quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Mais uma tradução

Poema meu, de uns anos atrás (o original em inglês encontra-se neste blog, em postagem
antiga).

Dia das mães, 2011.

Minha égua e eu subimos
a última rua da favela
passando o coágulo de fumaça
onde uns garotos queimam lixo:
uma rasgada camiseta vermelha,
garrafas plásticas, pacotes de
leite. Seguimos o morro até o topo,
até os braços de roca onde a vista
deste pequeno canto do mundo
nos segura. De repente
não tem mais gente.
Sumiram também
os vira latas amarelos e
seus latidos curtos
e estamos só nos duas, eu e a
Madja, suas orelhinhas indo
para frente, para atrás
e para frente de novo,
num galope contido, pela trilha
de areia que contorna muralha de
pedra, pinheiros partidos até
a raiz

Descemos pelo bairro,
minha égua colocando
seus pequenos cascos
um por um, sobre o arenito
endurecido de uma terra
com sede. Ela me protege,
protege a cria que cresce
dentro dela, que virá
na próxima virada
da estação, junto com
os dias mais longos.
E aí vamos, de novo,
por onde os garotos
deixaram a pilha de restos
amassados, onde voltam
também os vira latas amarelos
e as senhoras, de braços cruzados
em baixo do sol amarelado
do inverno, deixaram os sacos
de lixo todos arrumadinhos,
uma fileira de verde escuro
que espera o caminhão.
Uma garota passa
com bebê nos braços.
Será seu? Ontem
assisti um filme sobre uma mãe
e o filho dela que virou fumaça,
a história seguindo seu curso
como nesses dias que nada
podemos fazer para pará-la.
Caminhos de pedra, trilhas de
areia que conduzem ao topo
ou ao pé do mundo: terra
baldia de ambos os lados, e nada
pode fazer-se com os meninos
uma vez que se perderam

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Traduzi hoje...

este poema meu  de uns anos atrás:

os macacos

os macacos tagarelas me deixam sem palavras.

pendurada aqui no silêncio de um galho sem folhas
eu os observo, sua dança ágil,
e como no seu regozijo vão balançando de ramo em ramo
o rabo tão útil quanto mão ou pé,
e como lhes sobe a raiva e logo em seguida a alegria, e
quão fácil é reconciliar-se com filhote, parceiro ou o
resto do bando irrequieto, quão fácil
compartilhar as frutas vermelhas
que passam de pata
     em pata

espero e observo da minha árvore distante,
uma plataforma improvisada que cede sob meus pés
no frio da madrugada.
o alaranjado sol africano sobe devagarinho
aqui, nesta ordem humana, onde
custa tanto aprender qualquer movimento
onde qualquer pulo é perigo.







quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Another short one!



Just as the dwarf cherry tree
cut and stunted to human dimensions
   still
needs its dosage
   of sun, wind and rain, we

 reach
      not only into
this night in the city
but
  into someplace
     that is buried,
balancing with bare feet
over rough edges, hot sand -
      risking  the  leap!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Perhaps

unexpected affection
at the end of springtime ?

  or perhaps just more of the same old tricks:
     hands, elbows, shoulders touching,
                  flight.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

It Takes Two to Tango (versão em português)

Escrito uns anos atrás, em inglês, com versão original aqui neste blog (2011), 
me motivei a fazer a tradução para poder compartilhá-lo com o grupo que se
reúne em Curitiba, na Livraria Poetria... e com quem mais o quiser ler:

It Takes Two to Tango

Avenida 18 de julio
y suave la entrada del invierno
en Montevideo
assumimos a noite
você com os cigarros um trás outro
infiltrando o ar noturno e fresco,
eu, desabotoando meu casaco de lã cinza
no calor inesperado da estação
e ao redor de nós, a praça, os casais

se deslizando tão suavemente
aos acordes largos, doces
uma perfeita sincronia
carregada no ritmo tenro da noite
enquanto a dança durar...

Teimosa garota, menino maluco.
Pode ser que cada um encontre seu ritmo
ou seu tempo – samba ou salsa,
valsa ou rock n' roll.
Creio que eu se pudesse dominar os movimentos
escolheria forró- que como
 o tango precisa dançar-se em duplas
porém é mais rápido e te faz dar risada
no hora que perder o passo ou quando o baile
terminar

mas esta noite em Montevideo
a música que flutua ao redor de nós
tem um gosto de tragédia
e nos dizem, esta é uma cidade
de velhos, e um avô
puxa sua pequena neta pela mão
muito suavemente
e ela (como eu) não consegue
dominar o ritmo, os passos
enquanto o tempo se derrama sobre nós
como se a fórmula fosse essa – a vida
se desdobrando sempre em pares, uma
linguagem de cumplicidade ou duplicidade
na qual eu sou apenas
falsamente
fluente


o que te pega mais?
o trágico ou o cômico,
juntos ou separados?
aqui a dança termina cedo
mas tem ainda a Malena, cantando
enquanto a noite adentrar nesta
cidade dos velhos.

Escolha minha talvez fossem
as pampas,
cavaleira solitária sob a cúpula da lua
ou em movimento com as multidões
ou apenas uma a mais
na manada galopante
onde se perder o ritmo
ou a sincronia, ou simplesmente
não entregar a mercadoria
ninguém vai perceber:
nenhum duelo cruel,
nenhum lado da cama
ou do guarda-roupa vazio
e podemos apenas continuar
nossas vidas, sob as estrelas
deste planeta de bilhões.


   - Miriam Adelman 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013


sábado, 16 de novembro de 2013

Second degree burn (work-in-progress)



Though it’s three in the morning, the nurse
In the burn ward is cheery, barely
scolds me  for waiting too long at home 
for the pain to subside, hours with
fingers submerged, messy layers of epidermis and blisters,
and heat going on and on. Lucky, she says,  steam doesn’t
burn like fire.  It climbs away quickly, merging
with its originary air, so fleeting that you
will soon forget, let go of misfortune, get on
      with things of day and life, step out boldy and barefoot again
onto the summer asphalt, stop wallowing
 in your misery.

-           Miriam Adelman



quinta-feira, 17 de outubro de 2013


sábado, 12 de outubro de 2013

Terra Adentro



Terra Adentro

Tinha chovido.
A terra roxa coberta por uma camada
de barro escorregadio, e em todas as direções,
o horizonte impossível.  Lado a lado,
o animal e o humano, um menino
que aninha  a irmazinha e uma mulher
que põe as mãos à tarefa:   a lenta reconstrução
da cidade onde tudo começou.
Parei já de procurar a primavera.
Dias mais estranhos da minha vida.

    -  Miriam Adelman



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Retomando os poemas de Denise Duhamel



BARBIE COMO MAFIOSA

                                     Para Dangerous Diane

Quando lhe repassam o saquinho de cocaína,
Barbie foge para seu beco preferido.
Ela tira sua cabeça e se preenche com o pó
Como se fosse tão inocente quanto um saleiro de curvas gostosas.
Os malandros deixam o tráfico de pequenas coisas para ela-
e enquanto ela desliza pelos aeroportos internacionais
ou os agitados cais dos portos, ninguém lá em cima
se enerva. Seja aninhada entre o receptor
e a base do telefone de um automóvel, ou guardadinha
na gaveta de uma cômoda com um pequeno gravador no
seu torso oco, Barbie ama o divertimento e o tesão da aventura.
Mas por ser uma boneca muito séria, ela também sabe dar o beijo
da morte se precisar.  Seus ousados lábios
se recusam a abrir, tornando-a a mais perfeita guardadora de segredos.
Nas conferências de imprensa, ela negará todas as afiliações.
Só estou brincando, dirá ela, ou
Vocês não conseguem provar nada.  Mal tenho cérebro.
Quando a Barbie fica assim tão na cara, por vezes
o poderoso chefão passa apertos. Sua mulher fica com ciúmes,
se perguntando porque a Barbie liga para o marido não-boneco de outra
de cabines telefônicas no meio da noite.
Os detalhes das senhas, dos sapatos de cimento e das propostas irrecusáveis,
todos precisam ser bem pensados. O chefão
vai acalmar sua esposa, argumentando que é só ela
que ele ama:  esta Barbie nem sequer é uma dama de verdade.
Não sei porque você se preocupa.
A esposa admite que se sente tola, mas ao voltar
para a cama fica de olho aberto. Os policiais
se sentem tolos também, prendendo brinquedos.
Por isso a Barbie anda por onde ela quiser tendo a audácia
de deixar seus óculos escuros em casa.   Ela freqüenta
clubes privados enfumaçados e senta à janela nas mesas
dos cafés de Little Italy.  Mas são as praias dos resorts
que ela mais gosta,  onde pode realmente espairecer
e ser ela mesma. Sua pequena caixa de isopor  segura o cantinho
da sua toalha de praia de marca. Ela observa seu namorado loiro
Malibu Ken, mexendo com seus pé-de-pato e óculos.
Ela o ama porque ele não sabe de nada –
mera peça acessória para seus crimes.

- Denise Duhamel.     
Do livro Kinky                                

-          Versão:  Miriam Adelman
-          Revisão: Keo Cavalcanti

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Changes...


 My intention was to stick strictly to texts, but now that I am starting to enjoy photography, and after hearing the Portuguese/Brazilian photographer Orlando Azevedo's reassuring words, "The art that is closest to photography is poetry", I wasn't able to resist... So, here goes!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Liberdade e desejo

    (dedico estas reflexões a minha 'irmazinha'  Nina)

O quê é a liberdade?  Grande tema, que desafia a filosofia, a sociologia e o senso comum.  Conquista da sociedade ou do sujeito, ilusão ou sine qua non do tipo de vida que queremos viver?  Se não pode ser absoluta, qual então suas formas de negociação, já que podemos tentar conhecer e viver nosso desejo, mas o desejo do outro  sempre nos escapará.

Quando eu era muito jovem demais para realmente entender o desejo e seus meandros, ouvia pessoas marxistas falar sobre liberdade como “consciência da necessidade”.  E colocá-la, desta maneira, num horizonte de possibilidades coletivas e históricas (e portanto também, institucionais) antes do que existenciais.  Posteriormente, sem saber exatamente de onde vinham, vim a conhecer as problematizações dos existencialistas, nas quais alcançar um estado “não alienado” vinculava-se  à possibilidade de transcender, individualmente,  os limites tensos  que a sociedade deposita na vida de cada um/a.

Depois, a partir dos meus primeiros encontros com a teoria e as práticas feministas, entendi que a liberdade se complicava muito quando falada ou procurada na voz, e na vida, de um sujeito feminino –pela censura,  mas principalmente pelo enquadramento social, porque ser mulher geralmente nos atrela ao desejo do outro de uma forma particular.  Passei as próximas décadas lidando com isso, tentando me decifrar a partir dessa tensão básica, tentando me fazer.


Mas fui uma jovem mulher livre, porque o desejo me empurrava sempre para novos caminhos e nunca deixei que a falta de compreensão ou as tentativas de me censurar ou controlar – que não por acaso, muitas vezes vinham dos mais próximos- me detivessem ou me desviassem, e eu assumia os riscos da vida e o ônus dos tropeços.  Os muitos tropeços, claro.  E principalmente, porque meu desejo maior sempre foi conhecer, entender, e me  unir a outras pessoas que também isso sentiam. Nada fácil, mas também, algo que eu podia fazer, pois estava, sempre, ou quase sempre, nas minhas próprias mãos.  E a partir dai, sempre quando um caminho se esgotava, alguma bússola interior, e alguma energia, tão estranhas quanto pulsantes, me empurravam de novo em direção a algum novo manancial. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ramadan (new one of mine)


Ok, this one came out in Portuguese.  I've now done the English version as well, but don't find it as convincing...



Ramadan

Não tinham como se entender.
O encontro veio por acaso,
Cada um  chegando do seu ponto cardinal
ao centro da praça,  onde os turistas desciam
dos charretes para fotografar  serpentes mansas,
    cegos e domadores de camelo.
Por filosofia entendiam mantras diferentes,
e à cada coisa a imagem que havia por trás
               ou por dentro
se pintava em tons distintos:
   “quarto”, “cortina” ou “ venha comigo”.
Foi apenas um momento que suspendeu os rumos:
cruzar juntos uma antiga ponte de pedra e
ouvir o mesmo som do rio balançando embaixo,
   esperar o sol
quente ceder ao momento da noite,
ao banquete e um lugar onde os corpos
virassem água.  Onde viria o desfile
dos cavalos de todas as cores, e um
vento do deserto ou
     melhor dito, uma brisa leve
com a qual seria possível
conviver.   A mesquita no alto não destoava:
era puro encanto,  como  uma diferença a mais,
algo talvez para diminuir a sua, embora
   decifrar-se em alguma noção comum
                   do humano
nunca fora suficiente.


Ramadan.

No mutual understanding was possible.
They had met by chance, each one
arriving from his or her own direction
toward the center of the plaza, just where the tourists
dismounted carriages to take their snapshots
of gentled serpents, blind men and camel trainers.
Philosophy had to each its meaning
and for each thing, the image that lay behind
or underneath it took on different tones,
like "room", "curtain" or "come with me".
It was hardly more than a suspended moment:
crossing an old stone  bridge and listening together
to the water swishing underneath
and waiting for the hot sun to yield to the night
for the banquet and the place where bodies
turn momentarily into water, and then
the parade of colorful horses, and a wind from
the desert, or better yet, the gentle breeze
that one can so easily live with.

Up on high, the call from
the mosque was pure delight,
like one more difference, one that might perhaps
shrink the abyss separating them, although
looking to some common notion of being human
would never be enough.


- both versions by Miriam Adelman
.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Wild Geese by Mary Oliver + versão



WILD GEESE by Mary Oliver.

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting-
over and over announcing your place
In the family of things. 


Gansos selvagens.

Não precisa ser bonzinho.
Nem andar cem milhas no
 deserto de joelho, pedindo penitência.
Você só precisa deixar que o animal macio
que habita seu corpo ame aquilo que ama.
Me conte do desespero, o seu, e eu lhe contarei
do meu.
Enquanto isso, o mundo gira.
Enquanto isso, o sol e as pedras claras da chuva
se movem através das paisagens,
sobre os prados e as árvores profundas,
as montanhas e os rios.
Enquanto isso, os gansos selvagens, voando
nas alturas do límpido ar azul
estão voltando para casa.
Quem seja que você for, quão grande sua solidão
o mundo está ali para sua imaginação,
lhe chamando como o fazem os gansos
selvagens, tão duro quanto
excitante-  anunciando, uma e outra
vez, o seu lugar na família das coisas.
Versão: Miriam Adelman

domingo, 28 de julho de 2013

Quando chegar a primavera

(Eu, tentando dialogar com Germaine Calderón... e até saiu em português!)



Quando chegar a primavera
não irei me surpreender
com o sol repentino
ou  tua mão fria
posando na minha nuca.
Nas estradas que um dia
amanheceram brancas
haverá apenas a esperança
    sutil
de um calor que dure mais um pouco
de cores pequenas que despontem
do jasmim ou dos juncos que crescerão
na terra molhada,
e eu terei mudado em alguma coisa
desde o lugar onde hibernei
com meus ursos mansos
no oco de uma árvore esculpida
pelas décadas, saboreando apenas
amoras doces e cenas da  vida,
e se por acaso houver alguma
    aprendizagem,
será apenas das mais simples, com
as patas no barro escuro e fresco,
sabendo das chuvas e dos caminhos
enganosamente infinitos.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Germaine Calderón, poeta mexicana.

Many years ago I found this poem, by Germaine Calderón, in a Mexico City newspaper.
Although I posted it here on my blog in 2009, it took me a long time to try to translate it into
English.  Let's see how this works!

Ya no soy un caballo
    Germaine Calderón

Hay signos
desesperanzas en duelo
algunos vagabundos
en crecimiento con la noche
con el olor del mundo
muchachos
como pájaros tímidos

Los montes marineros azules
nosotros silenciosos
buscando algún rellano
un pueblo más que este
insignificante en tres patas
una sombra del tamaño del agua
y un vino incesante
a la hora de la memoria
para caer tumbados en las lindes
donde se rie
com una extraña mueca
por nuestra desnudez obcena

Hoy he volteado
mi sueño como un guante
yo mismo
me he puesto a secar por el reverso
y el corazón se extraña
de su doblez
de su flanco
de su tamaño inminente
y yo me extraño
de ser tan parecido
a un hombre
Siempre pensé que era un caballo
las gentes me llamaban por mi nombre
y yo acudia
con un instinto manso

Amaba la corteza llovida
el grano tierno como dádiva
y creia
en los músculos simples
en la rapidez del aire
en la oración impaciente
desbocada

Entonces
los árboles
semejaban guerreros
lo verde venia de las raíces
y las raíces no tenian
un lugar fijo

En esas largas caminatas
se estrenaban los dias
y no habia outro lenguaje que vivir
de uma manera recia
desde el origen
casi brutalmente

Sabia que estar
era doblegarse
por disciplina
no por hambre
que era el tiempo de los mitos
de los encantadores
con sus flautas

La medida era el fuego
el bienestar residia
en ser
de pronto
de la crin a los nervios
rebelde
y sin embargo,
el ojo siempre
agrandado
por la mansedumbre

Pero hoy me descubro
tan igualmente a todos
limitado en ideas
en trabajo
y tan sólo
y tan sólo mirando




Now that  I am no longer a horse.


There are signs
 duels of despair
hobos who wander
and grow with the night
with the aromas of the world,
boys like birds
in their shyness

The mountains,  blue´clad sailors
and we here silent,
seeking some flatland
some little town that is more
than this one,
insignificant on its three legs
a shadow in the measure of water
and wine, incessant
at memory's hour
where we collapse on the hillsides
where there is laughter,
like a strange grimace
in the face of our obscene
exposure.

Today I have turned my
dreams inside out like a glove,
I have turned myself out to dry
my heart puzzled
by its seams
and its flanks
by its imminent size
and I am puzzled
to find myself looking
   so much
like a human.

I always thought I was a horse
people called me by my name
and I came
 by gentle instinct

I loved the damp bark
grains as tender as a gift
and I believed
in simple muscles
in the swiftness of air
in impatient, runaway
prayer

In those days
trees were like
warriors
and greenness shot up
from the roots
and roots were fixed
nowhere

On those long strolls
  a debut of days 
and there was no other language
    for living
except in a way that was hard
almost brutal
from the start

I knew that to be
was to give in -
to discipline
and not in hunger
that these were the days of tales
of charmers and their flutes

Measures were welded in fire
and well being meant being
suddenly
from mane to nerves,
a rebel
but always with the wide
rounded eyes of the docile

Today however
I discover myself
 so much the same
as all others,so
  bounded in ideas
    in labor
and watching, 
merely watching.


  English version:

Miriam Adelman

"First Day of the Future"

(from his book, THE PAST, 1985)

First Day of the Future
Galway Kinnell

They always seem to come up
on the future, these cold, earthly dawns;
the whiteness and the blackness
make the flesh shiver as if it's starting to break.
But that is always just an illusion,
always it is just another day they illuminate
of the permanent present. Except for today.
A motorboat sets out across the bay,
a transfiguring spirit, all its little puffy gasps
of disintegration collected
and anthemed out in a pure purr of dominion.
It disappears. In the stillness again
the shore lights remember the dimensions of the black water.
I don't know about this new life.
Even though I burned the ashes of its flag again and again
and set fire to the ticket that might have conscripted me into its
ranks forever,
even though I squandered all my talents composing its emigration
papers,
I think I want to go back now and live in the present time,
back there
where someone milks a cow and jets of intensest nourishment go
squawking into a pail,
where someone is hammering, a bit of steel at the end of a stick
hitting a bit of steel, in the archaic stillness of an afternoon,
or somebody else saws a board, back and forth, like hard labor
in the lungs of one who refuses to come to the very end.
But I guess I'm here. So I must take care. For here
one has to keep facing the right way, or one sees one dies, and
one dies.
I'm not sure I'm going to like it living here in the future.
I don't think I can keep on doing it indefinitely.

O primeiro dia do futuro.


Parecem sempre irromper
no futuro, estas alvoradas frias e terrenas;
a clareza e a escuridão fazem
a pele se arrepiar como se começasse a rasgar.
Mas é sempre uma ilusão,
sempre apenas mais um dia que iluminam
no presente permanente. Hoje é exceção.
Uma lancha inicia sua travessia da bahia,
um espírito que transfigura, seus pequenos sopros
ofegantes de desintegração recolhidos e cantados
num  ronronar de poderio puro.
Ela desaparece. De novo na quietude as luzes
dos cais se lembram das dimensões das águas turvas.
Nada entendo desta vida nova.
Mesmo que eu tenha queimado as cinzas da sua bandeira uma e outra vez
e incinerado o bilhete que talvez tivesse me recrutado para suas tropas
para sempre,
mesmo que eu tenha desperdiçado todos meus talentos compondo meus
documentos de emigração
acho que prefiro voltar agora e viver no tempo presente,
alí
onde alguém tira leite de uma vaca e jatos do mais intenso alimento
vão grasnando para dentro de um balde,
onde alguém vai martelando, um pedaço de aço na ponta de uma vara
batendo um pedaço de aço, na quietude arcaica de uma tarde,
ou outra pessoa serra uma tábua, para frente e para trás como o penoso
trabalho nos pulmões de alguém que se recusa a chegar ao fim.
Mas suponho que estou aqui. Pelo devo que me cuidar. Porque aqui
você precisa olhar em direção certa, porque se não, você vê que você morre,
e você morre.
Acho que não vou gostar de viver aqui no futuro.
Penso que não seria capaz de fazê-lo
sem prazo determinado.


Versão: Miriam Adelman

domingo, 30 de junho de 2013

To the Harbor Master - Frank O'Hara






To the Harbormaster.

I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or am I hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.

- Frank O'Hara

Ao Mestre do Porto.

Queria ter a certeza de chegar até você;
mas meu navio estava no caminho quando enroscou-se
em algum ancoradouro. Sempre que o amarro
logo decido partir. Nas tempestades
e ao pôr do sol, com os espirais metálicos da maré
segurando meus braços incomensuráveis, não consigo
entender as formas da minha vaidade,
ou estarei de sotavento com o leme polonês
na minha mão e o sol se afundando no horizonte. Para
você ofereço meu casco e o cordame rasgado
do meu testamento. Os terríveis canais onde
o vento me joga contra os lábios escuros
dos juncos não estão todos no meu passado. Mas
eu confio na sanidade do meu barco: e se afundar,
pode bem ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impedem  de te alcançar.

Versão:  Miriam Adelman

domingo, 23 de junho de 2013

The Heart - Frank O'Hara

Here's another one by Frank O'Hara, a poet associated with
the Beat generation:




My Heart – Frank O'Hara


I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don´t prefer one “strain” to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper but also the big
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says, “That's
not like Frank!”, all to the good! I
don't wear brown and gray suits all the time,
do I? No, I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart -
you can't plan on the heart, but

the better part of it, my poetry, is open.


Não vou chorar o tempo todo
nem vou rir o tempo todo,
eu não prefiro uma “vertente” à outra.
Eu escolheria o tom imediato de um filme ruim,
não só desses comuns senão dos grandes
de muita produção e muito público. Quero ser
tão vivo quanto o vulgo. E se algum
aficionado às minhas encrencas disser, “Mas isso
não parece o nosso Frank!”, está tudo bem! Eu
não uso ternos marrons ou cinzas o tempo todo,
não é? Não, vou para a ópera com camisa de
trabalhador, com frequência. Eu quero é
meus pés descalços, meu rosto sem barba
e meu coração - você não faz planos para
o coração, mas a melhor parte do meu,

minha poesia, está aberta.  

sábado, 22 de junho de 2013

O Enchente/The Flood - Louise Erdrich

O Enchente

Eu tinha doze anos aquela vez que dormi na terra.
O quarto perfeito de madeira estéril,
era o melhor lugar, o porão.
No ritmo dos aparelhos domésticos
uma criança dorme como se não tivesse nascido.
A máquina de lavar rimbombava ao longo da noite
como um emotivo coração, a geladeira batia,
resgatava os ossos e discutia,
o radiador um pulmão que ardia,
mas eu estava segura, entre os tubos
do encanamento


Em cima, quando tudo tinha ruido,
Escutei meus pais rearranjando os estragos do dia
até formar uma cama.
Ouvia minhas irmãs cavando com suas patas,
se enfiando sob as tabuas.
Dai começou a nevar, implodindo o céu,
ao redor de nós numa formação vazia.

Na primavera aconteceu, como deveria ser.
A chuva violenta irrompendo por trás dos muros
me empurrou para fora do alçapão
navegando numa banheira azul redonda.
Num telefone feito de latas e corda
meus irmãos me chamaram.
Alfa! Na escuta?... Mais eu já tinha ido.
O rio martelava e borbulhava entrando pelos ralos,
a corda rompeu, suas vozes ferozes como a dança dos
pernilongos na cabeça de um alfinete, nublando as ruínas
que eu deixava atrás, o enchente me apressando sobre
sua larga superfície, rasgando minha camisola, minha
manta de ferrões

Deixei atrás de mim uma espuma branca, a rede
se arrastando em baixo da água até os pés dos irmãos e irmãs.
Agora eu temo por eles, pisando
nas aberturas e sendo sugados
na corrente da minha sorte. Entenda:
é como se eu pudesse escapar só ao abandonar tudo.
Não pensei naquilo que ficava atrás,
entrançado entre grossas raízes, as paredes de terra
sob ameaça, os fios se desprendendo dos postes
deslizando-se, vivos e perigosos, para dentro d'água.

- Louise Erdrich


Versão: Miriam Adelman

quarta-feira, 19 de junho de 2013

The Man Who Loved Horses (new one of mine)


He was mostly gentle, mostly kind
calling to the horses as no other could,
The bay's ears twitching, rising, the cranky dun
lifting its head and the dapple gray coming to
greet him at a gallop, muzzle lined with
a thin green lather. He would ride out
with the first changing sky of the morning,
following clouds of dust into the grasslands,
relentless in his search for the grizzlies,
Gray Wolf, or a few stray cattle.
I lived there on the other side of the mountain,
brewing my potions of corn and cactus by day,
riding my sorrel mare to the crest of red rock
before evening, hoping to be spotted. His eyes
though were always fixed on the hills,
through the snows and the season of rushes, and
when the hawk returned slowly over the valley
scanning in singular precision.
In the beginning my voice was strong.
I would sing for him, and again the horses
would prick their ears, shake tangled manes,
nicker. He never heard me. He heard the horses
calling to him, and pounding hoofbeats, and a
long slow whistle that could be coming
from anywhere.

The Flood - Louise Erdrich


I was twelve the year I slept in the earth,
in a perfect room lined with scentless wood.
It was the best place, the basement.
In the rhythm of appliances,
a child sleeps as though she wasn't born.
The washer boomed into the night
like an emotional heart, the refrigerator knocked,
dragged out the bones and argued.
The furnace was a fiery lung, but I was safe,
surrounded by plumbing.

Over me, when everything had fallen into ruin,
I heard my parents rearrange the day's wreckage
into the shape of a bed.
I heard my sisters dig forward with their paws
and wedge themselves under its boards.
And then the snow came down, collapsing the sky
around us in a blank formation.

In the spring it happened, as it was meant to.
The violent rain surged through the walls,
forced me out the cellar hatch in a round blue tub.
The calls of my brothers came over the string-can telephone.
Come in! Do you read me? But I was gone.
The river hammered and bubbled through the drains,
the line snapped, their voices grew fierce as mosquitoes
dancing on the head of a pin, clouding the wreckage
I passed, as the flood rushed me over its wide surface,
shredding my nightgown, my shawl of stingers.

I left a white foam in my wake, a net
drifting underwater for the feet of my sisters and brothers.
And now I fear for them
stepping in the holes of it and pulled underneath
the current of my luck. Understand:
it was as if I could escape only by abandoning everything.
I didn't think of all that's left in the aftermath,
twisted in the slogged roots, the earth walls undermined, the wires
slipping from the poles, alive and dangerous, into the water.


 - Louise Erdrich

sábado, 15 de junho de 2013

Primeira versão...


The Visit/ A Visita

    Para Eileen Cowin.
Não era amor. Nem flores nem figos
maduros nas suas mãos, nem palavras
na sua boca. Não havia corpo
para obstruir um do outro.
O sol era branco e quente, marca de ferro
que me atravessou sem deixar resquício.
Mas eu sabia. E Joseph,
Joseph o coitado com suas palmas calejadas
portando seus chifres de alce.
O que ele podia fazer
a não ser lavar para que o cheiro de
chamuscado saísse dos lenções?
O que ele podia fazer
a não ser encaixar as lâminas de madeira
para que formassem um berço?

A chuva caia e as folhas fechavam
sobre nós como um escudo.
Uma pequena luz se formou e a ponta
que a mantinha no alto
mergulhou-se muitas vezes no meu sangue.
Agora o ser descansa na tigela do meu
quadril. Não tem volta.  As unhas
já se formaram. A árvore engrossa.

Louise Erdrich

versão:  Miriam Adelman

The Visit - Louise Erdrich

Este poema é de Louise Erdrich,  mais conhecida por seus (muitos) romances publicados,
contadora de estórias sobre a vida de um povo indígena do norte dos EUA (o primeiro e muito
famoso Love Medicine, por exemplo.)

Do livro Baptism of Desire (Harper, 1989) aguardem minha versão...

The Visit

    For Eileen Cowin.

It was not love. No flowers or ripened figs
were in his hands, no words
in his mouth. There was no body
to obstruct us from each other.
The sun was white-hot, a brand
that sank through me and left no mark.
Yet I knew.  And Joseph,
poor Joseph with his thick palms,
wearing antlers.
What could he do but wash
 the scorched smell from the linen?
What could he do but fit the blades
of wood together into a cradle?

The rain fell and the leaves closed
 over us like a shield.
A small light formed and the taper
that held it aloft
was dipped many times in my blood.
Now the being rests in the bowl of my hips.
There is no turning. Already
the nails are forged.
The tree thickens.