trecho que abre o capítulo 7 pp. 101-102) traduzido do livro de memórias da escritora mais reconhecida da geração Beat, Diane di Prima. Entre mais eu leio dela, e de suas amigas e colegas (as "personagens menores" como foram ironicamente denominadas por uma delas, Joyce Johnson) mais lamento não ter conhecido sua obra antes ... e mais agradecida fico por ter tido o incentivo de começar a conhecê-las agora:
“Quando eu falo, como por vezes faço, com outras pessoas sobre minha vida,quando perguntam, ou tentam descobrir o que significou para mim, naqueles tempos, decidir ser poeta, e daí, na seqüência, pôr isso em prática, agir nesse sentido, muitas vezes me dizem, ‘Ah é, sem dinheiro, mas ganhou fama; a fama precoce deve ter sido uma recompensa’. E eu os olho com estranheza, me perguntando como eles imaginam esses primeiros apartamentos, esses quartos vazios, essas caixas servindo de mesa e cadeira, e finalmente, um neném deitado em algum canto. Fama, eu pergunto tentativamente, tive fama?
O que eu sei é que escolher ser artista: escritor, bailarino, pintor, músico, ator, fotógrafo, escultor, você o diga, escolher ser qualquer um deles nesse mundo em que eu cresci, o mundo dos anos 40 e começo dos anos 50, era fazer a escolha mais completa que havia nesses tempos, viver uma vida de renunciante. Uma vida de sadhu, de santo itinerante, fora do marco das leis dessa cultura particular e peculiar.
Era um mundo em que a religião em si era suspeita, e por bons motivos. 'Religião' como a gente a conhecia, se limitava à modalidade judaico-cristã – ‘Protestante, católico ou judeu?’ nos perguntavam, ao entrar no hospital ou numa escola. E era um mundo que era impossível de aceitar com a consciência tranqüila. Não era aquilo que os liberais dos anos 40 ou 50 gostariam que a gente acreditasse, aquilo que eles tinham sonhado – um mundo onde o progresso era um dado e a sociedade humana em si um valor. Nós artistas renunciantes fora-da-lei – os que seriam renunciantes – não encontravam nela nenhum valor. Nesse impulso de ascender e progredir na América de 1950, onde não existia nada alem do mundo de cada dia, a maneira mais clara de afastar-se do materialismo era direcionar-se às artes.
Ser uma paria, um outsider, era essa a vocação. Nem fama, nem publicação. Manter as mãos limpas, não pertencer. Ao manter-se do lado de fora, a gente sentia que as guerras, as massacres, os erros não eram nossos.
(Me lembro de um jovem imigrante, anarquista, Francisco, um espanhol que como muitas outras pessoas nesses anos após a Segunda Guerra Mundial foi encarcerado, por estar na América sem papéis. Depois o deportaram para a Espanha de Franco, onde em pouco tempo foi assassinado. Mas quando estava na prisão em ou perto de Nova Iorque, as autoridades descobriram que ele era padeiro. Tentaram pôr ele para trabalhar na cozinha. Francisco se recusou, fazendo greve de um homem só. ‘Não farei nada’ ele disse, no seu inglês com forte sotaque, ‘que apóie esta casa’. Era o que todos sentíamos – tornou-se nosso grito de mobilização. E o continuou sendo, muito tempo após a desaparecimento de Francisco.)
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
FRAGMENTS FROM DIANE DE PRIMA'S MEMOIR, “RECOLLECTIONS OF MY LIFE AS A WOMAN”
Logo traduzirei o trecho:
“When I talk, as I sometimes do, to others about my life, when they ask, or seek to discover what it meant to me to decide back then to be a poet and then as it were follow through, act on it, become ‘A Writer’, they often say, ‘Ah well, no money of course, but the fame, the early fame must have been a recompense’. And I look at them strangely, wondering what they see, how they imagine those early flats, bare rooms, crates for tables and chairs, and eventually a baby in some corner. Fame, I say tentatively, was there fame?
What I do know is that choosing to be an artist: writer, dancer, painter, musician, actor, photographer, sculptor, you name it, choosing to be any of those things in the world I grew up in, the world of the 40s and early 50s, was choosing as completely as possible for those times the life of the renunciant. Life of the wandering sadhu, itinerant saint, outside the confines of the laws of that particular and peculiar culture.
It was a world in which religion itself was suspect, and with good reason. ‘Religion’ as we knew it was limited to the Judeo-Christian mode- ‘Protestant, Catholic or Jew?’ we would be asked on entering a hospital or a school. And it was a world one could not embrace with good conscience. Not what the agnostic liberals of the 40s and 50s would have liked us to believe, what they had dreamed – a world where Progress was a given and human society somehow a good in itself. We outlaw artist renunciants – would-be-renunciants – saw no ‘good’ in it at all. In the striving, get ahead thrust of America 1950, where nothing existed beyond the worlds of the senses, the clearest way to turn from materialism was to turn to the arts.
To be an outcast, outsider was the calling. Not fame, or publication. Keeping one´s hands clean, not engaging. By staying on the outside we felt they weren’t our wars, our murders, our mistakes.
(I remember a young anarchist immigrant, Francisco from Spain, imprisoned as so many were in those years after World War II, for being in America with no papers. Later he was deported to Franco’s Spain, where he was quickly killed. While in prison in or near New York, the authorities, having found out that Francisco was a baker by trade, tried to set him to work in the kitchen. Francisco staged a one-man sit-down strike. ‘I will do nothing’ he said in his thickly-accented English, ‘to support this house’. It was what we all felt – it became a rallying cry. And remained so, long after Francisco was no more.)”
“When I talk, as I sometimes do, to others about my life, when they ask, or seek to discover what it meant to me to decide back then to be a poet and then as it were follow through, act on it, become ‘A Writer’, they often say, ‘Ah well, no money of course, but the fame, the early fame must have been a recompense’. And I look at them strangely, wondering what they see, how they imagine those early flats, bare rooms, crates for tables and chairs, and eventually a baby in some corner. Fame, I say tentatively, was there fame?
What I do know is that choosing to be an artist: writer, dancer, painter, musician, actor, photographer, sculptor, you name it, choosing to be any of those things in the world I grew up in, the world of the 40s and early 50s, was choosing as completely as possible for those times the life of the renunciant. Life of the wandering sadhu, itinerant saint, outside the confines of the laws of that particular and peculiar culture.
It was a world in which religion itself was suspect, and with good reason. ‘Religion’ as we knew it was limited to the Judeo-Christian mode- ‘Protestant, Catholic or Jew?’ we would be asked on entering a hospital or a school. And it was a world one could not embrace with good conscience. Not what the agnostic liberals of the 40s and 50s would have liked us to believe, what they had dreamed – a world where Progress was a given and human society somehow a good in itself. We outlaw artist renunciants – would-be-renunciants – saw no ‘good’ in it at all. In the striving, get ahead thrust of America 1950, where nothing existed beyond the worlds of the senses, the clearest way to turn from materialism was to turn to the arts.
To be an outcast, outsider was the calling. Not fame, or publication. Keeping one´s hands clean, not engaging. By staying on the outside we felt they weren’t our wars, our murders, our mistakes.
(I remember a young anarchist immigrant, Francisco from Spain, imprisoned as so many were in those years after World War II, for being in America with no papers. Later he was deported to Franco’s Spain, where he was quickly killed. While in prison in or near New York, the authorities, having found out that Francisco was a baker by trade, tried to set him to work in the kitchen. Francisco staged a one-man sit-down strike. ‘I will do nothing’ he said in his thickly-accented English, ‘to support this house’. It was what we all felt – it became a rallying cry. And remained so, long after Francisco was no more.)”
domingo, 26 de junho de 2011
Joyce Johnson, " Minor Characters" - mais um fragmento
(Mais um) FRAGMENTO do livro, “Personagens Menores” (Minor Characters ) de Joyce Johnson.
“No final dos anos 1950, mulheres jovens – poucas, no início – mais uma vez saiam de casa com uma certa violência. Elas também vinham de boas famílias, e seus pais nunca conseguiram entender como as filhas que eles tinham criado com tanta dedicação poderiam escolher uma vida precária. Se esperava de uma filha que ela ficasse sob o teto dos pais até casar, mesmo se trabalhasse um ano, mais ou menos, adquirindo assim um pouco de gosto pelo mundo - mas não muito! Experiência, aventura – estas coisas não eram para mulheres jovens. Todo mundo sabia que as aproximariam do sexo. Sexo era para os homens. Para as mulheres, sexo era tão perigoso quanto a roleta russa; uma gravidez indesejada ameaçava a vida em mais de um sentido. Quanto à arte – as jovens estilosas tinham um lugar como musas e admiradoras.
As que entre nós empreendiamos o vôo para fora não achávamos modelos utilizáveis para aquilo que faziamos. Não queríamos ser nossas mães ou professoras solteironas ou mulheres profissionais duronas como elas eram retratadas na tela. E ninguém tinha nos ensinado como ser escritoras ou artistas. Sabíamos um pouco sobre Virginia Woolf mas não a achávamos relevante. Os privilégios que ela tinha nos desencorajavam, nascida como era num meio literário, e de conexões e riqueza. O “teto todo seu” do qual ela escrevia pressuponha que seu habitante tivesse uma pequena renda familiar. Com nossos cursos superiores, a gente poderia datilografar até fazer uns $50 dólares por semana - apenas o suficiente para comer e pagar o aluguel para um pequeno apartamento em Greenwich Village ou North Beach, sobrando pouco para sapatos ou pagar a conta de luz. Nada sabíamos sobre a romancista Jean Rhys, quem numa época anterior tambem tinha fugido da respeitabilidade, boiando perigosamente na Boemia Parisiense da década de 1920. Talvez tivéssemos nos identificado com sua falta de confiança naquilo que escrevia ou tomássemos como uma alerta a passividade corrosiva das suas relações com os homens. Mesmo assim, nenhuma alerta teria nos parado, com toda essa fome que tínhamos de abraçar a vida e tudo que fazia parte da realidade. A própria dureza da vida era algo para saborear.
Naturalmente, nos apaixonávamos por homens que eram rebeldes. Caíamos muito rapidamente, acreditando que nos levariam junto nas suas viagens e aventuras. Não esperávamos ser rebeldes por conta própria; não contávamos com a solidão. Uma vez que encontrávamos nossos parceiros masculinos, uma fé cega nos impedia de desafiar as antigas regras do masculino e feminino. Éramos muito jovens e tínhamos dado um passo maior do que a perna. Mas sabíamos que tínhamos feito algo que exigia coragem, algo quase inédito. Éramos as que ousaram sair de casa."
Versão: Miriam Adelman
“No final dos anos 1950, mulheres jovens – poucas, no início – mais uma vez saiam de casa com uma certa violência. Elas também vinham de boas famílias, e seus pais nunca conseguiram entender como as filhas que eles tinham criado com tanta dedicação poderiam escolher uma vida precária. Se esperava de uma filha que ela ficasse sob o teto dos pais até casar, mesmo se trabalhasse um ano, mais ou menos, adquirindo assim um pouco de gosto pelo mundo - mas não muito! Experiência, aventura – estas coisas não eram para mulheres jovens. Todo mundo sabia que as aproximariam do sexo. Sexo era para os homens. Para as mulheres, sexo era tão perigoso quanto a roleta russa; uma gravidez indesejada ameaçava a vida em mais de um sentido. Quanto à arte – as jovens estilosas tinham um lugar como musas e admiradoras.
As que entre nós empreendiamos o vôo para fora não achávamos modelos utilizáveis para aquilo que faziamos. Não queríamos ser nossas mães ou professoras solteironas ou mulheres profissionais duronas como elas eram retratadas na tela. E ninguém tinha nos ensinado como ser escritoras ou artistas. Sabíamos um pouco sobre Virginia Woolf mas não a achávamos relevante. Os privilégios que ela tinha nos desencorajavam, nascida como era num meio literário, e de conexões e riqueza. O “teto todo seu” do qual ela escrevia pressuponha que seu habitante tivesse uma pequena renda familiar. Com nossos cursos superiores, a gente poderia datilografar até fazer uns $50 dólares por semana - apenas o suficiente para comer e pagar o aluguel para um pequeno apartamento em Greenwich Village ou North Beach, sobrando pouco para sapatos ou pagar a conta de luz. Nada sabíamos sobre a romancista Jean Rhys, quem numa época anterior tambem tinha fugido da respeitabilidade, boiando perigosamente na Boemia Parisiense da década de 1920. Talvez tivéssemos nos identificado com sua falta de confiança naquilo que escrevia ou tomássemos como uma alerta a passividade corrosiva das suas relações com os homens. Mesmo assim, nenhuma alerta teria nos parado, com toda essa fome que tínhamos de abraçar a vida e tudo que fazia parte da realidade. A própria dureza da vida era algo para saborear.
Naturalmente, nos apaixonávamos por homens que eram rebeldes. Caíamos muito rapidamente, acreditando que nos levariam junto nas suas viagens e aventuras. Não esperávamos ser rebeldes por conta própria; não contávamos com a solidão. Uma vez que encontrávamos nossos parceiros masculinos, uma fé cega nos impedia de desafiar as antigas regras do masculino e feminino. Éramos muito jovens e tínhamos dado um passo maior do que a perna. Mas sabíamos que tínhamos feito algo que exigia coragem, algo quase inédito. Éramos as que ousaram sair de casa."
Versão: Miriam Adelman
sábado, 25 de junho de 2011
Outro poema de Diane di Prima
Novos empreendimentos, novas traduções. Vai uma primeira versão
de mais um poema de Diane di Prima (disculpem, mas por algum motivo
não consigo manter o formato do poema ao passá-lo aqui para o blog):
THE LOBA ADDRESSES THE GODDESS/OR THE POET AS PRIESTESS ADDRESSES THE LOBA-GODDESS
A LOBA SE DIRIGE À DEUSA/OU A POETA COMO SACERDOTISA SE
DIRIGE À LOBA-DEUSA.
Não é a teu serviço que eu me desgasto
correndo em farrapos entre as colinas, levando as crianças
de carro para assistir filmes esquecidos? A teu serviço
vassoura e caneta. Os banquetes monstruosos
que servimos para os outros na varanda
(em casa temos só arroz e sal)
E vestimos nossa exaustão como um roupão pintado
Eu & minhas irmãs
curando umas às outras c/água e ervas amargas
de jeito que quando ficamos nuas, de pé no círculo da luz
(do lado do poço pequeno, na pequena mata próxima)
não revelamos nenhum defeito, também nenhuma
beleza supérflua.
Foi-se, nas medidas da noite.
Ô Semente, Ô manto de estrelas, tentamos te capturar
nossa pele dói do parto/escuridão da lua.
versão: Miriam Adelman
de mais um poema de Diane di Prima (disculpem, mas por algum motivo
não consigo manter o formato do poema ao passá-lo aqui para o blog):
THE LOBA ADDRESSES THE GODDESS/OR THE POET AS PRIESTESS ADDRESSES THE LOBA-GODDESS
A LOBA SE DIRIGE À DEUSA/OU A POETA COMO SACERDOTISA SE
DIRIGE À LOBA-DEUSA.
Não é a teu serviço que eu me desgasto
correndo em farrapos entre as colinas, levando as crianças
de carro para assistir filmes esquecidos? A teu serviço
vassoura e caneta. Os banquetes monstruosos
que servimos para os outros na varanda
(em casa temos só arroz e sal)
E vestimos nossa exaustão como um roupão pintado
Eu & minhas irmãs
resgatando a mercadoria de pais
avaros e moribundos
curando umas às outras c/água e ervas amargas
de jeito que quando ficamos nuas, de pé no círculo da luz
(do lado do poço pequeno, na pequena mata próxima)
não revelamos nenhum defeito, também nenhuma
beleza supérflua.
Foi-se, nas medidas da noite.
Ô Semente, Ô manto de estrelas, tentamos te capturar
esguio, de luto
esfarrapado, triunfante
desgrenhado como um gramado
nossa pele dói do parto/escuridão da lua.
versão: Miriam Adelman
domingo, 12 de junho de 2011
It Takes Two to Tango
Here´s a work in progress which is giving me a bit
of a hard time, since initially it was supposed to be
funny, and now seems to have ended up more on the melancholy or
reflexive side. ( I wish, though, that it had come out more
humorous, because I swear that would better
reflect my state of spirit on these matters, these days...)
It Takes Two to Tango
Avenida 18 de julio
y suave la entrada del invierno
en Montevideo
we take in the evening
you, chain smoking in the crisp air
me, unbuttoning the grey wool jacket,
the unexpected warmth of the season
and around us, the plaza, the couples
sliding so ever-so gently
to the long, sweet chords
such perfect synchrony
if only through the tender beats of
the evening, as long as the dance goes on.
Stubborn girl, crazy boy.
It could be that everyone finds their rhythm,
or their moment – to samba or salsa,
to dance the waltz or rock n’ roll
and i think if i could master the movements
i´d choose forró -
which like the tango must be danced
in pairs, but is quicker and makes you laugh
at the parting, or losing the beat
yet tonight in Montevideo
there is music floating around us
with a penchant for tragedy
and they tell us, this is a city
of the old, and a grandfather
pulls his granddaughter gently by the hand
and like me she cannot
master the beat and the steps
as time spills messily around us,
as if that were the formula - a life
unfolding always in pairs, a language
of complicity or duplicity,
in which i am only falsely fluent.
what grabs you more?
is it tragic or comic,
together, apart?
the dancing ends early here,
but there is still Malena, singing
into the night of this city of old.
my choice, perhaps, should be
the pampas,
solitary ride under moonlit dome
or moving with the throngs,
just one more in a galloping herd
where if i lose the rhythm,
fall out of synch, don´t
deliver the goods
no one will notice:
no cruel duels,
no emptied side of the
bed or the closet,
and we can just go on with our lives
under the stars
of this planet
of billions
of a hard time, since initially it was supposed to be
funny, and now seems to have ended up more on the melancholy or
reflexive side. ( I wish, though, that it had come out more
humorous, because I swear that would better
reflect my state of spirit on these matters, these days...)
It Takes Two to Tango
Avenida 18 de julio
y suave la entrada del invierno
en Montevideo
we take in the evening
you, chain smoking in the crisp air
me, unbuttoning the grey wool jacket,
the unexpected warmth of the season
and around us, the plaza, the couples
sliding so ever-so gently
to the long, sweet chords
such perfect synchrony
if only through the tender beats of
the evening, as long as the dance goes on.
Stubborn girl, crazy boy.
It could be that everyone finds their rhythm,
or their moment – to samba or salsa,
to dance the waltz or rock n’ roll
and i think if i could master the movements
i´d choose forró -
which like the tango must be danced
in pairs, but is quicker and makes you laugh
at the parting, or losing the beat
yet tonight in Montevideo
there is music floating around us
with a penchant for tragedy
and they tell us, this is a city
of the old, and a grandfather
pulls his granddaughter gently by the hand
and like me she cannot
master the beat and the steps
as time spills messily around us,
as if that were the formula - a life
unfolding always in pairs, a language
of complicity or duplicity,
in which i am only falsely fluent.
what grabs you more?
is it tragic or comic,
together, apart?
the dancing ends early here,
but there is still Malena, singing
into the night of this city of old.
my choice, perhaps, should be
the pampas,
solitary ride under moonlit dome
or moving with the throngs,
just one more in a galloping herd
where if i lose the rhythm,
fall out of synch, don´t
deliver the goods
no one will notice:
no cruel duels,
no emptied side of the
bed or the closet,
and we can just go on with our lives
under the stars
of this planet
of billions
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Um poema de Diane di Prima
Amiga dos "grandes nomes" da geração Beat e escritora de poesia e prosa,
a Diane di Prima merece ser mais conhecida por aqui também. Vai, pois,
a minha primeira e pequena contribuição nesse sentido:
Carta Revolucionária #1
(Revolutionary Letter #1)
Acabo de perceber que o que está em jogo sou eu
Não tenho outra moeda de resgate, nada para
quebrar ou trocar, a não ser minha vida
meu espírito parcelado, em fragmentos, esparramado sobre
a mesa de roulette, eu recupero o que posso
só isso para enfiar embaixo do nariz do maitre de jeu
só isso para jogar pela janela, nenhuma bandeira branca
só tenho minha pele para oferecer, para fazer minha jogada
com esta cabeça imediata, com aquilo que inventa, é a minha vez
enquanto deslizamos sobre o tabuleiro, e sempre pisando
(assim esperamos) nas entrelinhas
Diane di Prima
versão: Miriam Adelman
a Diane di Prima merece ser mais conhecida por aqui também. Vai, pois,
a minha primeira e pequena contribuição nesse sentido:
Carta Revolucionária #1
(Revolutionary Letter #1)
Acabo de perceber que o que está em jogo sou eu
Não tenho outra moeda de resgate, nada para
quebrar ou trocar, a não ser minha vida
meu espírito parcelado, em fragmentos, esparramado sobre
a mesa de roulette, eu recupero o que posso
só isso para enfiar embaixo do nariz do maitre de jeu
só isso para jogar pela janela, nenhuma bandeira branca
só tenho minha pele para oferecer, para fazer minha jogada
com esta cabeça imediata, com aquilo que inventa, é a minha vez
enquanto deslizamos sobre o tabuleiro, e sempre pisando
(assim esperamos) nas entrelinhas
Diane di Prima
versão: Miriam Adelman
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Dois poemas curtos do livro mais recente de Mosab Abu Toha
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